terça-feira, 19 de novembro de 2013

VOLTAIRE EM DEFESA DA TOLERÂNCIA

Desde que se exilara na Inglaterra em 1726, Voltaire encantou-se com a liberdade dos súditos britânicos. Não só isto, tornou-se um anglófilo preocupado em difundir a ciência (as concepções de Newton) bem como os costumes e idéias dos escritores e pensadores daquele reino que ele entedia ser feliz. Entre elas entregou-se por igual na defesa da tolerância.
 Em favor da tolerância
Seguindo as pegadas de John Locke, que apresentou uma sólida argumentação a favor da tolerância como remédio para as discórdias civis e religiosas ('Cartas sobre a tolerância', 1689), Voltaire produziu dois ensaios sobre o tema. Um ele introduziu no seu Dictionaire Philosophique, (Dicionário Filosófico), de 1764, verbete 'tolerância', o outro foi uma exposição mais longa da sua defesa do Caso Calas, dado a público um ano antes, em 1763, intitulado Traité sur la tolérance, em favor da reabilitação de um burguês protestante, Jean Calas.
 O pobre homem sofrera, devido a um erro judicial, uma pena injusta por motivos de fanatismo religioso, perdendo a vida e os bens quando esquartejado em Toulouse em 10 de março de 1762 (no mesmo local onde o filosofo italiano Vanini fora queimado pela Inquisição acusado de ateísmo, em 1619). O Traité se tornou um libelo do iluminismo contra o obscurantismo, ou como se disse, o J´accuse do século XVIII.
 Contra o fanatismo
Não havia outra solução, para ele, no combate ao radicalismo religioso e a inclinação para o extremismo teológico senão que a adoção de uma firme política da tolerância. O fanatismo é uma espécie de febre ou cólera da alma que leva os indivíduos a confundirem visões e sonhos com a realidade, terminando por satisfazer sua loucura por meio do crime. É a aliança entre a ignorância e a crueldade.
 'O que é tolerância', perguntou, senão que 'o apanágio da humanidade¿. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices...'(Dicionário Filosófico). Para ele nada melhor como exemplo do bom convívio entre as diferenças do que frequentar a bolsa de valores, coisa que ele fazia costumeiramente em Londres.
 Lá se encontravam o episcopal, o calvinista, o muçulmano, o judeu, o católico, e seja mais qual for, todos em harmonia ganhando o seu dinheiro e ajudando na prosperidade do reino. Nenhum deles se aprontava para degolar o outro ou para colocá-lo na fogueira. Por que, no restante da sociedade, não se seguia o exemplo do bom convívio deles?
 Um histórico de desavenças e perseguições
Para Voltaire, o desacerto dos cristãos não começou com a Reforma. Data de tempos bem mais remotos. Já nos primeiros séculos do cristianismo, entre Tertuliano, Origines, Novaciano, Sibelius, Donat, e outros patriarcas, imperava abertamente a discórdia. Mesmo depois de Constantino ter reconhecido o cristianismo como religião do império, a cizânia não cessou entre os seguidores da nova fé; atanasianos brigavam com eusebianos.
 Durante a perseguição de Domiciano as seitas cristãs não cessavam de ofenderem-se. Ainda que tivessem escondidas em subterrâneos ou nas catacumbas de Roma, trocavam injurias e lançavam maldições umas contra as outras.
 Naqueles idos a Igreja Cristã, inundada de sangue, jamais marchara unida: o ebionita excomungava o corpocraciano, que por sua vez, era anatematizado pelo sabeliano. E tais desavenças e rancores se projetaram pelos tempos a fora, fazendo com que somente a tolerância poderia vir a saná-los.
 As incertezas da fé
Como poderiam os integrantes das seitas cristãs estarem tão certos e aferrados às suas crenças se elas não estão baseadas nos rigores da geometria nem da aritmética? O que os garantia deles serem os depositários da verdadeira fé e os outros não? Isto o levou a concluir que havendo duas igrejas num reino uma tentará cortar o pescoço da outra, se forem trinta viverão em paz.
 Além disto, havia uma enorme distancia entre as práticas de Jesus e o que mais tarde se estratificou como norma da Igreja Cristã. Na verdade, afirmou Voltaire, ela é 'o oposto da religião de Jesus'. Tudo isto o levou a concluir que, devido as nossas fraquezas e nossos erros, tão humanos e constantes, 'devemos tolerarmo-nos mutuamente' visto estarmos sujeitos à mutabilidade, à inconseqüência e ao engano. Não somos senão 'um caniço vergado pelo vento na lama', o que não nos autoriza a desencadear perseguições a ninguém, muito menos a um outro caniço igual a nós.
 Atingir o alvo
Voltaire não acreditava que suas palavras pudessem ter qualquer efeito de fato sobre o poder clerical promovendo a sua conversão à tolerância. Ele dirigia-se, ativa e diretamente, a um novo elemento que se formava crescentemente no século XVIII: a opinião publica!
 Dela é que partiria a pressão a ser feita junto às autoridades seculares para coibir a intolerância, especialmente se na cabeça do reino estiver um príncipe ilustrado, um déspota esclarecido, como era o caso de Frederico II da Prússia, que acolhera Voltaire em seu palácio de Sans-Souci e que usara o pulso firme para evitar as quizílias religiosas em Berlim.
 Alguém, enfim, com visão moderna que lançaria mão dos poderes do estado para impedir os exageros do fanatismo e dos desatinos praticados em nome de Deus.
Voltaire Schilling

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