terça-feira, 1 de outubro de 2013

OS MOVIMENTOS DE CONSTETATAÇÃO E A CRISE DA OLIGARQUIA BRASILEIRA

Os Movimentos no Campo
                No Brasil, no inicio da República, havia uma grande dificuldade de comunicação entre o sertão e as regiões urbanizadas, localizadas geralmente nas regiões litorâneas. O povo sertanejo vivia em situações precárias, isolado e com poucas opções de trabalho. Grande parte morava e trabalhava nas terras dos coronéis. Uma das alternativas buscada pelos mais pobres foi o messianismo, que é a esperança depositada em um líder capaz de livrá-los do sofrimento. Pessoas com grande carisma, que ajudavam os necessitados e pregavam valores cristãos, eram idolatrados pelo povo e considerados “salvadores”. Já o governo os via como subversivos e pessoas perigosas à segurança nacional. Neste contexto cabe destacar dois movimentos messiânicos no Brasil, durante o inicio do período republicano: Canudos e Contestado.
                Um dos pregadores que foi considerado pelo povo como um salvador foi o beato Antônio Conselheiro. Percorrendo o sertão do Nordeste brasileiro, Conselheiro reuniu um grande número de seguidores. Em 1893, eles organizaram uma sociedade comunitária, na qual as leis seriam baseadas nas palavras da Bíblia, e todas as pessoas trabalhariam cooperando entre si. Para isso, estabeleceram-se em uma fazenda abandonada, em uma região chamada Canudos. Lá fundaram um arraial, que chamaram de Belo Monte. Os habitantes desse arraial plantavam feijão, cana-de-açúcar e mandioca e criavam caritos. Eles produziam para a subsistência e vendiam o excedente nas cidades próximas, para comprar armas e madeira. Apenas 3 anos após a sua fundação, o arraial já contava com cerca de 10 mil habitantes. A quantidade de famílias que estava se mudando para Canudos começou a incomodar os poderosos da região. Os habitantes do arraial trabalhavam em beneficio próprio, negociando seus produtos diretamente com os comerciantes. Muitas famílias acabavam fugindo das fazendas dos latifundiários para ir viver em Canudos, deixando os grandes proprietários com pouca mão-de-obra para se explorada. Além disso, eles aprendiam a doutrina cristã da forma que Conselheiro pregava, o que contrariava a Igreja Católica. Como Conselheiro era monarquista, os habitantes do arraial criticavam a república, principalmente por causa das cobranças dos altos impostos. Estes fatores fizeram com que o governo começasse a olhar para Canudos como um problema a ser resolvido. Alguns jornais do país, apoiados em relatórios da Igreja e em boatos chamavam os habitantes de Canudos de fanáticos e monarquistas. Nessa época, a República estava sendo consolidada, e a ideia de um reduto monarquista no sertão preocupava as autoridades republicanas. Diante dessa situação em 1896, o governador da Bahia solicitou ao Exército a aniquilação do arraial de Canudos. O Exército realizou três expedições a Canudos, que foram derrotadas, devido à tenaz resistência dos habitantes do arraial. Em 1897 foi enviada uma quarta expedição com mais de 8 mil soldados. Essa expedição dizimou o arraial, massacrando sua população, inclusive mulheres, idosos e crianças.
                No início do século XX outro movimento messiânico, agora na divisa de Santa Catarina e Paraná movimentou a República. Essa região onde vivia cerca de 60 mil pessoas era conhecida como Contestado, por ser reivindicada pelos dois estados desde o Império. Os habitantes dessa região praticavam agricultura de subsistência e o corte de madeiras. O governo republicano doou as terras para as empresa estadunidense  Brazil Railway Company construírem uma estrada de ferro  que ligaria os estados de São Paulo  e Rio Grande do Sul e uma serraria. Boa parte dos pequenos proprietários da região foram expulsos das suas terras sem indenização. Ao término da construção da ferrovia a situação se agravou, pois 8 mil trabalhadores ficaram desempregados. Em meio à miséria, a população buscou refúgio nas palavras do beato José Maria. Dizendo-se um eleito de Deus e prometendo o advento de um reino de justiça, que muitos identificavam como monarquia, José Maria passou a ser seguido por milhares de fiéis. A reunião de um numero tão grande de  pessoas assustava os coronéis locais, temerosas de que essas pessoas fizessem exigências politicas contrárias aos seus interesses. O assassinato de José Maria em 1912 não enfraqueceu o movimento e a partir de 1913, por várias vezes as tropas governamentais lançaram ataques contra redutos rebeldes. Em setembro de 1914, uma tropa com mais de 7 mil soldados ocupou a região. Os soldados tiveram que enfrentar uma destemida resistência, munidos de velhas espingardas, foices e facões. Somente em janeiro de 1916, o ultimo líder dos sertanejos foi derrotado e a Guerra do Contestado chegou ao fim. Cerca de 20 mil pessoas entre homens, mulheres, crianças e idosos morreram no conflito. Em agosto de 1916 Santa Catarina e Paraná dividiram as terras do Contestado que acabou sendo colonizada por imigrantes italianos e alemães que vieram do Rio Grande do Sul.
Entre os séculos XIX  e meados do XX, um tipo específico de banditismo se desenvolveu no sertão nordestino: o cangaço. O termo Cangaço é proveniente de canga, uma peça de madeira utilizada em pescoços de boi para transporte. Como os chamados cangaceiros tinham que carregar todos seus pertences junto ao corpo, deu-se o nome a partir da associação. O primeiro homem a ter agido como cangaceiro teria sido José Gomes ou Cabeleira, como era chamado. Diz-se que ele aterrorizava a região de Recife na segunda metade do século XVIII. Mas o movimento só ganhou corpo mesmo no final do século XIX. Nesta época, o nordeste passava por momentos difíceis e homens criminosos espalhavam o terror com suas vidas nômades. Já o primeiro grupo propriamente dito foi o de Jesuíno Alves de Melo Calado, chamado de Jesuíno Brilhante, que também praticou seus atos criminosos na segunda metade do século XVIII. As origens do movimento estão nas próprias questões sociais e fundiárias do Nordeste. Para enfrentar tal panorama, homens isolados ou em bandos assaltavam fazendas, sequestravam e matavam coronéis e saqueavam o que podiam. Os cangaceiros, em geral, viviam cometendo crimes, fugindo e se escondendo. Mas havia três grupos no Cangaço. Um deles prestava serviço aos próprios latifundiários, logo, não eram tão fugitivos assim. Havia um segundo grupo que representava mais ainda os poderes locais dos fazendeiros, tanto que eram conhecidos como “políticos”. Estes, consequentemente, gozavam até de certa proteção. Somente um terceiro grupo que era independente e que praticava uma vida bandida por conta própria. Todos eles, contudo, conheciam bem a natureza do cerrado brasileiro e, por isso, tinham ampla vantagem na hora de fugir das autoridades. Era da natureza também que tiravam todos os recursos para enfrentar as adversidades. O cangaceiro mais famoso da história, sem dúvidas, foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Sua importância para o movimento é tamanha que, por vezes, é chamado de Senhor do Sertão ou Rei do Cangaço. Suas ações são bem mais recentes, junto com seu grupo, atuou nas décadas de 1920 e 1930 em quase todo o nordeste do país. Lampião tinha uma personalidade dúbia. Para as autoridades era um criminoso brutal que precisava ser eliminado. Para a população da região era o símbolo de bravura e de honra. O Cangaço permaneceu vivo por tanto tempo na história do Brasil porque os próprios latifundiários desejavam. Eles o mantinham ativo, pois era alternativa para cobrança de dívida e uma possibilidade para formar os exércitos mercenários em caso de disputas de famílias. O fenômeno só foi atacado definitivamente por ação do Estado no governo de Getúlio Vargas. Este determinou que qualquer foco de desordem no território deveria ser eliminado e empreendeu uma caçada por Lampião, símbolo do Cangaço. Todos os cangaceiros que não se rendiam eram mortos pelo governo, o que aconteceu com Virgulino no dia 28 de julho de 1938. Vários cangaceiros foram degolados e suas cabeças foram conservadas para exposição no nordeste, como forma de demonstração do que aconteceria com os não cumpridores da ordem. Depois do fim de Lampião, chefes de outros bandos se entregaram. O último grupo famoso foi o de Cristino Gomes da Silva Cleto, conhecido como Corisco, que chegou ao fim no dia 25 de maio de 1940 com a morte de seu líder.
A Crise da República Oligárquica e os Movimentos Militares
                Ao final da Primeira Guerra Mundial, o pacto entre as elites que dava sustentação ao regime oligárquico começou a dar sinais de esgotamento. Manifestações de insatisfação e criticas ao modo pelo qual eram conduzidas a política e a economia agitavam vários setores da sociedade, entre os quais a classe trabalhadora e as camadas médias urbanas. Esse mal estar atingia até mesmo representantes das oligarquias de diversas regiões do país. Também no Exército , vinha crescendo a insatisfação entre os jovens oficiais, genericamente chamados de tenentes, contra o regime. Eles pregavam a moralização dos costumes políticos, o fim das oligarquias, a centralização do poder, a implantação do voto secreto, uma política nacionalista e o fortalecimento da instituição militar. Estes oficiais julgavam-se a única força capaz de “salvar a pátria”, pois acreditavam que o restante da população era inculta. Dessa forma o clima de descontentamento espalhava-se pelo país. Insatisfeitos com o controle oligárquico do poder, diversos grupos sociais davam sinais claros de que desejavam uma renovação na vida nacional.
                No dia 5 de julho de 1922, três dias depois de ter sido decretada a prisão de Hermes da Fonseca, 302 jovens militares do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, se sublevaram. Para reprimi-los o governo enviou cerca de 3 mil soldados, que cercaram a fortaleza. Numericamente inferiorizados, a grande maioria se rendeu, mas 28 militares, mesmo sem condições de enfrentar as tropas do governo, saíram pelas ruas de Copacabana de armas em punho. No meio do caminho alguns rebeldes debandaram, sobrando 18 homens que ganham a adesão de um civil. Nos tiroteios que se seguiram apenas dois rebeldes sobreviveram. O acontecimento conhecido como os “18 do Forte”, marca o inicio da luta dos tenentes contra as oligarquias no poder, movimento conhecido como tenentismo. Dois anos mais tarde, no mesmo dia 5 de julho eclodiu uma nova revolta tenentista, agora em São Paulo. Por três semanas a capital paulista esteve ocupada pelos revoltosos, que ergueram barricadas e trincheiras em pontos estratégicos da cidade. Nesse período São Paulo viveu um clima de guerra, com tiroteios e bombardeios aéreos praticados pelas forças governamentais. Depois de 23 dias de combates, os tenentes abandonaram a capital e, com a ajuda dos ferroviários, se deslocaram em direção ao rio Paraná, no oeste do estado, seguindo para Foz do Iguaçu, no Paraná.
                Movimentos semelhantes eclodiram em outros estados, como Mato Grosso, Sergipe, Amazonas e Rio Grande do Sul. O governo federal procurou sufoca-los. Muitos militares foram presos e condenados a trabalhos forçados no extremo norte do Brasil, no atual estado do Amapá. Em abril de 1925, na região de Foz do Iguaçu, os rebeldes paulistas, liderados pelo major Miguel Costa, uniram-se aos gaúchos comandados pelo capitão Luís Carlos Prestes. Surgiu assim a Coluna Prestes, que por mais de dois anos percorreria a pé 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil, combatendo as forças do governo e defendendo os ideias tenentistas e, também tentando convencer a população a lutar por esses ideais. Usando táticas de guerrilha, o grupo inicialmente formado por 1500 pessoas venceu a maior parte dos combates contra as forças do governo. Por isso passou a ser chamada também de Coluna Invicta. Em fevereiro de 1927, a Coluna Prestes estava reduzida a pouca mais de 600 integrantes mal armados e esgotados pela longa marcha. Além disso, não havia recebido auxilio de novas rebeliões tenentistas como esperavam. Seus líderes decidiram então se refugiar na Bolívia. Algum tempo depois Luís Carlos Prestes entraria em contato com o marxismo ao qual se converteria em 1930. Em 1934 ele se filiaria ao PCB, tornando-se por muitos anos seu principal dirigente.
                Quando os membros da Coluna Prestes ingressaram na Bolívia, o Brasil já se encontrava na presidência do paulista Washington Luís (1926-1930). Seu governo que vinha sob relativa tranquiladade, sofreu um grande abalo após a quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929. O Brasil entrou em uma de suas maiores crises: muitas fábricas faliram, milhares de pessoas foram demitidas. Boa parte daqueles que mantiveram seus empregos tiveram seus salários reduzidos à metade. O preço da saca de café despencou de 200 mil réis para 21 mil réis em poucos meses, abalando toda a economia nacional. Os cafeicultores pediram ao presidente a concessão de novos financiamentos para que pudessem quitar seus empréstimos no exterior. O pedido foi negado, deixando os fazendeiros extremamente insatisfeitos. Não bastassem esses problemas, as eleições presidenciais para março de 1930 encontravam-se tumultuadas. De acordo com a politica café-com-leite estabelecida pelas oligarquias mineira e paulista, Washington Luís deveria poiar um mineiro para sucedê-lo, porém, ele rompeu o acordo e indicou o nome do governador de São Paulo Júlio Prestes. Inconformados, os mineiros uniram-se aos gaúchos e aos paraibanos e formaram uma Aliança Liberal. Juntos lançaram a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas e do governador da Paraíba João Pessoa à vice. O programa da Aliança Liberal procurava responder aos anseios das classes médias brasileira com medidas favoráveis a classe operária com a regulamentação do trabalho. Formada por representantes das elites regionais desvinculadas do setor cafeeiro, a Aliança defendia medidas de proteção aos trabalhadores. Nas eleições realizadas em março Júlio Prestes venceu. Os líderes da Aliança Liberal aceitaram o resultado das urnas, mas setores tenentistas que apoiavam Getúlio Vargas passaram a articular-se com o propósito de promover um movimento contra as oligarquias no poder. No dia 26 de julho, um fato inesperado  proporcionou o estopim para a Revolução: o assassinato de João Pessoa (candidato a vice da Aliança Liberal). O crime teve motivos passionais, mas os integrantes da Aliança Liberal responsabilizaram o presidente Washington Luís. O movimento que vinha se articulando ganhou força e a “Revolução” irrompeu no dia 3 de outubro de 1930. Iniciada no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, o movimento alastrou-se para outros estados. No dia 24 de outubro os militares depuseram o presidente Washington Luís e constituíram uma junta provisória de governo. No dia 3 de novembro, a junta provisória entregou a presidência a Getúlio Vargas. A República Oligárquica chegava ao fim.





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