sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A TRAJETÓRIA DOS POLINÉSIOS NO OCEANO PACÍFICO

Os polinésios já navegavam pelo oceano Pacífico havia 9 séculos quando Jesus pregava na Galileia. Saíram do sul da Ásia e quase chegaram à América do Sul sem bússolas e astrolábios. Como foram tão longe?

Sem escrita e sem dominar a fundição de metais, os polinésios fizeram um “império” que só perde para o Mongol em área – inacreditáveis 22,5 milhões de km². Quase nada é terra. 
Cerca de 90% da área terrestre é ocupada pela Nova Zelândia. Dos 10% restantes, metade é o Havaí. Eles lançaram-se ao mar por pura necessidade. Sempre que havia o risco de romper o equilíbrio ecológico por causa da explosão demográfica, um grupo deixava o lugar e partia em busca de uma nova ilha para colonizar. Hoje eles ainda estão por ali. Da Oceania à ilha de Páscoa, são 7,1 mil km. De lá, o vértice do triângulo sobe até o arquipélago havaiano, a 7,5 mil km, pouco menos do que seguir em linha reta do Rio de Janeiro a Lisboa.
“Esses lugares são certamente o paraíso do mundo e se a felicidade pudesse ser o resultado da situação e conveniência, aqui deveria ser encontrada na mais alta perfeição”, escreveu o tenente inglês William Bligh ao comentar o Taiti, onde ancorou o HMS Bounty, em 1788, para buscar mudas de fruta-pão. Bligh seria vítima de um dos mais famosos motins dos Sete Mares, liderado por seu imediato Fletcher Christian (há dois filmes, um deles com Marlon Brando, sobre o episódio, mas isso é outra história). Apesar de famoso pelos maus-tratos que dedicava à tripulação, Bligh é lembrado por percorrer 6,6 mil km após ser expulso do Bounty em uma pequena barcaça. O feito era digno de um polinésio.

 Os antropólogos, baseados em estudos comparativos da língua austronésia e análise de DNA, acreditam que os polinésios chegaram à Nova Guiné vindos de Taiwan, no sul da China, 4 mil anos atrás. Dali, partiram para as ilhas Salomão e, depois, para Samoa, Fiji e Tonga. A beleza natural e a índole da população que ocupou a imensidão marítima do Pacífico geraram uma cultura pródiga. Para olhos destreinados, o mar aberto é uma monotonia líquida em todas as direções. Povo do mar, os polinésios aprenderam a direcionar seus barcos, os vakas, seguindo sinais. Provavelmente foram os primeiros a utilizar as estrelas para se localizar no oceano.
Também sabiam interpretar o voo de aves migratórias, a formação das ondas e até a cor das nuvens, cujos tons refletiam a areia ou a vegetação de uma ilha atrás do horizonte. Também observaram as correntes e os ventos. A cor da água e a fumaça de vulcões eram pistas de presença de terra. Usavam uma espécie de mapa com registros de marés e correntes nos quais as ilhas eram representadas por conchas. Os mapas marítimos permitiam a eles navegar até locais longínquos. Quando exploravam o oceano, levavam o que podiam. 
Cachorros, porcos e galinhas, além de mudas de planta, faziam parte da bagagem. Mulheres e crianças eram parte da tripulação. Em territórios próximos, estabeleceu-se o comércio. Trocava-se, por exemplo, obsidiana para a fabricação de ferramentas por sementes e adornos. Além de dividirem o mesmo tronco linguístico, alguns valores culturais permaneceram idênticos – mesmo em locais de colonização tardia, distantes e isolados. “As culturas vivem em constante mudança e a arte de polinésios hoje reflete isso. Nas últimas décadas, criaram um estilo panpolinésio de se expressar único e moderno. É uma marca de identificação pessoal e orgulho cultural”, afirma a antropóloga Tricia Allen, da Universidade do Havaí. 
A religiosidade polinésia tratava certas pessoas como possuidores de mana, um poder sobrenatural que também podia ser encontrado em árvores e pedras. É o poder entendido como "capacidade de fazer alguma coisa”. O mana estava cercado por proibições, ou tabus, que na língua dos polinésios de Tonga representa algo sagrado demais e que por isso deve ser interditado aos humanos. A palavra entrou para o vocabulário ocidental pelo inglês do diário de James Cook, o capitão que descobriu a maioria das ilhas polinésias. “Criados usavam instrumentos longos para dar comida aos sacerdotes por causa do tabu”, escreveu Karen Farrington em História Ilustrada da Religião. Havia tabus específicos para o casamento, o parto e a morte.
Como nas ocas dos índios brasileiros, os clãs viviam sob o mesmo teto e os laços de sangue tinham grande importância. Não conheciam a roda e tiravam tudo o que precisavam do mar. Uma tradição encontrada por todo o Pacífico é a do mahu. Alguém da família era escalado para cuidar dos pais na velhice, uma tarefa feminina. Por causa disso, o eleito, qualquer que fosse seu sexo biológico, virava menina. Eram identificados por uma flor que usavam na orelha direita. Podiam se casar, adotar filhos e eram tratados com respeito pela sociedade.
Parte da cultura polinésia é a tatuagem, sua linguagem corporal. Uma pessoa desenhada com pigmentos pontuados na pele com instrumentos de bambu, madeira ou osso se identificava sem pronunciar uma palavra. O desenho identificava quem ele era: sua ilha de origem e posição na hierarquia insular. Também funcionava como rito de passagem. O corpo costumava ser marcado pela primeira vez na adolescência, mas se guardava espaço para registrar o que viesse a acontecer no futuro.
O limite leste dos polinésios foi Rapa Nui. “Pequenos, magros, tímidos e miseráveis”, registrou Cook em seu diário ao descrever os habitantes do lugar em 1774. A ilha de Páscoa era tão isolada que os moradores acreditavam estar “no umbigo do mundo” (de fato, é o local mais afastado de outro lugar habitado na Terra). Por séculos, esculpiram figuras cada vez maiores em pedra. Os moais eram uma espécie de telefone para se comunicar com os antepassados. Quem sobreviveu em Páscoa foi aprisionado e enviado ao Peru para trabalhar em minas. Hoje, a população polinésia de pasquenses não passa de 2 mil habitantes. Desde 1888, a ilha pertence ao Chile. “Eles são um exemplo de sociedade que se destruiu por excesso de exploração de seus próprios recursos”, escreveu Jared Diamond em Colapso.

O ponto mais ao norte da Polinésia é o Havaí, onde termina o relato de Cook. Em sua segunda viagem à ilha, ele se desentendeu com os nativos por causa de um bote roubado e foi morto. Entre os havaianos que conheceram Cook, estava o sobrinho do rei, Kamehameha. Quando o rei morreu, em 1782, ele iniciou uma série de batalhas, que levariam à unificação do arquipélago, em 1810. Os polinésios formaram um grupo cultural coeso apesar da dispersão geográfica. Para alguns autores, eles foram adiante. Muitas ilhas consomem batata-doce, um produto da América do Sul. No Chile, foram encontrados ossos de galinha, animal que viajava com os polinésios. Há quem garanta que o povo do mar colonizou a ilha de Madagascar, na África. Mas mesmo que ainda hoje o turista se encante com a beleza natural e a alegria dos moradores de ilhas como o Taiti, a região enfrenta sérios problemas. É uma das mais ameaçadas pelo aquecimento global. A ilha de Tuvalu, por exemplo, vem perdendo terreno para o oceano Pacífico. O legado polinésio corre o risco de ficar embaixo d’água.

A cultura da onda
Qualquer praia com alguma ondulação – mesmo que de “meio metrinho”, para usar uma expressão do meio – tem um surfista. O esporte se espalhou pelo mundo a partir dos EUA, mas a prática de se equilibrar em uma tábua de madeira nasceu no Havaí, o local da Terra com as melhores ondulações, ou swell. Surfe em polinésio é he’enalu. Foi descrito pela primeira vez por Joseph Banks, que estava na expedição de James Cook de 1769. Os chefes locais tinham as melhores pranchas e só eles podiam surfar em determinadas praias.
Quando os primeiros missionários cristãos chegaram ao arquipélago, tentaram banir o surfe. E a prática, identificada com rituais pagãos, entrou numa espécie de limbo por mais de 100 anos, até ser resgatada pelo nadador e medalhista olímpico Duke Paoa Kahanamoku na década de 20 do século passado. Além do Havaí, o surfe prosperou em Samoa e Tonga.

Vakas Moanas
Os polinésios desenvolveram elegantes técnicas de construção naval. Fragmentos de canoas antigas escavadas na Nova Zelândia e petroglifos encontrados na ilha de Páscoa mostram que as vakas (“canoas” na língua polinésia) eram geralmente duplas e possuíam duas velas triangulares, feitas de fibra de coco. As técnicas para esse tipo de canoa apareceram entre 4 e 5 mil anos atrás. O design mudou um pouco conforme a migração, mas as canoas mantiveram suas características principais, como os cascos interligados e as forquilhas (espécie de flutuador lateral), usadas para dar estabilidade. Os cascos eram escavados direto no tronco das árvores. No Havaí, usava-se a madeira da koa, uma das mais populares da ilha, para a confecção. As vakas permitiam aos polinésios navegar até 200 km por dia e serviram de inspiração para a Hokule’a, a réplica de uma tradicional embarcação havaiana, aberta à visitação em Honolulu, no Havaí.


 Lidiane Aires (Aventuras na HIstória, agosto de 2012).

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