sexta-feira, 29 de novembro de 2013

THE BEATLES - PARTE III

O fim dos Beatles
 No ano de 1968, novamente os integrantes da banda partiram em um retiro espiritual na Índia. Uma semana depois, Ringo abandona o retiro e Paul depois de um mês. O retiro espirital acaba em polêmica quando o guru Maharishi foi acusado de tentar seduzir uma seguidora espiritual.
 Após o retiro espirital, John e Paul viajam a Nova Iorque para anunciar a criação da Apple Corps. Em Londres, eles lançam também uma boutique com o mesmo nome, que logo fechou as portas devido ao fracasso. O primeiro compacto lançado pela Apple foi um grande sucesso, e continha as músicas “Hey Jude” e “Revolution”.
 Como os Beatles não podiam lidar pessoalmente com a parte financeira da Apple Corps, eles resolveram contratar um novo empresário. Allen Klein foi contratado após muitas brigas, já que Paul queria que seu sogro fosse o novo empresário, ao invés de Allen. O fato é que os outros três Beatles temiam que Paul tivesse um maior controle sobre a banda, caso seu sogro fosse contratado.
 Após o sucesso de “Hey Jude”, os Beatles começaram a gravar um disco duplo, The Beatles, conhecido como Álbum Branco, em meio a várias brigas: algumas músicas seriam gravadas totalmente por um só integrante da banda. A presença constante de Yoko Ono, mulher de John Lennon, nos estúdios de gravação, começou a incomodar os outros integrantes do grupo, principalmente Paul McCartney e George Harrison, que não suportavam a presença da mulher de Lennon.
 No disco, pela primeira vez, um músico faz uma participação especial. Eric Clapton, guitarrista britânico e amigo de George Harrison, gravou o solo de guitarra em “While My Guitar Gently Weeps” embora no disco não tenha recebido crédito por sua participação. Ringo Starr abandonou o grupo por duas semanas, alegando insatisfação com a banda.
 Para cumprir um contrato, no mesmo ano foi lançado o desenho animado Yellow Submarine e um álbum com a trilha sonora do filme, que trazia apenas quatro músicas inéditas dos Beatles e músicas instrumentais compostas por George Martin, o produtor dos Beatles.
 Eles só se reuniram novamente em 1969 para começar o projeto Get Back, que reuniria um filme-documentário sobre a gravação de um álbum. Havia o interesse da banda em realizar um show ao vivo ao final das gravações de estúdio. Durante a gravação do filme-disco, ficou nítido um desgaste de relacionamento entre os integrantes do grupo e o filme se tornou praticamente um documentário sobre o fim da banda.
 No final do filme, eles tocaram de surpresa no telhado do estúdio algumas músicas para as pessoas que passavam pela rua, sendo tudo registrado para ser exibido no filme. A polícia foi chamada, porém não conseguiu interromper a apresentação. Mais tarde, Ringo Starr diria, de forma irônica, que a polícia foi a grande decepção do concerto, pois a sua prisão, bem como de seus companheiros, daria um ótimo final ao filme.
 Get Back foi arquivado, e eles se reuniram novamente, pela última vez, nos estúdios da Apple, para gravar o álbum Abbey Road. O álbum foi muito bem aceito pela crítica e se tornou o mais vendido dos Beatles.
 O álbum trouxe duas belas composições de George Harrison, “Something” e “Here Comes the Sun”. George evoluíra muito como compositor, ao mesmo tempo que se desinteressava cada vez mais pela banda, já que não podia incluir mais que duas de suas composições nos discos do grupo. Frank Sinatra sempre cantava “Something” em seus shows, e falava que era uma das mais belas canções de amor escritas por Lennon/McCartney (mas na verdade ela foi composta por George Harrison).
 Novamente, como no Álbum Branco, algumas músicas foram gravadas só por um integrante da banda. Abbey Road surgiu em um esforço de Paul McCartney, que sugeriu a George Martin que a banda gravasse um disco “como nos velhos tempos”. O disco traz a famosa capa dos Beatles atravessando a rua, que daria um início a várias teorias sobre a morte de Paul McCartney.
 Em Março de 1970, Paul dá uma entrevista e anuncia o fim dos Beatles. O projeto Get Back não é concretizado, e o filme e o disco anteriormente gravados para o projeto foram lançados com o nome de Let it Be. O disco foi o único que não foi produzido por George Martin. A produção foi feita por Phil Spector. Paul sempre reclamou dos arranjos feitos por Phil, e mais de 30 anos após o lançamento de Let it Be, McCartney lançou Let it Be? Naked, com as mesmas músicas, porém sem a produção de Phil Spector.
 Especialistas em música dizem que grande parte da fama dos Beatles deveu-se à assistência do produtor George Martin, que também era conhecido como “o quinto Beatle”. Martin, além de produtor dos arranjos, teve um papel de catalisador para o grupo, mantendo unidas as fortes personalidades individuais, e fazendo com que tirassem o máximo possível de seus talentos incontestáveis.
 Quando perguntado sobre a importância de George Martin no sucesso da banda, há quem seja categórico em afirmar que se não fosse por ele, o grupo não teria sido tão bom quanto dizem que é. No entanto, os Beatles não foram o único grupo produzido por George Martin. E nenhum destes outros grupos obteve o sucesso alcançado pelos Beatles.

Após o fim
 Muitas pessoas foram acusadas de serem culpadas pelo fim da banda. A maioria acusou Yoko Ono de ser a grande causadora do fim dos Beatles. Há quem diga também que foi Paul McCartney, que supostamente almejava tornar-se o líder da banda. O certo é que Paul foi acusado de traição pelos outros Beatles, uma vez que anunciou o fim da banda e o lançamento de seu primeiro disco solo antes do lançamento de Let it Be, apesar dos pedidos para não fazê-lo, muito embora a separação do grupo fosse tida como certa.
 Após 1970, os Beatles nunca mais se reuniram novamente para gravar juntos. Algumas vezes, eles colaboraram uns com os outros em músicas ou discos, mas nunca com a presença simultânea dos quatro músicos em uma mesma música. O único álbum solo em que os quatro participaram foi em Ringo, álbum de Ringo Starr de 1970, mas não simultaneamente na mesma música.
 Em 1980, John Lennon foi assassinado em Nova Iorque, o que acabou definitivamente com o sonho de milhares de fãs de vê-los tocando juntos novamente. Em 1981, George Harrison, Ringo starr e Paul McCartney gravaram uma música em homenagem a John Lennon, “All those Years ago”, composição de George Harrison esta presente no álbum de Harrison, Somewhere in England.
 Em 1995, os três Beatles vivos, com aprovação da viúva de Lennon, realizaram The Beatles Anthology. Anthology reuniu um filme, um livro autobiografico e três álbuns duplos com algumas músicas inéditas, como também versões desconhecidas de músicas já lançadas anteriormente por eles, além de trazer duas novas músicas: “Free as a bird” e “Real Love” mixadas com a voz do John Lennon e com a particpação de George, Paul e Ringo.
 Em 2001, George Harrison morreu de câncer. Paul McCartney e Ringo Starr permanecem na ativa até os dias de hoje.
 Em 2006 foi lançado o álbum Love com músicas para a produção teatral do Cirque du Soleil. Produzido por George Martin e seu filho Giles, o álbum traz mixagens e colagens de músicas já lançadas oficialmente pelo grupo anteriormente.

Curiosidades
 Em 1963, Brian Epstein e Dick James criaram o catálogo Nothern Songs que reunia todas as músicas compostas por Lennon/McCartney e cuidava dos direitos autorais das mesmas. Em 68, John Lennon e Paul McCartney tentaram comprar a Nothern Songs, mas Dick James acabou vendendo-a para a ATV Britânica (Associated Television).
 Em 1985, o músico americano Michael Jackson comprou a Nothern Songs da ATV por 47 milhões de doláres. Apartir de 1995, os direitos autoriais da maioria das composições de Lennon/McCartney começaram a ser gerenciados por Michael Jackson e pela Sony Music.
 George Harrison criou a Harrisongs e Ringo Starr a Starling Music para gerenciar suas composições que sempre estiveram em suas posses.
 A lenda sobre a morte de Paul McCartney: um radialista divulgou, em 1969, que Paul McCartney teria morrido em um acidente de carro em 1966, e teria sido substituído por um sósia, provavelmente chamadado Billy Shears, após achar pistas em capas de discos e frases de algumas músicas dos Beatles que provariam sua morte. 
 Charles Manson e seus seguidores cometeram assassinatos invadindo casas em Los Angeles. A primeira chacina foi na casa da atriz Sharon Tate, e a segunda, poucos dias depois, na casa dos casal La Bianca. A polícia encontrou nas casas da vítimas nomes de músicas dos Beatles, tais como “Helter Skelter”, “Piggies”, “Blackbird” e “Revolution 9″, presentes no Álbum Branco, escritas com sangue das vítimas. Quando foi preso, Manson alegou que encontrou no Álbum Branco inspiração para seus assassinatos;
 Os Beatles tiveram algumas composições suas que foram lançadas por outros músicos e atingiram sucesso: “I wanna be your man” com os Rolling Stones, “I’ll Be on my Way” e “I’m in love” com o grupo Billy J. Kramer e os Dakotas, “Step inside love” com Cilla Black, “World without love” com Peter & Gordon.
 Ringo Starr só compôs duas músicas em toda a carreira dos Beatles: “Don’t Pass Me By” e “Octopus’s Garden”; Além dessas duas músicas, Ringo compôs também “What goes on” em parceria com John e Paul.
 A primeira transmissão mundial via-satélite ao vivo foi uma apresentação dos Beatles cantando “All You Need Is Love”.
 A aparição no programa de Ed Sullivan na verdade não foi a primeira aparição dos Beatles na TV norte-americana. Um videoclipe gravado na Inglaterra havia sido transmitido no programa “The Jack Parr Show” no dia 03 de janeiro de 1964, porém foi no show de Ed Sullivan em 09 de fevereiro daquele mesmo ano que ocorreu a primeira aparição ao vivo na América.
 George Harrison sabia tocar 26 instrumentos, entre os quais se destacam: guitarra, banjo, baixo, contra-baixo, harpa, violino, cravo, tambores, orgão, piano, gaita, xilofone, tamborim africano, sitar e tímpano.
 Elvis Presley e os Beatles encontraram-se apenas uma vez na vida. Este momento histórico ocorreu em 27 de agosto de 1965. O encontro foi de noite na residência oficial de Elvis Presley, a mansão Graceland em Memphis.

Recordes
 20 músicas atingiram o primeiro lugar das paradas de sucesso dos Estados Unidos, fato que nunca foi superado por nenhum outro artista.
 17 músicas atingiram o primeiro lugar na Inglaterra.
 Primeiro lugar em outros países: 12 músicas na Alemanha, 23 músicas na Austrália, 22 músicas no Canadá.
 Foram os músicos que mais tempo permaneceram no primeiro lugar nas paradas de sucessos americanas com seus discos, 132 semanas. Também repetiram o recorde por 174 semanas na Inglaterra.
 Em Abril de 1964, os Beatles fizeram o feito inédito de ter 5 músicas nos primeiros lugares das paradas de sucesso americanas (#1 Can’t Buy Me Love, #2 Twist and Shout, #3 She Loves You, #4 I Want to Hold Your Hand e #5 Please Please Me).
 I Want to Hold Your Hand foi o compacto mais vendido nos anos 1960, foram vendidas aproximadamente 5 milhões de cópias.
 O disco A Hard Day’s Night vendeu 1 milhão de cópias em apenas quatro dias, após seu lançamento nos Estados Unidos. Se tornando o disco que vendeu mais em menos tempo nos anos 1960.
 A música Yesterday foi a música mais regravada por outros artistas na história da música.
 A gravadora oficial dos Beatles na Inglaterra, EMI, estima que os Beatles já venderam em torno de 1 bilhão e meio de discos no mundo inteiro, entre LPs, singles, K7s e Cds.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

95 TESES DE LUTERO

As 95 Teses de Martinho Lutero marcaram o início do que seria a Reforma Protestante.
 No início do século XVI, a Igreja Católica praticava algumas ações abusivas e que tinham como intuito satisfazer o interesse de alguns clérigos. Uma das práticas inadequadas praticadas por tais católicos era a venda de indulgências. As indulgências são as formas propostas pelos religiosos para que os fiéis paguem seus pecados através de penitências, mas o que vinha acontecendo era a venda de bênçãos. Os fiéis eram levados a pagar em valores financeiros para ter seus pecados supostamente perdoados pelos clérigos.
 Martinho Lutero era um padre da Igreja Católica que lecionava teologia na região do que viria a ser a Alemanha. Conhecendo tais práticas inadequadas que haviam se tornado comuns no ambiente católico, manteve uma postura dura de oposição. Martinho Lutero acreditava que o tráfico de indulgência que ocorria poderia levar a um processo que culminaria na crença das pessoas de que pagar para aliviar os pecados resolveria plenamente, deixando de lado a confissão e o verdadeiro arrependimento esperados em uma boa conduta de cristãos.
 Entre os anos de 1516 e 1517, Marinho Lutero proferiu três sermões atacando a prática das indulgências. Mas o ápice de seu manifesto contra tais práticas deturpadas da fé católica foi a afixação de suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.
 As 95 Teses de Martinho Lutero foram afixadas no dia 31 de outubro de 1517, nelas o padre convidava os teólogos católicos a uma discussão sobre penitência, indulgência e salvação pela fé. Martinho Lutero condenava em suas teses o que identificava como avareza e paganismo no seio da Igreja Católica, atacando a prática de um abuso.
 Rapidamente, as teses de Martinho Lutero se espalharam pelo mundo católico europeu. Em apenas duas semanas, as teses foram traduzidas para o alemão e amplamente copiadas e impressas. De tal forma que, nesse período, se espalhou por toda a região da Alemanha e, nos próximos dois meses, conquistou toda a Europa. Embora o Papa não tivesse sido questionado diretamente pelas 95 Teses de Martinho Lutero, nem quanto a autoridade ou quanto as indulgências, a resposta foi severa e grosseira. Lutero foi chamado de alemão bêbado que não tinha consciência do que escrevia pelo próprio Supremo Pontífice da Igreja Católica. E o Papa continuou pressionando, exigiu que Martinho Lutero retirasse seus escritos, em 1520. O alemão se recusou a anular seus escritos e foi excomungado em 1521 e passou a ser considerado como um fora-da-lei pelo imperador Carlos I, da Espanha.
 O protesto de Martinho Lutero acabou se tornando no movimento inicial da Reforma Protestante, que acabaria por apresentar novas condutas e práticas para os cristãos, modernizando a prática medieval do culto católico. Da Reforma Protestante surgiram novas religiões também cristãs, mas que não deviam mais reverência ao papado.
Antonio Gasparetto Junior 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

JUDEUS E CRISTÃOS NA ÉPOCA MEDIEVAL

Tornado povo errante desde que começara a diáspora no século II, os judeus tiveram que habituar-se a viver como minoria no seio de sociedades estranhas e hostis a eles.
 Convivendo com muçulmanos e cristãos
Quando, a partir do século VII dC, a maré muçulmana cobriu o norte da África e, em seguida, espalhou-se para a península Ibérica, os islamitas autorizaram que os judeus que lá viviam mantivessem sua fé desde que pagassem aos califas o dhimmi, ou jizya, um imposto obrigatório para quem não seguisse a religião do profeta Maomé.
 O problema maior do convívio dos judeus com os gentios deu-se com os cristãos europeus, pois a nova fé que tomara conta do Império Romano decadente, e que depois converteu os bárbaros germanos recém chegados, os odiava por terem repudiado Jesus Cristo.
 Não só isto, um dos seus discípulos mais próximos, Judas, traíra o Messias entregando-o aos romanos por 30 dinheiros. Agravava-se assim a imagem do judeu como alguém passível de traição, gente não merecedora de nenhuma confiança e que por um punhado de ouro ou prata punha em perigo quem o acolhia e dava abrigo. Ou como deles disse um Papa: "é o rato no bolso, a serpente em torno da cintura".
 Diáspora - êxodo dos judeus de Israel
Sefarditas - Norte da África, Itália, Espanha e Portugal (depois para Holanda). Convívio com muçulmanos, católicos e calvinistas.
 Asquenazis - Alemanha, Polônia, Estados Bálticos, Ucrânia e Rússia. Convívio com luteranos, católicos e cristãos ortodoxos.
 As sansões antijudaicas
Este arraigado preconceito de origem religiosa, fez com que diversas sansões e regulamentos fossem impostas ao então dito "povo da nação" ao longo da Idade Média. Não podiam ser proprietários de terras, lhes era vedado andar a cavalo ou assumir funções públicas. Casar com cristãos foi-lhes expressamente proibido em quase todos os reinos europeus.
 Em algumas cidades, para evitar uma aproximação com os gentios, obedientes ao quarto Concilio de Latrão, de 1215, exigiram que eles andassem nas ruas com uma rodela amarela (cor da traição) ou com o símbolo da estrela de Davi fixada no braço ou na lapela dos casacos, e, por vezes, com chapéus cônicos. Tornaram-nos os párias do medievo europeu, em "intocáveis".
 Houve naqueles tempos uma intensa diabolização deles e um aumento significativo da crença de uma conspiração semita visando "a ruína do cristianismo".
 Qualquer boato passou a ser uma ameaça à vida e aos bens dos judeus. Isto explica o motivo de muitos deles aceitarem o batismo cristão, quando se acirrava a política das conversões forçadas.
 Exatamente por serem considerados indignos é que lhes permitiram dedicar-se à prática dos negócios, especialmente do empréstimo a juros (a usura) e dos penhores, atividades proibidas aos cristãos. Mas esta sempre foi uma função exercida por uma minoria.
 Tirando-se os "judeus da corte" e os arrecadadores de impostos, a larga maioria dos assentamentos e dos lugarejos judaicos era composta por pequenos profissionais muito pobres (alfaiates, ferreiros, sapateiros, marceneiros, ourives, vendedores ambulantes, etc.).
 Sendo que alguns mais dotados exerciam a medicina (os médicos judeus como o filósofo Maimônides foram famosos na Idade Média) ou tornavam-se rabinos, guias espirituais da comunidade.
 O ódio que a plebe cristã lhes reservava vinha do fato de serem eles os únicos emprestadores de dinheiro aos quais podiam recorrer, em troca de um penhor, num tempo em que os poucos bancos que atuavam estavam reservados aos ricos e aos reis.
 A política da separação
Estavam, pois, por força das leis cristãs, obrigados a viver apartados da comunidade.
 Como assegurou Maria J.Ferrero Tavaraes:
 'Por razões de segurança e de vida coletiva, as comunidades judaicas localizaram-se sempre nos centros urbanos, independentemente de uma ou outra família poder residir nas zonas rurais. A comuna cujo centro era a sinagoga, erguia-se no espaço municipal e tinha a sua existência conferida pela concessão de uma carta de privilégios, onde se encontravam nomeados todos os seus usos, costumes, e liberdades. A permissão para abrir ou construir uma sinagoga era dada a um mínimo de dez famílias, residentes numa localidade, pelo rei como beneplácito do bispo, uma vez que a religião mosaica era tolerada na cristandade, com o objetivo de os seus crentes poderem vir a converter-se ao cristianismo' ( in Linhas de Força da História dos judeus em Portugal das origens a atualidade).
 Na Ibéria, desde 1412, seus aglomerados eram denominados de Juderias, na Alemanha de Judenhof ou Judenviertel e na Itália de ghetto.
 Todavia, o rancor antijudaico somente adquiriu foros marcadamente violentos a partir das Cruzadas contra os infiéis (a primeira começou em 1096; a segunda em 1147; e a terceira em 1189).
 Naquela oportunidade, o papa Urbano II fez uma conclamação em Clermont-Ferrant para que os cavaleiros cristãos marchassem unidos para a Terra Santa a fim de libertá-la da presença profanadora dos turcos seldjúcidas, convertidos recentes à fé de Maomé. "Deus quer!" dissera o papa. Uma onda de fervor religioso e febre fanática então tomou conta da cristandade.
 A sensação que atingiu a maioria dos cristãos que aderiram à Guerra Santa proposta pela Igreja Católica foi de que não poderiam partir para rincões distantes deixando a retaguarda à mercê dos pérfidos judeus.
 No exterior o inimigo era o Islamismo, no fronte interno era o Judaísmo. Foi então que uma onda de horror atingiu os pequenos conglomerados judaicos espalhados pela Europa Ocidental.
 Primeiros pogroms No fatídico verão de 1096, seus bairros viram-se atacados por turbas de desordeiros e pilhadores, quando não os próprios cavaleiros cruzados, antes de marcharem para os Santos Lugares, desejavam ¿ experimentar suas espadas¿ nas costas dos judeus.
 O historiador Steve Runciman observou que 'para um fidalgo saia custoso equipar-se para a Cruzada; se não tinha terras nem possessões penhoráveis, via-se forçado a pedir um empréstimo aos judeus. Mas, era justo que ao marchar para lutar pela Cristandade tivesse que cair nas garras dos indivíduos da raça que havia crucificado a Cristo? O cruzado pobre já tinha dividas com os judeus. Era justo que se visse impedido dos seus deveres como cristão por obrigações contraídas com alguém de raça ímpia? Para alguns deles os judeus eram ainda piores do que os muçulmanos a quem iriam dar combate'. (*)
 (*) Runciman, Steve - Historia de las cruzadas, vol I, pag. 137. Os destrutivos ataques que começaram a fazer aos bairros judeus foram muitas vezes estimulados pelas crescentes histórias que circulavam que diziam serem eles os promotores de sacrifícios infantis - de martirizarem crianças cristãs na época da Páscoa judaica para usar o sangue dos inocentes como purificação -, ou ainda como profanadores das hóstias.
 As perseguições se estenderam da Inglaterra (Norwich, Londres e Winchester) para a França (Rouen, Evreux, Paris, Dampierre e Ramerupt), até atingir o auge na Alemanha (Colônia, Mogúncia, Trier, Metz, Worms, Speyer, Wursburgo, Nuremberg, Rottenburg e Regensburg).
 Na região da Renânia alemã, o conde Emich von Leisingen, um licencioso líder de arruaceiros, ainda que aceitasse "compensações financeiras" para não atacar a comunidade judaica, liderou um massacre em Worms e vários incêndios de sinagogas em Colônia e Mogúncia.
 A política das expulsões
A conseqüência lógica desta hostilidade geral, de crescente fobia ao judeu, foi a adoção da política de expulsão por parte dos reis europeus. Não que os monarcas ou imperadores assim o desejassem ou que o Papado estimulasse, era o povo miúdo, dopado pelo fanatismo do baixo clero, quem exigia que dessem um fim neles.
 Para os interesses maiores do trono era melhor ter por perto gente habilitada em lidar com dinheiro e com empréstimos, visto que os reis sempre estavam carentes de recursos para financiarem suas guerras. Mas o peso da "opinião publica" marcadamente antijudaica - atiçada por monges e padres extremistas -, prevaleceu.
 Deste modo, os de fé mosaica foram então banidos da Inglaterra (pelo rei Eduardo II, em 1290), da França (em 1306, por Filipe o Belo), da Espanha (em 1492, pelos reis católicos), e de Portugal (em 1496, por D. Manuel I).
 Um tanto antes, em 1237, o Imperador Frederico II Hohenstaufen determinara que a condição deles fosse à de ¿escravos ou servos do Tesouro Imperial¿, e, em 1230, São Luís, o rei da França, considerou-os servos do rei e dos senhores feudais ao tempo em que mandara queimar em praça pública exemplares do Talmude em Paris.
 Pelo Estatuto de Toledo, tido como Los Estatutos de Limpieza de Sangre, aparecido em 1449, qualquer função pública estava proibida a eles. Foi o primeiro regimento racista que se conhece no Ocidente, separando os espanhóis em cristãos velhos ("autênticos") e cristãos novos (judeus conversos mantidos sob suspeição), impedindo-os de assumirem funções de conselheiros, alcaides, juízes ou escrivães.
 Assim é que o poeta Lope de Vega diz por um dos seus personagens, orgulhoso da sua estirpe:
Yo soy un hombre/aunque de villana casta/limpio de sangre y jamas/ de hebrea o mora manchada (Sou um homem que ainda que de baixa origem não tenho jamais manchado meu sangue por judeu ou mouro) - Peribañez.
 E, evidentemente, quando se deu o terrível surto pestífero do século XIV, a Peste Negra (1348), que dizimou um quinto da população da Europa Ocidental, os judeus logo foram apontados como os causadores da desgraça, atraindo incontida animosidade dos gentios.
 Num outro episódio de pandemia, ocorrido em 1506, dois mil cristãos-novos (judeus convertidos) foram mortos pela populaça de Lisboa, estimulada por padres delirantes que os apontou como responsáveis pela tragédia.
 Muitas das medidas reais de exclusão foram revistas, mas, em geral, a política de perseguição empurrou os judeus em direção ao Leste europeu, fixando-os majoritariamente na Polônia, Ucrânia, Rússia e Moldávia.
 A Inquisição
Durante setecentos anos, de 711 a 1492, a Espanha foi palco de uma intermitente guerra entre os cristãos e os invasores muçulmanos. A partir do século XII, tornou-se, com mais intensidade ainda, uma das fronteiras sangrentas das Cruzadas contra o Islã, sendo que os espanhóis em diversas batalhas contaram com o auxilio de cavaleiros cristãos vindos de outras partes da Europa.
 Neste cenário, os judeus sefarditas, pelo menos entre os séculos XI e XIII, não passaram de todo mal (o período foi apontado como o século de ouro da cultura judaica e da literatura ladina na Espanha), até que os cristãos conseguiram a vitória final com a tomada de Granada, a última cidade muçulmana a cair nas mãos dos reis católicos Fernando e Isabel, em 1492.
 Os sinais perigosos de antijudaísmo da parte dos cristãos já haviam sido anunciados um século antes quando se deram pogroms insuflados pelos padres.
 No primeiro dia de Tamuz 5151 do calendário hebraico (4 de junho de 1391) ocorreram tumultos em Sevilha. Os portões da judería foram incendiados e muitas pessoas morreram. As sinagogas foram convertidas em igrejas e os bairros judeus preenchido com colonos cristãos.
 Instigados pelo sermonista São Vicente Ferrier, pregador apocalíptico, líder dos "Flagelantes", as desordens ampliaram-se para outros locais da Espanha, como Valência, Madri, Cuenca, Burgos e Córdoba, quando o fogo tomou conta dos templos, das oficinas e das lojas depredadas por turbas católicas enlouquecidas.
 Ao propósito da unificação política da península Ibérica liderada pela Monarquia Católica, associou-se a Igreja Católica, ambos convencidos em por um fim à diversidade religiosa que até então imperava na Espanha. Quem não aceitasse a fé oficial deveria deixar o reino.
 O Decreto de Alhambra ou Édito de Granada, assinado pelos Reis Católicos em 31 de março de 1492, colocou os judeus na alternativa da conversão forçada ou do exílio (desde que deixassem seu patrimônio nas mãos do tesouro real). O grão-rabino Isaac Abravanel ainda tentou inutilmente demover suas majestades, mas elas foram pressionadas pelo inquisidor-mor D. Tomás de Torquemada a não voltar atrás. Milhares de judeus escolheram a apostasia para continuar morando em solo onde de há muito viviam, mas um número considerável dele teve que deixar o país para sempre. (*)
 (*) as provas arqueológicas indicam que presença judaica na Ibéria remonta ao ano de 482, por conseguinte muitos deles descendiam de famílias que já estavam lá há mil anos.
 A polícia da consciência
Autorizada pelo Papado a funcionar desde 1480, a Inquisição Espanhola (a de Portugal é de 1536) tornou-se uma poderosa máquina de perseguição político-religiosa projetando uma sombra grotesca e triste sobre a história da península Ibérica.
 Além de ser uma policia da consciência, o assim designado Tribunal do Santo Ofício foi uma arma eficaz para assegurar o monopólio da fé católica sobre a população em geral e fixar o predomínio dos cristãos velhos "de sangue limpo" sobre todos os demais.
 A sua justificativa de ser era a desconfiança. Com tantos judeus (ditos, marranos) e mouros (ditos, mouriscos) forçados a se converter ao cristianismo, era natural que levantassem suspeitas quanto à sinceridade daquela adesão aos mandamentos de Jesus. Era preciso, pois, vigiá-los para ver se, secretamente, não cometiam crimes "contra a fé".
 Uma crescente burocracia, ordenada segundo as Instruções de Torquemada, então foi instituída para controlar os passos dos ditos cristãos-novos, isto é dos conversos. Bastava uma simples denúncia anônima para que os suspeitos se vissem presos às engrenagens do SantoTribunal.
 Detidos e encarcerados, os réus eram submetidos à sistemática tortura do potro, da polé ou do garrote, até que algum tipo de confissão lhes fosse arrancada. Por vezes, bastava a simples exposição visual dos instrumentos de tortura - in conspecta tormentorum - para que ocorresse a auto-incriminação.
 Dependendo da magnitude do crime apurado, o suspeito era acusado e após ter sido julgado e seus bens expropriados era submetido a um auto-de-fé: uma cerimônia pública de expiação.
 Conduzido pelas ruas trajando um sanbenito com um ridículo chapéu cônico à cabeça, com cartazes infamantes pendurados no peito e nas costas, apupado pela multidão, era levado até uma praça para que todos pudessem assistir os tormentos que o herege devia obrigatoriamente padecer.
 Nos casos mais graves - comprovada a prática de "coisa judaizante" - era condenado à morte na fogueira como exemplo de expiação dos seus pecados. Os que por um acaso conseguiam escapar eram executados em efígie, isto é, em imagem.
 Entre 1485-1501, em Toledo, 250 foram entregues ao "braço secular", isto é, executados em público e 500 outros em efígie. No mesmo período, em Valência, 643 sucumbiram no patíbulo enquanto 479 o foram simbolicamente. Até na aprazível ilha de Maiorca 120 foram supliciados até a morte e 107 o foram em efígie (ver Kamen, Henry - A Inquisição na Espanha, pág.. 361).
 Nem aqueles que se refugiavam nas colônias dos impérios ibéricos estavam a salvo. A Inquisição, com certa regularidade, enviava Visitadores do Santo Oficio para o Novo Mundo para caçar os fujões. Sendo que na cidade de Lima, capital do vice-reino do Peru, o Santo Oficio se estabeleceu em caráter permanente, assim como na cidade do México, cujos tribunal foi inaugurado em 1569, conquanto que um terceiro foi estabelecido em Cartagena das Índias, Colômbia, em 1610.
 Poucos anos depois desta política de extermínio de uma religião, a presença milenar da comunidade dos judeus sefarditas praticamente deixou de existir na Península Ibérica, pondo fim definitivo ao convívio das três raças (a espanhola, a judaica e a moura) e das três religiões (a cristã, a mosaica e a islâmica) que até então a caracterizara.
Voltaire Schilling

terça-feira, 26 de novembro de 2013

COMO SURGIU A LITERATURA DE CORDEL

A literatura de cordel tem origem na Idade Média, mas muitas inovações brasileiras ajudaram a dar cara própria a esse patrimônio único
De tanto ouvir Roberto Carlos mandar tudo para o inferno, nos versos da canção que dominava as rádios no fim dos anos 1960, o poeta Enéias Tavares dos Santos decidiu que o "rei" havia feito por merecer uma resposta - e do tinhoso em pessoa. Escreveu então o folheto de cordel Carta de Satanás a Roberto Carlos, em que o diabo se dirigia queixoso ao cantor, diretamente da "corte das trevas". (Um trecho da peça é reproduzido no caixão abaixo.)
Ao reunir realidade e ficção, sátira e bom humor, a conversa franca entre Satanás e seu "grande amigo Roberto" tornou-se um dos maiores sucessos da literatura popular em versos brasileira. Rendeu incontáveis reimpressões e inspirou dezenas de folhetos de outros cordelistas, como Resposta de Roberto Carlos a Satanás, de Manuel dAlmeida Filho, e A Mulher que Rasgou o Travesseiro e Mordeu o Marido Sonhando com Roberto Carlos, de Apolônio Alves dos Santos.
Além da sorte, Enéias Tavares usou a seu favor a astúcia dos grandes cordelistas: conjugou a crendice popular (centrada na figura do diabo) à modernidade do novo ídolo, que estampava capas de revistas e alavancava audiência na televisão ao embalo do iê-iê-iê. O autor soube interpretar um momento de sua época, na mesma toada em que há mais de um século a literatura de cordel retoma tradições e constrói, em forma de poesia, crônicas da sociedade e da política brasileiras.
Poesia no barbante
Normalmente impresso em livretos de oito, 16 ou 32 páginas, com dimensões que não costumam ultrapassar as da palma da mão, o cordel pode ser encontrado sobretudo no Nordeste, em feiras de grandes capitais (como a de São Cristóvão, no Rio de Janeiro) e em lojas especializadas em produtos nordestinos.
Diferentemente de outras formas de literatura, o cordel é derivado da tradição oral. Isto é, surge da fala comum das pessoas, e também das histórias como contadas por elas, e não como fixadas no papel. "Onde quer que existam populações que não sabem ler nem escrever, existirá poesia oral, conto oral, narrativa oral, porque as pessoas não acham que o analfabetismo pode impedi-las de praticar a poesia e a narrativa. A literatura nasceu oral e foi assim durante milênios. Quando a Ilíada e a Odisseia foram transpostas pela primeira vez para o papel, já tinham séculos de idade", afirma o escritor Braulio Tavares.
A origem dos cordéis são as cantigas dos trovadores medievais, que comentavam as notícias da época usando versos, que eles próprios cantavam, frequentemente de forma cômica. "Por volta do século 16, ela era praticada na península Ibérica por meio dos trovadores, que recitavam louvações e galanteios para agradar aos poderosos", diz Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Com o tempo, tais artistas começaram a registrar suas falas em folhas soltas, conhecidas em Portugal como "volantes", e prendê-las em torno do corpo em barbantes para que as recitassem e, ao mesmo tempo, garantissem as mãos livres para os movimentos.
O verbete "cordel" apareceu apenas em 1881, registrado no dicionário português Caldas Aulete. Era sinônimo de publicação de baixo valor e prestígio, como as que na época eram vendidas penduradas em cordões na porta das livrarias - esses "varais" de literatura logo caíram em desuso, mas o nome prevaleceu. A tradição chegou ao Nordeste do Brasil com os colonizadores portugueses e, ao longo dos séculos, adquiriu características próprias. A forma definitiva, com os livretos, têm pouco mais de 100 anos. Tudo graças a algumas prensas velhas de jornal.
Improviso feliz
As honras de "pai" da literatura de cordel brasileira cabem ao paraibano Leandro Gomes de Barros, que começou a imprimir livretos e alcançou o mérito, digno de poucos poetas, populares ou não, de sustentar a família apenas com os dividendos das centenas de títulos lançados.
Na virada do século 20, as redações de jornal e as casas tipográficas eram modernizadas: trocavam a composição manual, em que cada palavra era montada na página, letra por letra, por máquinas de linotipo, que aceleravam a impressão ao usar linhas completas de uma só vez.
Assim, o maquinário obsoleto foi descartado por valores ínfimos, para a alegria dos entusiastas do cordel. "Isso fez com que os versos dos poetas populares nordestinos, que até então eram copiados a mão e passados adiante, pudessem ser transformados em produto industrial e comercial, mesmo que em escala modesta", escreve Braulio Tavares em Contando Histórias em Versos - Poesia e Romanceiro Popular no Brasil. Um dos primeiros cordeis de sucesso foi A Guerra de Canudos, em que o conflito de 1896 e 1897, opondo Antônio Conselheiro ao Exército brasileiro, foi retratado em versos por João Melquíades Ferreira da Silva, que fora soldado naquelas batalhas e se tornaria um grande nome da primeira geração de cordelistas brasileiros.
A partir da atuação de Leandro Gomes de Barros, surgiram poetas-editores que escreviam e imprimiam seus próprios folhetos, quando não adquiriam também os direitos sobre as obras de terceiros. Um dos principais empresários do setor foi João Martins de Ataíde, que em 1921 obteve licença para republicar as histórias de Barros, inicialmente apresentando-se nos livretos como editor e, num segundo momento, como o próprio autor.
Conforme o cordel se popularizou, as evoluções gráficas vieram pelas mãos dos artistas das gerações seguintes: as capas com textos meramente decorativos aos poucos foram substituídas por imagens de cartão-postal e de estrelas de Hollywood, mais atrativas.
Até que, nos anos 1950, o folheto alcançasse a sua cara definitiva nos desenhos "rústicos" da xilogravura.
Versão extraoficial
No último século, o teor da literatura de cordel jamais parou de se desenvolver. Os versos não abandonaram o tom matuto, o diálogo do sertanejo com suas crenças, suas percepções e seus dilemas cotidianos, embora ao longo das décadas a realidade do povo nordestino mudasse e muitos autores e leitores partissem, em ondas migratórias, para o centro-sul do país. "O cordel se revelou uma fonte de história não oficial do século 20, narrada pelos poetas do Nordeste", diz Mark J. Curran, professor da Universidade do Estado do Arizona e autor de livros como Retrato do Brasil em Cordel.
Segundo o pesquisador americano, os folhetos cumpriram o papel de jornal e novela do povo sertanejo, exerceram a função de ao mesmo tempo informar e entreter, em muitos momentos integrando à vida nacional populações que ainda não haviam sido atendidas pelos serviços tradicionais de comunicação. E é por isso que os mais diferentes episódios e personagens foram transportados para a crônica cordeliana, dos desastres naturais aos embates ideológicos, de figuras como Getúlio Vargas, Lampião e Padre Cícero a Roberto Carlos.
Atualmente, pesquisadores concordam que o gênero se fortalece pelas facilidades de impressão e distribuição dos exemplares, somadas ao poder de divulgação da internet.
E isso sem falar no prestígio que escritores como Jorge Amado, João Guimarães Rosa e Ariano Suassuna conferiram (e ainda conferem) à tradição, por terem emprestado da literatura de cordel inspiração para seus universos criativos.
So sertão a Sorbonne
Gênero virou tema da academia 
Entre as principais características da literatura de cordel brasileira estão a imensa variedade de temas abordados e a produção intensa - Joseph Maria Luyten, holandês radicado no Brasil, foi um dos poucos pesquisadores que se arriscaram a fazer uma estimativa. Durante sua trajetória acadêmica, calculou que os cordelistas nacionais teriam publicado entre 30 e 40 mil livretos e chegou a falar em 100 mil títulos. O volume de folhetos foi suficiente para que, nos anos 1970, o brasilianista Raymond Cantel considerasse nosso cordel "o mais importante, no sentido quantitativo, entre as literaturas populares do mundo". Autoridade internacional no tema, Cantel aterrissou no país nos anos 1950 para pesquisas de campo, tornou-se um dedicado colecionador das histórias e introduziu seu estudo na Universidade de Sorbonne, em Paris.

Glossário
Com pílulas sobre conteúdo e forma da literatura de cordel
Acontecido: folhetos de não-ficção em que o cordelista reporta eventos reais - fatos de âmbito local, nacional ou internacional.
Folheteiro: intérprete, sujeito que canta os cordéis nas feiras e praças com o intuito de atrair público e estimular a venda.
Peleja: também conhecida por desafio, é o duelo poético oral entre cordelistas, eventualmente reproduzido em folhetos.
Romance: cordel tradicional que narra disputas entre o bem e o mal em anedotas, contos de fadas, causos de amor e aventura.
Sextilha: consagrada entre os poetas nacionais, é a estrofe de seis versos com sete sílabas (o segundo, o quarto e o sexto versos rimam entre si).
Xilogravura: imagem que ilustra a capa dos livretos brasileiros, obtida do relevo da madeira talhada.

Érica Georgino (Revista Aventuras na História, março de 2011).


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

SUPERMAN

Superman (traduzido como Super-Homem) é um personagem, cujas histórias em quadrinhos são publicadas pela editora estadunidense DC Comics, uma empresa subsidiária do grupo Time Warner. Superman, entretanto, já foi adaptado para diversos outros meios, como cinema, rádio, televisão, literatura e Video game. Superman é um super-herói criado pela dupla de autores de quadrinhos Joe Shuster e Jerry Siegel. Sua primeira aparição foi apresentada na revista Action Comics #1 em 1938, nos Estados Unidos. O personagem nasceu no fictício planeta Krypton e foi chamado pelos seus pais de Kal-El (que significaria Filho das Estrelas no idioma kryptoniano). Foi mandado à Terra por seu pai, Jor-El, um cientista, momentos antes do planeta explodir. O foguete aterrissou na Terra na cidade de Smallville (por alguns anos, foi traduzida no Brasil como Pequenópolis), onde o jovem Kal-El foi descoberto pelo casal de fazendeiros Jonathan e Martha Kent. Conforme foi crescendo, ele descobriu que tinha habilidades diferentes dos humanos. Quando não está atuando com o tradicional uniforme azul e vemelho, ele vive como Clark Kent, repórter do Planeta Diário (Estrela Diária em Portugal). Clark trabalha com Lois Lane, com quem hoje é casado. É um dos mais importantes personagens da cultura pop ocidental, sendo o primeiro herói dos quadrinhos a ter uma revista intitulada com seu nome: Superman , publicada no verão de 1939. Além disso, Superman foi licenciado e adaptado para diversas mídias, desde rádio até televisão e cinema. O filme Superman Returns foi lançado em 2006, com uma aceitação dos fãs abaixo das expectativas, entretanto recebeu criticas positivas e a melhor bilheteria de todos os filmes de Superman, e foi um otimo retorno do homem de aço, superando os seus antecessores. Em 2013, depois de sete anos afastados das telas, será lançado mundialmente um novo filme do personagem, chamado simplesmente de Man of Steel (em português, Homem de Aço), como mais uma reinicialização da série de filmes do Superman. Contando com a direção de Zack Snyder e com a produção de Christopher Nolan (este último notório por ter sido o diretor da aclamada trilogia de filmes The Dark Knight, do também super-herói da DC Batman), terá o ator britânico Henry Cavill como Superman/Clark Kent, e a atriz americana Amy Adams como Lois Lane.
A origem e poderes do personagem foram sendo expandidos e alterados gradativamente ao longo dos anos para acompanhar a evolução do público. A história do Superman foi alterada para permitir as aventuras do Superboy e outros sobreviventes de Krypton foram criados, como Supermoça e Krypto, o supercão. O personagem foi revisado e atualizado mais recentemente em 1986. John Byrne recriou o personagem, reduzindo os poderes do Superman e apagando diversas personagens da versão oficial das histórias, o que atraiu a atenção dos meios de comunicação. A cobertura da imprensa foi novamente recebida na década de 1990, com A Morte do Superman, uma história na qual o personagem era dada como morto.
Na história original de Siegel e Shuster, a personalidade de Superman é rude e agressivo. O personagem é visto combatendo gangsters, violência doméstica, com um código moral pouco ortodoxo. Escritores posteriores suavizaram a personagem, e introduziram um idealismo e um código de conduta moral. Mesmo não sendo tão sangue-frio quanto o Batman original, o Superman apresentado na década de 1930 não tinha consciência do dano que sua força podia causar, agredindo vilões de maneira que fatalidades presumivelmente ocorriam, mesmo que não fossem explicitamente mostradas nas páginas. Isso terminou em 1940, quando o novo editor Whitney Ellsworth instituou um código de conduta para suas personagens seguirem, extinguindo qualquer assassinato causado pelo Superman.
A suposta origem dos poderes do Superman é o Sol amarelo da Terra. Em Krypton o astro é vermelho, e essa diferença de frequência eletromagnética entre ambos os astros faria com que, de alguma forma, as células do corpo de Kal-El fossem "carregadas" como verdadeiras baterias vivas, enrijecendo seus músculos, permitindo que a diferença de gravidade faça-o voar e outros poderes (visão de raio-X, visão telescópica, visão de fogo, super sopro e sopro de gelo). Superman tambem possui uma força superior à de qualquer herói da DC Comics, podendo empurrar até planetas e tirá-los de órbita. Ele também tem vulnerabilidade a kriptonita.
Fonte: Wikipédia.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

COMUNIDADES JUDAICAS NEGRAS NA ÁFRICA

Há quase 30 anos, uma operação do governo israelense deu início à retirada de judeus da Etiópia. Muitos africanos são judeus e exames de DNA confirmam isso
Em 21 de novembro de 1984, uma operação massiva de transporte humano começava na Etiópia. Envolvendo 28 aviões, mercenários, a CIA e o governo do Sudão, Israel conduzia uma tentativa de retirar todos os judeus da Etiópia.
Os chamados beta israel são também conhecidos por falashas – termo do idioma etíope ghiz que significa estrangeiro. Pertencem a uma das comunidades de judeus negros espalhadas pelo continente africano. Há também os lembas em Zimbábue e na África do Sul, os igbos, na Nigéria, e os ybir ou yeber, na Somália, além de outras tribos em Moçambique, Camarões, Costa do Marfim, Gana e Quênia. Eles já eram conhecidos dos judeus europeus desde o século 19, quando missionários britânicos que viajavam pela Etiópia encontraram as primeiras tribos. Em 1947, foram oficialmente reconhecidos pelos rabinos-chefes de Israel, antes mesmo de o país ganhar sua independência. “Muitos nunca haviam saído de seus vilarejos e se espantaram ao ver um judeu branco”, diz Cecília Ben David, professora de cultura judaica da Casa de Cultura de Israel, em São Paulo.

A Etiópia foi um dos países onde a Guerra Fria foi travada com napalm. Desde 1974, estava em guerra civil, envolvendo o governo revolucionário contra dissidentes e separatistas da Eritreia. Na Operação Moisés (como ficou conhecida, em homenagem ao profeta bíblico), cerca de 8 mil judeus etíopes foram para Israel através do Sudão. No ano seguinte, a Operação Josué retirou mais mil – número pequeno se comparado à Operação Salomão, que levou mais de 14 mil emigrantes para a capital israelense, Tel-Aviv, em 1991, incluindo um Boeing 747 carregando 1 088 pessoas, mais que o dobro de sua capacidade. De 1980 a 1992, cerca de 45 mil judeus etíopes migraram para Israel, que em 2010 já contava com quase 120 mil residentes. Apenas 8 mil deles continua na Etiópia.
A origem dos judeus negros não está clara e se mistura com a mitologia bíblica. A família real etíope, deposta pelos revolucionários em 1974, dizia-se descendente de Makeda, a rainha de Sabá, com o rei Salomão, de Israel (que na Bíblia aparecem conduzindo relações meramente diplomáticas). Os nobres etíopes se converteram ao cristianismo no século 4 d.C., enquanto os beta israel se diziam remanescentes dessa relação entre realezas.
Se a origem de algumas tribos é mitológica, a de outras têm comprovação científica. É o caso dos lembas, que tiveram sua origem semita comprovada por DNA numa pesquisa de
2010, liderada por Tudor Parfitt, professor de estudos judaicos modernos da Universidade de Londres, na Inglaterra, e autor do livro As Tribos Perdidas de Israel – A História de um Mito. Segundo o pesquisador, são descendentes dos cohanim, uma família de sacerdotes judeus da tribo israelita de Levi. Pelos estudos, o ancestral comum de ambas as tribos viveu entre 2 600 e 3 100 anos atrás.
“Eles alegavam ser de uma das tribos perdidas de Israel e traziam um objeto sagrado, semelhante a uma arca, que seus sacerdotes guardavam zelosamente. Com a ajuda de uma
equipe de Oxford, constatei que o objeto era de 1350”, afirmou Parfitt em entrevista publicada no site da SOAS (sigla em inglês para School of Oriental and African Studies ou Escola de Estudos Orientais e Africanos, da mesma universidade para a qual trabalha).
A arca se referia a um barco do clã buba, que também compartilha dos mesmos ancestrais dos cohanim. Outra pesquisa feita por Parfitt concluiu que grande parte das comunidades judaicas ao redor do mundo vêm do Levante, isto é, do atual território de Israel e vizinhanças. A única exceção são os etíopes, que não teriam raízes israelitas. “Sua forma de judaísmo foi uma das que se desenvolveram no país. Ou seja, os judeus não foram para a Etiópia em tempos antigos, mas o judaísmo sim”, disse.
Nos Estados Unidos há judeus negros que migraram na 2ª Guerra. Não há registros de tribos no Brasil, mas eles provavelmente foram trazidos para cá durante a escravidão. “Tantos cristãos-novos (judeus convertidos) de Portugal foram parar em alto mar após as perseguições da Inquisição que é provável que muitos tenham chegado aqui, assim como em Guiné, Congo e Angola, onde era menor o alcance inquisitorial”, diz Glasman.


  Lidiane Aires (Revista Aventuras na História, Agosto de 2012).

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O COTIDIANO NO BRASIL DURANTE A II GUERRA MUNDIAL

No caminho para a Europa, havia Natal. Nunca antes a cidade tinha recebido tantos turistas. Rapazes brancos que em poucos dias ficavam cor de laranja sob o sol, o que não espantava as moças da cidade. Elas cercavam os GIs para conhecer as novidades, inéditas na história do país. Whisky, Coca-Cola, Lucky Strike, foxtrot e bombardeiros de 16 toneladas.
 Cotovelo geográfico
Hoje, quem anda pela orla em Natal chega a Miami. A praia de Miami, assim batizada graças a quem a frequentava 70 anos atrás. No auge da Segunda Guerra, tomar sol em Miami, Rio Grande do Norte, era um dos passatempos dos 10 mil soldados americanos que, entre 1942 e 1945, operavam as bases militares mais importantes dos aliados no Hemisfério Sul - o Campo de Parnamirim e a Base Naval de Hidroaviões.

Espécie de cotovelo entre a América e a África, o Nordeste brasileiro era considerado pelos americanos um dos pontos mais estratégicos do mundo. Os aviões militares, que partiam da Miami original, nos EUA, faziam escala em Porto Rico, Trinidad e Belém - para depois partirem rumo a Senegal, Togo e Libéria e daí à Europa, levando carga ou os próprios bombardeiros, como as fortalezas voadoras B-17 e B-24. Parnamirim virou o aeroporto mais congestionado do mundo, com até 800 pousos e decolagens por dia. "Antes pacata e tranquila, a vida noturna de Natal alterava-se profundamente: era agora agitada e trepidante; bares e boates surgiam da noite para o dia", escreve o jornalista Murilo Melo Filho em seu livro de memórias, Testemunho Político. A americanização logo chegou aos trajes. Os homens abandonaram os ternos e as calças de risca-de-giz e passaram a vestir roupas cáqui de inspiração militar. As calças de brim azul, usadas nas horas vagas por recrutas americanos, chegaram ao Brasil via Natal - embora só fossem se espalhar pelo país na década de 50. As moças - que antes só passeavam na companhia de pais e irmãos, vestidas com saias rodadas - agora andavam sozinhas, de calças compridas, mascando chicletes, o sinal inconfundível da modernidade.
Além dos soldados, Natal recebeu estrelas do showbiz, enviadas pelo governo dos EUA para levantar o moral das tropas. Humphrey Bogart veio animar a estreia de Casablanca no teatro da base, em 1942. A orquestra de Glenn Miller tocou no Cine Rex. Nos prédios das bases militares, sucediam-se festas onde os combatentes americanos se misturavam aos jovens - e, principalmente, às jovens - natalenses.
Além de cortejar as moças de família, os americanos eram frequentadores de prostíbulos como o Wonder Bar, a Casa da Maria Boa, a Pensão Estela e o Bar Ideal. (Para controlar as doenças venéreas, os médicos do exército passaram a examinar as moças da zona de meretrício e as garotas saudáveis ganharam atestados chamados love cards.) Em Natal, mais do que em qualquer outro lugar das Américas, a política da boa vizinhança era um tremendo sucesso.
A Política de Boa Vizinhança do presidente americano Franklin Roosevelt era uma doutrina para toda a América Latina, visando combater o antiamericanismo e as simpatias pelo Eixo por meio de trocas culturais patrocinadas pelo Estado. Quando o Brasil entrou na guerra do lado aliado, em 22 de agosto de 1942, assumiu mais que um compromisso militar. Os americanos deixavam de ser figuras de cinema para se tornarem presenças físicas. Os brasileiros, antes só exóticos, viraram exóticas figuras de cinema.
-O que é isso, senhora Miranda?
-Um reco-reco.
-Reco... reco? - a voz poderosa vinha em fortíssimo sotaque americano.
-Sim. E isto é um pandeiro.
-Pandeiro?
-Sim, um pandeiro. Algo errado, mister Welles?
-Nada. É que às vezes fico meio confuso.
Era 15 de novembro de 1942 e o diálogo ocorria em um estúdio no Rio de Janeiro, transmitido diretamente à radio CBS dos EUA. Ao redor do microfone estavam Orson Welles - a voz mais famosa do país, graças à transmissão de A Guerra dos Mundos, em 1938, e que havia acabado de estrear no cinema com Cidadão Kane - e Carmem Miranda, que na época já era uma estrela de Hollywood. Ela tinha migrado aos EUA meses antes da guerra - quando o conflito começou, havia estourado na Broadway com o musical Streets of Paris, cantando Mamãe Eu Quero. Lá, ganhara o apelido de brazilian bombshell. Carmen era a encarnação da política de boa vizinhança: em 1940, se apresentou na Casa Branca e no mesmo ano foi eleita a terceira personalidade mais popular de Nova York.
Nas dezenas de filmes dos quais participou em Hollywood, Carmem se tornaria um estereótipo não só do Brasil mas também de toda a América Latina. Já Welles havia sido enviado para cá com a incumbência de gravar um documentário sobre o país - encomenda do Office of Interamerican Affairs. Welles virou figura folclórica nas noites cariocas: acompanhado de tipos como Grande Otelo, tomava proverbiais bebedeiras de cachaça, colecionava amantes e discorria sobre as origens comuns do jazz e do samba para extasiados convivas em bares e boates.
O Office havia enviado ao Brasil outro personagem ilustre: Walt Disney. O Rio de Janeiro foi a principal parada em uma viagem pela América Latina, no início de 1941 - uma espécie de pesquisa de campo para um filme de propaganda da amizade continental. Disney instalou seu QG no Copacabana Palace e cercou-se de artistas locais para sentir o clima. Com a ajuda de cartunistas brasileiros como J. Carlos e Luiz Sá, criou o maior sucesso da Disney no Brasil: Zé Carioca. Aliás, não criou: encontrou. Na comitiva brasileira estava o músico José do Patrocínio Oliveira, paulista de Jundiaí. Como membro do Bando da Lua, a banda de Carmem Miranda, viveu nos EUA, onde aprendeu inglês. Foi assim, sendo ele mesmo, que interpretou o papagaio Zé Carioca na animação Alô, Amigos, de 1942. Pois é, Zé Carioca era paulista. O personagem ainda é publicado no Brasil, enquanto ninguém se lembra mais dele no exterior.
A missão de Welles não foi tão bem-sucedida: em vez de gravar loas ao governo Vargas - conforme a encomenda -, ele registrou a vida nos cortiços cariocas e de tecelões e pescadores pobres no Nordeste. Os rolos acabaram confiscados. As imagens do documentário ainda existem, mas nunca foram montadas.O filme se chamaria: It's All True (É tudo verdade).
Matérias-primas
Os EUA não queriam a amizade do Brasil apenas por bases e danças exóticas nem pagaram com papagaios: como parte dos acordos com o governo Vargas, os EUA financiaram a construção da Usina Siderúrgica Nacional de Volta Redonda - que custou 200 milhões de dólares da época (hoje cerca de 2,6 bilhões de dólares). Do Brasil, os EUA queriam matérias-primas importantes ao esforço de guerra. A principal era a borracha, usada em tanques, jipes, aviões, uniformes e armamentos.
A indústria da borracha estava praticamente morta no Brasil desde o início do século 20. Nativa da Amazônia, a seringueira foi plantada pelos ingleses em suas colônias do Sudeste Asiático e essas plantações tinham uma produção muito maior que as brasileiras, pois estavam livres de pragas nativas. Mas os japoneses ocuparam a região e bloquearam o acesso às plantações. Além disso, o Brasil era fonte de materiais que iam desde minérios simples, como ferro e manganês, até diamantes industriais, óleos vegetais e carne em conserva. E era o único produtor disponível de cristais incolores de alta qualidade, o quartzo, utilizados em aparelhos de comunicação, detectores de som e de localização usados contra submarinos e aviões. A cera de carnaúba, palmeira nativa do Brasil, tem várias aplicações industriais: era usada na produção de vernizes à prova d¿água pela indústria bélica. Os bichos da seda, cultivados por pequenos produtores japoneses em São Paulo, eram essenciais na fabricação de paraquedas. E a hortelã-pimenta dava origem ao mentol, que aumentava a potência da nitroglicerina.
Ao decretar guerra aos países do Eixo, Vargas tinha uma dura tarefa de convencimento. Muitos brasileiros admiravam a Alemanha. Havia mais de 200 mil descendentes de alemães no Brasil. "Cresci ouvindo dizer que os alemães eram o povo mais inteligente e avançado da Terra. Já os EUA não tinham grande expressão antes de 1939. Essa admiração pelos americanos só veio depois dos afundamentos dos nossos navios", lembra o veterano da Aeronáutica Osias Machado.
Vida de imigrante
Para a sorte de Vargas, os nazistas fizeram sua parte em cultivar o ódio dos brasileiros. Em agosto de 1942, o irmão mais velho de Osias, Messias, vivendo no Rio de Janeiro, mandou um telegrama avisando que iria ao Nordeste no navio Itagiba. Em 17 de agosto, correu a notícia de que o barco fora afundado no litoral de Sergipe. Era a quarta vítima de torpedos alemães no mês - represália ao alinhamento do Brasil com os EUA, no início do ano. Até o fim de agosto, mais de 600 brasileiros morreriam. "Achei que meu irmão estivesse no fundo do mar. Aí, pensei: agora é guerra. Quero vingança." Dias depois, veio o alívio: Messias não havia embarcado no Itagiba. Mas a semente estava plantada. "Passei da admiração ao ódio em questão de dias. Juntei um grupo de amigos e saímos quebrando o que fosse de gente do Eixo. Não me arrependo."
A raiva de Osias não era incomum. Em 19 de agosto de 1942, uma multidão saiu às ruas de Porto Alegre. "Formou-se uma grande concentração popular em frente ao Cinema Central, daí irradiando-se por toda a cidade. Os manifestantes saíram correndo pelas ruas, iniciando as depredações que se estenderam até altas horas. Na Sociedade Germania, os manifestantes penetraram no edifício, retiraram os móveis e utensílios para o meio da rua e os incendiaram", noticiou o jornal Correio do Povo.
Até os comunistas aderiram à mobilização de Vargas. Na época, muitos líderes estavam presos. Ainda assim, os esquerdistas em liberdade se uniram ao regime contra o inimigo comum. "Os membros do PCB que não estavam em cana chegaram a criar um slogan na época: `Quem é jovem vai pra guerra¿. E a palavra de ordem foi levada a sério", diz o historiador René Gertz, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O Estado Novo foi um regime autoritário nacionalista - pelo decreto-lei 406, de 4 de maio de 1938, as escolas em língua estrangeira foram proibidas. No ano seguinte, foi a vez das igrejas - só o latim sobreviveu nos rituais católicos. Quando o Brasil entrou na guerra, também foram proibidas publicações em qualquer língua que não o português. Para viajar de um estado a outro, descendentes de alemães, italianos e japoneses precisavam de salvo-conduto emitido pela polícia. Não podiam se reunir, nem mesmo em casa. De 1942 a 1945, cerca de 3 mil pessoas foram presas sob acusações de serem "súditos do Eixo" e enviados para 12 campos de prisioneiros, os maiores nas cidades paulistas de Pindamonhangaba e Guaratinguetá.
O preço do azeite
Em janeiro de 1944, na véspera de embarcar para um treinamento nos EUA, Osias, voluntário do 1º Grupo de Caça da Força Aérea Brasileira, resolveu se despedir almoçando à beira da baía de Guanabara. Com o uniforme da FAB, entrou no restaurante Albamar - que existe até hoje - e pediu peixe. De garfo à mão, deu uma espiadela no vidro de azeite. "O azeite custava 20 cruzeiros. O peixe, uns 5", lembra. O azeite era e ainda é importado. Com o comércio internacional bloqueado pelos submarinos alemães, o preço se tornou impraticável. Osias ponderou e deu de ombros, pedindo o peixe sem azeite mesmo. Foi interrompido por uma voz com sotaque português na mesa ao lado, entre indignada e gentil. "Na minha terra, quem vai guerrear almoça de graça. E peixe só se come com azeite. Eu pago tudo." Pela gentileza do lusitano filantropo, Osias pôde enfrentar os nazistas com a força adicional do azeite de oliva.
Racionamento
A falta de itens elementares, como pão branco, gasolina e diesel, tornou-se parte do dia a dia bem antes do rompimento das relações diplomáticas com o Eixo. Em 1939, a escassez de trigo esvaziava os fornos das padarias - o Brasil sempre importou trigo. Em 1942, o governo tentou resolver o problema criando o "pão de guerra", feito com farinha de milho. Os preços eram tabelados. Em São Paulo, o pão branco custava 2,50 cruzeiros. O pão de guerra, 1,60. "Foi um dos momentos em que a mobilização da guerra chegou fundo no cotidiano das pessoas. O pãozinho branco já estava muito instituído entre nós", diz Roney Cytrynowicz, autor da obra Guerra Sem Guerra: a Mobilização e o Cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial.
Nos bares e restaurantes, reclamava-se que o pão de guerra tinha gosto de areia. Mas, se faltava pão, havia macarrão - importado da Argentina. Nascia o "pão de macarrão", tão popular que sua receita ainda pode ser encontrada no livro Não É Sopa, de Nina Horta, de 1995. Petróleo e carros eram outra parte importante do cotidiano. Para contornar a escassez (o país importava cada gota de óleo), em 1940 o governo decretou que todo proprietário de dez automóveis deveria ter, pelo menos, um movido a gasogênio. Em 7 de maio de 1942, começaram os racionamentos. Em julho, carros particulares foram proibidos no Rio. Logo, a maioria dos donos de carro teve de trocar os motores.
O colapso nos transportes levou à falta de outros itens - os ovos, o açúcar e o sal demoravam para chegar às grandes cidades. Em 1944, começou a faltar até lenha. Não havia peças automotivas, na maioria importadas. Em outubro, em São Paulo, havia mais de 300 ônibus parados por falta de chassis. No auge da escassez, o Correio Paulistano descrevia uma cidade vazia: "Nas grandes vias ermas, os distraídos pedestres atravessam as ruas sem olhar para os lados. As ruas ficaram limpas de automóveis".
A escassez levou à inflação: em São Paulo, o preço dos alimentos aumentou 400% durante os anos de guerra. O açúcar passou a ser racionado: em novembro de 1944, a cota por pessoa era de 750 g a cada 15 dias. Para comprar os gêneros que faltavam, eram usados cartões de racionamento - nos quais os donos de lojas e mercados anotavam a quantia de produto vendido. Em alguns bairros, para comprar carne, as filas começavam às 4 da manhã e os açougues só abriam duas vezes por semana. O caos nos transportes multiplicava filas na frente dos teatros, dos cinemas e das paradas de bonde - eles não foram tão afetados porque a matriz energética do Brasil era hidroelétrica.
Quem quisesse fugir dos bondes entupidos e com gente pendurada nos balaústres tinha de dividir um táxi com desconhecidos. "Ao fim do dia, os taxistas escreviam com giz o nome dos bairros residenciais no para-brisas e se enfileiravam, enquanto aguardavam os passageiros com destino comum", escreveu o jornalista americano Robert Moore, que visitou o Rio em 1944. "Quem deseja um táxi só para si é obrigado a pagar uma fortuna pela corrida."
Além dos americanos, de racionamentos e da perseguição a estrangeiros, o governo fez mais para trazer a guerra para perto. Em 1942, passaram a ocorrer blecautes nas maiores cidades brasileiras, um exercício de guerra para o caso de ataque aéreo ou naval. Cartilhas foram distribuídas para explicar o procedimento. Às 21 horas, tocavam as sirenes, escureciam os cinemas, apagavam-se a iluminação pública e até os faróis de carros. No Rio, os holofotes do Corcovado ficavam desligados. Em Salvador, até os tambores dos candomblés cessavam. "Pelas esquinas, rondavam os vigias, atirando pedrinhas nos telhados de casas onde houvesse luzes acessas. Portas e janelas eram acortinadas com pano preto, as frestas tapadas com jornal. Todos esperando o bombardeio", conta o escritor Paulo Carvalho-Neto em Morrer pelo Brasil.
Em Natal, o Dia da Vitória, 8 de maio de 1945, foi um fiasco. Multidões comemoravam na Times Square de Nova York, na praça Vermelha de Moscou e na avenida Rio Branco, no Rio. Ali ninguém saiu às ruas. O Teatro Carlos Gomes, onde seria celebrado o evento, estava deserto. Os organizadores foram às ruas para catar mendigos e prostitutas para ocupar os 600 lugares vazios. O discurso da vitória foi feito para uma plateia sonolenta, totalmente desinteressada. O for all, ou forrobodó, havia acabado.
Espiões nazistas no Rio
Fundado em 1928, o braço brasileiro do Partido Nazista era o maior fora da Alemanha - chegou a contar com mais de 2 mil membros, quase todos saídos dos 200 mil descendentes de alemães que viviam no Brasil na época. A seção brasileira do Partido Nazista foi desbaratada em 1938, quando Getúlio Vargas proibiu todos os partidos políticos, inclusive os estrangeiros. Mas isso não impediu que a Abwehr, o serviço de informações de Hitler, armasse uma rede de espionagem em solo brasileiro. Os espiões do Reich (na maioria amadores) passavam informações sobre política interna, geografia e movimento nos aeroportos por meio de rádios piratas, cartas com tinta invisível e microfotografias. Após a entrada do Brasil na guerra, todos os descendentes germânicos viraram suspeitos e muita gente inocente foi presa só por dizer guten tag (bom dia) na rua. Espiões de verdade foram também pegos: um dos líderes do esquema, o empresário Albrecht Gustav Engels, foi preso no Rio de Janeiro em 1943.
Fogueira no porta-malas
Para suprir a falta de gasolina e diesel, o governo brasileiro passou a produzir em 1941 carros e ônibus movidos a gasogênio - um aparelho instalado na parte de trás do veículo que transformava carvão vegetal em combustível. Pouco a pouco, os carros a gasogênio se multiplicaram pelas ruas de cidades grandes, como São Paulo - mas mesmo eles eram proibidos de trafegar entre 9 da noite e 5 horas da manhã. Como o pão de guerra, o gasogênio não caiu no gosto de ninguém. Além de demorar para funcionar, o carro tinha metade da potência de um motor à gasolina. "Fazia uma bagunça danada. Imaginem: era como ter de acender todos os dias uma fogueira no porta-malas do carro", lembra o veterano de guerra Osias Machado. Assim mesmo, São Paulo conseguiu organizar em 1944 seu primeiro Grande Prêmio de Automobilismo em Interlagos - só com carros à base de gasogênio. O motorista vitorioso, Chico Landi, futuro piloto de Fórmula 1, foi celebrado como um herói do esforço de guerra.
A batalha da borracha
Enquanto a festa acontecia em Natal, um aspecto mais sombrio dos acordos entre Brasil e EUA se desenrolava na Amazônia. Para suprir a necessidade dos aliados por borracha, Vargas organizou um verdadeiro exército de 50 mil pessoas para sangrar as seringueiras da floresta. A maioria desses "soldados da borracha", como ficaram conhecidos, veio do Nordeste, que em 1942 passava por uma seca gigantesca. Caminhões entupidos de nordestinos embrenharam-se por estradas tortuosas e esburacadas, desde o sertão até o coração da selva. "Mas aquela gente estava acostumada à caatinga seca, e não à floresta úmida. Milhares morreram tentando colher látex, de doenças pulmonares, por picadas de aranhas e cobras etc.", diz René Gertz, da UFRGS. Estima-se que entre 15 mil e 20 mil soldados da borracha tenham morrido nas profundezas da Amazônia. Para comparação, o número de soldados brasileiros mortos em batalha na Europa ficou em 465.
Os "corações sujos"
Os imigrantes japoneses foram o grupo mais afetado pelas perseguições aos "súditos do Eixo". Em 1943, 305 famílias de moradores das ruas Conde de Sarzedas e Estudantes, no bairro da Liberdade, em São Paulo, foram despejadas à força. Pouco depois, mais de 7 mil japoneses ou descendentes acabaram expulsos de Santos e enviados para a zona rural. A triste ironia é que a mais ativa organização nipônica não agia contra brasileiros - mas contra os próprios imigrantes. Após a rendição japonesa, em 1945, nasceu em São Paulo a organização Shindo Renmei. Militarista e ultranacionalista, afirmava que as notícias da derrota eram parte de um complô - e os imigrantes ou descendentes que acreditassem nelas eram chamados de "corações sujos". Apoiada por 80% da comunidade japonesa, a seita começou uma campanha de terror contra os "derrotistas": de janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, assassinos da Shino Renmei mataram 23 imigrantes.


 José Francisco Botelho e Ricardo Lacerda (Revista Aventuras na História, setembro de 2012).