segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O DISCURSO DO REI

Albert é um príncipe inglês gago. Com a ajuda de sua mulher, ele encontra um terapeuta com métodos pouco ortodoxos que tenta ajudar. Quando Albert tem que assumir a coroa da Inglaterra, será seu terapeuta quem virá em sua ajuda.
 É preciso dar crédito aos ingleses pelo que eles têm feito nos últimos tempos: rever de forma pouco glamourizada a monarquia local. Filmes como A Rainha e A jovem rainha Vitória fazem uma releitura intimista dos bastidores do poder real. É bem verdade que, muitas vezes, essa “nova visão” vem ainda coberta de bom-mocismo e excesso de boa vontade – deixando de lado, propositalmente, questões mais controversas. O discurso do rei é mais um exemplar nessa galeria que tenta mostrar que os nobres são gente como a gente.
 O nobre em questão é o rei George VI (nascido Albert Frederick Arthur George), cuja gagueira torna-se um empecilho toda a vez que ele vai se dirigir à nação. Em tempos de paz isso já seria um problema. Em tempos de crise, isso coloca uma espada sobre sua cabeça. O nobre é interpretado por Colin Firth que, por ser inglês, não precisa fingir o sotaque (o que sempre garante prêmios), mas, por não ser gago, teve um pouco mais de trabalho para criar seu personagem. Campeão de indicações do ano, com 12, o filme faturou os 4 Oscar mais importantes - melhor filme, diretor (Tom Hooper, da minissérie John Adams), ator e roteiro original.
 Escrito por David Seidler – que também foi gago na juventude – , O discurso do rei é um divertimento cinematográfico à moda antiga, daqueles que as pessoas gostam de ver porque além de se divertirem saem da sessão supondo que conhecem mais sobre a história da Inglaterra, e tudo isso por apenas um ingresso.
Albert tentou diversos métodos para superar seu problema, mas nada funcionou. Sua mulher, Elizabeth (Helena Bonham Carter, no papel de boa moça), descobre um sujeito com métodos nada ortodoxos. Mas, para quem já tentou falar com a boca cheia de bolas de gude, nada poderá ser mais radical. O sujeito é Lionel Logue (Geoffrey Rush, de Shine – Brilhante), um terapeuta que mais com falação do que ação pode ser capaz de curar o futuro monarca.
Como esse é um filme de visão intimista, a política é reduzida ao básico, apenas para dar tom à trama. A questão central é George falar à nação e, com sua voz potente, ajudar os ingleses a superar um período conturbado e sobreviver à guerra que se avizinha. O irmão mais velho David (Guy Pearce) sobe ao trono após a morte do pai (Michael Gambon) e se torna, por um breve período, o rei Edward VIII. Mas seus problemas são piores do que a gagueira de Albert. Amante de uma mulher (Eve Best) que não apenas é plebeia e americana, mas também divorciada, ele abre mão do trono para ficar com a amada, o que obriga Albert a aceitar a coroa. A dinâmica de poder que envolve essa subida e descida do trono e o que se desenrolou depois (a simpatia de David por Hitler, que conheceu na Alemanha), por si só, já garantiriam outro filme – mas em O discurso do rei isso não interessa.
 O que sobra é a amizade entre o rei George e o terapeuta que lhe trouxe segurança e, com isso, pode tê-lo ajudado a mudar o destino do mundo. Se num primeiro momento há um embate entre ambos – afinal o nobre não gosta muito dos métodos de Lionel, que se torna uma espécie de figura paterna –, com o tempo ele se rende aos métodos e ao poder de persuasão do outro.
O diretor Hooper sabe que é preciso deixar o filme nas mãos de seus dois atores centrais para que O discurso do rei funcione. E é exatamente isso que ele faz. A dupla Firth e Rush domina a cena sem muito esforço e sabe criar a empatia na medida certa para seus personagens – nem tão doces, nem tão atormentados. A visão que o filme traz da monarquia não é tão ácida e relevante como em A Rainha.
 Alysson Oliveira(CineWeb).

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