quarta-feira, 27 de novembro de 2013

JUDEUS E CRISTÃOS NA ÉPOCA MEDIEVAL

Tornado povo errante desde que começara a diáspora no século II, os judeus tiveram que habituar-se a viver como minoria no seio de sociedades estranhas e hostis a eles.
 Convivendo com muçulmanos e cristãos
Quando, a partir do século VII dC, a maré muçulmana cobriu o norte da África e, em seguida, espalhou-se para a península Ibérica, os islamitas autorizaram que os judeus que lá viviam mantivessem sua fé desde que pagassem aos califas o dhimmi, ou jizya, um imposto obrigatório para quem não seguisse a religião do profeta Maomé.
 O problema maior do convívio dos judeus com os gentios deu-se com os cristãos europeus, pois a nova fé que tomara conta do Império Romano decadente, e que depois converteu os bárbaros germanos recém chegados, os odiava por terem repudiado Jesus Cristo.
 Não só isto, um dos seus discípulos mais próximos, Judas, traíra o Messias entregando-o aos romanos por 30 dinheiros. Agravava-se assim a imagem do judeu como alguém passível de traição, gente não merecedora de nenhuma confiança e que por um punhado de ouro ou prata punha em perigo quem o acolhia e dava abrigo. Ou como deles disse um Papa: "é o rato no bolso, a serpente em torno da cintura".
 Diáspora - êxodo dos judeus de Israel
Sefarditas - Norte da África, Itália, Espanha e Portugal (depois para Holanda). Convívio com muçulmanos, católicos e calvinistas.
 Asquenazis - Alemanha, Polônia, Estados Bálticos, Ucrânia e Rússia. Convívio com luteranos, católicos e cristãos ortodoxos.
 As sansões antijudaicas
Este arraigado preconceito de origem religiosa, fez com que diversas sansões e regulamentos fossem impostas ao então dito "povo da nação" ao longo da Idade Média. Não podiam ser proprietários de terras, lhes era vedado andar a cavalo ou assumir funções públicas. Casar com cristãos foi-lhes expressamente proibido em quase todos os reinos europeus.
 Em algumas cidades, para evitar uma aproximação com os gentios, obedientes ao quarto Concilio de Latrão, de 1215, exigiram que eles andassem nas ruas com uma rodela amarela (cor da traição) ou com o símbolo da estrela de Davi fixada no braço ou na lapela dos casacos, e, por vezes, com chapéus cônicos. Tornaram-nos os párias do medievo europeu, em "intocáveis".
 Houve naqueles tempos uma intensa diabolização deles e um aumento significativo da crença de uma conspiração semita visando "a ruína do cristianismo".
 Qualquer boato passou a ser uma ameaça à vida e aos bens dos judeus. Isto explica o motivo de muitos deles aceitarem o batismo cristão, quando se acirrava a política das conversões forçadas.
 Exatamente por serem considerados indignos é que lhes permitiram dedicar-se à prática dos negócios, especialmente do empréstimo a juros (a usura) e dos penhores, atividades proibidas aos cristãos. Mas esta sempre foi uma função exercida por uma minoria.
 Tirando-se os "judeus da corte" e os arrecadadores de impostos, a larga maioria dos assentamentos e dos lugarejos judaicos era composta por pequenos profissionais muito pobres (alfaiates, ferreiros, sapateiros, marceneiros, ourives, vendedores ambulantes, etc.).
 Sendo que alguns mais dotados exerciam a medicina (os médicos judeus como o filósofo Maimônides foram famosos na Idade Média) ou tornavam-se rabinos, guias espirituais da comunidade.
 O ódio que a plebe cristã lhes reservava vinha do fato de serem eles os únicos emprestadores de dinheiro aos quais podiam recorrer, em troca de um penhor, num tempo em que os poucos bancos que atuavam estavam reservados aos ricos e aos reis.
 A política da separação
Estavam, pois, por força das leis cristãs, obrigados a viver apartados da comunidade.
 Como assegurou Maria J.Ferrero Tavaraes:
 'Por razões de segurança e de vida coletiva, as comunidades judaicas localizaram-se sempre nos centros urbanos, independentemente de uma ou outra família poder residir nas zonas rurais. A comuna cujo centro era a sinagoga, erguia-se no espaço municipal e tinha a sua existência conferida pela concessão de uma carta de privilégios, onde se encontravam nomeados todos os seus usos, costumes, e liberdades. A permissão para abrir ou construir uma sinagoga era dada a um mínimo de dez famílias, residentes numa localidade, pelo rei como beneplácito do bispo, uma vez que a religião mosaica era tolerada na cristandade, com o objetivo de os seus crentes poderem vir a converter-se ao cristianismo' ( in Linhas de Força da História dos judeus em Portugal das origens a atualidade).
 Na Ibéria, desde 1412, seus aglomerados eram denominados de Juderias, na Alemanha de Judenhof ou Judenviertel e na Itália de ghetto.
 Todavia, o rancor antijudaico somente adquiriu foros marcadamente violentos a partir das Cruzadas contra os infiéis (a primeira começou em 1096; a segunda em 1147; e a terceira em 1189).
 Naquela oportunidade, o papa Urbano II fez uma conclamação em Clermont-Ferrant para que os cavaleiros cristãos marchassem unidos para a Terra Santa a fim de libertá-la da presença profanadora dos turcos seldjúcidas, convertidos recentes à fé de Maomé. "Deus quer!" dissera o papa. Uma onda de fervor religioso e febre fanática então tomou conta da cristandade.
 A sensação que atingiu a maioria dos cristãos que aderiram à Guerra Santa proposta pela Igreja Católica foi de que não poderiam partir para rincões distantes deixando a retaguarda à mercê dos pérfidos judeus.
 No exterior o inimigo era o Islamismo, no fronte interno era o Judaísmo. Foi então que uma onda de horror atingiu os pequenos conglomerados judaicos espalhados pela Europa Ocidental.
 Primeiros pogroms No fatídico verão de 1096, seus bairros viram-se atacados por turbas de desordeiros e pilhadores, quando não os próprios cavaleiros cruzados, antes de marcharem para os Santos Lugares, desejavam ¿ experimentar suas espadas¿ nas costas dos judeus.
 O historiador Steve Runciman observou que 'para um fidalgo saia custoso equipar-se para a Cruzada; se não tinha terras nem possessões penhoráveis, via-se forçado a pedir um empréstimo aos judeus. Mas, era justo que ao marchar para lutar pela Cristandade tivesse que cair nas garras dos indivíduos da raça que havia crucificado a Cristo? O cruzado pobre já tinha dividas com os judeus. Era justo que se visse impedido dos seus deveres como cristão por obrigações contraídas com alguém de raça ímpia? Para alguns deles os judeus eram ainda piores do que os muçulmanos a quem iriam dar combate'. (*)
 (*) Runciman, Steve - Historia de las cruzadas, vol I, pag. 137. Os destrutivos ataques que começaram a fazer aos bairros judeus foram muitas vezes estimulados pelas crescentes histórias que circulavam que diziam serem eles os promotores de sacrifícios infantis - de martirizarem crianças cristãs na época da Páscoa judaica para usar o sangue dos inocentes como purificação -, ou ainda como profanadores das hóstias.
 As perseguições se estenderam da Inglaterra (Norwich, Londres e Winchester) para a França (Rouen, Evreux, Paris, Dampierre e Ramerupt), até atingir o auge na Alemanha (Colônia, Mogúncia, Trier, Metz, Worms, Speyer, Wursburgo, Nuremberg, Rottenburg e Regensburg).
 Na região da Renânia alemã, o conde Emich von Leisingen, um licencioso líder de arruaceiros, ainda que aceitasse "compensações financeiras" para não atacar a comunidade judaica, liderou um massacre em Worms e vários incêndios de sinagogas em Colônia e Mogúncia.
 A política das expulsões
A conseqüência lógica desta hostilidade geral, de crescente fobia ao judeu, foi a adoção da política de expulsão por parte dos reis europeus. Não que os monarcas ou imperadores assim o desejassem ou que o Papado estimulasse, era o povo miúdo, dopado pelo fanatismo do baixo clero, quem exigia que dessem um fim neles.
 Para os interesses maiores do trono era melhor ter por perto gente habilitada em lidar com dinheiro e com empréstimos, visto que os reis sempre estavam carentes de recursos para financiarem suas guerras. Mas o peso da "opinião publica" marcadamente antijudaica - atiçada por monges e padres extremistas -, prevaleceu.
 Deste modo, os de fé mosaica foram então banidos da Inglaterra (pelo rei Eduardo II, em 1290), da França (em 1306, por Filipe o Belo), da Espanha (em 1492, pelos reis católicos), e de Portugal (em 1496, por D. Manuel I).
 Um tanto antes, em 1237, o Imperador Frederico II Hohenstaufen determinara que a condição deles fosse à de ¿escravos ou servos do Tesouro Imperial¿, e, em 1230, São Luís, o rei da França, considerou-os servos do rei e dos senhores feudais ao tempo em que mandara queimar em praça pública exemplares do Talmude em Paris.
 Pelo Estatuto de Toledo, tido como Los Estatutos de Limpieza de Sangre, aparecido em 1449, qualquer função pública estava proibida a eles. Foi o primeiro regimento racista que se conhece no Ocidente, separando os espanhóis em cristãos velhos ("autênticos") e cristãos novos (judeus conversos mantidos sob suspeição), impedindo-os de assumirem funções de conselheiros, alcaides, juízes ou escrivães.
 Assim é que o poeta Lope de Vega diz por um dos seus personagens, orgulhoso da sua estirpe:
Yo soy un hombre/aunque de villana casta/limpio de sangre y jamas/ de hebrea o mora manchada (Sou um homem que ainda que de baixa origem não tenho jamais manchado meu sangue por judeu ou mouro) - Peribañez.
 E, evidentemente, quando se deu o terrível surto pestífero do século XIV, a Peste Negra (1348), que dizimou um quinto da população da Europa Ocidental, os judeus logo foram apontados como os causadores da desgraça, atraindo incontida animosidade dos gentios.
 Num outro episódio de pandemia, ocorrido em 1506, dois mil cristãos-novos (judeus convertidos) foram mortos pela populaça de Lisboa, estimulada por padres delirantes que os apontou como responsáveis pela tragédia.
 Muitas das medidas reais de exclusão foram revistas, mas, em geral, a política de perseguição empurrou os judeus em direção ao Leste europeu, fixando-os majoritariamente na Polônia, Ucrânia, Rússia e Moldávia.
 A Inquisição
Durante setecentos anos, de 711 a 1492, a Espanha foi palco de uma intermitente guerra entre os cristãos e os invasores muçulmanos. A partir do século XII, tornou-se, com mais intensidade ainda, uma das fronteiras sangrentas das Cruzadas contra o Islã, sendo que os espanhóis em diversas batalhas contaram com o auxilio de cavaleiros cristãos vindos de outras partes da Europa.
 Neste cenário, os judeus sefarditas, pelo menos entre os séculos XI e XIII, não passaram de todo mal (o período foi apontado como o século de ouro da cultura judaica e da literatura ladina na Espanha), até que os cristãos conseguiram a vitória final com a tomada de Granada, a última cidade muçulmana a cair nas mãos dos reis católicos Fernando e Isabel, em 1492.
 Os sinais perigosos de antijudaísmo da parte dos cristãos já haviam sido anunciados um século antes quando se deram pogroms insuflados pelos padres.
 No primeiro dia de Tamuz 5151 do calendário hebraico (4 de junho de 1391) ocorreram tumultos em Sevilha. Os portões da judería foram incendiados e muitas pessoas morreram. As sinagogas foram convertidas em igrejas e os bairros judeus preenchido com colonos cristãos.
 Instigados pelo sermonista São Vicente Ferrier, pregador apocalíptico, líder dos "Flagelantes", as desordens ampliaram-se para outros locais da Espanha, como Valência, Madri, Cuenca, Burgos e Córdoba, quando o fogo tomou conta dos templos, das oficinas e das lojas depredadas por turbas católicas enlouquecidas.
 Ao propósito da unificação política da península Ibérica liderada pela Monarquia Católica, associou-se a Igreja Católica, ambos convencidos em por um fim à diversidade religiosa que até então imperava na Espanha. Quem não aceitasse a fé oficial deveria deixar o reino.
 O Decreto de Alhambra ou Édito de Granada, assinado pelos Reis Católicos em 31 de março de 1492, colocou os judeus na alternativa da conversão forçada ou do exílio (desde que deixassem seu patrimônio nas mãos do tesouro real). O grão-rabino Isaac Abravanel ainda tentou inutilmente demover suas majestades, mas elas foram pressionadas pelo inquisidor-mor D. Tomás de Torquemada a não voltar atrás. Milhares de judeus escolheram a apostasia para continuar morando em solo onde de há muito viviam, mas um número considerável dele teve que deixar o país para sempre. (*)
 (*) as provas arqueológicas indicam que presença judaica na Ibéria remonta ao ano de 482, por conseguinte muitos deles descendiam de famílias que já estavam lá há mil anos.
 A polícia da consciência
Autorizada pelo Papado a funcionar desde 1480, a Inquisição Espanhola (a de Portugal é de 1536) tornou-se uma poderosa máquina de perseguição político-religiosa projetando uma sombra grotesca e triste sobre a história da península Ibérica.
 Além de ser uma policia da consciência, o assim designado Tribunal do Santo Ofício foi uma arma eficaz para assegurar o monopólio da fé católica sobre a população em geral e fixar o predomínio dos cristãos velhos "de sangue limpo" sobre todos os demais.
 A sua justificativa de ser era a desconfiança. Com tantos judeus (ditos, marranos) e mouros (ditos, mouriscos) forçados a se converter ao cristianismo, era natural que levantassem suspeitas quanto à sinceridade daquela adesão aos mandamentos de Jesus. Era preciso, pois, vigiá-los para ver se, secretamente, não cometiam crimes "contra a fé".
 Uma crescente burocracia, ordenada segundo as Instruções de Torquemada, então foi instituída para controlar os passos dos ditos cristãos-novos, isto é dos conversos. Bastava uma simples denúncia anônima para que os suspeitos se vissem presos às engrenagens do SantoTribunal.
 Detidos e encarcerados, os réus eram submetidos à sistemática tortura do potro, da polé ou do garrote, até que algum tipo de confissão lhes fosse arrancada. Por vezes, bastava a simples exposição visual dos instrumentos de tortura - in conspecta tormentorum - para que ocorresse a auto-incriminação.
 Dependendo da magnitude do crime apurado, o suspeito era acusado e após ter sido julgado e seus bens expropriados era submetido a um auto-de-fé: uma cerimônia pública de expiação.
 Conduzido pelas ruas trajando um sanbenito com um ridículo chapéu cônico à cabeça, com cartazes infamantes pendurados no peito e nas costas, apupado pela multidão, era levado até uma praça para que todos pudessem assistir os tormentos que o herege devia obrigatoriamente padecer.
 Nos casos mais graves - comprovada a prática de "coisa judaizante" - era condenado à morte na fogueira como exemplo de expiação dos seus pecados. Os que por um acaso conseguiam escapar eram executados em efígie, isto é, em imagem.
 Entre 1485-1501, em Toledo, 250 foram entregues ao "braço secular", isto é, executados em público e 500 outros em efígie. No mesmo período, em Valência, 643 sucumbiram no patíbulo enquanto 479 o foram simbolicamente. Até na aprazível ilha de Maiorca 120 foram supliciados até a morte e 107 o foram em efígie (ver Kamen, Henry - A Inquisição na Espanha, pág.. 361).
 Nem aqueles que se refugiavam nas colônias dos impérios ibéricos estavam a salvo. A Inquisição, com certa regularidade, enviava Visitadores do Santo Oficio para o Novo Mundo para caçar os fujões. Sendo que na cidade de Lima, capital do vice-reino do Peru, o Santo Oficio se estabeleceu em caráter permanente, assim como na cidade do México, cujos tribunal foi inaugurado em 1569, conquanto que um terceiro foi estabelecido em Cartagena das Índias, Colômbia, em 1610.
 Poucos anos depois desta política de extermínio de uma religião, a presença milenar da comunidade dos judeus sefarditas praticamente deixou de existir na Península Ibérica, pondo fim definitivo ao convívio das três raças (a espanhola, a judaica e a moura) e das três religiões (a cristã, a mosaica e a islâmica) que até então a caracterizara.
Voltaire Schilling

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