segunda-feira, 16 de setembro de 2013

AS NASCENTES REPÚBLICAS LATINO-AMERICANAS

Os movimentos de independência na América espanhola resultaram na fragmentação dos antigos vice-reinados e na formação de diversas repúblicas. Fracassaram todas as tentativas de união, ainda que parciais, a exemplo do pan-americanismo idealizado por Simon Bolívar. A tarefa com que se deparavam as elites dirigentes das jovens repúblicas não era fácil. Era preciso honrar o ideário liberal que motivara as emancipações e remover muitas das heranças coloniais. Mas elites dominantes eram ancoradas por várias das antigas estruturas, como o regime latifundiário e o trabalho compulsório imposto aos índios e mestiços. Dos movimentos de independência surgiram elites heterogêneas. Em certos casos, predominavam grupos conservadores, que pretendiam manter os antigos privilégios; em outros, políticos de orientação liberal, que propunham reformas. Em alguns casos, essas desavenças levaram a guerras civis. A vida política dos países latino-americanos durante o século XIX foi marcada pela instabilidade, pela submissão das massas e pelo predomínio das oligarquias rurais. Diante da ausência do poder político institucionalizado após os movimentos de independência, surgiram os caudilhos, chefes locais que à frente de exércitos regionais foram responsáveis por uma tradição militarista que se ligava aos interesses dos latifundiários e do capital estrangeiro. O caudilho era um chefe regional de origem militar, dotado de grande carisma e que tinha uma postura patriarcal e autoritária. Muitas vezes sem um programa politico definido, conseguia arregimentar milhares de adeptos, derrubava o governo estabelecido e nele se instalava.
            Dessa forma, no final da década de 1820, em todos os países independentes da América Latina, prevaleciam duas ideologias políticas: a dos conservadores e dos liberais. Entre eles, existia um objetivo em comum: manter as hierarquias sociais, o que significava conservar o poder politico da elite criolla, sobre os camponeses e trabalhadores indígenas, mestiços e negros; e o caudilhismo garantiu esta ideia. A diferença entre conservadores e liberais estava basicamente estava na estrutura estatal. Os conservadores defendia a ideia de uma Igreja e de um Exército forte, mantendo as isenções fiscais desfrutadas pelos eclesiásticos, além da obrigatoriedade do ensino religioso como meio fundamental para formar o cidadão. Acreditavam que uma Igreja enfraquecida traria desordem à sociedade. Já, os liberais, sob influencia iluminista e da Revolução Francesa, tinham por objetivo a laicização do Estado – separar o Estado da Igreja – e a defesa do ensino laico. Defendiam um sistema federativo descentralizado.
            Os novos países também se empenharam na elaboração de suas Constituições, importante etapa para a organização do Estado. Em todas as Constituições pode ser verificar os princípios do liberalismo, diante da preocupação com a liberdade, a igualdade e a separação dos poderes. As Constituições falam também de república e de federalismo, seguindo o modelo da Constituição dos EUA. Porém, o federalismo transportado para a realidade da América Latina irá se revelar ineficiente, diante da falta de tradição dos governos locais. Ao federalismo (descentralização politica; liberdade às partes) se opunha o unitarismo (centralização).
            No campo econômico, os novos países continuaram a praticar a mesma politica de quando eram colônias, ou seja, a de agroexportadores, o que favorecias as elites latifundiárias. As tentativas de industrialização durante o século XIX vão esbarrar diante da falta de tarifas protecionistas e do domínio exercido pelos latifundiários na área governamental. Além disso, os interesses dos comerciantes estavam associados ao da burguesia estrangeira. Importante salientar que, no final do século XIX, começa a ocorrer na América Latina à penetração do capital estadunidense nas áreas até então controlada pelos ingleses. Fato este que está diretamente relacionado ao imperialismo estadunidense.
            No México os conservadores dominaram a politica na primeira metade do século XIX, com o apoio do Exército. Seu líder, o general Antônio López de Santa Anna, dominou o país até 1855, quando foi derrubado. Seu governo se tornou impopular, principalmente depois da perda do Texas  e, na guerra que se seguiu, contra os EUA, onde cerca de metade do território mexicano foi tomado. Os liberais assumiram então, procurando fazer uma ampla reforma agrária, repartindo as terras da Igreja e das comunidades indígenas, o que provocou a Guerra Civil (1858-1861). Após a morte do liberal Benito Juarez, seu sucessor foi deposto por um golpe que levou Profírio Diaz ao poder. O porfiriato (1875-1910), como ficou conhecido seu governo foi um período de estabilização econômica e de abertura do México ao capital dos EUA que favorecia a oligarquia mexicana e detrimento da população; o que elevou os problemas sociais do país que acabariam por levar a Revolução Mexicana de 1910.
            Na América Central, a tentativa de criar a Confederação Centro-Americana fracassou, ocasionando o surgimento de seis países. Na Guatemala, Rafael Carrera assumiu o poder em 1839. Seu governo era ditatorial, mas contava com o apoio principalmente, do clero e dos grandes comerciantes. Em El Salvador, a produção de café, garantiu a predominância dos conservadores durante a primeira metade do século XIX , assim como na Costa Rica. Em Honduras, isso foi conseguido, graças às poucas minas de prata que ainda não haviam se esgotado. Já a Nicarágua, além de fornecer gado para os países vizinhos, esteve no centro das atenções porque pretendia construir em seu território um canal para ligar o oceano Atlântico ao Pacífico. Por causa disso, o país sofreu intervenções da Inglaterra e dos EUA. A partir da década de 1870, uma onda liberal sacudiu a América Central. Os liberais eram, naquele momento, mais pragmáticos e objetivavam desenvolver as economias voltadas para a exportação. Na região do Caribe, o Haiti viveu um grande período de crises, que se estenderam até o inicio do século XX. Os espanhóis haviam conseguido retomar o controle da parte oriental da ilha (São Domingos), enquanto os conflitos internos levavam a implantação de uma monarquia no norte e de uma república no sul, problema finalmente solucionado em1820 com a reunificação. Em seguida a parte oriental foi reconquistada, mas novamente perdida em 1843, quando se criou a República Dominicana, que, em 1861, optou por voltar a ser colônia da Espanha. Como os espanhóis não conseguiram defender o território, a independência foi novamente proclamada em 1865. Em Porto Rico ocorreram revoltas contra a Espanha em 1822,1826,1843 e 1848, mas todas dominadas. Em 1868, a independência foi proclamada, mas os espanhóis conseguiram sufocar o movimento. Em 1898, após a guerra entre EUA e Espanha, Porto Rico passou a ser propriedade estadunidense. Cuba só conseguiu sua independência em 1898 e, como já vimos passou para a influencia dos EUA.
            O Vice-Reino de Nova Granada deu origem a dois países: Colômbia e Equador. Simon Bolívar tentou unificar os dois com a Venezuela para formar um só país: a Grã Colômbia, sem sucesso. Na Colômbia, as primeiras décadas do século XIX foram marcadas pela existência de governos conservadores. Sem maiores problemas econômicos, teve uma existência relativamente estável, só perturbada a partir de 1848, quando sob influencia das revoluções europeias, os liberais conseguiram chegar ao poder iniciando uma ampla série de reformas. A escravidão foi abolida, adotaram a liberdade religiosa e, principalmente, implementaram o livre comércio. Essas medidas levaram aos conflitos com os conservadores para a radicalização, que progressivamente, fez a autoridade central concentrar mais poder. A lavoura cafeeira era a principal riqueza do país. O Equador separou-se da Grã-Colômbia em 1830 e a sua população presenciou a disputa entre conservadores e liberais até o fim do século. Os conservadores representavam os grandes proprietários do interior que utilizavam a mão-de-obra indígena e a dominavam completamente, enquanto os liberais tinham suas bases nos comerciantes e os proprietários da faixa litorânea. De 1861 a 1895 os conservadores permaneceram no poder.  Os liberais sob a chefia de Eloy Alfaro, conseguiram derrubá-los do poder. Prometendo resolver a questão da terra, Alfaro determinou a estatização das propriedades da Igreja, mas não as distribuiu entre os indígenas, o que fez com que o problema continuasse.
            O Vice-Reino do Peru após a independência deu origem ao Peru. Ali também o embate entre conservadores e liberais esteve presente desde os primeiros momentos da emancipação. Em 1836, Peru e Bolívia se uniram sob a liderança do conservador boliviano Andrés Santa Cruz. Nove anos depois essa união se desfazia, quando o marechal Ramón Castilla assumiu o poder no Peru, dotando-o de uma Constituição e abolindo a escravidão. Tendo no guano seu principal produto de exportação, a economia peruana se estabilizou. Contudo, apesar da riqueza proporcionado pela guano, os problemas sociais persistiram, principalmente os relacionados com a população indígena, que se revoltou várias vezes durante o século XIX, causando muita instabilidade política no país. Na década de 1870, o salitre tornou-se alvo de maior interesse econômico. Sua localização era o sul, na fronteira com o Chile a Bolívia. Interesses conflitantes levaram à Guerra do Pacífico. Peru e Bolívia lutaram contra o Chile, que passou a controlar as regiões de Arica, Antofagasta e Tarapacá. O Chile tornou-se o país da América do Sul que teve mais estabilidade pós-independência. Os liberais que logo assumiram o poder tentaram estabelecer o federalismo, mas não tiveram sucesso e os conservadores assumiram, estabelecendo a Constituição em 1833, com um governo de caráter autoritário e amparado por um exército profissional. Somente na segunda metade do século XIX a economia chilena experimentou uma modernização. Com as finanças saneadas, o governo de Manuel Montt incentivou a construção de ferrovias, criou o Banco Nacional e liberalizou a legislação. Essas atitudes provocaram conflitos com os conservadores. Em 1879, o Chile venceu a Guerra do Pacífico contra o Peru e a Bolívia, pela disputa das áreas de salitre ampliando o seu território.

            O Vice-Reino do Rio da Prata fragmentou-se em quatro países: Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. A Bolívia como se viu tentou se unir ao Peru, mas não teve sucesso. No final do século aliou-se ao Peru contra o Chile na Guerra do Pacífico, onde foi derrotada e perdeu importantes regiões, inclusive a sua saída para o mar. O Paraguai teve governos autoritários desde a sua independência. O primeiro caudilho a governar foi Jose Gaspar Rodriguez de Francia que ficou no poder até 1840. Foi ele que eliminou as oposições internas e praticamente fechou o país, tentando desenvolver-se autonomamente. As políticas expansionistas de seus sucessores, principalmente de Solano López, que modernizou seu exército levou o país a uma guerra contra Brasil, Argentina e Uruguai, a chamada Guerra do Paraguai. Esta guerra, ocorrida na década de 1860 liquidou com os recursos humanos e econômicos do país. O Uruguai foi ocupado por D. João VI quando estava no Brasil, tornando-se mais tarde Província Cisplatina, pertencente ao Império do Brasil. Em 1828, depois de vencida a Guerra da Cisplatina contra o império brasileiro a região tornou-se independente. Desde o inicio a vida política do Uruguai oscilou entre os partidos Blanco, bastante ligado ao caudilho argentino Juan Manuel Rosas, e de caráter conservador, e o Colorado de caráter liberal e bastante associado ao governo imperial brasileiro. Os embates entre os dois partidos provocaram conflitos diversos, inclusive com intervenções armadas das tropas brasileiras nas décadas de 1850 e 1860, a última das quais se desdobrou na Guerra d Paraguai. Ao final da guerra, os conflitos internos provocados pela apropriação das terras por especuladores levaram a instalação de uma ditadura militar. O general Lorenzo Latorre completou a demarcação das grandes propriedades, criou a educação elementar estatizada e incentivou a exportação de lá e peles. Na Argentina independente a grande dificuldade foi à unidade territorial. Isso porque quando ocorreu à independência, o território argentino se dividia em várias províncias e, praticamente todas elas se opunham a Buenos Aires, que liderava o processo de emancipação. Oposição se devia ao fato de que as ligações dos comerciantes de Buenos Aires com os ingleses arruinarem a produção artesanal do interior. Juan Manuel de Rosas assumiu o poder em 1829 e tentou barrar o predomínio econômico dos ingleses. A marinha inglesa cercou o porto, tentando derruba-lo, mas foi derrotada. Em 1833, os ingleses ocuparam as ilhas das Malvinas. Após a guerra contra o Brasil em 1852, Rosas foi derrotado e deposto. Os governos liberais se seguiram, notadamente o de Bartolomé Mitre (1862-1868), conseguiram finalmente a unidade do território e ampliaram o comércio com a Inglaterra. A exportação de carne e de cereais garantia prosperidade e pagava as importações de manufaturados europeus. Foi também Mitre que se aliou ao Brasil e ao Uruguai contra o Paraguai. Ao final da guerra, os investimentos ingleses garantiram a abertura de ferrovias e o melhoramento dos portos. Houve um grande fluxo de imigrantes europeus e o extermínio das populações indígenas da Patagônia e do Chaco. (Adaptado de FARIA, Ricardo Moura de. Estudos de História 2, p.206-213 e; FARIA, Ricardo de Moura. História 3, p.208-210).

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