quinta-feira, 31 de outubro de 2013

ESAÚ E JACÓ

Drama cívico entre bolachas e cafezinho
O conturbado cenário de incertezas e mudanças dos primeiros anos da República é tratado com ironia e humor por Machado de Assis em seu romance Esaú e Jacó, de 1904
Os irmãos gêmeos Pedro e Paulo eram simetricamente contrários, tendo, inclusive, brigado no útero materno. Nasceram em 7 de abril de 1831: dia em que Pedro I caiu do trono, diria Paulo; dia em que Sua Majestade subiu ao trono, comentava Pedro, referindo-se à elevação de Pedro II. A abolição em 1888 era para Pedro um ato de justiça, e para Paulo, um sinal do início da revolução. Pedro e Paulo nasceram, na verdade, em 1904, junto com o livro Esaú e Jacó, romance da chamada fase realista de Machado de Assis. Nele, o autor mistura, como de costume, esferas públicas e privadas, ao traçar a psicologia de seus personagens em meio aos acontecimentos políticos da sua época, desafiando a comédia política do período.
 Machado elabora uma alegoria das disputas políticas brasileiras de seu tempo através da história desses dois irmãos: Pedro era cauteloso e dissimulado enquanto Paulo impetuoso e agressivo; Pedro era monarquista e Paulo republicano; por fim, Pedro se dedicaria à medicina e Paulo ao direito.
 A obra traz, assim, um pano de fundo histórico e deixa transparecer um certo desconforto com relação à atitude da população que parece estar sempre alijada do processo político. No capítulo “Manhã de 15” (referindo-se à proclamação da República em 15 de novembro de 1989), por exemplo, o ajuizado conselheiro Aires − personagem que é dono de opiniões dúbias e está sempre disposto a harmonizar (um “sincero à sua maneira”) − sai de casa para encontrar uma cidade convulsionada e com idéias desencontradas. E é nesse momento que Machado introduz um episódio que, sem ser crucial à narrativa, acabou por se colar à obra: Custódio mal terminara de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional "Confeitaria do Império", quando soube que havia estourado uma revolução e “vagamente uma República”. Mandou, então, um bilhete, pedindo para que o pintor interrompe-se o trabalho na letra d. Porém, e para seu espanto, logo soube que o trabalho fora concluído.
Frente à necessidade de uma nova placa, Custódio, que não parava de maldizer a revolução (“Diabos levem a Revolução”) lembrou do seu vizinho: o Conselheiro Aires. Dá-se então um debate revelador sobre o nome do estabelecimento, apesar de ambos concordarem que “nada tinham a ver com a política”. Aires fez sua primeira sugestão: que mudasse o título para “Confeitaria da República”. Temeram, no entanto, que em poucos meses poderia haver nova reviravolta, que implicaria em mais perda de dinheiro. O Conselheiro arriscou um meio termo: o nome “Confeitaria do Governo”, que se prestava a qualquer regime. Mas depois concluíram que todo governo tem oposição e que essa bem poderia quebrar a nova tabuleta. Aires aconselhou ainda que Custódio deixasse o título original − “Confeitaria do Império” − e só acrescentasse: “fundada em 1860”. Mas o proprietário achou que o timbre poderia ser sedicioso nesses tempos nervosos. Tentou-se outra saída; que deixasse a palavra Império, acrescentando embaixo, ao centro e em letras mais miúdas: das leis. Custódio julgou a idéia útil, mas temeu pela leitura dos transeuntes que poderiam se fixar nas letras grandes e esquecer das pequenas. O conselheiro imaginou nova estratégia: “Confeitaria do Catete”. Mas Custódio, “delicado de sentimentos” julgou que sua loja não era a única no bairro. Decidiram por fim, pelo próprio nome do dono: “Confeitaria do Custódio”, que não trazia nenhuma significação política ou figuração histórica: nem ódio, nem amor, “nada que chamasse atenção aos dois regimes”. E assim terminava a complexa conversação: “Gastava-se alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas”. Por sinal, esse é o fim do episódio, mas não “das modas”, que, segundo Machado, “sempre mudam”.
 Não se trata de reduzir a análise dessa obra a seu diálogo com o contexto político. Nesse caso, porém, não há como negar o paralelo irônico entre a troca de governos e a mudança das tabuletas. Em questão está não só o caráter contingente da nova situação política, como a importância dos “nomes” e de sua incidência sobre o real. Mais que isso, o literato enfrenta o tema sempre a partir das relações privadas. É o desespero de Custódio que ilumina os impasses desse momento marcado por incertezas, assim como são as saídas diplomáticas de Aires que demonstram de que maneira, muitas vezes, trocas políticas passam também por mudanças nas práticas de nomeações. Afinal, boa parte dos primeiros atos da República centrou-se na alternância acelerada nos nomes de ruas, praças, escolas e instituições. Isso sem esquecer do concurso apressado para criação de um novo hino, ou da releitura das cores de nossa bandeira que, ao invés de representarem as casas imperiais passavam a remeter ao verde de nossas matas e ao azul de nossos céus.

Mas em Esaú e Jacó todo o drama cívico é vivido na chave da pessoalidade. Pedro, Paulo, Custódio e Aires fazem às vezes dos nossos políticos de plantão. Não por coincidência em Memorial de Aires, Machado de Assis afirmaria que “não há alegria pública que não valha uma boa alegria privada”.
Lilia Moritz Schwarcz

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