quinta-feira, 31 de outubro de 2013

ESAÚ E JACÓ

Drama cívico entre bolachas e cafezinho
O conturbado cenário de incertezas e mudanças dos primeiros anos da República é tratado com ironia e humor por Machado de Assis em seu romance Esaú e Jacó, de 1904
Os irmãos gêmeos Pedro e Paulo eram simetricamente contrários, tendo, inclusive, brigado no útero materno. Nasceram em 7 de abril de 1831: dia em que Pedro I caiu do trono, diria Paulo; dia em que Sua Majestade subiu ao trono, comentava Pedro, referindo-se à elevação de Pedro II. A abolição em 1888 era para Pedro um ato de justiça, e para Paulo, um sinal do início da revolução. Pedro e Paulo nasceram, na verdade, em 1904, junto com o livro Esaú e Jacó, romance da chamada fase realista de Machado de Assis. Nele, o autor mistura, como de costume, esferas públicas e privadas, ao traçar a psicologia de seus personagens em meio aos acontecimentos políticos da sua época, desafiando a comédia política do período.
 Machado elabora uma alegoria das disputas políticas brasileiras de seu tempo através da história desses dois irmãos: Pedro era cauteloso e dissimulado enquanto Paulo impetuoso e agressivo; Pedro era monarquista e Paulo republicano; por fim, Pedro se dedicaria à medicina e Paulo ao direito.
 A obra traz, assim, um pano de fundo histórico e deixa transparecer um certo desconforto com relação à atitude da população que parece estar sempre alijada do processo político. No capítulo “Manhã de 15” (referindo-se à proclamação da República em 15 de novembro de 1989), por exemplo, o ajuizado conselheiro Aires − personagem que é dono de opiniões dúbias e está sempre disposto a harmonizar (um “sincero à sua maneira”) − sai de casa para encontrar uma cidade convulsionada e com idéias desencontradas. E é nesse momento que Machado introduz um episódio que, sem ser crucial à narrativa, acabou por se colar à obra: Custódio mal terminara de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional "Confeitaria do Império", quando soube que havia estourado uma revolução e “vagamente uma República”. Mandou, então, um bilhete, pedindo para que o pintor interrompe-se o trabalho na letra d. Porém, e para seu espanto, logo soube que o trabalho fora concluído.
Frente à necessidade de uma nova placa, Custódio, que não parava de maldizer a revolução (“Diabos levem a Revolução”) lembrou do seu vizinho: o Conselheiro Aires. Dá-se então um debate revelador sobre o nome do estabelecimento, apesar de ambos concordarem que “nada tinham a ver com a política”. Aires fez sua primeira sugestão: que mudasse o título para “Confeitaria da República”. Temeram, no entanto, que em poucos meses poderia haver nova reviravolta, que implicaria em mais perda de dinheiro. O Conselheiro arriscou um meio termo: o nome “Confeitaria do Governo”, que se prestava a qualquer regime. Mas depois concluíram que todo governo tem oposição e que essa bem poderia quebrar a nova tabuleta. Aires aconselhou ainda que Custódio deixasse o título original − “Confeitaria do Império” − e só acrescentasse: “fundada em 1860”. Mas o proprietário achou que o timbre poderia ser sedicioso nesses tempos nervosos. Tentou-se outra saída; que deixasse a palavra Império, acrescentando embaixo, ao centro e em letras mais miúdas: das leis. Custódio julgou a idéia útil, mas temeu pela leitura dos transeuntes que poderiam se fixar nas letras grandes e esquecer das pequenas. O conselheiro imaginou nova estratégia: “Confeitaria do Catete”. Mas Custódio, “delicado de sentimentos” julgou que sua loja não era a única no bairro. Decidiram por fim, pelo próprio nome do dono: “Confeitaria do Custódio”, que não trazia nenhuma significação política ou figuração histórica: nem ódio, nem amor, “nada que chamasse atenção aos dois regimes”. E assim terminava a complexa conversação: “Gastava-se alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas”. Por sinal, esse é o fim do episódio, mas não “das modas”, que, segundo Machado, “sempre mudam”.
 Não se trata de reduzir a análise dessa obra a seu diálogo com o contexto político. Nesse caso, porém, não há como negar o paralelo irônico entre a troca de governos e a mudança das tabuletas. Em questão está não só o caráter contingente da nova situação política, como a importância dos “nomes” e de sua incidência sobre o real. Mais que isso, o literato enfrenta o tema sempre a partir das relações privadas. É o desespero de Custódio que ilumina os impasses desse momento marcado por incertezas, assim como são as saídas diplomáticas de Aires que demonstram de que maneira, muitas vezes, trocas políticas passam também por mudanças nas práticas de nomeações. Afinal, boa parte dos primeiros atos da República centrou-se na alternância acelerada nos nomes de ruas, praças, escolas e instituições. Isso sem esquecer do concurso apressado para criação de um novo hino, ou da releitura das cores de nossa bandeira que, ao invés de representarem as casas imperiais passavam a remeter ao verde de nossas matas e ao azul de nossos céus.

Mas em Esaú e Jacó todo o drama cívico é vivido na chave da pessoalidade. Pedro, Paulo, Custódio e Aires fazem às vezes dos nossos políticos de plantão. Não por coincidência em Memorial de Aires, Machado de Assis afirmaria que “não há alegria pública que não valha uma boa alegria privada”.
Lilia Moritz Schwarcz

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A HISTÓRIA DO PATRIMÔNIO DA IGREJA CATÓLICA

No século 7, a Igreja já era a maior proprietária de terras do Ocidente. Hoje, a Santa Sé opera no vermelho, mas é dona de um patrimônio bilionário e alvo de denúncias de corrupção
O papa Leão XIII controlava de perto as finanças da Santa Sé. Tanto que guardava o dinheiro, o ouro e as joias do papado dentro de uma arca de ferro debaixo de sua cama. Quando ele morreu, em 1903, foi um deus nos acuda: ninguém sabia onde estava o baú. O pânico aumentou quando os empregados do Vaticano protestaram por melhores salários - os membros da Guarda Suíça até ameaçaram renunciar. Os assessores encontraram apenas 82 mil liras e joias. Mal dava para cobrir 10% do custo do conclave que tinha eleito o novo papa, Pio X. A agrura só terminou um mês depois, quando o monsenhor Nazareno Marzolini se apresentou com o cofre. Ele explicou que havia recebido instruções para demorar a entregar o dinheiro de modo a lembrar ao novo papa que ele deveria administrar bem o patrimônio da Santa Sé.

O alerta faz sentido. A Igreja sempre penou para lidar com sua riqueza de forma equilibrada. Com o agravante de que vários líderes não foram tão escrupulosos como Leão XIII. No século 11, por exemplo, o papa Bento IX vendeu o cargo por 680 kg de ouro. Foi condenado por simonia (o comércio de sacramentos e postos eclesiásticos) em 1049. Apenas no século 20, a Igreja começou a contratar profissionais para administrar suas finanças - mas volta e meia surge um escândalo. O grande alvo das denúncias tem sido o Banco do Vaticano, que já foi acusado de participar de esquemas de propina de políticos e até de lavagem de dinheiro para a máfia. Em setembro de 2010, as autoridades italianas colocaram sob suspeita 30 milhões de dólares depositados numa conta. Em resposta, o papa Bento XVI criou a Autoridade de Informação Financeira - uma espécie de cão de guarda, que chega com a função de prevenir delitos e garantir mais transparência aos negócios papais. Há pelo menos uma década, a Santa Sé tem um orçamento deficitário.
"Quando Pedro precisou pagar o imposto do templo, Jesus fez um milagre para ele. Desde então, os papas têm rezado por milagres para conseguir seus objetivos", diz o padre Thomas J. Reese, autor de O Vaticano por Dentro.

 E apenas rezar não adianta: sem dinheiro, o papa não conseguiria exercer seu magistério. Não poderia pagar funcionários, manter a Cúria Romana (o governo central da Igreja) ou prestar assistência às dioceses necessitadas. Tampouco poderia custear os missionários na África, onde o catolicismo mais cresce hoje. Conseguir recursos foi uma tarefa bastante árdua desde os primórdios da Igreja. No século 1, quando o cristianismo era uma seita perseguida, seus membros se reuniam nas próprias casas. Nesses templos improvisados, eles também coletavam roupa e comida para os mais pobres.
Constantino

A Igreja só pôde possuir propriedades a partir do século 4, quando o imperador Constantino transformou o cristianismo na religião oficial de Roma. Queria utilizar a fé para manter a coesão de seus domínios. Mas não deu certo: a parte ocidental do Império Romano se desmembrou em 476, e quem lucrou mesmo foram os papas, que se tornaram peças-chave do poder político. Sua influência em Roma se comparava com a do Senado local. E sua riqueza cresceu graças aos presentes da nobreza.
Constantino construiu igrejas, doou o Palácio de Latrão, imóveis do Egito às ilhas do mar Adriático e até termas em Roma. Sem falar na avalanche dos regalos de ouro e prata. Com tanta bonança, alguns sacerdotes se esqueciam do voto de pobreza, como Virgílio. Na sua primeira tentativa de se tornar papa, em 536, ele levou sacos de dinheiro oferecidos por Teodora (esposa do imperador Justiniano) para subornar apoiadores para sua eleição.
A Igreja também recebeu doações de líderes do Império Romano do Oriente (Bizantino) e, à medida que a doutrina cristã se espalhava pela Europa, os papas negociavam para ter suas próprias porções de chão. A chamada Doação de Constantino é um atestado dessa "ganância". Atribuído ao imperador, o manuscrito concedia Roma e nacos da Itália e Europa ao papa Silvestre I. Era uma fraude elaborada por volta do século 8 para favorecer o papado na negociação com Pepino, o Breve, mas foi tomada como verdadeira até quase o fim da Idade Média. Nesse meio tempo, garantiu soberania e o controle sobre vastos territórios.
Em 754, Pepino ocupou parte do reino lombardo e, em troca do apoio do papa, doou as terras para a Santa Sé. Era o início dos estados papais (leia à pág. 33). Ali, os sucessores de Pedro instauraram uma monarquia absoluta, acumulando o papel de autoridades civis, líderes religiosos, senhores feudais e chefes de exércitos. "No século 9, os papas eram joguetes nas mãos das famílias da nobreza, como os Spoletos, que se aliavam a milícias e controlavam cidades como Veneza e Florença", diz Brenda Ralph Lewis em A História Secreta dos Papas. O cenário (marcado ainda por escândalos sexuais) tardou a mudar. Bento V, depois de seduzir uma jovem, fugiu para Constantinopla, em 964, levando o tesouro papal. A grana acabou logo, e ele voltou a Roma. "Acabou morto com mais de 100 punhaladas por um marido ciumento."
"Na Idade Média, a instituição não era todo-poderosa", afirma o medievalista Marcelo Pereira Lima. "Havia muitas divergências, negociações e complementação de poderes." Os estados papais ajudaram a tirar as igrejas da esfera de influência da aristocracia local. Mas muitos de seus terrenos continuaram administrados por famílias de sangue azul. E, como diversos membros do clero tinham filhos, parte do patrimônio das igrejas corria o risco de ser engolfada pela herança dos parentes. Entre os séculos 11 e 13, a Igreja de Roma deu uma guinada para botar ordem na casa e montar sua hierarquia. A Cúria (governo da Igreja), a tesouraria e a chancelaria se organizaram, e os cardeais conquistaram autonomia para eleger o papa. A disciplina endureceu contra a simonia e a favor do celibato. "A Igreja se tornou muito maior e intrincada. E o patrimônio também aumentou", diz Lima.
Árbitro
No fim desse período de reestruturação, o papado se destacava como um árbitro da sociedade. Podia até ser em casos de disputa conjugal, como o de uma aristocrata que queria se separar do marido impotente. Se não conseguia resposta do tribunal local, ela apelava ao papa para anular o casamento. Tais pendengas rendiam belas doações.
No século seguinte, os cofres do papado se abasteceram de tributos feudais, donativos e impostos para uso das terras protegidas por suas tropas. A Câmara Apostólica foi criada para gerir as propriedades e os gastos. E a Cúria montou uma rede de coletores de taxas e aluguéis em toda a Europa. Fiéis europeus faziam sua parte enviando o Óbolo de São Pedro, uma doação iniciada com os saxões na Inglaterra, por volta do século 9, e que ia direto ao papa. Os estados papais também geravam renda com tributos, comércio e produção agrícola, embora os custos com defesa e administração fossem elevados. Outra fonte de renda era a venda de indulgências aos fiéis, que assim obtinham a remissão dos pecados. Muitas pessoas até faliam para doar quantias vultosas à Igreja e se garantir no pós-morte.
Como em qualquer organização, porém, o orçamento do papado sempre viveu altos e baixos. No século 16, a cobrança de indulgências para paramentar a Basílica de São Pedro, em Roma, acendeu o estopim da Reforma Protestante. E, com ela, diminuíram os ingressos vindos de terras germânicas, escandinavas e britânicas. A crise se aprofundou no século 18, com a ascensão dos déspotas ilustrados, que buscavam limitar a ingerência da Igreja às questões morais. Em 1789, quando estourou a Revolução Francesa, a Santa Sé chegou à beira do abismo. Dez anos depois, Napoleão deteve o papa Pio VII por quatro anos. Com as ideias liberais correndo livres, propriedades da Igreja foram saqueadas, e seus territórios, desmembrados. A boa relação com a Europa seria retomada após a derrota do francês, em 1815.
Devido à proibição católica que pesava havia séculos sobre o empréstimo com juros (a usura. Em 325, o Conselho de Niceia, impediu empréstimos de clérigos), papas medievais já haviam dependido de banqueiros judeus para sobreviver. No século 19, James de Rothschild se transformou em banqueiro de Roma. Era um paradoxo: desde a Idade Média, a Igreja acusava e perseguia os judeus pela busca do lucro, mas amparava-se neles para manter a própria máquina. Os Rothschilds foram condecorados pelos serviços prestados, mas não conseguiram apoio para melhorar a condição da população judia. E os papas recorreram a outros banqueiros (mesmo protestantes) para se financiar. Com a unificação italiana, em 1870 (e a perda de terras), os impostos minguaram. O sustento veio por meio do Óbolo de São Pedro e de iniciativas como a promoção de bingos - o pilar financeiro de muitas paróquias no século 20.
"Em 1850, o papado se limitava a um pequeno estado semifeudal e dependente das rendas agrárias. Nos 100 anos seguintes, ele se transformou numa holding global com investimentos em agricultura, imóveis, terras, indústria, comércio e ações, distribuídos de Roma a Nova York, de Manila ao Rio de Janeiro", diz John F. Pollard em Money and the Rise of the Modern Papacy (sem edição no Brasil).
Mesmo sem suas rendas tradicionais, a Santa Sé ainda precisava bancar sua enorme estrutura, inclusive as embaixadas (nunciaturas) fora de Roma. Para arrecadar fundos, Pio IX se declarou "prisioneiro no Vaticano" e lançou um novo chamado ao óbolo. A resposta dos fiéis foi mais forte que nunca. A cargo da reforma financeira, o cardeal Giacomo Antonelli aplicou o superávit do óbolo em bancos estrangeiros e comprou ações e bônus no exterior. Graças a Antonelli, no fim do reinado de Pio IX, o Vaticano começou a substituir a exploração de um sistema feudal de riqueza, baseado em latifúndios, pelos investimentos em créditos capitalistas e empresas.
Aos poucos, portanto, o Vaticano aceitava o capitalismo, que tanto atacava. Sob Pio X, a Santa Sé começou a diversificar os investimentos em Roma e a aderir a companhias de saneamento e seguros, entre outros setores. Parte dos lucros era emprestada às famílias aristocráticas romanas, que, assim, tocavam seus empreendimentos. A Primeira Guerra deixou as finanças da Santa Sé na corda bamba. E as doações de católicos americanos tornaram-se cruciais.
Tratado de Latrão
Em 1922, Pio XI assumiu decidido a resolver a "questão romana" (a disputa gerada com a anexação dos estados papais pela Itália) como forma de solucionar os problemas econômicos da Santa Sé. Dito e feito. Em 1929, o secretário de estado do Vaticano e o ditador Benito Mussolini firmaram o Tratado de Latrão. A Itália reconhecia o Estado soberano e pagava 750 milhões de liras em dinheiro e 1 bilhão em bônus do governo para compensar as perdas territoriais. Graças à indenização, a recém-criada Cidade do Vaticano virou um canteiro de obras. E tomou a feição atual. Nos anos 1930, para driblar os efeitos do crack de Wall Street, o Vaticano começou a "globalizar" seus investimentos. A participação em empresas dentro da Itália também cresceu.
Com a derrota italiana na Segunda Guerra, o Vaticano apostou as fichas nos Estados Unidos. O namoro que havia começado nos anos 1920, com as doações das dioceses, virou um casamento com aliança de ouro - quilos de ouro enviados para a Reserva Federal dos EUA, cerca de 7,6 milhões de dólares. Até hoje, suspeita-se que parte desses recursos era fruto de lavagem de dinheiro nazista obtido espuriamente do confisco de judeus. Em 1958, a carteira do Vaticano somava 500 milhões de dólares, além de outros 940 milhões do IOR (Instituto para as Obras de Religião), mais conhecido como Banco do Vaticano.
Os escândalos
A economia dos papas cambaleou de novo nos anos 1960. As ofertas dos fiéis caíram e, em 1968, o governo italiano introduziu uma taxação sobre os dividendos da Santa Sé retroativos a 1942. "Para fugir da mordaça fiscal, o papa Paulo VI iniciou a transferência das participações societárias do Banco do Vaticano para o exterior. Confiou a missão a um sacerdote e a um leigo", diz o jornalista Gianluigi Nuzzi em Vaticano S.A. O sacerdote era Paul Casimir Marcinkus. O leigo, Michele Sindona, um siciliano que controlava aportes de capitais da máfia. Em 1971, já bispo, Marcinkus tornou-se secretário do Banco do Vaticano. "Ambos controlaram a mais maciça exportação de capitais jamais ocorrida nos subterrâneos blindados do Swiss Bank, em parceria com a Santa Sé", diz Nuzzi. Para o autor, que teve acesso ao arquivo do monsenhor Renato Dardozzi, um alto dirigente das finanças papais entre os anos 1970 e 2000, houve uma série de alquimias com os ativos do Vaticano, que passaram de mão em mão para driblar impostos e lucrar em cada participação. As operações teriam servido, por exemplo, de moldura para financiamentos do Partido da Democracia Cristã e da campanha contra o divórcio na Itália. Sindona usaria contas da Santa Sé para transferir o dinheiro da máfia. O siciliano ficou conhecido como o "banqueiro da máfia". Marcinkus era o "banqueiro de Deus". Com Roberto Calvi, principal executivo do Banco Ambrosiano na Itália, formaram um trio "intocável". Os negócios de Calvi incluíam empresas off-shore nas Bahamas. O esquema começou a ruir em 1974, na crise do petróleo. O Ambrosiano entrou em colapso e motivou investigações nos EUA. Em 1978, João Paulo I assumiu o papado disposto a fazer uma limpeza no IOR. No mesmo ano, morreu misteriosamente. "Embora o Vaticano tenha negado qualquer procedimento ilícito, em 1984 o Banco do Vaticano pagou 244 milhões de dólares aos credores do Ambrosiano para que abrissem mão de denúncias", diz Thomas Reese. O episódio nunca foi totalmente esclarecido.
Os segredos continuam sendo a mola mestra das finanças da Santa Sé. O Banco do Vaticano, por exemplo, não publica seus números. AVENTURAS entrou em contato reiteradamente com a Secretaria Geral e o Serviço de Imprensa do Vaticano, mas nenhum deles forneceu informações além das que estão na página da internet. "O Vaticano desenvolve seus negócios em total sigilo, protegendo a delicada relação entre a teocracia e o dinheiro", diz Nuzzi. "As intensas atividades da holding da Santa Sé são um dos segredos mais bem guardados do planeta. Até mesmo o orçamento consolidado da Igreja, divulgado em julho de cada ano, oferece apenas dados genéricos. O silêncio é tutelado a qualquer custo."
Problemas ligados à administração financeira não são exclusivos dos católicos, claro (vide a condenação dos líderes da evangélica Renascer), mas o mesmo sigilo de Roma se repete pelo mundo. Na Alemanha, o cientista político Carsten Frerk tardou anos para apurar a arrecadação das dioceses católicas e protestantes. Concluiu em 2009 que as paróquias alemãs tinham 200 bilhões de euros em patrimônio. E receberam 9,3 bilhões em taxas. "Com o chamado imposto da Igreja, cerca de 9% do que os católicos declarados pagam de imposto de renda ao Estado vai para a Igreja", afirma, relatando ter sido "muito difícil" concluir o levantamento. No Brasil, a CNBB tampouco forneceu detalhes de suas finanças.
A Autoridade de Informação Financeira pode ser uma nova fonte de transparência. "Hoje, o Vaticano enfrenta normas bancárias internacionais mais rigorosas e não pode se dar ao luxo de ter um banco offshore dentro de São Pedro ou manter informações em sigilo", diz Nuzzi.


 Eduardo Szklarz (Revista  Aventuras na História, julho de 2012).

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A INFÂNCIA EM ESPARTA

Em Esparta, o Estado tomava os meninos das famílias para treiná-los na arte da guerra
Um visitante de uma cidade do norte chegou a Esparta em 480 a.C. Foi bem recebido e experimentou a melas zomos, prato típico e orgulho da cidade-estado: uma sopa à base de porco, vinagre, sal e (muito) sangue suíno. Depois de provar a iguaria, sua conclusão foi rápida: "Agora entendo o motivo de os espartanos estarem sempre tão preparados para morrer". A anedota sobre a sopa sangrenta resume bem a vida da cidade. Os homoioi, os cidadãos espartanos, cresciam comendo mal e viviam com fome, enfrentavam-se entre si e suportavam um treinamento militar tão intenso que até soldados do Bope pediriam para sair na primeira semana. Os filhos da elite da cidade tinham vida dura desde o berço. Isso se o bebê sobrevivesse ao parecer do conselho dos anciãos - há referências textuais em Xenofonte e Plutarco de que bebês fora dos padrões da cidade eram mortos, arremessados ou abandonados, no monte Taigeto. "O infanticídio era comum na Grécia antiga, mas Esparta era a única a praticá-lo colocando a decisão nas mãos do Estado, e não na dos pais", afirma Paul Cartledge, autor de Spartans (sem edição em português) e professor de cultura grega na Universidade de Cambridge. "A palavra final era do conselho dos anciãos: eles é que decidiam se a criança estava apta a continuar viva ou teria de ser morta."
 A prática do infanticídio era apenas o início da educação espartana, a agoge, focada no militarismo, na disciplina e na obediência completa. Depois de passar os primeiros 7 anos de vida com a família, os meninos eram enviados para centros de treinamento para serem educados e transformados em guerreiros. Até os 11 anos, o jovem espartano passava pelo primeiro ciclo, a meninice, em que recebia o treinamento militar básico.
O menino estava ali para aprender a manejar lanças, espadas e escudos, além de praticar esportes como corrida e natação. A alfabetização não era, de acordo com Plutarco, o mais importante. O foco era a obediência - não ler e escrever. "Eles aprendiam as letras quanto fosse necessário: todo o restante do treinamento era direcionado para resposta rápida aos comandos, resistência, força e vitória nas batalhas", escreveu Plutarco na sua obra sobre a vida de Licurgo, o principal legislador espartano.
No dia a dia, a educação era supervisionada por um magistrado responsável, mas a disciplina (e as punições) era imposta pelos colegas mais velhos. Sessões de açoites eram comuns, assim como humilhações públicas. Quem já passou por uma escola sabe bem que esse modelo tem o potencial de incentivar a crueldade dos mais velhos contra os mais novos. Mas o uso da crueldade do grupo não era algo inesperado. "A ideia básica era deixar os meninos duros, resistentes, no melhor de sua forma física. Acima de tudo, eles tinham que ser autossuficientes e capazes de suportar a dor", afirma Cartledge.
Entre os 12 e os 15 anos, o rapaz passava pelo segundo estágio da agoge. Nessa fase, além dos exercícios tradicionais, havia maior foco no trabalho em grupo, além da maestria no uso das armas. Corridas com cavalos e com bigas também começavam a acontecer. Era definido um mestre, um homem mais velho que acompanhava individualmente os avanços do protegido - tanto militares quanto pessoais. Há discussão acadêmica sobre isso, mas é grande a probabilidade de que a educação entre discípulo e mestre envolvesse relações homoeróticas - traço comum nas cidades-estado gregas.
É durante o segundo ciclo que os meninos recebiam apenas um pedaço de pano para usar como túnica, a única roupa que podiam vestir durante o ano em uma região em que a temperatura chega aos 40 ºC no verão e -5 ºC no inverno. A restrição de comida também era parte do treinamento. Os jovens soldados recebiam apenas o necessário para sobreviver (inclusive da melas zomos) - quantidade que não chegava nem perto da saciedade. Constantemente com fome, os jovens só tinham uma solução: roubar comida. Para os espartanos, não havia problema algum em furtar alimentos - o problema estava em ser pego.
Outro caso contado por Plutarco ajuda a ilustrar a fome e a obediência cega dos aprendizes de soldado. O historiador conta que um jovem conseguiu apanhar um pequeno lobo selvagem para comê-lo. Ao ser descoberto, manteve o lobo sob a sua capa enquanto ouvia o sermão do supervisor. "Sem demonstrar dor, o menino ficou ouvindo o sermão enquanto o lobo o atacava embaixo da capa", afirma Maria Aparecida de Oliveira Silva, professora de história antiga na USP e autora do livro Plutarco Historiador: Análise das Biografias Espartanas. De acordo com Plutarco, o jovem suportou o ataque, até que morreu. Mais do que revelar algo factual, ressalta Maria Aparecida, esse tipo de história era fundamental para provar como se comportava um verdadeiro espartano. "Tais episódios eram contados para ilustrar a coragem dos espartanos, bem como a obediência cega aos seus costumes e às suas leis."
A partir dos 16 anos, começava a fase final da preparação, que ia até os 20. Era nesse momento que o treinamento passava a ser prático. Os hoplitas - guerreiros com grandes escudos redondos, lanças longas sobre o ombro direito e espada embainhada - eram unidos em grupos de até 15 para exercícios de guerra. Cada grupo era chamado de falange. Nas batalhas, as falanges se enfrentavam até que um soldado cedesse e as mortes começassem a acontecer aos borbotões. Além da força física e da resistência, era necessário muita confiança no seu parceiro ao lado - se ele correr ou cair, a lança rival aproveita o espaço e você está morto.
É por isso que um ditado comum sobre as falanges é que elas são tão fortes quanto o seu elo mais fraco. O treinamento espartano desde o início enfatiza isso - a falange deveria ser uma entidade única.
E isso justificava o treinamento rígido. Durante toda agoge, o papel do Estado espartano era gigantesco. Não se tratava apenas de deixar o filho na escola todas as manhãs e ele crescer até cursar uma universidade, mas a entrega completa do futuro cidadão à Esparta. E só havia um caminho possível: ser soldado. "Aos 7 anos, a criança era realmente doada ao Estado para a educação e, a partir dos 18 anos, começar a ter papel na vida da cidade. Basicamente, o objetivo final da agoge era incutir a ideia de que para viver em Esparta era preciso deixar de lado prazeres e interesses individuais", afirma José Francisco de Moura, historiador especializado em Esparta e professor de história na Universidade Veiga de Almeida.
Não há muitas evidências arqueológicas sobre a educação feminina, mas os textos clássicos indicam que as meninas recebiam algum treinamento, cujo foco estava na excelência física. Em resumo, as espartanas eram vistas como parideiras - as futuras mães dos guerreiros. "Como resultado da ênfase na reprodução, as meninas eram criadas para serem o tipo de mãe que Esparta necessitava. Uma mãe precisa ser saudável, educada de maneira apropriada e com bastante conhecimento dos valores espartanos", escreveu Sarah B. Pomeroy em Spartan Women (sem edição em português). "Apenas mulheres que morriam durante o parto podiam ter seu nome escrito na lápide, o que acontecia somente com os homens que morriam em batalha." Na prática, o que as evidências arqueológicas dão conta é que as mulheres espartanas estavam em forma - as estátuas mostram músculos definidos nos braços e nas coxas. Além disso, tinham fama de serem lindas: Helena, a mulher mais bela do mundo antigo, antes de ser de Troia e de virar a cabeça de Páris, era Helena de Esparta.
O casamento era uma instituição completamente diferente entre os espartanos. Feito por arranjos entre as famílias dos homoioi, a união não envolvia uma vida em conjunto entre marido e mulher. Ao contrário, o homem devia visitá-la apenas durante a noite para o ato sexual e voltar para a sua falange. Por isso, não era raro um homem de 30 anos jamais ter visto a sua mulher à luz do dia. Afinal, ele só tinha permissão de começar a morar com a esposa a partir dos 30 anos. A cerimônia era, evidentemente, espartana. A mulher tinha os seus cabelos cortados curtos, como os de um homem, e recebia uma toga masculina. Era nessa noite que o marido iria invadir a casa da esposa pela primeira vez para consumar o casamento. E voltar ao grupo assim que acabasse.
Admirada por priorizar o público sobre o privado, Esparta foi a inspiração de uma série de obras-primas, como a República de Platão, e até de crimes contra a humanidade - a eugenia, popular no começo do século 20, usava o exemplo espartano como base. Longe da idealização clássica ou moderna, os poucos artefatos recuperados e as escassas referências textuais ajudam a compor um retrato de uma cidade na qual a vida não era nada fácil - e onde a mão do Estado entrava nos lares em busca de crianças que seriam transformadas em guerreiros.
Guerra perpétua
Esparta vivia em permanente estado de sítio. Surgida como um pequeno conjunto de aldeias em torno do século 10 a.C., Esparta se desenvolveu agressivamente nos dois séculos seguintes para se tornar a maior cidade-estado grega em território. A base da sua expansão estava na aquisição de terras, de cidadãos livres para pagamento de taxas e de escravos, chamados hilotas - prisioneiros de guerra de outras regiões, que eram obrigados a realizar o trabalho braçal.
Apesar de a escravidão ser um traço comum em praticamente todas as comunidades gregas daquele período, os espartanos foram além. Descartaram a tradição quando, diferentemente dos rivais, como Atenas e Argos, passaram a escravizar os seus próprios vizinhos gregos. Os primeiros a cair foram os messênios, que tinham a mesma etnia dórica dos espartanos. Estimativas dão conta de que havia de 10 a 20 vezes mais messênios e cidadãos livres do que cidadãos espartanos na cidade, por volta de 500 a.C.

Vinícius Cherobino (Aventuras na História - maio de 2012).


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ALAN TURING, MATEMÁTICO CONSIDERADO O "PAI DA COMPUTAÇÃO"

Alan Turing, o homem que decifrou os códigos secretos nazistas e lançou as bases para os computadores atuais, enfrentou, ainda jovem, uma castração química
Ele era franzino, tímido e meio excêntrico. Nunca empunhou uma arma, mas foi um dos personagens mais importantes da 2ª Guerra. Atrás de uma escrivaninha, Alan Turing, considerado o "pai da computação", encontrou a chave para decifrar os códigos usados em mensagens nazistas - e, graças a seu trabalho, os aliados desvendaram cada passo dado pelos inimigos, onde encontrar seus submarinos e até como deveria ser a reação alemã durante o Dia D. O mundo celebra este ano o centenário do cientista.
A comemoração tem gosto amargo. Turing era homossexual, condição considerada criminosa na Grã-Bretanha até 1967. Condenado, recebeu injeções de hormônios femininos, o que se conhece como castração química. Tinha 41 anos em 1954, quando, transtornado com as alterações em seu corpo e pela realidade em que vivia, deu cabo da vida comendo uma maçã envenenada, tal como Branca de Neve, de quem era fã. Como é possível que tanta gente nunca tenha ouvido falar dele? Uma resposta: o trabalho que o tornou famoso era tão secreto que, por décadas, nem mesmo os familiares dos envolvidos no projeto sabiam o que eles faziam. Outra: ele morreu cedo. A verdade sobre o cientista começou a vir à luz em 1983 com o lançamento de Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges (sem edição no Brasil). "Ele estava lá, no começo da computação, da inteligência artificial e fez um trabalho importantíssimo na 2ª Guerra", diz John Graham Cummings, especialista em computadores, responsável por um abaixo-assinado que resultou no pedido oficial de perdão do primeiro-ministro Gordon Brown, da Grã-Bretanha, em 2009.

 Brown reconheceu a importância do trabalho de Turing durante a guerra e definiu o tratamento a que ele foi submetido de "terrível e desumano".
Desde pequeno, Turing chamava a atenção pelo talento para a matemática. Logo depois de formar-se em matemática em Cambridge, ele criou a máquina Turing, uma proposta teórica capaz de realizar funções desde que apresentadas por meio de um logaritmo. Já viu isso em algum lugar? Pois é, está na base do seu computador. Turing tinha apenas 24 anos.
Nos anos 1950, o cientista passou a trabalhar com inteligência artificial e desenvolveu o Teste de Turing para identificar computadores inteligentes. No teste, um examinador conversa por meio de mensagens de texto, simultaneamente, com um computador e uma pessoa. Depois de certo tempo, se não fosse capaz de apontar qual dos dois era humano, a máquina teria passado no teste. (Nos primórdios da internet, o software Eliza usava a mesma base lógica).
Durante a 2ª Guerra, Turing trabalhou em Bletchley Park (veja ao lado), nos arredores de Londres, onde milhares de pessoas estavam empenhadas no projeto Ultra, cujo objetivo era quebrar os códigos secretos de mensagens criptografadas nazistas. Lá, ganhou fama de excêntrico. Ia ao trabalho de bicicleta usando máscara contra gases. A explicação: na primavera, o ar se enche de partículas de pólen, o que poderia causar alergia. Também gostava de tomar chá, sempre na mesma caneca. E a prendia a uma corrente na calefação do escritório para que ninguém a pegasse. Turing era um fundista. Em algumas ocasiões, ia a Londres, a 64 km de distância, correndo.
Um dos desafios do Ultra era decodificar as mensagens da máquina alemã Enigma. Era uma máquina de escrever com rotores. À medida que o texto era digitado, os rotores embaralhavam as letras de modo que o conteúdo ficasse incompreensível. A encriptação de mensagens funcionava de maneira similar ao que se usa hoje para transmitir dados bancários pela internet. A única maneira de entender a mensagem recebida é usando a mesma chave da encriptação original. Os rotores permitiam milhões de combinações, e as chaves eram trocadas mensalmente. Turing descobriu o segredo usando uma técnica eletromecânica chamada bomba. As tais bombas permitiam várias análises dos textos, em velocidade muito parecida à dos humanos. Outra contribuição do cientista foi o desenvolvimento do Colossus, um precursor dos computadores.
Em 1942, os ingleses já conseguiam ler 50 mil mensagens por mês, uma por minuto. Foi assim que ficaram sabendo de informações cruciais sobre os ataques planejados pelos alemães, principalmente no Atlântico Norte. Quando a guerra acabou, Turing foi trabalhar no Laboratório Nacional de Física. Ninguém ficou sabendo da importância da sua participação na quebra dos códigos da Enigma.
A carreira de Turing sofreu um abalo quando, em 1952, foi condenado por manter relações sexuais com outro homem, crime de "indecência pesada" na época. Entre as opções de punição, cadeia ou "castração química", escolheu a segunda, que supostamente acabaria com sua libido. Como criminoso fichado, Turing não podia mais trabalhar em projetos do governo. Além disso, as injeções o deixaram tão perturbado que ele não viu outra opção além do suicídio. A campanha pelo pedido de desculpas reuniu 32 mil assinaturas.
Bletchley Park
Se fosse preciso escolher um único lugar absolutamente crucial para o desfecho da 2ª Guerra, seria Bletchley Park. Nessa propriedade do século 19 no countryside inglês, uma equipe formada por campeões de xadrez, matemáticos, especialistas em palavras cruzadas e linguistas conseguiu quebrar o código secreto utilizado pelos alemães em suas comunicações, permitindo, de acordo com o primeiro-ministro inglês da época, Winston Churchill, reduzir a duração do conflito em dois anos. Em 1938, os prédios e mansões que formam Bletchley Park estavam prestes a ser demolidos quando o governo decidiu que ali era o lugar ideal para estabelecer o projeto Ultra. No ano seguinte, o time foi chegando à mansão com a desculpa de participar de caçadas no grupo de certo capitão Ridley, o oficial do serviço secreto britânico responsável pela transferência da equipe.
Em Bletchley Park ficava a Estação X, uma estação de rádio dedicada a interceptar as comunicações do inimigo. O "X" identificava a décima estação da série espalhada pelo país.
O número de envolvidos no Ultra chegou a 12 mil. Depois do fim da guerra, foi decidido que todas as atividades que ocorreram no local deveriam se manter secretas. O mundo vivia a Guerra Fria. Para evitar que informações caíssem em mãos dos soviéticos, Churchill mandou destruir todos os documentos do projeto Ultra. Os prédios passaram a servir para outros propósitos, como treinamento de professores e funcionários dos correios. Os esforços de guerra foram esquecidos... até 1974. Nesse ano, Frederick W. Winterbotham, que havia trabalhado em Bletchley Park, publicou, pela primeira vez e em detalhes, a história do que havia acontecido ali, durante a guerra, no livro The Ultra Secret. Autointitulado "o segredo mais bem guardado do Reino Unido", Bletchley Park hoje recebe visitas de gente que quer ver onde um bando de nerds mudou o destino do mundo - mas não contou nada a ninguém, por décadas. Ou, nas palavras de Churchill, as pessoas que trabalharam lá eram "as galinhas que botavam os ovos de ouro, mas que nunca cacarejavam".


 Bárbara Axt (Aventuras na História, junho de 2012).

sábado, 26 de outubro de 2013

O PRINCIPIO DA IMPARCIALIDADE

O princípio da imparcialidade  aplicado em diferentes áreas, como as jurídicas, administrativas e governamentais, segue o principio de não tomar partido favorável de maneira plena a uma das partes envolvidas num processo ou debate. Numa decisão ou análise, deve-se ouvir e analisar as duas partes. O princípio da imparcialidade segue ao da neutralidade do mediados.
 Num debate, o papel do mediador é de somente mediar e observar, sendo aplicável, por exemplo, na mediação de debates no Congresso Nacional, em reuniões de condomínio e assembleias acadêmicas. A imparcialidade pode ser aplicada também na concepção artística de uma obra, na estrutura de um artigo e na postura de uma empresa perante as opiniões políticas e sociais de um país.
 Segundo o dicionário Soares Amora da língua portuguesa, o termo parcialidade se refere à qualidade de parcial, paixão partidária, julgamento apaixonado de ato preventivo contra ou a favor. A imparcialidade permite analisar os fatos e julgar sem profundo envolvimento passional com as pessoas e os fatos de cada caso.
 Visa uma reflexão holística e abrangente sobre o tema e a causa observada. Num processo judicial, por exemplo, a relação entre os elementos e as partes do processo é vista de maneira impessoal pelo juiz no hemisfério da jurisdição. O juiz executa o papel pacificador do Estado, visando solucionar o conflito, e conciliar as partes quando necessário. Entre as duas partes antagônicas em conflito, o juiz é neutro e imparcial, ocupando uma posição de representatividade estatal com poder de julgo.
 No jornalismo, por exemplo, o jornalista ao apurar um fato e redigir sobre o mesmo deve ser imparcial e objetivo, ou seja, não deve tomar partido, não deve defender somente uma das partes envolvidas no fato ou dar a sua própria opinião, seguindo o princípio de imparcialidade da imprensa. Como instituição, quando o jornal  expressa a sua opinião sobre determinado tema ou fato, ele o faz por meio de seu editorial.  Porém, em tempos de internet, há muitos jornalistas blogueiros que, além de informar de maneira objetiva, também expressam suas opiniões livremente, muitas vezes, tomando partido.
 O princípio da imparcialidade pode ser aplicado em diferentes esferas de poder, em diferentes setores da sociedade, como no setor público ou privado, até mesmo nas relações pessoais e domésticas quando os pais educam seus filhos de maneira igualitária. Em suma, na área  jurídica, a imparcialidade guia o juiz a não pender favoravelmente para uma das partes do processo; e na administração pública garante que a mesma atue e invista sobre as questões e projetos mais relevantes para a sociedade e para o Estado, não visando atender somente interesses particulares, ou partes isoladas.
Fernando Rebouças

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O CONDE DE MONTE CRISTO

Em minha infância e adolescência convivi com os livros. Me lembro com enorme clareza, entre os livros que compunham a biblioteca da família, de uma coleção entitulada "Tesouros da Juventude", editada pela Abril Cultural. Eram livros com capa dura, todas elas de cores diferentes; traziam um conteúdo realmente fabuloso e digno de ser nomeada como tesouro, eram clássicos do porte de "Robinson Crusoé", "A Ilha do Tesouro", "As Aventuras de Tom Sawyer", entre muitos outros títulos de grande valor e qualidade.
 Entre eles encontrava-se também uma obra de Alexandre Dumas (autor conhecido mundialmente pela obra "Os três mosqueteiros") chamada "O Conde de Monte Cristo". Título pouco sugestivo para um garoto com aproximadamente 10, 11 anos. No entanto, incentivado pelo grande amor que sentia pelas histórias contidas nos livros, não tive dúvidas, li a aventura de Dumas. Foi um dos encontros literários marcantes dessa minha etapa inicial em contato com as letras. Nunca mais me esqueci daquela história...
 Grandes histórias como essa merecem ser passadas de geração para geração. São tão ricas que se tornam clássicos autênticos, jamais morrendo ou sendo esquecidos por completo no imaginário coletivo. Recentemente li uma entrevista de um dos grandes críticos literários norte-americanos em que o mesmo tecia pesadas críticas a série de livros escrita pela inglesa J.K. Rowling, protagonizadas pelo bruxinho Harry Potter. Acredito que Dumas (Twain, Lobato, Dickens e tantos outros), hoje louvados pelos críticos especializados, também sofreriam resistências e pesadas censuras...
 A grande alternativa ao se deparar com as versões filmadas desses clássicos seria poder ler os mesmos antes de ver os filmes, caso isso não seja possível, ao menos procurar os livros depois e saborear um pouquinho mais de detalhes das tramas...
 A História
 Edmond Dantes (Jim Caviezel) é um jovem marinheiro em missão comercial pelo Mediterrâneo que se vê obrigado a desembarcar na Ilha de Elba no período em que lá está confinado Napoleão Bonaparte. A despeito das dificuldades enfrentadas para atingir seus objetivos, Dantes e seu amigo Fernand Mondego (Guy Pearce) conseguem convencer os militares que vigiam Napoleão a permitir que seu capitão adoentado seja visto pelo médico que cuida do famoso prisioneiro.
 Para que isso acontecesse o general estrategista condiciona a consulta ao capitão a entrega de uma carta por parte de Dantes a um amigo com quem não tem contato a muito tempo. Assegura ao jovem que se trata apenas de uma correspondência de caráter pessoal, no entanto, pede a ele sigilo absoluto. Eram porém observados por Mondego que não perdoa o amigo por não lhe contar o que havia acontecido.
 Ao voltarem a Marselha, Dantes é denunciado por traição numa conspiração liderada por Mondego, acompanhado de um subalterno do navio e do promotor local, cada qual motivado por um interesse particular. O falso amigo pela paixão que nutre pela noiva de Dantes, o segundo pela possibilidade de sucedê-lo no comando do navio e o terceiro para evitar que seu pai fosse identificado como o contato de Napoleão numa eventual conspiração (o que arruinaria sua carreira).
 Enviado para uma prisão localizada numa ilha isolada, é dado como morto a partir de uma condenação arbitrária a morte por traição. Isolado na ilha, numa cela individual a partir da qual não tem contato nem ao menos com as pessoas que levam comida para ele, Dantes parece destinado a loucura e morte...
WebCine.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

FRANÇA EQUINOCIAL

França Equinocial  foi o nome dado ao projeto de colonização francesa da atual São Luís, capital do estado do Maranhão, no início do século XVII. Apesar da breve existência, a empreitada levou à fundação da cidade  maranhense, única capital brasileira fundada por outro povo europeu senão o português. Seu nome, aliás, é uma homenagem a Luís IX, rei e santo de origem francesa.
 O projeto da França Equinocial começa em 1611, numa associação entre comerciantes e nobres, que vislumbraram uma colônia no nordeste do Brasil, em um vasto território ainda não ocupado pelos portugueses. Com a aprovação do rei Luís XIII, foi organizada uma expedição, comandada por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, que já andara pelo litoral da atual Guiana, em viagem de exploração em 1604.
 As "vantagens" de colonização do Maranhão eram propagadas desde 1594, quando alguns náufragos franceses, liderados por Jacques Riffault, se estabeleceram na região. Outro francês, Charles des Vaux, aprisionado no Ceará, regressou à França e difundiu a ideia de que se criasse uma colônia francesa no litoral.
 A trajetória da França Equinocial pode ser dividida em duas fases distintas. Na primeira, organizou-se o reconhecimento da área, sob supervisão de La Ravardière, com o apoio de Francisco de Rasilly, Senhor des Aumels, Nicolau de Harlay de Sancy, Barão de la Molle e de Gros-Bois. Essa inspeção ajudaria na construção de um forte e na manutenção de um convívio pacífico com os índígenas, para que a segunda fase, a ocupação com colonos, fosse implementada. A expedição era composta por três navios, cuja tripulação era basicamente de voluntários, muitos deles fidalgos e aventureiros, além de quatro padres capuchinhos, além de um português e alguns índios, que estavam em degredo na ilha de Fernando de Noronha.
 Assim, a bandeira francesa foi hasteada pela primeira vez no Maranhão, em meio aos Tupinambás. La Ravardière regressou à França seis meses depois, pondo fim à primeira fase da França Equinocial.
 No dia 19 de março de 1612 zarpara de Cancale, na Bretanha, uma frota composta por três navios: La Régente, comandado por La Ravardière, auxiliado por Rasilly; Charlotte, com o Barão de Sancy e a nau Sante-Anne, com o irmão de Rasilly. Dois meses depois era construído o forte São Luís, núcleo inicial da futura cidade.
 Os primeiros momentos da colônia foram de tranquilidade. Logo, porém, Portugal e Espanha procuraram reagir ante a ameaça de perderam parte de sua colônia. Uma expedição comandada por Jerônimo de Albuquerque, com centenas de portugueses, brasileiros e indígenas foi enviada para retomar a área.
 As lutas, porém, não resultaram em vitória clara para qualquer dos lados. No dia 3 de novembro de 1615, La Ravardière, vendo que não havia possibilidade de encontrar uma maneira diplomática para resolver o assunto, e sabendo de sua inferioridade em homens e material bélico, rende-se ao chefe português. Era o fim do segundo projeto de colonização francesa no Brasil.
Emerson Santiago

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A VERDADE SOBRE A HISTÓRIA DE CLEÓPATRA

Novos estudos mostram que Cleópatra não era devassa, não morreu picada por uma cobra, era piadista, ótima estrategista... E estava longe de ser bela
Todos na cidade mediterrânea de Tarso já tinham ouvido os rumores. Fofoca sempre correu rápido. Por isso, uma multidão cada vez maior aglomerava-se nas margens do rio Cidno, em 41 a.C., para assistir ao espetáculo que, afinal, foi um dos mais incríveis da Antiguidade. Em meio a uma explosão de aromas e cores de nuvens de incensos, uma barcaça de popa dourada e velas púrpura, com dezenas de remos de prata, subia calmamente pelas águas turquesa. A batida dos remadores marcava o ritmo para a orquestra de flautas, gaitas e liras no convés. Lindas mulheres vestidas de ninfa trabalhavam no leme e nas cordas. Uma escolta de navios de suprimentos seguia atrás, levando louças de ouro, tapeçarias, joias caríssimas.
Reclinada sobre um divã e abanada por graciosos meninos, vinha uma mulher de 28 anos, ornada como a Vênus de uma pintura. Era, talvez seja desnecessário dizer, a pessoa mais rica do Mediterrâneo. E também articulada, carismática, fluente em nove línguas, versada em política, diplomacia e governo, estrategista militar. Não exatamente bonita, mas dona de um grande senso de humor e de muito charme. Conquistava quem quisesse. O espetáculo era para seduzir mais um - que, a bem da verdade, estava longe de ser qualquer um. Afinal, Cleópatra, a rainha do Egito, não podia conhecer o general romano Marco Antônio, recém-convertido em um dos homens mais poderosos do mundo, de qualquer maneira. Esse era seu jeito de fazer as coisas: de forma surpreendente, sim, mas muito eficiente.
Ela teve uma das pós-vidas mais movimentadas da História. "Já virou nome de asteroide, de videogame, marca de cigarro, caça-níqueis, clube de striptease, um esteriótipo... E sinônimo de Elizabeth Taylor", diz (sem citar clássicos, como a peça de Shakespeare), a escritora Stacy Schiff, autora do mais recente livro sobre a monarca, Cleópatra: Uma Biografia.
No futuro, talvez o rosto da egípcia se confunda com o da atriz Angelina Jolie, já que a obra deve virar filme 3D, a ser lançado em 2013. Assim como fez Stacy, o esperado blockbuster promete desmontar vários mitos criados em torno da rainha: os de ser uma libertina e traiçoeira, de ter como principal atributo a arte da sedução e de ter morrido picada por uma cobra, entre tantos outros (embora o da estarrecedora beleza, com Angelina no papel principal, seja mais difícil de ser extinto). O problema de Cleópatra é que sua história foi contada pelos romanos - além de serem seus inimigos, eles acreditavam que apenas os homens podiam ser tão poderosos.

A rainha
A primeira impressão é a que fica. E Cleópatra fascinou Marco Antônio, que acabara de vencer uma guerra civil ao lado de Otaviano contra os assassinos de Júlio César, tio do aliado. O próprio César havia se rendido aos encantos da rainha sete anos antes. O encontro deles, porém, foi mais inusitado. Cleópatra estava exilada no deserto da Síria. No primeiro ano de seu reinado ao lado do irmão e corregente Ptolomeu XIII, com quem se casara aos 18 anos (ele tinha 10) para garantir o trono na capital, Alexandria, em 51 a.C., o Egito sofria com secas e fome. A população se revoltou contra a monarca quando ela financiou uma campanha militar do general romano Pompeu, amigo de seu pai morto. E ela teve de fugir. Pompeu enfrentou justamente César, que, vitorioso, virou o homem forte de Roma e viajou para o Egito. Segundo o historiador da Universidade da Califórnia Stanley Burstein, autor de The Reign of Cleopatra (sem edição no Brasil), Roma precisava do dinheiro do rico país para custear seus altos gastos de guerra. César instalou-se no palácio de Ptolomeu XIII e, numa tentativa de estabelecer a paz egípcia, pediu aos dois irmãos que o encontrassem. Ptolomeu não aceitou e proibiu o retorno de Cleópatra. Ela, porém, ajudada por comparsas, navegou escondida por dias e, em Alexandria, enfiou-se em uma sacola usada para transportar papiros. Assim, foi "despejada" no quarto do cinquentão César. Não se sabe bem o que aconteceu lá. "Seja o que for, Ptolomeu sentiu-se traído ao ver Cleópatra sentada ao lado do romano", diz Burstein. Furioso, mandou cercar o castelo.
O sítio durou seis meses e ajudaria a revelar a visão de estrategista da rainha. Como Duane Roller escreveu em Cleopatra: A Biography (inédito em português), sem apoio popular, Ptolomeu XIII foi preso e sua irmã Arsínoe tomou o trono. Chamado a conversar com César, ele se desmanchou em lágrimas, pediu clemência e comoveu o general. Mas logo acionou suas tropas contra o casal. O teatro não surpreendeu Cleópatra. Ao contrário: ela mesma teria sugerido a César fingir piedade e libertar Ptolomeu, prevendo que, ao insistir nos combates, ele se tornaria ainda mais impopular. A chegada de reforços romanos encerraria a Guerra Alexandrina. Ptolomeu XIII morreu tentando fugir e Arsínoe foi presa - depois seria executada a mando da irmã. Cleópatra terminou a temporada grávida de César. Era o primeiro filho do general, futuro ditador de Roma. O trono, claro, sobrou para Cleópatra, agora casada com seu outro irmão, Ptolomeu XIV. Era a forma que César encontrara "para abrandar a raiva romana por ele próprio estar indo para a cama com ela", afirma Stacy.
Nada poderia ser melhor ao projeto político da faraó do que gerar esse filho, Cesário. "A aliança com César, envolta em sedução e romance, foi, antes de tudo, um ato político bem planejado e de expressivas consequências", afirma Maurício Schneider, doutor em egiptologia pela USP. "A rainha conseguiu vencer a oposição, se firmar no trono e ainda arrastou o romano para seus objetivos imperiais, dando-lhe um filho." (Mais tarde, Ptolomeu XIV seria envenenado e Cesário se tornaria corregente da mãe.) Seu reinado seguiu de vento em popa. Ela governava com pulso firme. "Ministrava a justiça, comandava o Exército e a Marinha, regulava a economia, negociava com poderes estrangeiros e presidia os templos", diz Stacy. Ganhou o apoio dos súditos com a economia próspera e fez crescer também seu patrimônio, herdado da família e construído, sobretudo, em transações comerciais. Por ano, calcula-se, seus rendimentos batiam 15 mil talentos de prata. Um sacerdote, cargo dos mais cobiçados, ganhava 15. Em valores atuais, a fortuna alcançaria 96 bilhões de dólares (quase o valor do orçamento deste ano do governo brasileiro para investimentos). A vida de Cleópatra mudaria quando seu amante foi assassinado pelos senadores romanos, em 44 a.C. Seguiu-se (outra) guerra civil, que terminou anos depois com a vitória de Marco Antônio e Otaviano e a instalação do Segundo Triunvirato. Foi quando a monarca fez sua triunfal apresentação a Antônio - e voltou a ganhar um amante poderoso.

A mulher
Diferentemente do que se imagina, a rainha do Egito estava longe de ser uma devassa. Júlio César foi provavelmente seu primeiro homem, e Antônio, o segundo (e último). Não há registro confiável de outros envolvimentos amorosos. Além de Cesário, ela teve mais três filhos, todos reconhecidos por Antônio: Alexandre Hélio e os gêmeos Cleópatra Selene e Ptolomeu Filadelfo. O relacionamento dos dois foi longo (11 anos) e, de forma geral, divertido. O casal adorava promover grandes banquetes. Eles fizeram um "pacto de boa vida" e apelidaram a si mesmos de Inimitáveis Viventes.
Cleópatra Thea Philipator ("deusa que ama o pai", um dos muitos títulos que se atribuiu) estava acostumada ao luxo e à fartura desde que nascera, em 69 a.C., segunda de cinco filhos (leia à pág. 29). O pai, Ptolomeu XII, ou Ptolomeu Auletes, era provavelmente um filho bastardo, da dinastia ptolomaica ou lagide, descendente do general, provador oficial e amigo íntimo de Alexandre, o Grande. A Ptolomeu I coube o controle do Egito após a morte do macedônio. Era o início da Era Helênica. Para garantir a própria legitimidade e provar sua ascendência divina, os ptolomaicos faziam como os deuses: casavam-se entre eles. Cleópatra, portanto, tinha sangue grego. Não se sabe quase nada sobre sua mãe, que desaparece na primeira infância da menina. Há dúvidas, inclusive, sobre quem ela seria. Criada por babás, a garota cresceu entre políticos e pensadores. Viajava muito com o pai e teve ótima educação. Podia recitar de cor a Ilíada e a Odisseia. Sabia aritmética, geometria, música e astrologia. Formou-se em retórica e aprendeu nove línguas, inclusive hebraico, troglodita (uma língua etíope) e egípcio (coisa que nenhum ancestral seu o fez).
Não se parecia nada (talvez a peruca) com Liz Taylor. "Não há retratos de Cleópatra, a não ser os bidimensionais das moedas que cunhou", diz Roller. "Elas mostram um nariz e um queixo proeminentes, características de família." Segundo o egiptólogo Júlio Gralha, da Universidade Federal Fluminense, isso pode também ser simbólico: ela queria ser vista parecida com os antepassados, de forma a legitimar seu poder. Para compensar a "feiura", era elegante e carismática. "O contato de sua presença, se se convivia com ela, era irresistível", escreveu o filósofo grego Plutarco. "Ela era astuta e inteligente, e isso era grande parte de seu charme", afirma Gralha. Sem contar o senso de humor. "Capaz de fazer os outros rirem mesmo sem querer", resumiu o orador romano Cícero.
Cleópatra foi careca em certos momentos (possivelmente durante as epidemias de piolho). Adepta das tradições locais, nessas ocasiões usava as perucas com as quais sempre foi retratada, embora um modelo com coque fosse mais provável. Costumava associar sua imagem à da deusa Ísis, dominava tratamentos de beleza (adorava os banhos de leite de jumenta) e maquiagem. Segundo Stacy Schiff, ela ainda era fascinada por venenos - estudava muito o assunto, consultava-se com químicos e médicos, sabia as propriedades de cada tipo, quais matavam mais lentamente...

A lenda

É impossível dissociar a história de Cleópatra à de Roma. Na península Itálica, as coisas não iam nada bem entre Otaviano e Marco Antônio. A relação era cordial apenas na aparência - Antônio até se casara com a irmã de Otaviano, Otávia, para tentar fortalecer a aliança. Só que ela degringolou de vez em 37 a.C., quando o general mudou para o Egito para viver com a amante. Lá, continuou a comandar seu exército e a conquistar territórios para Roma. Muitos deles, como a ilha de Chipre, parte do atual Líbano, terras na Líbia e na costa da Turquia modernas, porções de Creta e quase todas as cidades do litoral fenício, Antônio "deu" a Cleópatra - que, assim, dirigiu um território tão grande quanto o do auge da Era Helênica. Otaviano ficou uma fera. Ele tinha outra forte razão para odiar a rainha egípcia: ela era mãe do filho legítimo de César, uma ameaça ao seu poder em Roma. (Além de sobrinho de César, ele fora adotado como herdeiro direto.) Quando Marco Antônio pediu o divórcio de sua irmã, foi a gota d’água.
Otaviano começou então uma campanha contra Cleópatra - e, assim, deu início à série de lendas que surgiriam em torno dela. Na sua versão dos fatos, Antônio era um joguete nas mãos da monarca ardilosa, que pretendia conquistar Roma, como fizera com o general. Em outubro de 32 a.C., declarou guerra à rainha. Ela rumou com o amante para o front militar, na entrada do golfo de Corinto. Os romanos, porém, não aceitaram a presença de uma mulher no acampamento. Muitos desertaram, inclusive homens da confiança de Antônio, o que o deixou abalado. O problema aumentou com a Batalha do Ácio. Cleópatra propôs que, em meio ao confronto, seus navios (carregados com grande parte de seu tesouro) furassem o bloqueio e voltassem para o Egito - seguidos pela frota de Antônio. Quando o vento estava a seu favor, ela cruzou a linha inimiga e o general foi atrás dela, mas seus homens não o seguiram. Provavelmente porque estavam lutando no mar contra a vontade (eles preferiam a terra, Cleópatra insistiu no combate naval) ou porque achavam mais honroso continuar brigando pelo controle de seu país do que seguir uma estrangeira.
O fato é que Marco Antônio foi embora arrasado e seus homens perderam a guerra. "Passou-se quase um ano até que o exército de Otaviano entrasse em Alexandria", diz Stanley Burstein. "No intervalo, Antônio caiu em uma profunda depressão, enquanto Cleópatra eliminava os inimigos suspeitos (de conspirar contra ela e o amante)." A rainha também mandou construir um mausoléu às pressas. E teria iniciado um processo de negociação com Otaviano, oferecendo a abdicação em troca de clemência - o romano até concordava, mas queria a cabeça de Antônio. Nem na tormenta o bom humor do casal se dissipou: continuava a promover bebedeiras. Mas, apropriadamente, a dupla trocou o nome da Sociedade dos Inimitáveis Viventes para Companheiros da Morte. Quando Otaviano finalmente chegou a Alexandria, Cleópatra fugiu para o mausoléu, que já abrigava seu tesouro, e mandou um mensageiro dizer a Antônio que havia se suicidado. Sabia que, assim, ele se mataria também. "É claro que Cleópatra havia cedido ao pedido de Otaviano de sacrificar o amante em troca do Egito", diz Stacy Schiff. "Ela é acusada de tantas traições que é difícil saber como entender essa, talvez a mais humana e menos surpreendente."
Fórmula mortal
Ao saber da notícia, o general enfiou uma espada no peito, mas errou o coração e pediu ajuda dos criados, que o abandonaram. Ele teria descoberto que a monarca não estava morta, arrastou-se até o mausoléu e foi içado para dentro. Desesperada, Cleópatra teria gritado e esmurrado o próprio peito, enquanto Antônio morria em seus braços. Os homens de Otaviano invadiram o local em seguida e a prenderam. Dias depois, ela tomou veneno. A cobra que a teria picado é uma invenção, fruto da "conveniência metafórica" - o animal era símbolo do poder dos faraós. Pesquisa do historiador Christoph Schäfer, da Universidade de Trier, concluiu que ela mesma preparou seu coquetel: "Considerando os sintomas, foi uma mistura de acônito, uma planta tóxica, cicuta e ópio." Ganhou um pomposo cortejo um ano depois. Segundo o historiador romano Cássio Dio, a procissão superou todas as outras em "custos e magnificência". A rainha aparecia em seu leito de morte, em gesso pintado, junto com uma serpente. (Outra pista sobre como prosperou a versão da picada suicida.)
Cleópatra morreu em 30 a.C., mas desde agosto do ano anterior o seu Egito não existia mais. Era só mais uma colônia de Roma. E a campanha contra ela, iniciada em vida por Otaviano, consolidou-se após a sua morte. Os romanos atrelaram toda a história da última faraó à sua sexualidade. Afinal, era melhor pensar que a mulher mais poderosa do mundo no século 1 a.C. conseguiu quase tudo o que quis porque era incrivelmente sedutora - e não porque era incrivelmente inteligente.

Poder e sangue
A dinastia Ptolomaica (305 a.C. a 30 a.C.) 
Os Ptolomeus se mantiveram no poder casando-se (e matando-se) entre si, entre 305 a.C. e 31 a.C. Na terra dos governantes que eram também divindades, os "estrangeiros" suaram para fabricar uma ligação com os típicos faraós. Por isso, os gregos ptolomaicos assumiram o casamento entre irmãos, um hábito egípcio. O incesto - desconhecido na Grécia, a ponto de não haver na língua uma palavra para isso - evitava "manchas" no sangue azul ou eventuais disputas pelo poder nas bodas com elites estrangeiras. Dos 15 casamentos centrais da dinastia, dez foram entre irmãos. Nos demais, sempre havia algum parentesco. As uniões, porém, não evitaram crimes violentos em conflitos sucessórios. A tia bisavó de Cleópatra VII era esposa e sobrinha de Ptolomeu VIII. Ele a estuprara quando ela era adolescente. Cleópatra perdeu a irmã mais velha, Berenice, morta pelo pai. Ela mesma foi responsável direta pela morte de dois irmãos.

Cláudia de Castro Lima - Revista Aventuras na História - Julho de 2012.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

GUERRA HISPANO-AMERICANA

Ficou conhecida pelo nome de Guerra hispano-americana o conflito ocorrido entre a Espanha e os Estados Unidos em 1898, culminando com a tomada de Cuba, Porto Rico e Filipinas  ao domínio espanhol. Com exceção da guerra de independência e a guerra de 1812, ambas travadas contra sua antiga metrópole, a Grã-Bretanha, esta foi a primeira guerra dos norte-americanos contra uma nação européia.
 O conflito, que duraria aproximadamente oito meses foi também a primeira grande vitória militar dos Estados Unidos sobre uma potência estrangeira. Tal guerra sinalizou de vez a decadência espanhola como potência mundial e catapultou os Estados Unidos para o primeiro plano das disputas políticas globais.
 A Espanha tinha perdido quase todas as suas colônias na primeira metade do século XIX e restavam apenas alguns poucos lugares do antigo império onde "o Sol nunca se punha". Já os Estados Unidos, depois de uma devastadora Guerra Civil entre 1861 e 1865, continuavam sua vertiginosa expansão econômica, ao mesmo tempo em que mantinham um isolamento político em relação às questões mundiais.
 A luta contra a Espanha foi feita sob o pretexto de defender o povo cubano da feroz repressão espanhola, mas, os seus motivos reais estavam na importância econômica e estratégica em exercer o controle efetivo dos mais relevantes territórios espanhóis. O pretexto para a declaração de guerra foi dado pela explosão do couraçado americano Maine a 15 de Fevereiro de 1898, e que a imprensa americana apresentou como sendo obra de sabotagem por parte dos espanhóis, tornando a guerra praticamente inevitável. De fato, a 24 de abril de 1898, na sequência de um ultimatum norte-americano exigindo a retirada das forças espanholas da ilha de Cuba, a Espanha declara guerra aos Estados Unidos.
 Contando naquele momento com uma marinha muito mais poderosa que a espanhola, os EUA iriam derrotar fragorosamente o rival espanhola nas batalhas da Baía de Manila, nas Filipinas, e da Baía de Santiago, em Cuba. Com o domínio do mar, os americanos puderam projetar seu poder em terra e vencer as tropas inimigas. Como "prêmio" pela vitória, os norte-americanos assumiriam o controle de Cuba, Porto Rico e Filipinas. O Império colonial espanhol ficou reduzido a esparsos territórios na África ainda mal conhecidos e explorados.
 Cuba tem sua independência logo em 1902, mas permaneceria intimamente ligada à política e interesses dos EUA, o que fazia da ilha na prática uma colônia, situação que continuou por várias décadas. As Filipinas ficariam maior tempo sob administração norte-americana, tendo sua independência reconhecida apenas em 1946, mas assim como Cuba, ficaria por décadas ligada economicamente à sua metrópole. Porto Rico ainda hoje forma um estado associado aos EUA, e seus cidadãos tem cidadania americana garantida. Lá, o movimento por independência ainda busca maior apoio entre a população, embora tenha crescido nos últimos anos.
Emerson Santiago

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

1968 - O INÍCIO DE TUDO

“Mas quem tomou as grandes decisões em 1968? Os movimentos mais característicos do 68 idealizaram a espontaneidade e se opuseram à liderança, estruturação e estratégia." - Eric Hobsbawn

Desde 1965, a pretexto do incidente do Golfo de Tonquim (que provou-se falso), o presidente norte-americano Lyndon Johnson ordenara o sistemático bombardeio do Vietnã do Norte, bem como o desembarque, no Vietnã do Sul, de um reforço de mais de 300 mil soldados para evitar uma possível vitória dos vietcongs (guerrilheiros comunistas que combatiam o governo sul-vietnamita que era pró-americano). Os Estados Unidos atolavam-se na Guerra do Vietnã.
 No dia 30 de janeiro, na celebração do Teth, o Ano Novo vietnamita, os vietcongs, num ataque relâmpago de surpresa, tomaram de assalto 38 cidades sul-vietnamitas, entre elas Hue e Saigon (onde chegaram a ocupar a embaixada dos EUA), provocando uma derrota tática nas forças armadas norte-americanas. Apesar de terem perdido 30 mil homens na operação os vietcongs provaram serem capazes de frustar as expectativas de uma vitória americana.
 A partir de então a crescente oposição à guerra dentro dos Estados Unidos quase tornou-se numa aberta insurreição da juventude. A violência dos bombardeios sobre a população civil vietnamita, composta de aldeões paupérrimos, já havia provocado desconfiança em relação a justeza da intervenção no Sudeste da Ásia. Diariamente a televisão americana mostrava imagens dos combates e dos sofrimentos dos soldados e dos civis. Somou-se a isto a visível falta de perspectiva para solucionar o conflito. Era inaceitável que a maior potência do Mundo atacasse um pequeno país camponês do Terceiro Mundo.
 A Ofensiva do Ano Teth teve enormes repercussões. O Davi vietcong fizera cambalear o Golias americano. Como o Estados Unidos representava a Lei e a Ordem no mundo do após-guerra, era natural que todas as instituições por ele garantidas ou a ele associadas passassem a ser questionadas. A superpotência fora ferida na Ásia. Era possível abalar, senão pôr abaixo, tudo o que de alguma forma representasse o status quo, o estabelecimento, o regulamento, o conformismo social e sexual, o mesmismo existencial, a vida acadêmica, etc...
 Paralelamente à Guerra Vietnamita, na China Popular Mao Tse-tung desencadeara a partir de 1965 a Grande Revolução Cultural Proletária (Wuchanjieji Wenhua Dageming), convocando para grandes manifestações a juventude chinesa. Estudantes, filhos de funcionários, de trabalhadores e de camponeses, na idade dos 14 aos 18 anos, agrupados nas Guardas Vermelhas, tomaram conta das ruas das grandes cidades num protesto-monstro contra os Zou zi Pai, aqueles elementos do partido comunista que, acreditavam eles, tinham simpatias pelo capitalismo e pela burguesia e que se encontravam infiltrados nos aparatos do poder. Mao Tse-tung, em velada luta contra altos setores da hierarquia do Partido Comunista chinês, convocara os jovens para auxiliá-lo a recuperar a autoridade. Para tanto fanatizou-os com a leitura de trechos seus selecionados um pequeno livro: O Livro Vermelho dos pensamentos do Presidente Mao, que passou a ser interpretado com fervor religioso pelos militantes juvenis. Voltando-se contra o passado chinês tradicional, provocaram cenas de vandalismo e intolerância. A imagem de milhares deles marchando e cantando pelas praças e avenidas chinesas, em nome da Revolução, serviu de emulação para que os estudantes ocidentais também viessem a imitá-los quando a ocasião se tornou propícia.
 Além da indignação geral provocada pela Guerra Vietnamita e o fascínio pelas multidões juvenis da Revolução Cultural chinesa, também pesou na explosão de 1968 a morte de Che Guevara na Bolívia, ocorrida em outubro de 1967. Seu martírio pela causa revolucionária serviu para que muitos se inspirassem no seu sacrifício. Jovens de todas as partes, especialmente na Europa e na América Latina, tentando atender ao seu apelo para que se formassem em outros lugares do mundo, “dois, três Vienãs” lançaram-se na vida guerrilheira.
 Voltaire Schilling