sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

OTTO VON BISMARCK E RICHARD WAGNER: UM ENCONTRO HISTÓRICO

Seguramente Otto Von Bismarck e Richard Wagner estavam entre os alemães mais famosos da época do II Reich (1871-1918). Tanto o chanceler como o maestro haviam afinado seus instrumentos - um como chefe político e militar o outro como regente e compositor de fama - para que a Alemanha viesse a alcançasse a tão almejada unificação conquistada finalmente em 1871. Mas o encontro deles, ocorrido em Berlim frustrou o músico.
 Atrás de apoio
A unidade nacional alemã, conseguida logo após a vitória na guerra Franco-prussiana de 1870-71, proporcionou um clima de fervoroso patriotismo que varreu a nação germânica em todos os sentidos. Richard Wagner que fazia tempos ambicionava construir uma edificação especifica para livremente encenar suas óperas, cuja concepção era ampla e revolucionária, acreditou que havia chegado o momento certo para a concretização do seu sonho.
 Nada mais natural lhe pareceu, do que pedir apoio diretamente ao arquiteto da unificação: o ex-chanceler da Prússia, agora chanceler do II Reich, o príncipe Otto Von Bismarck. Assim sendo marcou uma entrevista com ele em Berlim, em 1871. Para os seguidores de Wagner foi um encontro de duas realezas. Acontecimento que, todavia, malogrou.
 O passado de ambos era muito diferente. Otto von Bismarck, nascido na herdade dos seus antepassados em Schönhausen, em 1815, vinha de uma família dos junkers prussianos e estava estreitamente ligado aos valores da monarquia, da hierarquia e da disciplina militar. Isto não o impediu de fazer uma trajetória política inversa à sua formação ideológica.
 Combatendo como chanceler a social-democracia, movimento sindicalista de esquerda que crescera enormemente na Prússia, desde a década de 1870, terminou por introduzir no II Reich um conjunto de reformas na previdência social que foram consideradas como o primeiro passo do moderno Estado de Bem-Estar Social. Um conservador que se preocupou em integrar a massa operária no sistema imperial.
 Richard Wagner, nascido em Leipzig, capital do reino da Saxônia, em 1813, por seu lado, era-lhe socialmente o oposto. Supostamente filho de um escrivão da polícia, foi criado pelo padrasto, um pintor que não deixou fama, num ambiente artístico bem longe dos palácios. Com a eclosão na Alemanha da Revolução de 1848, largou a batuta de bem sucedido regente de orquestra para envolver-se seriamente nos acontecimento a ponto de ser banido da Saxônia por ter integrado a milícia republicana.
 Não era para menos, pois um dos seus contatos naquela ocasião foi com o célebre líder anarquista Michael Bakunin, que se refugiara em Dresden (talvez viesse dele a inspiração do artigo que Wagner então publicou Die alte Kampf ist's gegen Osten A Velha Luta é contra o Leste que conclamava uma cruzada contra a Rússia reacionária). Na época o compositor era movido por profundo ódio aos valores da nobreza e da sua hierarquia cortesã.
 Fracassada a revolução, o compositor deu início a um caminho inverso. Cada vez mais se assumiu ideologicamente como um conservador, aproximando-se dos poderosos em busca de subvenção para sua obra. Convertido aos valores do nacionalismo e do patriotismo, resvalando para o anti-semitismo, projetou fazer das suas composições um poderoso instrumento de unificação estética e musical da Alemanha.
 O veículo disto eram as encenações de peças que remetiam à antiga Mitologia Germânica. Aquilo que Bismarck atingira pela diplomacia e pelos canhões, Wagner pensava obter pelas trompas e pelos acordes magnificentes da tetralogia do Anel dos Nibelungos (integrada pelo 'O Ouro do Reno', 'As valquírias', 'Sigfried' e 'O crepúsculo dos Deuses').
 Assim, na ideologia dele, o Artista complementava o Estadista na defesa da germanidade contra as forças externas. Ambos atuavam em campos culturais diversos, independentes entre si, mas o objetivo final era o mesmo: a luta pela unificação política alemã. O que levou a que August Puering afirmasse, num arroubo de exaltação patriótica, que 'espírito de Wagner e de Bismarck, os dois sozinhos, em conjugação, criaram a salvação da Alemanha'(in Richard Wagner und Bismarck, 1924).
 O encontro
Bismarck comentou com o conselheiro de estado Heinrich Von Poschinger que o encontro dele com Wagner fora muito cordial, mas que não trataram de apoio. "Não houve pedido de dinheiro", disse-lhe o chanceler. Nós nos sentamos no sofá e provavelmente acreditávamos que formaríamos um dueto: mas aconteceu algo diferente. O Maestro não ganhou de mim os suficientes elogios. "Ele não conseguiu relaxar e saiu desapontado."
 É possível que o compositor se sentisse inibido de fazer uma solicitação direta ao Fuersten, 'o Príncipe', que era como ele chamava o chanceler, o que se sabe é que de nada lhe rendeu o apronto de Berlim. O estadista em nenhum momento pareceu favorável a colocar recursos estatais a disposição do maestro, chegando mesmo a recomendar ao kaiser Guilherme I que verba alguma fosse despendida no projeto de Wagner de construir um teatro para si (que ele veio a erguer em Bayereuth, em 1876).
 Por igual, é de se supor que Bismarck estivesse ciente dos desperdícios cometidos pelo músico, um pródigo que gostava de levar uma vida faustosa sem medir gastos, chegando a presentear largamente seus amigos com objetos e jóias com dinheiro emprestado ou tomado de outros. Não se deve descartar os problemas que o compositor havia causado anos antes, em 1865, em Munique, quando criou uma situação deveras embaraçosa para o rei Ludwig II da Bavária, seu mecenas, ao se tornar público o caso de adultério dele com Cosima von Büllow, esposa do regente das obras de Wagner.
 Mesmo assim, o artista ainda escreveu por duas vezes ao chanceler, (em 1873 e 1875), conclamando-o a participar do Renascimento Espiritual da Alemanha, do qual se considerava um profeta, lembrando-o de que como Frederico o Grande fora negligente com a cultura alemã.
 Bismarck continuou negando-se a auxiliá-lo, recomendo que se fosse o desejo dele que recorresse diretamente à Assembléia Constituinte (a que aprovaria a Constituição do II Reich), que estava reunida naquela ocasião em Berlim.
 Desiludido, o compositor apelou diretamente ao kaiser para que estendesse o Protetorado da Sua Eterna Majestade sobre Bayereuth, sem saber que Bismarck já havia recomendado cautela. Para o maestro o chanceler mantinha-se numa posição anti-cultural.
 Nietzsche, que na época ainda era um admirador extremado do músico, sendo um dos seus maiores suportes intelectuais, não se conteve em criticar o prussiano, denunciando a insensibilidade do líder do Reich frente à grandeza de Wagner. Suspeitou que o poder chanceler, o excesso da autoridade dele, o embotava para as coisas da cultura, lançando por isto várias diatribes contra o Estado, entre elas o dito 'o poder faz a estupidez' (in O crepúsculo dos deuses, 1888). Outros ainda ¿ apelidados de 'Cassandras solitárias' pelos bismarckistas - intuíram que o II Reich continha sementes de problemas futuros visto que o poder acumulado pelo imperador era exercido sem que houvesse nenhum controle ou algum tipo de contra-poder que fosse eficaz sobre ele.
 Enquanto isto, fracassado no seu intento, o compositor decidiu então lançar mão de subscrições - obtidas pela multiplicação de sociedades Wagner - para levar adiante o projeto do Festspielehaus, o super-teatro, para o qual voltou a ter apoio do rei Ludwig II.
 Bismarck e a cultura
A indiferença do chanceler para com a cultura não mereceu críticas apenas de Wagner e Nietzsche, o célebre critico teatral Heinrich Hart num artigo de impacto, publicado em 1885, acusou Bismarck de ter fracassado em promover a arte alemã, pois tinha escasso ou nenhum interesse nela. Não só isto, em geral classificava escritores e artistas em geral entre os setores improdutivos da sociedade, os Honoratioren, que eram objeto dos seus ataques quando se pronunciava no Reichtag, o parlamento do império. O historiador Gordon Craig, por sua vez (in Germany: 1866-1945), aponta a indiferença bismarckiana para com as artes em geral como resultante do materialismo imperante na época.
 A criatividade artística, em solo alemão, dera lugar em importância aos avanços da tecnologia e da ciência, tudo voltado para o crescimento fabril e militar do Reich tornado potencia na Europa. Os trabalhos do espírito viram-se deslocados pelos planos industriais e experimentais outros que surgiam aos borbotões de dentro das oficinas e dos laboratórios, fazendo do engenheiro e do cientista homens bem mais importantes do que o artista ou qualquer outro profissional ligado à cultura.
 Pode-se igualmente supor que o chanceler desejou marcar uma posição contrária a da elite austríaca, particularmente da Vienense, a quem ele derrotara na batalha de Sadowa, de 1866, que sempre se mostrara entusiasta das artes a um ponto que alcançava as raias da frivolidade com sua paixão pelas valsas de Strauss e pela exuberância pictórica de Gustav Klimt.
 Bismarck tinha uma visão instrumental da cultura, quando não a tratava como motivo de luta como quando desencadeou, entre 1872 e 1875, a famosa Kulturkampf, a luta pela cultura, contra Igreja Católica por esta ser muito influente nos reinos do sul da Alemanha, particularmente na Bavária (ele chegou a mandar prender seis dos dez bispos alemães, além de expulsar do Reich a Companhia de Jesus).
 Todavia, não deixa de ser paradoxal que a tão estimada unificação, ambicionada em verso, prosa e música por tantos artistas alemães, quando de fato se concretizou através da II Reich, produziu um resultado medíocre no campo da literatura e da composição. Neste novo cenário, Richard Wagner aparecia como uma relíquia dos tempos pré-unificação.
 Se profícuo no terreno da ciência, o período Guilhermino nas artes não fez surgiu nenhum autor que ombreasse um Goethe ou um Beethoven. O mesmo Craig observou que parte da responsabilidade disto deveu-se aos próprios intelectuais e artistas alemães habituados a se refugiarem no intimismo, privilegiando a busca do ich, do eu, rejeitando participar ativamente dos acontecimentos políticos que os cercavam.
 O que eles realmente desejavam estava 'somente ao alcance de deuses ou semideuses' (in Germany, pag. 215). Não foi sem razão que anos depois, nos começos da Guerra de 1914, Thomas Mann apresentou-se num famoso ensaio como Betrachtungen eines Unpolitischen, 'Considerações de um apolítico'(1915-1918).
Voltaire Schilling

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O PIANISTA

Guerra x Arte
 Desde 1933, quando Hitler ascendeu ao poder na Alemanha, acumulando os cargos de primeiro-ministro e presidente, o destino dos judeus parecia selado. E as perspectivas eram as piores possíveis. Uma leitura do livro escrito pelo "Fuhrer" alemão (a obra "Mein Kampf"; "Minha Luta" em português) permitiria prever que eram mais que prováveis as perseguições e humilhações a que seriam submetidos os membros da comunidade judaica, ao menos dentro da Alemanha.
 Cientes que os objetivos dos nazistas incluíam o expansionismo territorial e a busca do espaço vital (e com isso obter mão de obra de baixo custo, matérias primas, áreas para novos investimentos e amplos mercados consumidores), ações que foram se efetivando na medida em que a Alemanha avançou sobre a Áustria e a Tchecoslováquia, a situação dos judeus residentes em países vizinhos também se tornava delicada. Uma eventual anexação ou invasão germânica significaria, na prática, a submissão a condições de vida degradantes e violências do mais variado calibre.
 A invasão da Polônia em setembro de 1939 confirmou os piores prognósticos. Tanto os poloneses em geral, quanto os judeus em particular, foram confinados a guetos e, posteriormente, transferidos para campos de concentração e/ou de extermínio. Na prática isso significou para essas pessoas:- a perda de seus bens e de seu patrimônio, a instalação em locais sem infra-estrutura adequada para permitir-lhes resistir ao frio e as doenças, a utilização dessas pessoas como mão de obra escrava, a separação de famílias (cujos membros jamais voltariam a se encontrar) e os desmedidos e arbitrários atos de violência física aos quais eram constantemente submetidos (que iam de espancamentos por pequenos erros ao frio e brutal assassinato na frente dos demais para estabelecer exemplos e disseminar o medo entre os prisioneiros).
 Como conseguir sobreviver a todas essas privações e agressões? De que formas poderiam os prisioneiros resistir sem o apoio dos familiares, sendo exauridos fisicamente por um trabalho degradante e ainda tendo que se alimentar com quantidades inferiores ao que seria necessário para se manterem com alguma saúde? Que esperanças poderiam existir entre eles se não tinham notícias do que ocorria no front de guerra?
 O filme "O Pianista", do diretor polonês Roman Polanski, nos coloca diante de uma circunstância inusitada quanto à história da guerra. Um caso muito particular, de um artista destacado, que relata suas dificuldades e nos mostra como a guerra pode enlouquecer e como a arte pode nos fazer sobreviver, resistir. Wladyslaw Szpilman, pianista renomado na Polônia da época, sofreu todas as agruras possíveis, viu seus familiares serem encaminhados para destinos que ignorava, mas que sabia serem os piores, sofreu agressões e ameaças de morte, realizou trabalhos forçados e teve que se esconder das perseguições e do desmedido ódio racial nazista em seu próprio país. Só podia dar num grande e premiado filme...
 O Filme
 O ímpeto nazista era tão grande e seus planos tão espetaculares que em poucas horas e alguns dias apenas, a Polônia se encontrava dominada pelos alemães. Não houve tempo útil para que a população pudesse organizar uma resistência e lutar contra o inimigo. Não houve tempo para que Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody, em atuação marcante que lhe rendeu o Oscar de melhor ator) e sua família tentassem fugir e se refugiar em países neutros.
 Szpilman era um admirado pianista que tinha um programa na rádio polonesa. Homem de hábitos finos, de bom nível cultural, tinha compleição física frágil e elegância reconhecida. Sabia que teria pouca ou nenhuma condição de sobreviver caso se tornasse prisioneiro dos alemães. Carregava consigo, porém um estigma que o tornava um alvo potencial da fúria germânica, era judeu.
 Como praticamente todos os judeus poloneses que viviam na capital do país, acabou sendo aprisionado e submetido à vida no gueto de Varsóvia. Respeitado e reconhecido entre seus compatriotas por suas habilidades musicais, foi tirado das filas que levavam os prisioneiros para o extermínio em campos de concentração como Treblinka ou Auschwitz. Ao invés de ser condenado a morte, foi transformado em escravo. Carregava tijolos e apanhava dos comandantes nazistas. Resistia e alimentava o sonho de participar de uma frente polonesa que enfrentasse os nazistas, mesmo que isso significasse a morte para todos.
 Diferentemente de seus companheiros, consegue fugir do gueto. Isso não significou para ele que sua vida estava garantida e nem, tampouco, que estaria longe das dificuldades próprias da guerra. Pelo contrário, sua luta pela sobrevivência estava apenas começando...(CineWeb).

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

BRASIL COLÔNIA: RIQUEZA E POBREZA

As primeiras histórias econômicas
O padre José Antônio Antonil SJ, inicialmente, deve ter exultado ao receber a autorização da censura portuguesa liberando-o para editar seu trabalhoso livro Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e Minas, saído do prelo em Lisboa, em 1711.
 A obra de Antonil
Chegado a Salvador, na Bahia, desembarcado da Europa, ele que nascera em Luca, na Toscana, logo se empenhou em ir servir o grande padre Antônio Vieira, o maior sermonista da língua portuguesa em todos os tempos, homem da Corte e das lides diplomáticas. Mas, jesuíta de ampla formação, curioso das coisas da terra do Brasil, Antonil resolveu registrar detalhadamente suas impressões sobre a maior riqueza da colônia daquela época; a lavoura de açúcar.
 Ainda que o ouro tivesse sido descoberto há pouco na capitania das Minas Gerais, o jesuíta concentrou sua atenção maior na produção feita no engenho. Sem, todavia, deixar de dar tratos ao plantar do tabaco, à criação de gado e ao comércio do couro. O intento dele era pragmático. Queria deixar algo de útil aos produtores rurais brasileiros. Pensou que suas anotações e observações - extraídas do dia-a-dia do engenho Sergipe do Conde de propriedade da Companhia de Jesus - poderiam servir como uma espécie de Manual da Lavoura para os donos de terra e um norte para o reinol que no Brasil viesse a se estabelecer.
 Terminou escrevendo o melhor livro sobre a economia colonial que se conhece, não lhe ficando mal o título de pai ou precursor-mor da história econômica do Brasil, ainda que na sua soberba monografia sobre a história colonial brasileira, José Honório Rodrigues o tenha colocado apenas no tópico da 'Literatura Açucareira'(ver José Honório Rodrigues - História da História do Brasil: 1 parte Historiografia colonial, S; Paulo: Companhia Editora Nacional, pag. 371 e 393).
 Talvez por isto mesmo, as autoridades da metrópole voltassem atrás. A licença de circulação do livro foi suspensa e os funcionários do rei tiveram ordem de recolher todos os exemplares que encontrassem pelas livrarias de Lisboa ou que tivessem expostos em alguma repartição.
 É possível que a razão maior da reviravolta, tenha sido o fato de Antonil, ingênuo, descrever os vários caminhos que poderiam ser usados para, partindo-se do litoral brasileiro, atingir-se às regiões da lavra do ouro, uma espécie de roteiro que podia cair em mãos adversas e assim proporcionar aos inimigos de Portugal boas informações para que lhe roubassem a riqueza finalmente encontrada. Calculam que sobraram apenas sete livros desta edição de Antonil.
 Mas este incidente de bibliofobia é revelador de outra situação que explica a pobreza intelectual e cultural do Brasil colônia.
 Vigiando a colônia
Dono de um território vastíssimo, imenso, com uma linha costeira de mais de sete mil e tantos quilômetros de extensão, litoral que devia ser guarnecido de tanto em tanto com poderosos fortes, para os portugueses, além da atenta vigilância, somente uma permanente 'operação silêncio' poderia manter os curiosos a distância.
 Sempre com pouquíssima gente e escassez de funcionários, a Coroa não tinha como policiar seu colossal império que se desdobrava por outros continentes e oceanos. Os cuidados então eram redobrados. Não podiam circular informações sobre a nova possessão, pois a metrópole não desejava atrair colonos ou outros povoadores como os ingleses fizeram nas suas terras americanas, mas sim somente explorar suas riquezas.
 A esta preocupação isolacionista juntou-se a da Igreja Católica impulsionada pelos medos da Contra-Reforma que a fazia ver heresia em qualquer canto, redobrando-se assim o policiamento.
 Assim, nos principais ancoradouros do Brasil daquele tempo, fiscais atentos reviravam as embarcações para evitar a exportação de relatos comprometedores escritos por algum desavisado ou o desembarque de 'obras perigosas', particularmente as que tinham origem francesa, matriz da subversão iluminista, que corroia a autoridade do rei e os dogmas da Santa Madre Igreja.
 Esta vigilância extrema terminou por fazer com que, por vezes, livros contrabandeados alcançassem São Paulo e o Rio de Janeiro trazidos por tropeiros do extremo sul, em rotas de mais de mil quilômetros, vindos da região do rio da Prata.
 Isto - esta paranóia - por igual explica o motivo de jamais permitirem a abertura de universidade no Brasil, como a Coroa espanhola aceitou que se fizesse na cidade do México e em Lima, no Peru, ainda no século XVI.
 Um centro de ensino superior, por mais mirrado e acanhado, implica abrir pontes para o mundo, em importar livros e acadêmicos de outras partes, em deixar circular as idéias e em abrir-se às inovações, em excitar o olho dos curiosos, em abrigar tratados, polígrafos e manuais. E, certamente, em ter um prensa.
 Nada disto era do agrado do poder colonial. O pequeno reino Ibérico, ciumento do seu achado, não queria partilhá-lo com ninguém. Mantê-lo no silêncio e no atraso, quando não bronco e alheio às coisas do mundo, era uma questão estratégica de sobrevivência dos seus interesses.
 O 'Diálogo das Grandezas'
Destino similar ao livro de Antonil teve outro 'clássico' do Brasil Colonial, surgido um século antes da obra do jesuíta. Tratou-se do Diálogo das Grandezas do Brasil, de autor anônimo que apareceu em 1618, e que somente foi encontrado na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, no século XIX.
 É o registro de um interessante e hipotético diálogo mantido por dois homens, um luso que há muito está na terra nordestina, provavelmente na capitania da Paraíba, chamado Brandônio, e um reinol recém desembarcado de nome Alviano. O primeiro, quase um brasileiro, procura expor as potencialidades da colônia, a excelência do clima e a abundancia de terras e, depois de descrever as capitanias uma a uma, elenca as promessas de riquezas que aguardam os destinos dos moradores frente ao português que, somente aos poucos vai sendo convencido do futuro dadivoso que aguarda a região conquistada.
 Ainda que no presente, o torrão se ressentisse da falta de tudo, de bons portos, de estradas, de pontes e outras melhorias que permitissem a circulação das coisas e dos homens, Brandônio é um entusiasta das coisas da nova terra. É um panorama extraordinário do Brasil e da sua gente, seus brancos, índios, caboclos e escravos, dos começos do século XVII baseado na relação direta que o autor, provavelmente dono de lavoura, tinha com os fatos locais (*).
 (*) Este mesmo modelo de diálogo vai ser retomado no romance Canaã de Graça Aranha, quando dois imigrantes alemães no Espírito Santo, Lentz e Milkau comentam as possíveis excelências do Brasil.
 A ironia disto, é que as reclamações de Brandônio sobre as questões de infraestrutura terminarão por serem atendidas vinte anos mais tarde não pelos reinos Ibéricos, mas sim em razão da invasão holandesa do Nordeste, quando funcionários da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, a WIC (West Indian Co.), entre eles o conde Mauricio de Nassau, a partir de 1637, vão providenciar as obras necessárias - canais, diques, drenagens - ao tráfico de mercadorias e ao escoamento da produção açucareira.
 A dialética colonial
Deste modo, seguindo a perversa lógica da dialética colonial, a riqueza do Brasil contribuiu decisivamente para sua pobreza cultural, pois o país se viu por três séculos sem universidades, sem livrarias, sem jornais e muito menos impressoras ou editoras, enquanto que nos Estados Unidos, prosperava a Liga de Hera (as universidades de Harvard, Bronw, Columbia, Dartmouth, Pensilvânia, Princeton e Yale) e mais de dois mil títulos de jornais chegaram a circular antes dos norte-americanos obterem a Independência, em 1776.
 Dado o abandono em que a colônia se encontrava não se deve estranhar que a primeira tentativa de se organizar as coisas da cultura no Brasil e seu primeiro organismo oficial tenha sido a Academia Brasílica dos Esquecidos, fundada na Bahia, em 1724.
 É este imenso déficit cultural que gerações de Brasileiros têm, século após século, tentado de todos os modos superar.

 Voltaire Schilling

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

DIFERENÇAS ENTRE ATENAS E ESPARTA

O periodo arcaico  é o segundo momento da historia grega, durou de 700 a .C a 500 a . C, e tem como principais acontecimentos a formação das primeiras cidades. Essas cidades foram formadas através do processo de sedentarização do Genos (tribos) que eram nômades. Tais cidades, inicialmente, tinham como principal característica a independência e a autonomia.
 Como uma não dependia da outra para nada, como dito eram independentes, isso acabou desencadeando certas rivalidades. Dessa maneira, analisaremos duas cidades que eram as mais importantes da Grécia Antiga, e as mais poderosas nesse periodo. Uma delas era Atenas, que tinha uma civilização que cultuava e admirava a intelectualidade, porém a educação era destinada apenas aqueles que tinham condição de pagar por um professor particular. E Esparta, que tinha uma sociedade de caráter completamente militarista e que viam na educação como um mecanismo de inserção de valores militares.
 Atenas, graças a sua localização geográfica perto do mar, desenvolveu um intenso comercio marítimo com colônias estabelecidas no Mar Mediterrâneo  e na Ásia menor. Esse desenvolvimento do comércio se deu pelo fato da região não possuir terras férteis que poderiam servir para o cultivo.
 Enquanto Esparta, pelo contrário, possuía um território rico em terras férteis, o que facilitou a atividade agrícola para a autossuficiência, e dessa maneira, com o desenvolvimento da agricultura, não tiveram o interesse em ter um comércio forte.
 Em relação as instituições políticas, podemos perceber uma sintonia entre as duas cidades, pois privilegiavam muito a aristocracia local. Mas as semelhanças terminam por ai, pois os feitos politicos também não foram os mesmos. Os atenienses foram sujeitos de uma série de reformas que acabaram desencadeando um governo democrático. Diferentemente, Esparta não realizou mudanças, e mantiveram uma Diarquia, um governo de dois reis, além da existência de assembleias.
 Uma outra diferença muito marcante desses dois povos é o papel da mulher perante a sociedade. Em esparta a mulher era de suma importancia para civilização, pois era ela a responsavel por gerar individuos fortes para serem usados em combate, e estavam à frente das decisões domésticas e também participavam de assembleias politicas. Já em Atenas acreditavam que a mulher não deveria se “intrometer” no mundo masculino, não tendo contato nenhum com a politica.
 Dessa maneira, podemos perceber que as cidades gregas, apesar de se situarem muito próximas, e dividirem a mesma cultura, tinham costumes muito diferentes e principalmente interesses diferentes.
Pedro Augusto Rezende Rodrigues 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A DESCOBERTA DE OURO CONTRIBUIU PARA A FORMAÇÃO DOS EUA

Como uma descoberta acidental levou milhares de pessoas à Califórnia e transformou os EUA em um país continental
A formação dos Estados Unidos, que nasceram da reunião de 13 colônias britânicas banhadas pelo Atlântico, deve muito a dois fatores bem disparatados, que têm em comum uma incrível coincidência: a vitória militar sobre os mexicanos, que se traduziu na forma de novos territórios, e a descoberta de ouro na Califórnia. Na manhã do dia 24 de janeiro de 1848, o carpinteiro James Wilson Marshall e seus funcionários trabalhavam na construção de uma serraria no rancho de John Sutter, na região de Sierra Nevada, no centro da Califórnia. Marshall tinha de desviar um riacho para instalar a serra, movida pela força da água. Quando olhou para o leito lamacento do rio dos Americanos, algo chamou sua atenção: havia uma coisa brilhando ali, à luz do Sol. Era ouro. Naquela manhã, a Califórnia era simplesmente terra de ninguém. Uma semana depois, a guerra travada entre Estados Unidos e México chegaria ao fim - e a Califórnia (mais Arizona, Novo México, Nevada e Utah, no oeste do continente) se transformaria em território americano. O carpinteiro e o dono das terras selaram um pacto para manter segredo sobre a descoberta, que não durou muito tempo. No dia 15 de março, um jornal da cidade portuária de São Francisco, então um vilarejo, revelou a história - que incrivelmente não causou alarde. Na verdade, ouro não era algo desconhecido por ali. "Mexicanos já haviam descoberto ouro no sul da Califórnia mais de dez anos antes", diz o professor de história americana Albert Camarillo, da Universidade Stanford.

Havia nos ermos da região uma daquelas confluências de oportunidade e necessidade que, quando ocorrem, costumam mudar o curso da História. A corrida do ouro transformou-se num rastilho que mexeu com corações e mentes de americanos do leste, a parte civilizada e estável dos EUA (mas a febre também contaminou gente do mundo todo). Era tudo o que o governo americano precisava para confirmar a vocação de país continental e levar pessoas para uma região desértica e pouco habitada, que acabara de ser conquistada aos mexicanos. De certa maneira, a corrida do ouro ajudou a moldar o caráter da nação. Tome-se o exemplo de Samuel Brannan, de São Francisco. Ao saber que havia ouro na Califórnia, montou uma loja para vender bateias (as bacias em que se lava a areia para separar as pepitas de ouro), pás e picaretas. Depois, saiu correndo pelas ruas de São Francisco com uma garrafa supostamente com ouro em pó, aos berros: "Ouro! Ouro! Ouro do rio dos Americanos".
A "campanha" de Brannan antecipou o que hoje chamamos de "marketing viral" - e realmente contaminou a população. O comerciante foi o primeiro exemplo de um tipo de cidadão que se aproveitaria da corrida do ouro sem dar-se ao trabalho de garimpar para ganhar muito dinheiro. Uma bateia que ele havia comprado por 20 centavos de dólar dias antes era vendida por 15 dólares. Em 9 semanas, ele faturou 36 mil dólares (ou 1 milhão de dólares em dinheiro de hoje). Outro empreendedor que se deu bem foi um alfaiate que criou uma calça de tecido grosso com rebites, perfeita para quem encarava o pesado trabalho de mineração. Ele se chamava Jacob Davis e se associou ao imigrante alemão Levi Strauss, que acabou batizando a calça jeans em 1853.
O ouro que brotava na Califórnia era generoso. Nos primeiros meses depois da descoberta, era possível coletar as pepitas diretamente do solo. Bastava agachar e pegar. O metal precioso era encontrado em leitos de rios e em ravinas aos borbotões. O mexicano Antônio Franco Coronel, por exemplo, abandonou o emprego de professor em Los Angeles e em três dias de mineração recolheu 4,2 kg de ouro. "Quem chegou cedo se deu bem", diz Susan Lee Johnson, historiadora da Universidade de Wisconsin.
Em pouco tempo, o rancho de John Sutter foi cercado por milhares de caçadores de fortuna. Barcos que atracavam em São Francisco, a 212 km dali, eram abandonados pelos marinheiros. A própria cidade ficou praticamente vazia. Em agosto de 1848, a notícia chegou a Nova York. Em dezembro, depois de receber um pacote com pepitas, o presidente americano James Polk foi ao Congresso para anunciar o achado. Nos 5 anos que se seguiram à descoberta, 300 mil pessoas do mundo todo correram para a Califórnia e tiraram de suas entranhas 370 toneladas de minério (em dinheiro de hoje, algo como 19,4 bilhões de dólares). Para ter uma ideia da volúpia, os territórios federais americanos costumavam levar décadas para atingir 60 mil habitantes, a cifra populacional para pleitear sua admissão na União como estado. Em 1848, o território federal da Califórnia tinha 14 mil habitantes, com maioria de hispânicos e índios. Apenas dois anos depois, tornou-se estado americano. "A corrida do ouro transformou o perfil dos habitantes da Califórnia", diz o professor Camarillo.
As viagens por terra, as preferidas de quem vinha com a família do leste dos EUA, demoravam meses - não existiam ainda estradas e ferrovias (a distância entre Nova York e São Francisco, 4,1 mil km, é equivalente à do Oiapoque ao Chuí, os pontos extremos do Brasil). Gente que preferia deixar a família e partir sozinho, como o aventureiro Sheldon Shufelt, normalmente ia de navio. Ele embarcou com destino ao Panamá, fez o trajeto por terra - o canal só seria inaugurado no século seguinte - e embarcou em outro barco no Pacífico. A viagem costumava demorar 3 meses. "Deixei aqueles que amo e minha própria vida para trás", escreveu Shufelt em uma carta para seu primo em março de 1850. Ele voltou a Nova York no ano seguinte, apenas para morrer de uma doença tropical que contraiu no Panamá - e sem dinheiro. Shufelt fez parte de uma geração que se tornou conhecida como 49ers (ou forty-niners, hoje o nome do time de futebol americano de São Francisco, em referência a 1849).
As notícias sobre ouro ao alcance da mão ganharam o mundo graças aos marinheiros que aportavam em São Francisco. Logo, chineses, latinos, europeus e até australianos chegaram à região. Os acampamentos dos garimpeiros rapidamente se transformaram em cidades - e muita gente começou a ganhar dinheiro no comércio, com lojas, armazéns e bordéis para atender às necessidades dos que corriam atrás do sonho americano da fortuna rápida. Mas o ouro era um recurso finito.
Numa manobra que usava o medo da anarquia para obter vantagens econômicas, os americanos criaram leis para restringir o acesso de estrangeiros aos veios. "Em 1850, o governo do estado passou a taxar o ouro descoberto por estrangeiros", diz a historiadora Susan Lee Johnson. "Isso limitou o trabalho deles e ajudou a definir que a busca por ouro seria, a partir de então, um privilégio reservado apenas aos cidadãos americanos." O tempo fechou de vez quando milícias de americanos passaram a ameaçar os estrangeiros. O recado era claro: a Califórnia é americana e o ouro pertence aos americanos, de acordo com o professor Camarillo. Como havia muito dinheiro em jogo, os conflitos rapidamente se radicalizaram. "A busca por riqueza foi feia. Desfigurou a natureza, explorou os mexicanos, exterminou tribos indígenas e maltratou chineses", afirma Richard Slotkin, professor de estudos americanos da Universidade Wesleyan.
O avanço sobre a terra foi tão grande e rápido que em 1853 o ouro começou a escassear. Agora só se conseguia extrair o metal com bombas de sucção e esteira mecânica. O tempo do heroísmo individual havia acabado. Para Slotkin, a corrida do ouro "foi uma terrível perda de vidas e empobrecimento de pessoas, em que pouca gente fez fortuna". De fato, James Marshall, que descobriu o ouro, morreu na miséria em 1885. Sutter também não ficou milionário - ele trocou ouro por gado e ovelhas, que acabaram roubadas por garimpeiros, e faliu em 1852. Mas a corrida do ouro deixou seu legado. O dinheiro da mineração impulsionou a região e o afluxo de imigrantes tornou a Califórnia um estado viável. Hoje, o PIB do estado está entre os dez maiores do mundo. O sonho americano continua ali, na forma da indústria do cinema e da informática, que transforma atores e nerds espinhentos em milionários da noite para o dia - tal como ocorreu com alguns dos forty-niners.


Carlos Bighetti (Revista Aventuras na História, jukho de 2012).

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A UTOPIA DE HITLER: O IMPÉRIO ARIANO EUROPEU

Se confirmada a vitória nazista na Segunda Guerra Mundial, qual seria o panorama político da Europa controlada por Hitler e pelos seus seguidores? O ditador expressou seus desejos numa série de encontros com seus conhecidos mais próximos intitulado como Conversas de Mesa, ocorridas entre 1941-42, que podem ser consideradas como a exposição da utopia nacional-socialista de domínio do velho continente.
 O apogeu do domínio nazista
Na transição ano de 1941 para o seguinte, a Alemanha nazista estava no seu apogeu. As forças bélicas alemãs, que haviam invadido a URSS em 22 de junho daquele ano, enquanto mantinham Leningrado sob sítio, estavam a um passo de tomar Moscou.
 O restante dos países europeus ou eram aliados de Hitler (caso da Itália, Romenia, Bulgária, Hungria, Finlândia) ou estavam ocupados por suas divisões (caso da Tchecoslováquia, Polônia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica, França, Iugoslávia e Grécia), cabendo à URSS estar naqueles meses terríveis numa situação dramática visto ter perdido o controle da maior parte do seu território ocidental (Bielorússia, Ucrânia, Moldávia). Milhões de prisioneiros soviéticos, reduzidos à fome e ao desamparo, estavam nas mãos dos agressores alemães, enquanto a sua capital, Moscou, via-se ameaçada pela Operação Typhoon.
 As divisões da Wehrmacht, mobilizadas desde 1º de setembro de 1939, estavam espalhadas desde os pontos extremos do norte da Noruega até, em numa linha diagonal, as proximidades da Criméia no Mar Negro, cobrindo um território de cinco milhões de quilômetros quadrados.
 Ainda que a ofensiva alemã frente a Moscou fosse detida em dezembro e a Alemanha tivesse declarado guerra aos Estados Unidos naquele mesmo mês de 1941, Hitler imaginava um destino radiante para o seu futuro império. O sonho da conquista do Lebensraum, do espaço vital para o povo alemão estava ao seu alcance.
 O espaço vital
A idéia de que havia uma injustiça histórica para com os alemães, ganhou forças a partir da unificação e da formação da II Reich (1871-1918). E ela se materializava no fato da nação germânica ser destituída de território correspondente à sua grandeza. Ao contrário dos anglo-saxões e dos russos, proprietários de imensas extensões marítimas ou continentais, eles estavam confinados no meio da Europa a pouco mais de 300 mil km² sem condições de poderem ampliar as suas terras.
 Daí que os primeiros defensores do Lebensraum, inspirados nas teses do geógrafo Friederich Ratzel, pleitear naquele momento a posse de colônias na África para assim poder escoar o seu excedente populacional (o que impulsionou, a partir de 1884, a conquista da Namíbia, da África Oriental alemã, e do Togo).
 Para Hitler, todavia, o espaço vital necessário aos alemães não estava no continente africano, como era o desejo dos colonialistas do século XIX, e sim dentro da Europa mesmo. Posição esta que fatalmente levaria, mais tarde ou mais cedo, a uma nova e generalizada guerra de conquista.
 Esta posição foi enormemente influenciada por um livro que causou estrondoso sucesso editorial quando da sua aparição em 1926, intitulado 'Volk ohne Raum', do escritor Hans Grimm, que, além de ser próximo a Rudolf Hess, secretário particular Hitler, mais tarde tornou-se ideólogo do expansionismo nazista.
 Nesta obra, Grimm narra como se fora uma epopéia a conquista alemã da África Oriental por um jovem conterrâneo Cornelius Friebott originário da Baixa-Saxônia, aventureiro que emigra em busca de terras para melhor viver, arrematando que "nenhum outro povo do mundo foi tão pouco privilegiado em termos de espaço para viver".
 Em vista desta clamorosa injustiça, tinham todo o direito a declarar uma guerra germânica em favor de novas áreas devido a sua elevada densidade demográfica e a sua capacidade produtiva superior.(*)
 (*) Por ter sido a Alemanha obrigada a entregar suas possessões africanas aos aliados, particularmente à Grã-Bretanha e à França depois da sua derrota na Primeira Guerra Mundial, acertada pelo Tratado de Versalhes de 1919, entende-se o significado de 'povo sem espaço' usado na novela de Grimm (que chegou a vender 400 mil exemplares antes da Guerra de 1939-1945).
 Todavia, Hitler trocou de direção do impulso para a conquista. O espaço procurado se encontrava nas vastas terras da Polônia e da Rússia, habitadas pelos eslavos e mongóis, povos de raças inferiores aos alemães e que justamente em razão disto deveriam cedê-las ao Herrenvolk, ao Povo de Senhores liderados por ele. A perda das savanas africanas seria compensada pela Drang nach Östen, a conquista das vastas estepes habitadas pelos eslavos.
 No seu livro 'Minha Luta', aparecido em 1925, ele foi bem claro quanto a isto:
 Indo contra todas as "tradições" e preconceitos, ela a Alemanha deve encontrar a coragem para reunir nosso povo e suas forças para um avanço no caminho que vai levar esse povo a partir do seu espaço de vida presente restrito para uma nova terra e solo, e, portanto, também libertá-la do perigo... de servir como uma nação de escravos.--- Adolf Hitler, Mein Kampf 1
 O Plano Geral para o Leste
Nas vésperas da entrada em ação da Operação Barbarossa que determinava a invasão da URSS, coube ao Reichsführer Heinrich Himmler, comandante-supremo da SS, preparar um programa para os amplos territórios a serem ocupados: o Generalplan Öst ou Plano Geral para o Leste.
 Como deveriam os alemães proceder com as zonas tomadas e o que fazer com a população civil que ali vivia?
 Naquela altura, transcorridos três anos de guerra, a SS (SchutzStaffeln), tida como a Guarda Pretoriana do Führer, havia se tornado um estado dentro do estado alemão. Ela encarnava os desejos mais profundos de Hitler quanto a mover uma guerra racial e ideológica contra os seus inimigos até os extremos da inumanidade. A SS era o exército ideológico do nacional-socialismo.
 Não só tinha o controle sobre as instituições policias (SS Polizei Division), como também possuía o seu próprio serviço de informações (a SD ou SicherheitsDinst), além de contar com divisões militares exclusivas (as Waffen SS), formada tanto por ardorosos nazista alemães como por colaboracionistas ou voluntário anticomunistas das mais diversas nacionalidades, uma espécie de Brigada Internacional da extrema direita européia ( no final do conflito chegou a contar com 900 mil homens em armas).
 E, evidentemente, cabia-lhe a supervisão de todo o complexo de campos de concentração e extermínio que começaram a se espalhar pela Alemanha e pela Polonia ocupada por meio de batalhões especiais: a SS-Totenkopfverbände, ou unidade caveira.
 A peculiaridade da Guerra no Leste
Como para Hitler a guerra do Leste se revestia de um caráter especial, pois se tratava simultaneamente de um enfrentamento ideológico (contra o comunismo) e racial (contra o judaísmo e o eslavismo), cujas regras de condução não obedeceriam aos meios convencionais.
 Reflexo desta disposição foi a ordem distribuída pelo Marechal Walter von Reichenau quando dos primeiros dias da invasão da URSS: 'o soldado do fronte oriental não é somente um combatente que segue as regras da arte da guerra, mas alguém que se porta de maneira racialmente desapiedada, pronto a castigar todas as bestialidades que ameaçam a etnia nacional alemã.'
 Assim sendo o Führer aprovou a sugestão de Himmler em 'limpar o terreno', afastando a maior parte dos eslavos do solo russo ocidental (previam o desterro de 31 milhões deles para o outro lado dos Urais, para a Sibéria) e promovendo ao mesmo tempo o extermínio dos judeus soviéticos (uns cinco milhões, que inicialmente poderiam ser removidos para as regiões polares da Rússia), fazendo com que assim fosse 'destruída a substância biológica dos povos orientais'.
 Como sinal do seu intento decretou a chamada Ordem dos Comissários que autorizava a execução imediata dos comunistas capturados para assim os russos ficarem desprovidos dos seus lideres e dirigentes.
 A razão disto devia-se a que 'na luta contra o bolchevismo, não era possível confiar em que o inimigo se apegue aos princípios da humanidade ou do direito internacional público...podemos aplicar um tratamento cruel e desumano contra os nossos prisioneiros.'(cit. Ernst Nolte, pag. 418)
 O Império Ariano
Então, do alto da sensação de vitória prestes a ser alcançada, foi que Hitler expôs numa serie de conversas - as Tischgesprächen - o seu plano para ocupar o espaço vital finalmente adquirido pela força das armas.
 A dimensão do Império Ariano era realmente colossal, superior ao Império de Carlos Magno ou o de Napoleão, pois englobava as terras da Escandinávia até a região sul das estepes russas.
 Este imenso continente que se abria - o Östimperium - era quase uma Índia a ser povoada e colonizada por fazendeiros alemães.
 Somente a sua parte mais oriental (formada pela Bielo-Rússia, Ucrânia e Moldávia) chegava a 850 mil km², mais de duas vezes a dimensão da Alemanha.
 Além dos colonos germanos haveria uma seleção genética para identificar tipos humanos arianizados existentes na França, Bélgica ou Holanda para igualmente serem transferidos para a nova área expurgada de eslavos e judeus e nela assentados.
 A península da Criméia, de clima aprazível situada no Mar Negro, seria reservada como uma espécie de Paraíso Ariano, transformada num centro de cultura e lazer povoado por imigrantes tiroleses, mas aberta às viagens turísticas dos demais germanos.
 O propósito final de Hitler era refazer o mapa europeu por meios estritamente raciais, no qual haveria o domínio absoluto dos germanos e dos germanizados - loiros de olhos azuis - que agiriam como Herrenvolk, como Povo de Senhores, reduzindo os habitantes locais ao imperativo da servidão obrigatória.
 Deste modo entende-se a anotação deixada por Hans Frank nos seus diários, segundo a qual "recebi ordens para saquear totalmente os territórios conquistados a Leste, ou seja, transformando suas estruturas econômicas, sociais, culturais e políticas em um monte de escombros." (19 de janeiro de 1940).
 A inspiração direta do Führer e seus seguidores mais próximos se originava evidentemente da experiência anterior do colonialismo europeu e da conquista o Oeste feita pelos norte-americanos (processo que ele tinha intimidade pela leitura de Karl May, um popularíssimo autor alemão, seu favorito, que narrava as façanhas incríveis do Velho Mão de Ferro e do apache Winnetou em suas caçadas e andanças pela América).
 Portanto, a utopia do Império Ariano era uma recriação em solo europeu das aventuras sangrentas e pilhagens que os homens brancos haviam feito nos continentes do Terceiro Mundo nos séculos XIX e XX.
 Jardim Antropológico
Os povos inferiores sobreviventes, os Untermensch, que viveriam dentro do Império não teriam acesso à educação ou à instrução mais elevada, sendo aptos apenas às regras mais elementares de convívio, trabalho e obediência.
 Como uma espécie de viveiro humano, ou de Jardim Antropológico, no qual os germanos poderiam admirar visualmente exemplares das etnias derrotadas, o Governados Geral da Polonia ocupada, Hans Frank, desenvolvera o projeto do Menschengarten, composto pelas agrupações submetidas, a ser situado nas cercanias da cidade de Cracóvia.
 Cada uma delas (judeus da Galícia, camponeses poloneses, russos ex-integrantes dos kolkozes, rutênios, ucranianos, etc.) formaria uma pequena aldeia ajardinada com suas choupanas e barracões nas quais manteriam o tipo de vida de acordo com a cultura de cada um, sendo então visitados por expedições organizadas a partir do Ocidente, como uma espécie de atração bizarra, naturalmente que vigiadas a distância pelas guardas SS.
 Todos estes delírios imperiais e colonialistas começaram definitivamente a ruir dois anos depois quando o VI Exército alemão, sitiado em Stalingrado, viu-se obrigado a se render no dia 1º de fevereiro de 1943, dando início à catástrofe final do maior projeto reacionário do século XX.

 Voltaire Schilling

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

HISTÓRIA DE TRINIDAD E TOBAGO

O desinteresse dos colonizadores espanhóis por Trinidad e Tobago favoreceu a conquista das ilhas por britânicos e franceses. A chegada de escravos africanos e posteriormente de trabalhadores indianos conferiu ao país um caráter multirracial.
Trinidad e Tobago é formado por duas ilhas das Pequenas Antilhas, no leste do mar do Caribe, mais várias ilhotas das imediações, com uma superfície de 5.128km2. A ilha de Trinidad fica diante da costa nordeste da Venezuela, país do qual se separa pelo golfo de Pária e pelos canais Boca do Dragão e Boca de Serpentes. Tobago fica 31km a nordeste de Trinidad.
Quando Cristóvão Colombo chegou a Trinidad, em 1498, em sua terceira viagem à América, a ilha era habitada por índios aruaques, enquanto em Tobago viviam os belicosos caribes. Trinidad permaneceu como possessão negligenciada pelos espanhóis por mais de 300 anos, até ser ocupada, em 1797, pelos britânicos, que importaram escravos negros para trabalhar nas plantações de fumo.
Os britânicos tentaram colonizar Tobago em 1721, mas os franceses tomaram a ilha em 1781 e transformaram-na numa colônia produtora de açúcar. Tobago foi comprada pelos britânicos em 1802, e desde 1899 é administrada em conjunto com Trinidad. Após a abolição da escravatura, em 1830, os britânicos incentivaram a imigração de trabalhadores procedentes da Índia. Em 1925 as ilhas passaram a ter governo próprio, e em 1945 instaurou-se o sufrágio universal. A República de Trinidad e Tobago tornou-se independente em 1962 e desde 1976 faz parte da Comunidade Britânica de Nações.
De acordo com a constituição de 1976, Trinidad e Tobago tem um presidente, que é o chefe de estado, e um primeiro-ministro, que é o chefe do governo. O legislativo compõe-se de Senado, cujos membros são indicados pelo presidente, e Câmara de Deputados, eleitos por sufrágio universal para um mandato de cinco anos.

Leis aprovadas em 1980 concederam a Tobago considerável autonomia e permiram que a ilha passasse a ter uma assembléia própria. Em 1987, Tobago passou a ter total autonomia no que se refere a assuntos internos.
Fonte: Enciclopédia Barsa.