sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O SENHOR DAS ARMAS

No início do filme, antes da apresentação dos créditos relativos à produção, o personagem central vivido por Nicolas Cage fala rapidamente sobre a relação entre homens e armas no complexo mundo em que vivemos. Concluindo sua fala ele nos diz que há aproximadamente uma arma para cada doze habitantes da Terra. O que poderia ser pensado como um prólogo que teria um fechamento pacifista é, na realidade, a oportunidade para que esse autêntico senhor da guerra termine se perguntando: "O que precisamos fazer para que as outras onze pessoas tenham armas?".
 Baseado na vida de um contrabandista internacional de armas que abasteceu as principais guerras do planeta entre os anos 1980 e 1990, O Senhor das Armas, do diretor Andrew Niccol, repercutiu com grande destaque em virtude de sua temática tão polêmica e atual. Afinal de contas, como ficamos sabendo a partir do próprio filme, as balas fabricadas para utilização nas famosas armas automáticas AK-47, de origem russa, já vitimaram mais pessoas ao redor do globo do que as bombas atômicas lançadas sobre o Japão pelos norte-americanos na 2ª Guerra Mundial.
 As duras lições que nos são dadas por esse filme começam de forma inesperada durante os letreiros iniciais. Nesses minutos já se conta uma história deveras interessante, a da fabricação, embalagem, venda, transporte e entrega de um dos mais cobiçados, caros e mortíferos produtos criados pela humanidade, as balas do referido fuzil AK-47. O problema é que o percurso didático que nos apresenta os caminhos percorridos por essa munição entre o seu fabricante e o comprador não acaba com o recebimento da encomenda. A verdade é que as balas chegam ao destinatário final que não é o comprador, mas a vítima desses invólucros metálicos recheados de pólvora e criados especificamente para anunciar a morte...
 Não são apenas as armas russas que engrossam os índices de contrabando. Armas americanas e de outras origens também são muito cobiçadas e fazem com que a mortalidade seja muito maior do que deveria em países de todos os continentes, com especial destaque para a Ásia e a África, já atormentadas por suas mazelas sociais e injusta distribuição de renda.
 A mortandade disparada através dessas automáticas e semi-automáticas não está, no entanto, apenas nesses confins. São as armas obtidas através dos contrabandistas que de certa forma avalizam os investimentos de outros setores ilegais que promovem muitas mortes e desgraças, como o mundo das drogas, a indústria mundial de seqüestros e mesmo a violência cotidiana verificada em assaltos, roubos, lutas de gangues e assassinatos triviais.
 É ainda no início do filme que ficamos sabendo que há 550 milhões de armas espalhadas nos diversos países do planeta. Esse montante de recursos bélicos espalhados pelo mundo nos lega algumas dúvidas e reflexões:
 - O que aconteceria se o dinheiro investido na fabricação dessas armas fosse destinado à ampliação dos estoques alimentares da Terra ou utilizado para a fabricação de medicamentos em larga escala para o abastecimento das áreas mais carentes do mundo?
 - Se todos os dólares utilizados na produção e comercialização dessas armas fossem desviados para outras finalidades quantas vidas seriam salvas anualmente?
 - Quanto se economizaria anualmente em custos hospitalares, seguros-saúde ou de vida e pensões governamentais utilizados nos tratamentos das vítimas não-fatais desses armamentos? Esse dinheiro não poderia melhorar e muito a educação, a saúde, a habitação, o saneamento básico, os transportes e tantos outros setores sociais carentes nos países mais pobres do mundo?
 - As guerras mantidas à custa dessas armas e toda a destruição material dos países onde acontecem tem custos elevadíssimos. Sem todos esses detonadores de vidas e recursos materiais o que se poderia proporcionar às populações que vivem nessas localidades devastadas?
 O mais importante, no entanto, é perceber que em pleno século XXI, mesmo depois de todas as lições que nos foram dadas ao longo da história, a morte ainda é encarada como um grande e promissor negócio capaz de movimentar bilhões de dólares e que, em virtude disso, continua acontecendo com enorme regularidade.
 Quando iremos fazer as lições de casa e banir as armas de fogo? Em que momento de nossas existências iremos parar de nos matar em larga escala? Será que algum dia as lições de amor, solidariedade, paz e compreensão entre os homens serão verdadeiramente aprendidas?
 O Filme
 Yuri Orlov (Nicolas Cage) é um perdedor. Vive na sombra de sua família. Não conseguiu encontrar seu lugar no mundo. É totalmente desprezado pela mulher que ama. Tudo o que se refere a sua existência é desanimador e suas perspectivas futuras são tão desoladoras quanto tudo aquilo que ele já vivera. No entanto, há um ponto de virada em sua vida. E essa transformação não poderia ter um início mais estranho e assustador. Tudo se modifica a partir do momento em que Orlov presencia um assassinato e percebe que juntamente com o cheiro de pólvora que ficara no ar, misturado ao vermelho intenso do sangue e a morte dos que foram mortos, há grandes chances de se ganhar dinheiro...
 As "verdinhas" poderiam sair de um mercado consumidor alternativo, formado por pessoas que precisam de novas armas e de munição para a realização de seus trabalhos de "limpeza" e "extermínio" de pragas indesejáveis.
 Não importa a Orlov saber quem serão as vítimas dessa "necessária" dedetização. Basta a ele concluir que existem interessados, mercadorias e que, devido aos riscos desse potencial campo de trabalho, lucros imensos a obter.
 A partir de então, Orlov entra aos poucos nos meandros de um mundo que é ao mesmo tempo muito excitante e realmente perigoso aos seus olhos. Suas vendas começam no mercado interno norte-americano como fornecedor do crime organizado ou de milícias particulares e acaba crescendo a ponto dele se tornar um "exportador" de armas.
 Dos Estados Unidos o descendente de russos parte para empreitadas que o levam aos golpes militares das repúblicas bananeiras latino-americanas, as guerras civis africanas e aos violentos e prolongados conflitos religiosos do Oriente Médio. Em seus vários anos de contrabandista internacional de armas, Orlov descobre que aos grandes lucros há, em igual medida, enormes riscos.
 Yuri também percebe que mesmo sendo vulnerável apesar de seus disfarces legais que tentam legitimar suas negociações, há espaço para desfrutar da riqueza que acumula para ter tudo o que sempre sonhou ao seu alcance, inclusive o amor da mulher por quem se apaixonara quando ainda era um fracassado...
 O Senhor das Armas, a despeito da inerente violência de sua trama é um filme que pode se tornar um libelo em favor da paz. As mortes narradas nesse empolgante thriller, que tem como referência a história verdadeira de um contrabandista de armas, devem incentivar as pessoas a cobrar mais determinação dos governos em sua luta contra o comércio ilegal de armas e, principalmente, nos forçar a exigir de nossos líderes políticos um real compromisso de banimento das armas e da violência na Terra...
Fonte: CineWeb.

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