sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A REPÚBLICA SE URBANIZA

Os Operários
                No início do século XX, as oportunidades de emprego cresceram nas cidades brasileiras. Isso ocorreu devido ao aumento do número de indústrias, que precisavam contratar cada vez mais operários. Além disso, com as reformas urbanas e a modernização de muitas cidades, muitos trabalhadores foram contratados para trabalhar em obras públicas e na construção civil. Como o Brasil não tinha mão-de-obra disponível, essas novas oportunidades levaram a um grande número de imigrantes a se estabelecer nas cidades. Nas indústrias os imigrantes eram a grande maioria entre os operários. Devido à inexistência de legislação trabalhista, eles trabalhavam de 10 a 14 horas por dia, geralmente em locais insalubres. Grande parte do operariado era formado por mulheres e crianças, que ganhavam um salário inferior ao dos homens. Além da indústria, muitos imigrantes passaram também a trabalhar no comércio como vendedores ambulantes. Com o tempo alguns conseguiram juntar capital suficiente para se tornar proprietários de pequenos e médios estabelecimentos. Os imigrantes também tinham uma função que atendia expectativas da elite brasileira que defendia o “embranquecimento da população”. Seguindo doutrinas racistas estadunidenses e europeias, essas pessoas acreditavam que por meio da mortalidade natural dos negros e a chegada de um grande contingente de imigrantes brancos, a composição étnica da população brasileira predominaria a pela mais clara. Segundo alguns historiadores foi nesse momento que emergiu e se consolidou na sociedade brasileira, o preconceito contra o negro e seus descendentes, os quais passaram a ser vistos pelos poderes públicos, pela elite e por boa parte das camadas médias urbanas como cidadãos de segundo categoria.
                Abandonados a própria sorte pelos poderes públicos, os operários reagiram às duras condições em que viviam. Como a maioria dos operários era composta por imigrantes que eram politizados, estes trouxeram para o Brasil as principais correntes ideológicas do movimento operário europeu: socialismo, anarquismo e o anarcossindicalismo. Nas duas primeiras décadas do século XX, a liderança do movimento operário em São Paulo e em outras capitais esteve nas mãos dos anarcosindicalistas. Em 1922, sob a influencia dos acontecimentos da Revolução Russa de 1917, militantes saindo principalmente do anarquismo fundaram o PCB (Partido Comunista Brasileiro). A partir desse momento, os comunistas entraram na disputa pela liderança do movimento operário. Muitas reinvindicações dos trabalhadores eram divulgadas por diversos jornais operários surgidos em todo o país. Por meio da imprensa divulgavam seus princípios ideológicos e estimulavam os operários a lutar por direitos e por melhores condições de vida. Boa parte destes periódicos, no entanto, tinha vida curta, devido à repressão policial que impedia a circulação desses veículos ou a falta de dinheiro para custear novas edições.
                Sob a influencia dos anarcosindicalistas, diversas greves irromperam nos primeiros anos da República. Em 1906, por exemplo, uma greve geral em Porto Alegre, mobilizou durante 21 dias cerca de 5 mil trabalhadores que reivindicavam jornada de 8 horas de trabalho. Outra paralisação bastante significativa foi a de 1907, quando trabalhadores de várias categorias suspenderam o trabalho por alguns dias em São Paulo. O período de maior concentração de movimentos grevistas ocorreu entre 1917 a 1920. Esses anos foram marcados por intensa agitação nos meios operários e por greves generalizadas. A principal delas foi a Greve de 1917 em São Paulo que chegou  reunir 70 mil trabalhadores. Essas mobilizações de trabalhadores por melhores salários, redução da jornada de trabalho e pelo reconhecimento de seus direitos, o governo respondia com repressão policial. Em 1907 foi aprovada uma lei que autorizava a expulsão de estrangeiros considerados “perigosos” para a ordem social. Com base nessa lei diversos lideres anarquistas e socialistas de origem europeia foram obrigados a deixar o Brasil. Durante a década de 1920, a formação de trabalhadores menos politizados oriundos do campo e dependentes de uma relação clientelista, o movimento operário no Brasil diminuiu.

A Urbanização Excludente
                No início do século XX, as cidades brasileiras, de modo geral, eram pequenas e acanhadas. Não contavam com sistemas eficientes de esgoto e de abastecimento de água, as ruas não tinham calçamento ou iluminação elétrica, os transportes coletivos públicos eram quase inexistentes. Até mesmo o Rio de Janeiro, capital e maior cidade brasileira da época, enfrentava esse tipo de problema. Suas ruas eram estreitas e malcheirosas e a população, principalmente a que vivia nos cortiços no centro, eram frequentemente atingida por doenças como febre amarela, varíola, cólera e peste bubônica. Em 1902, Rodrigues Alves assumiu a presidência do Brasil e um de seus principais objetivos foi implementar um programa de reformas urbanas e sanitárias no Rio de Janeiro. Essas reformas visavam tornar a cidade mais limpa e moderna, de modo a transmitir ao mundo a impressão de a capital federal do Brasil era uma cidade civilizada. Para realizar as reformas propostas, o presidente deu amplos poderes ao prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro  Francisco Pereira Passos. Para realizar esse esforço “civilizatório”, foram proibidas a presença de vacas e porcos pelas ruas da cidade e o hábito muito frequente de cuspir no assoalho dos bondes. Entre as elites, acompanhar o progresso da cidade significava também alinhar-se aos hábitos culturais emanados da Europa, principalmente da França: falar, vestir, comer, morar e pensar como um europeu. A euforia da Bela Época adaptava-se assim, à complexa realidade brasileira. Centenas de pequenas casas e cortiços foram derrubados. Foi o chamado “Bota-abaixo”, promovido pelo prefeito do Rio de Janeiro. Durante as reformas, muitos moradores pobres, principalmente aqueles que viviam em cortiços e pequenos comerciantes foram expulsos do centro da cidade, sem receber indenização ou ter um novo local para morar. As obras foram conduzidas de modo autoritário e com repressão policial, gerando grande insatisfação popular. Os pobres desalojados de suas moradias mudaram-se para os morros, construindo moradias improvisadas com o material de demolição obtido no centro da cidade. Essas moradias improvisadas, localizadas nos morros do Rio de Janeiro, deram origem às favelas, que desde então cresceram continuamente.
                Dando continuidade ao  projeto de sanitarização do Rio de Janeiro, o presidente Rodrigues Alves delegou a realização dessas reformas ao médico sanitarista Oswaldo Cruz, que tinha como objetivo sanear a cidade. Inicialmente, ele dedicou-se ao combate de doenças com a febre amarela e a peste bubônica, eliminando mosquitos e ratos.             Em seguida, o sanitarista comandou o processo de erradicação da varíola. Para combater a varíola, a única solução era vacinar a população. Porém, muitas pessoas duvidavam da eficácia da vacina e recusam-se a toma-la. Por isso, o governo aprovou em novembro de 1904 a Lei da Vacina Obrigatória, e passou a usar a força policial nos casos de resistência à vacinação. A medida provocou revolta entre a população, principalmente porque o governo anunciou que a vacina poderia ser aplicada à força em quem se recusasse a toma-la. Políticos da oposição argumentavam que a decisão desrespeitava a liberdade individual. Falava-se em violação do lar e de ofensa à honra, uma vez que as mulheres seriam obrigadas a “desvendar seus corpos” para que desconhecidos lhes aplicassem a vacina. No dia 9 de novembro, Oswaldo Cruz propôs uma regulamentação da lei, determinando que o comprovante da vacinação fosse exigido em vários momentos, como por exemplo, para matricular os filhos na escola, obter emprego, registar-se em hotéis e para casar. A notícia chegou à imprensa no dia seguinte em boa parte da população saiu às ruas para protestar. Ergueram-se barricadas e tiveram inicio sangrentos conflitos com a polícia. As manifestações continuaram no dia seguinte, com depredações, saques, tiroteios, invasões a repartições públicas. Em reposta o governo decretou estado de sítio. Para acalmar os ânimos dos revoltosos, no dia 16 de novembro foi revogada a obrigatoriedade da vacinação. A Revolta da Vacina como ficou conhecido o movimento deixou um saldo de 23 mortos e cerca de 900 pessoas detidas; metade delas acabou deportadas para o Acre. Além do Rio de Janeiro outras cidades passaram pelo embelezamento que provocou a expulsão dos pobres das regiões centrais, obrigando-os a se instalarem em moradias precárias na periferia. Dessa forma, as elites brasileiras modernizavam as cidades, sem alterar, porém, as antigas desigualdades sociais. Em relação à Revolta da Vacina é bom salientar que ela não foi simplesmente uma revolta contra a vacina, ela está inserida no contexto da expulsão da população pobre do centro da cidade, como também, as medidas autoritárias do governo.

A Rebelião dos Marinheiros
                Outro problema enfrentado na capital federal está relaciona a Marinha brasileira. NO inicio do século XX. A Marinha do Brasil possuía alguns dos navios mais modernos do mundo. Apesar disso, os marinheiros permaneciam submetidos às leis herdadas do período escravista. Uma dessas leis permitia chibatadas como punição aos marinheiros, o que gerava grande descontentamento entre eles, cuja maioria era descendentes de africanos. Essas insatisfações crescentes motivou um grupo de marinheiros a articular um movimento que ficou conhecido como Revolta da Chibata. Em 22 de novembro de 1910, o marinheiro João Cândido liderou mais de 2 mil colegas, que assumiram o controle de quatro navios ancorados no Rio de Janeiro. Por rádio, ele comunicou as autoridades às exigências dos marinheiros: fim dos castigos corporais, aumento dos salários e melhorias nas condições de trabalho. Para pressionar o governo, João Cândido comandou as tripulações dos navios em manobras  no litoral, chegando a disparar tiros de canhão. Diante a ameaça contra a capital, o governo federal decidiu atender as reinvindicações dos marinheiros que se entregaram em 26 de novembro de 1910. Os castigos corporais foram abolidos, mas dias depois, a Marinha prendeu alguns marinheiros, incluindo João Candido. Ele foi expulso da corporação e permaneceu preso até 1912. Cândido que ficou conhecido como o “Almirante Negro”, sofreu muitas perseguições das autoridades, o que não o impediu de participar ativamente de outros movimentos políticos até o fim da sua vida, em 1969.

O Movimento Modernista
                A vida cultural brasileira, como, aliás, de grande parte do mundo ocidental, nas primeiras décadas do século XX, era fortemente influenciada pelos europeus, em particular, pelos franceses. No modo de se vestir, na culinária, na pintura, no teatro e em outras manifestações, o padrão francês era visto pelas elites como modelo a ser seguido. Com o fim da I Guerra Mundial em 1918, esse panorama começou a mudar. A guerra resultou no declínio econômico e politico dos países europeus envolvidos no conflito, nas Américas, passou-se, então, a duvidar da superioridade cultural europeia. Nos anos 1920, em diversas cidades do Brasil, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, surgiram jornais, revistas e manifestos publicados por artistas e intelectuais discutindo o que era ser brasileiro e preocupando-se com a modernização do país. Recusavam-se a copiar padrões europeus, propondo uma nova maneira de pensar e definir o país, com a valorização da memória nacional e a pesquisa das raízes culturais dos brasileiros. Era o movimento modernista, que se manifestou com grande impacto em São Paulo. Entre 13 a 17 de fevereiro de 1922, ocorreu na cidade de São Paulo a Semana de Arte Moderna. No Teatro Municipal de São Paulo, artistas e intelectuais fizeram apresentações de suas obras, exposições de pintura e escultura, concertos musicais e realizaram palestras e debates.
                Ser moderno era pesquisar as raízes da cultura brasileira, ou seja, a produção artística tinha de se inspirar na cultura popular: lendas, músicas, contos, entre outras manifestações. A proposta dos modernistas de 1922 era criar uma arte nacional: um país que simplesmente reproduzia um padrão europeu não interessava a eles. Após a Semana de Arte Moderna, os artistas se dividiram em várias vertentes. Uma delas, representando a ala mais conservadora, organizou-se no movimento verde-amarelo. Outro grupo, liderado por Mário de Andrade, o passado e as tradições não deviam ser idealizados, como faziam os verdes-amarelistas: deviam servir a compreensão do presente. Nesse mesmo grupo, Oswald de Andrade liderou o movimento antropofágico. Trata-se da seguinte ideia: no passado, os indígenas comiam as pessoas pensando que, assim, iriam absorver suas qualidades. Para Oswald de Andrade, o Abaporu, personagem criado por Tarsila do Amaral, selecionava o que comia. Desse modo, não se tratava de recusar a cultura europeia, mas de recebê-la de maneira critica. Era necessário selecionar o que poderia contribuir para a construção da nacionalidade e adequá-la ao contexto brasileiro.(Adaptado de PELLEGRINI, Marco. História 3 – Novo Olhar, p.33-42; GISLANE E REINALDO, História em movimento 3, p.135-148; VAINFAS, Ronaldo. História 3, p.42-43; FARIA, Ricardo de Moura. História 3, p.329-331.).


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