sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

OTTO VON BISMARCK E RICHARD WAGNER: UM ENCONTRO HISTÓRICO

Seguramente Otto Von Bismarck e Richard Wagner estavam entre os alemães mais famosos da época do II Reich (1871-1918). Tanto o chanceler como o maestro haviam afinado seus instrumentos - um como chefe político e militar o outro como regente e compositor de fama - para que a Alemanha viesse a alcançasse a tão almejada unificação conquistada finalmente em 1871. Mas o encontro deles, ocorrido em Berlim frustrou o músico.
 Atrás de apoio
A unidade nacional alemã, conseguida logo após a vitória na guerra Franco-prussiana de 1870-71, proporcionou um clima de fervoroso patriotismo que varreu a nação germânica em todos os sentidos. Richard Wagner que fazia tempos ambicionava construir uma edificação especifica para livremente encenar suas óperas, cuja concepção era ampla e revolucionária, acreditou que havia chegado o momento certo para a concretização do seu sonho.
 Nada mais natural lhe pareceu, do que pedir apoio diretamente ao arquiteto da unificação: o ex-chanceler da Prússia, agora chanceler do II Reich, o príncipe Otto Von Bismarck. Assim sendo marcou uma entrevista com ele em Berlim, em 1871. Para os seguidores de Wagner foi um encontro de duas realezas. Acontecimento que, todavia, malogrou.
 O passado de ambos era muito diferente. Otto von Bismarck, nascido na herdade dos seus antepassados em Schönhausen, em 1815, vinha de uma família dos junkers prussianos e estava estreitamente ligado aos valores da monarquia, da hierarquia e da disciplina militar. Isto não o impediu de fazer uma trajetória política inversa à sua formação ideológica.
 Combatendo como chanceler a social-democracia, movimento sindicalista de esquerda que crescera enormemente na Prússia, desde a década de 1870, terminou por introduzir no II Reich um conjunto de reformas na previdência social que foram consideradas como o primeiro passo do moderno Estado de Bem-Estar Social. Um conservador que se preocupou em integrar a massa operária no sistema imperial.
 Richard Wagner, nascido em Leipzig, capital do reino da Saxônia, em 1813, por seu lado, era-lhe socialmente o oposto. Supostamente filho de um escrivão da polícia, foi criado pelo padrasto, um pintor que não deixou fama, num ambiente artístico bem longe dos palácios. Com a eclosão na Alemanha da Revolução de 1848, largou a batuta de bem sucedido regente de orquestra para envolver-se seriamente nos acontecimento a ponto de ser banido da Saxônia por ter integrado a milícia republicana.
 Não era para menos, pois um dos seus contatos naquela ocasião foi com o célebre líder anarquista Michael Bakunin, que se refugiara em Dresden (talvez viesse dele a inspiração do artigo que Wagner então publicou Die alte Kampf ist's gegen Osten A Velha Luta é contra o Leste que conclamava uma cruzada contra a Rússia reacionária). Na época o compositor era movido por profundo ódio aos valores da nobreza e da sua hierarquia cortesã.
 Fracassada a revolução, o compositor deu início a um caminho inverso. Cada vez mais se assumiu ideologicamente como um conservador, aproximando-se dos poderosos em busca de subvenção para sua obra. Convertido aos valores do nacionalismo e do patriotismo, resvalando para o anti-semitismo, projetou fazer das suas composições um poderoso instrumento de unificação estética e musical da Alemanha.
 O veículo disto eram as encenações de peças que remetiam à antiga Mitologia Germânica. Aquilo que Bismarck atingira pela diplomacia e pelos canhões, Wagner pensava obter pelas trompas e pelos acordes magnificentes da tetralogia do Anel dos Nibelungos (integrada pelo 'O Ouro do Reno', 'As valquírias', 'Sigfried' e 'O crepúsculo dos Deuses').
 Assim, na ideologia dele, o Artista complementava o Estadista na defesa da germanidade contra as forças externas. Ambos atuavam em campos culturais diversos, independentes entre si, mas o objetivo final era o mesmo: a luta pela unificação política alemã. O que levou a que August Puering afirmasse, num arroubo de exaltação patriótica, que 'espírito de Wagner e de Bismarck, os dois sozinhos, em conjugação, criaram a salvação da Alemanha'(in Richard Wagner und Bismarck, 1924).
 O encontro
Bismarck comentou com o conselheiro de estado Heinrich Von Poschinger que o encontro dele com Wagner fora muito cordial, mas que não trataram de apoio. "Não houve pedido de dinheiro", disse-lhe o chanceler. Nós nos sentamos no sofá e provavelmente acreditávamos que formaríamos um dueto: mas aconteceu algo diferente. O Maestro não ganhou de mim os suficientes elogios. "Ele não conseguiu relaxar e saiu desapontado."
 É possível que o compositor se sentisse inibido de fazer uma solicitação direta ao Fuersten, 'o Príncipe', que era como ele chamava o chanceler, o que se sabe é que de nada lhe rendeu o apronto de Berlim. O estadista em nenhum momento pareceu favorável a colocar recursos estatais a disposição do maestro, chegando mesmo a recomendar ao kaiser Guilherme I que verba alguma fosse despendida no projeto de Wagner de construir um teatro para si (que ele veio a erguer em Bayereuth, em 1876).
 Por igual, é de se supor que Bismarck estivesse ciente dos desperdícios cometidos pelo músico, um pródigo que gostava de levar uma vida faustosa sem medir gastos, chegando a presentear largamente seus amigos com objetos e jóias com dinheiro emprestado ou tomado de outros. Não se deve descartar os problemas que o compositor havia causado anos antes, em 1865, em Munique, quando criou uma situação deveras embaraçosa para o rei Ludwig II da Bavária, seu mecenas, ao se tornar público o caso de adultério dele com Cosima von Büllow, esposa do regente das obras de Wagner.
 Mesmo assim, o artista ainda escreveu por duas vezes ao chanceler, (em 1873 e 1875), conclamando-o a participar do Renascimento Espiritual da Alemanha, do qual se considerava um profeta, lembrando-o de que como Frederico o Grande fora negligente com a cultura alemã.
 Bismarck continuou negando-se a auxiliá-lo, recomendo que se fosse o desejo dele que recorresse diretamente à Assembléia Constituinte (a que aprovaria a Constituição do II Reich), que estava reunida naquela ocasião em Berlim.
 Desiludido, o compositor apelou diretamente ao kaiser para que estendesse o Protetorado da Sua Eterna Majestade sobre Bayereuth, sem saber que Bismarck já havia recomendado cautela. Para o maestro o chanceler mantinha-se numa posição anti-cultural.
 Nietzsche, que na época ainda era um admirador extremado do músico, sendo um dos seus maiores suportes intelectuais, não se conteve em criticar o prussiano, denunciando a insensibilidade do líder do Reich frente à grandeza de Wagner. Suspeitou que o poder chanceler, o excesso da autoridade dele, o embotava para as coisas da cultura, lançando por isto várias diatribes contra o Estado, entre elas o dito 'o poder faz a estupidez' (in O crepúsculo dos deuses, 1888). Outros ainda ¿ apelidados de 'Cassandras solitárias' pelos bismarckistas - intuíram que o II Reich continha sementes de problemas futuros visto que o poder acumulado pelo imperador era exercido sem que houvesse nenhum controle ou algum tipo de contra-poder que fosse eficaz sobre ele.
 Enquanto isto, fracassado no seu intento, o compositor decidiu então lançar mão de subscrições - obtidas pela multiplicação de sociedades Wagner - para levar adiante o projeto do Festspielehaus, o super-teatro, para o qual voltou a ter apoio do rei Ludwig II.
 Bismarck e a cultura
A indiferença do chanceler para com a cultura não mereceu críticas apenas de Wagner e Nietzsche, o célebre critico teatral Heinrich Hart num artigo de impacto, publicado em 1885, acusou Bismarck de ter fracassado em promover a arte alemã, pois tinha escasso ou nenhum interesse nela. Não só isto, em geral classificava escritores e artistas em geral entre os setores improdutivos da sociedade, os Honoratioren, que eram objeto dos seus ataques quando se pronunciava no Reichtag, o parlamento do império. O historiador Gordon Craig, por sua vez (in Germany: 1866-1945), aponta a indiferença bismarckiana para com as artes em geral como resultante do materialismo imperante na época.
 A criatividade artística, em solo alemão, dera lugar em importância aos avanços da tecnologia e da ciência, tudo voltado para o crescimento fabril e militar do Reich tornado potencia na Europa. Os trabalhos do espírito viram-se deslocados pelos planos industriais e experimentais outros que surgiam aos borbotões de dentro das oficinas e dos laboratórios, fazendo do engenheiro e do cientista homens bem mais importantes do que o artista ou qualquer outro profissional ligado à cultura.
 Pode-se igualmente supor que o chanceler desejou marcar uma posição contrária a da elite austríaca, particularmente da Vienense, a quem ele derrotara na batalha de Sadowa, de 1866, que sempre se mostrara entusiasta das artes a um ponto que alcançava as raias da frivolidade com sua paixão pelas valsas de Strauss e pela exuberância pictórica de Gustav Klimt.
 Bismarck tinha uma visão instrumental da cultura, quando não a tratava como motivo de luta como quando desencadeou, entre 1872 e 1875, a famosa Kulturkampf, a luta pela cultura, contra Igreja Católica por esta ser muito influente nos reinos do sul da Alemanha, particularmente na Bavária (ele chegou a mandar prender seis dos dez bispos alemães, além de expulsar do Reich a Companhia de Jesus).
 Todavia, não deixa de ser paradoxal que a tão estimada unificação, ambicionada em verso, prosa e música por tantos artistas alemães, quando de fato se concretizou através da II Reich, produziu um resultado medíocre no campo da literatura e da composição. Neste novo cenário, Richard Wagner aparecia como uma relíquia dos tempos pré-unificação.
 Se profícuo no terreno da ciência, o período Guilhermino nas artes não fez surgiu nenhum autor que ombreasse um Goethe ou um Beethoven. O mesmo Craig observou que parte da responsabilidade disto deveu-se aos próprios intelectuais e artistas alemães habituados a se refugiarem no intimismo, privilegiando a busca do ich, do eu, rejeitando participar ativamente dos acontecimentos políticos que os cercavam.
 O que eles realmente desejavam estava 'somente ao alcance de deuses ou semideuses' (in Germany, pag. 215). Não foi sem razão que anos depois, nos começos da Guerra de 1914, Thomas Mann apresentou-se num famoso ensaio como Betrachtungen eines Unpolitischen, 'Considerações de um apolítico'(1915-1918).
Voltaire Schilling

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