quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A ARTE NO PALEOLÍTICO

O Paleolítico, ou Idade da Pedra Lascada, conhecido também por Período da Selvageria, refere-se na pré-história mais ou menos ao período de 10 mil a.C, à época da primeira intervenção do homem no meio-ambiente com utensílios de pedra até o princípio do Neolítico. Os homens deste período eram basicamente caçadores e coletores, portanto tinham que se movimentar constantemente de um lugar para outro, ao sabor da busca de alimentos para a sobrevivência – assim, eram nômades, em plena era geológica da Idade do Gelo.
 Pela primeira vez, ao que tudo indica, houve uma certa especialização profissional. Os artistas eram também caçadores, tinham que trabalhar, mas certos historiadores afirmam que por terem essa capacidade artística, que ao mesmo tempo revelava para estes povos um poder mágico, estes homens provavelmente tinham alguns privilégios, destacando-se dos outros, talvez como os primeiros profissionais da História. A possível isenção – em parte ou completa – do trabalho, por parte do artista deste período, demonstra que esta sociedade já podia alimentar um grupo especializado.
 Indícios levam a crer que as representações artísticas de animais, encontradas nas paredes das cavernas deste período, como a Gruta de Altamira, na Espanha, localizada em 1879, refletem objetivos mágicos. Ou seja, é bem possível que esses caçadores acreditassem na profunda interação entre a arte e a realidade. Pintar uma manada de mamutes com um intenso teor realista podia, por exemplo, transpor para o real o surgimento desses animais e, portanto, garantir a sobrevivência do grupo.
 Da mesma forma, criar  uma escultura representando a fertilidade, podia, segundo acreditavam estes homens, influenciar na procriação do grupo, propiciando seu crescimento e sua perpetuação. Eles percebem, assim, a estreita relação existente entre a arte e a natureza, a influência recíproca entre ambas, uma possibilidade de interagir com o mundo que os cerca. Esta arte não era, a princípio, decorativa, mas uma forma de atuar junto às forças sobrenaturais, assegurando, através destes objetos artísticos, uma boa caça. Possivelmente ela era parte de um ritual mágico, não de objetivos estéticos conscientes, sendo a qualidade estética provavelmente uma conseqüência.
 É surpreendente para os historiadores da arte perceber o nível de maturidade artística presente em uma sociedade tão primitiva, e o quanto suas obras revelam de qualidade e criatividade. Principalmente quando se acreditava que as primeiras fontes desta história se encontravam no Antigo Egito e na Mesopotâmia. A produção artística deste período inclui ferramentas de pedra talhada, objetos decorados, jóias, estatuetas expressando imagens femininas ou animais, relevos, pinturas parietais – encontradas nas paredes das cavernas, geralmente referentes à caça, expressando, aliás, um conhecimento profundo dos animais.
 Em um primeiro momento, os artistas representavam as experiências observadas diretamente pelos sentidos, produzindo uma arte naturalista-realista. Depois, quando encontra um tempo maior para reflexão, sua obra começa a apresentar características esquematizadas, simbólicas, aproximando-se de uma arte mais abstrata.
Ana Lucia Santana

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

HISTÓRIA DE BAHAMAS

A oeste do mar de Sargaços, região do Atlântico em que é comum a alga Sargassum bacciferum, encontra-se o arquipélago das Bahamas, o primeiro território das Américas pisado pelos europeus.
As Bahamas constituem desde 1973 a Comunidade das Bahamas, estado independente associado à Comunidade Britânica de Nações. Situado ao norte de Cuba e separado da costa dos EUA pelo estreito da Flórida, o arquipélago das Bahamas estende-se ao longo de 1.200km desde a Grande Bahama, a noroeste, até a Grande Inágua, a sudeste. Compõe-se de 700 ilhas, das quais só 22 são habitadas, e cerca de 2.400 ilhotas, que somam uma superfície total de 13.939km2. As ilhas mais importantes são Nova Providência (que, embora seja uma das menores, é a mais populosa e abriga Nassau, a capital do país), Andros, Grande Ábaco, Pequeno Ábaco, Grande Bahama, Eleuthera, Cat e Watling (San Salvador).
Em 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo avistou pela primeira vez as terras da América e desembarcou provavelmente em uma das ilhas das Bahamas, San Salvador (atual Watling), denominada Guanahaní por seus primeiros habitantes (estudos mais recentes sugerem Cabo Samaná, São Domingos, como o lugar possível de chegada das naus de Colombo). Durante o século XVI os espanhóis não se instalaram nessas ilhas, que denominaram Lucaias. Apenas utilizaram a população nativa, os índios arawak, cujo número chegava a quarenta mil, como mão-de-obra escrava para a mineração e a agricultura. Em 1550 os índios já haviam desaparecido totalmente do arquipélago.
O desinteresse dos espanhóis permitiu que os ingleses se apossassem das ilhas. Em 1629 o rei da Inglaterra, Carlos I, nomeou Sir Robert Heath como governador-geral das Bahamas. Teve de esperar, porém, até 1647 para que um grupo de dissidentes religiosos, os aventureiros eleutérios, vindos das Bermudas, empreendessem a colonização de uma ilha a que deram o nome de Eleuthera. O intento não prosperou, mas no ano de 1656 outros colonos, também provenientes das Bermudas, se instalaram em Nova Providência.
Em 1670, o rei Carlos II entregou as Bahamas a seis lordes ingleses, latifundiários de Carolina do Sul, que se responsabilizaram pela colonização e governo das ilhas. Os novos proprietários, porém, se desinteressaram de sua missão e as ilhas se transformaram em um refúgio de piratas. A coroa britânica recuperou o arquipélago em 1717 e um ano depois enviou como governador Woodes Rogers, que em pouco tempo restabeleceu a autoridade real, promovendo o comércio e acabando com a pirataria. Em 1776, a armada americana ocupou as Bahamas durante alguns dias e em 1872 os espanhóis se apossaram do arquipélago até o ano seguinte, quando o Reino Unido o recuperou em virtude dos acordos de paz de Versalhes.
Acabada a guerra da independência americana, um grande número de colonos leais à autoridade britânica emigrou para as Bahamas com numerosos escravos. Em 1841, conseguiram aumentar a autonomia com relação à metrópole mediante a criação de um conselho legislativo. As dificuldades econômicas terminaram graças ao contrabando de bebidas efetuado durante a guerra civil americana, na época da lei-seca nos Estados Unidos, entre 1920 e 1933.

Em 1940, o Reino Unido arrendou aos Estados Unidos uma base militar na ilha de Mayaguana. A partir da década de 1960, com o auge da exploração do turismo, as Bahamas viveram uma época de grande prosperidade econômica, que gerou o movimento nacionalista por um autogoverno interno. Este foi alcançado em 1964 e resultou na independência, concedida em 1973. As ilhas Turks e Caicos, situadas a sudeste do arquipélago, continuaram a pertencer ao Reino Unido.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A CHEGADA DA EUROPA NO JAPÃO

Influência ocidental: como 3 marinheiros portugueses mudaram a história do Japão para sempre
Em 23 de setembro de 1543, após um dia de tempestades, uma multidão acordou Nishimura Oribenojo, chefe de uma aldeia na ilha de Tanegashima, extremo sul do Japão. Havia uma aparição na praia. Homens de cara peluda, nariz comprido, olhos esquisitos e cabelos sujos, marrons e enrolados. Usavam chapéus enormes, calças bufantes e jaquetas pretas. Calçavam sapatos fechados até a canela. Com os estrangeiros estranhos, havia muitos chineses, que os japoneses conheciam bem, e o chefe se dirigiu a um deles. De acordo com o livro Teppoki (algo como "A História das Armas de Fogo"), do japonês Nanpo Bunshi, travaram o seguinte diálogo:
- Não sabemos de onde vieram. Parecem esquisitos, não?
- São comerciantes dos bárbaros do sul. Quando bebem não usam copos e, quando comem, usam os dedos, e não palitos, como nós. Eles demonstram seus sentimentos sem nenhum autocontrole e não conhecem a escrita ou o uso dela. Esses comerciantes têm o hábito de viajar de lugar em lugar, trocando as coisas que têm pelas que não têm. Eles são muito estranhos e, aliás, bastante inofensivos.


O chinês acertou no fato de os europeus comerem com a mão - na época, talheres eram uma novidade. E, ainda hoje, os japoneses são notavelmente contidos. Provavelmente os estranhos, marinheiros portugueses, eram analfabetos também na sua própria língua. Mas, definitivamente, sabiam usar copos - e, a história mostraria, não eram inofensivos.
Os portugueses se chamavam Francisco Zeimoto, Antônio Peixoto e Antônio da Mota. Bárbaros do sul - em japonês, nanban - é como os ocidentais ficariam conhecidos a partir daí. O comércio português seria chamado de "comércio nanban". O nome foi dado pelos chineses porque os portugueses sempre chegavam pelo sul - e porque, para eles, não passavam de um bando de bárbaros irritantes e sujos. Os 3 bárbaros haviam pegado carona em um junco chinês em Malaca (Malásia), cidade conquistada por Portugal em 1511. Queriam conhecer "Cipangu", terra lendária descrita por Marco Polo - que nunca foi ao Japão.
Os estrangeiros foram levados ao daymio, o senhor feudal da ilha, Tanegashima Tokitaka. Tokitaka mostrou-se curioso, mas especialmente por um item - as armas que os portugueses traziam consigo. A pedido do daymio, os portugueses dispararam contra alvos usados para treinar arqueiros. "O respeito pelos portugueses deve ter aumentado nesse momento. De bárbaros do sul, eles subitamente se tornaram portadores de uma nova mágica", escreve o historiador dinamarquês Olof G. Lindin em Tanegashima: The Arrival of Europe in Japan (Tanegashima: A Chegada da Europa ao Japão, inédito no Brasil). Tokitaka tomou medidas imediatas - pediu que o ensinassem a atirar e comprou as armas por 2 mil ryos (moedas de ouro de 16,5 g). Fazia sentido. O Japão estava em guerra civil, sem poder central, desde 1467. O imperador era uma peça decorativa. O xogum, o daymio com maior poder militar, que fazia as vezes de ditador, não tinha o controle de todo o país. Nesse cenário, os portugueses deram suas aulas de tiro e foram embora da ilha carregando seu pagamento. Mas por causa deles, uma nova era estava começando no Japão.
Oficialmente, a primeira nau portuguesa chegou em 1550. O próprio navio, com mais de mil toneladas, causou um segundo choque nos japoneses e, como as armas de fogo, acabaria copiado e produzido em massa. No plano comercial português, o Japão tinha uma função secundária em relação a Índia e China. Da Índia, eles compravam especiarias, e da China, seda e porcelana. Ambas iam parar na Europa. No Japão, vendiam um pouco de tudo - vinho, azeite, arcabuzes, canhões, salitre, óculos, lunetas e sabão. De volta, levavam prata e cobre, com que pagavam os produtos indianos e chineses. Apenas algumas peças de artesanato, presentes de luxo, chegavam à Europa.
Os portugueses manteriam o monopólio do comércio com os japoneses até 1592, quando os próprios japoneses começam a mandar seus navios para a China - os navios do selo vermelho (shuinsen), caravelas feitas com a ajuda dos portugueses. Se os japoneses achavam os ocidentais um bando de bufões, os ocidentais adoraram os japoneses. De acordo com a historiadora Renata Cabral Barnabé, da USP, "a visão foi das melhores, principalmente entre os padres. São Francisco Xavier chegou a dizer que os japoneses eram os melhores dentre os povos já conhecidos fora da Europa. Alexandre Valignano, jesuíta das Índias Orientais, afirma serem eles comparáveis aos europeus e em certos pontos até melhores".
Falando em padres, os japoneses acabaram por importar outra especialidade ocidental: o cristianismo. Em 15 de agosto de 1549, o jesuíta Francisco Xavier, a bordo de um junco chinês, desembarcou em Tanegashima. Após visitar diversos daimyos e se desentender com monges budistas, são Francisco (canonizado em 1622) tentou falar com o imperador Ogimachi. Para isso, percorreu metade do país a pé, descalço e no inverno, acompanhado de outro padre e de um japonês convertido, que servia de intérprete. Seu plano era encher o monarca de presentes e, se o Todo Poderoso permitisse, quem sabe convertê-lo. Mas, após a épica jornada, acabou barrado na porta. Frustrado, decidiu gastar seus presentes com daimyos mais receptivos e conseguiu fundar missões em Bungo, Yamaguchi e Hirado (atual Nagasaki). Em dezembro de 1551, deixou o Japão, prometendo voltar, só que morreu numa colônia portuguesa em dezembro de 1552. Mas a missão de Francisco Xavier deu frutos.
Em 1563, Omura Sumitada, que havia oferecido aos portugueses o porto de Nagasaki dois anos antes, tornou-se o primeiro daimyo a se converter. E forçou todos os seus cortesãos a virar cristãos e começou a queimar templos e relíquias budistas. A partir de então, ordens conflitantes começaram a partir de Kyoto, a capital imperial. Em 1559, o xogum Ashikaga Yoshiteru deu autorização para a pregação do cristianismo. Seis anos depois, o imperador Ogimachi emitiu uma ordem banindo a religião na capital. Mas nem o xogum nem o imperador tinham tanto poder quanto os daimyos em suas comunidades. Eles é que permitiam ou proibiam a religião de acordo com suas conveniências. Assim, os europeus e suas armas tornaram-se aliados (ou inimigos) importantes para os senhores feudais.
Para um deles, essa relação foi particularmente estratégica. Extrovertido, pouco afeito a cerimônias, Oda Nobunaga era esquisitão para os padrões japoneses. E essa sua "esquisitice" foi seu maior trunfo. Os samurais tinham o respeito e a fama, mas o grosso das tropas era formado por ashigaru, soldados pagos da classe trabalhadora. Até Nobunaga, os ashigaru eram vítimas fáceis dos samurais. Ele treinou seus ashigaru a lutarem de forma semelhante aos lanceiros da Europa. Mais importante, os equipou com arcabuzes, que então já eram produzidos no Japão. Em 1573, na batalha de Mikatagahara, a cavalaria mais temida do Japão, do daimyo Takeda Shingen, foi destruída pelos camponeses de Nobunaga. No mesmo ano, suas tropas e as de seu aliado Toyotomi Hideyoshi conquistaram Kyoto, dando fim ao xogunato Ashikaga. Nenhum dos dois se tornou xogum: o título coube a um protegido de Nobunaga, Tokugawa Ieyasu, que acabou com os últimos focos de resistência na Batalha de Sekigahara (1600). Ironicamente, o novo xogunato, permitido pelas armas europeias, foi a sentença de morte das relações amistosas com o Ocidente. Hideyoshi considerava os cristãos uma seita perigosa e proibiu missionários em 1587, sem muito efeito. Em 1596, o galeão espanhol San Felipe naufragou em Tosa com vários missionários. Um deles, mais linguarudo, afirmou que a conversão era o primeiro passo para a conquista do Japão. Hideyoshi conhecia a história recente da Espanha nas Américas e nas Filipinas. O resultado foram os "26 mártires do Japão", 6 europeus e 20 japoneses cristãos crucificados em Nagasaki, a cidade mais cristã do país.
Tokugawa Ieyasu tentou manter uma política de "Europa sem cristianismo" e viu uma chance no comércio com protestantes, mais pragmáticos: focados no comércio e menos interessados em pregar. Em 1600, o inglês William Adams (1564-1620) aportou no Japão e se tornou uma figura importantíssima para o xogum - ajudou Ieyasu a construir caravelas e organizar suas tropas -, a ponto de ser proibido de deixar o país e ser declarado samurai, o único caso na História de um samurai estrangeiro.
Os sucessores de Ieyasu foram progressivamente mais duros com os cristãos, vistos como desagregadores da unidade nacional. Em 1635, o Japão fechou os portos para os estrangeiros, com exceção de Nagasaki, aberto a um comércio limitado com os holandeses, e passou a oferecer recompensas a quem denunciasse cristãos. Era o início do isolamento do país, o sakoku, que duraria até 1853. Em 1853, uma carta e um canhonaço de um navio americano abriram o país na marra.
Fábio Marlon, Revista Aventuras na História, Dezembro/2012.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

TEMPLÁRIOS, OS MONGES GUERREIROS

No campo de batalha, os membros da ordem dos templários lutavam até a morte. Fora dele, abusaram do enorme poder acumulado e acabaram perseguidos e queimados na fogueira da Inquisição, vítimas de uma conspiração do rei da França
Os cristãos estavam diante de uma derrota certa naquele ano de 1177. Eram 3 mil soldados, liderados por um rei de 16 anos carcomido pela lepra. As tropas de Balduíno 4º estavam cercadas. O general Saladino se aproximava com 26 mil soldados e preparava o ataque. O plano original dos europeus, chegar a Ascalon para abrir uma linha de defesa, teve de ser abandonado. Mas Saladino cometeu um erro: sem acreditar no poder militar dos cristãos, dividiu suas tropas em 3 grupos e seguiu pilhando tudo o que encontrou no caminho para Jerusalém, em especial as cidades de Ramala, Lyda e Arsuf, nos atuais Israel e Palestina. Aproveitando-se do descaso do inimigo, os cristãos se lançaram em ofensiva contra a retaguarda muçulmana. As tropas eram conduzidas pelo grupo de elite mais temido da Terra Santa: os cavaleiros templários. Com barbas compridas, grande disposição e pouco medo de sacrificar a própria vida, enfrentaram ferozmente o inimigo.
A maior parte dos inimigos foi cercada na região montanhosa de Montgisard, perto de Ramala, na Palestina. Depois de se ajoelharem diante de uma relíquia sagrada, um suposto pedaço da cruz de Cristo, o rei, seus soldados e 500 cavaleiros se lançaram ao ataque. Pegos de surpresa e cansados da longa marcha, os muçulmanos mal esboçaram reação ao massacre que se seguiu. A luta só durou um dia: 25 de novembro. Morreram 23 mil adversários. Saladino quase não escapou com vida durante a retirada. Milhares de corpos ficaram abandonados no campo de batalha, incluindo o cadáver de um sobrinho do general. Ele nunca mais subestimaria um grupo de templários. Para comemorar o feito e homenagar os 1,1 mil cristãos mortos na batalha, Balduíno 4º mandou erguer um mosteiro no local da vitória.

 Em defesa dos peregrinos
No fim do século 12, a cruz vermelha dos templários estava estampada em toda a faixa que vai da Europa a Jerusalém. Os cavaleiros eram influentes em Londres (Temple é nome de um bairro central da cidade), mantinham uma fortaleza dentro de Paris (a rue du Temple marca o local até hoje), lutavam ao lado de portugueses e espanhóis pela reconquista da península Ibérica, controlavam a ilha de Chipre, possuíam fortalezas no Oriente Médio e tinham acesso irrestrito ao local onde teria existido o Templo de Salomão, em Jerusalém. Poderosos politicamente, eram muito ricos e suas façanhas militares encantavam a cristandade. Saladino foi derrotado numa segunda batalha após Montgisard. Pouco mais de 100 anos depois, o grão-mestre templário Jacques de Molay ardia em uma fogueira, sobre uma ilha do rio Sena. A ordem desapareceu de forma tão rápida e surpreendente quanto havia surgido e crescido. Como herança, deixou lendas que ainda habitam o imaginário ocidental e estão nas prateleiras de livros (de O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, a O Código Da Vinci, de Dan Brown), nos consoles de videogames (casos de Broken Sword e Assassin¿s Creed) e nos filmes (com destaque para A Lenda do Tesouro Perdido e Indiana Jones e a Última Cruzada).
Como explicar tamanha fascinação por um grupo de cavaleiros que desapareceu há 700 anos? "Os templários personalizaram todas as formas de poder que existiam na Europa medieval", afirma Alan Butler, historiador britânico e autor de The Warriors and the Bankers (Os Guerreiros e os Banqueiros, inédito em português). Eram monges em um tempo de predomínio cristão, banqueiros quando o dinheiro era escasso e guerreiros quando a igreja conclamava os fiéis a retomar a Terra Santa.
Em 1095, um grupo de nobres respondeu ao apelo do papa Urbano 2º para retomar Jerusalém, ocupada por muçulmanos desde o século 7. Com o sucesso da 1ª Cruzada, surgiu o Reino Latino de Jerusalém, uma ilha cristã que ia de Beirute a Gaza, cercada por inimigos religiosos de todos os lados. Em 1119, para garantir a segurança da cidade, 9 cavaleiros, sob o comando do francês Hugo de Payns, receberam de Balduíno 2º, o rei do novo território, permissão para ocupar uma ala da Mesquita Al-Aqsa, considerada o local do Templo de Salomão - daí o nome da organização que fundaram, Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. O objetivo era defender os peregrinos cristãos a caminho de Jerusalém.
Por 10 anos, até o reconhecimento oficial da Igreja, em 1129, não há registro de atividade militar ou de defesa de peregrinos. Sabe-se apenas que passaram esse tempo escavando no templo. Foi quando lendas a respeito de relíquias encontradas ali se multiplicaram. Sim, eles encontraram peças e documentos valiosos - a abadia francesa de Clairvaux foi erguida só para estudar pergaminhos desenterrados. Também acharam algo que, diziam, era um pedaço da cruz de Cristo, depois levado às batalhas como amuleto. "Dependendo da lenda, teriam tomado posse da Arca da Aliança, do Santo Graal e do Santo Sudário", diz Patrick Geary, da Universidade da Califórnia.
É certo que, até o reconhecimento papal, após o Concílio de Troyes, eles treinaram e definiram seu código de conduta. Escrito por são Bernardo, sobrinho de um dos fundadores da ordem, o Livro de Regras estabelecia 72 normas. Por exemplo, que o dormitório deveria estar "iluminado até de manhã" e que tinham de dormir "vestidos com camisa e calções e sapatos e cinto" - a fim de garantir prontidão e, claro, barrar contatos físicos homossexuais. A compilação combinava regras religiosas e militares: "As necessidades (de Jerusalém) são cavaleiros que combatam, não monges que cantem e se lamentem". As normas de alimentação afirmavam que "comer carne corrompe o corpo", mas liberavam o consumo 3 vezes por semana para fortalecer os soldados. Além de orações, os 10% dos integrantes da ordem que eram cavaleiros mantinham o hábito de correr, exercitar-se levantando pedras e praticar com espadas de madeira (os outros 90% eram padres, administradores, soldados de infantaria e serviçais). Depois de cada confronto, o caráter religioso vinha à tona. No campo de batalha, os templários se ajoelhavam, apoiados em suas espadas, para rezar e agradecer a Deus pela vitória.

Militares implacáveis
A combinação de força e fé funcionou. Os templários eram temidos porque não costumavam recuar e lutavam com disposição rara. Muitos de seus grãos-mestres morreram em campo de batalha. "Os muçulmanos os respeitavam porque percebiam que estavam diante de inimigos implacáveis, dispostos a lutar até o fim em nome de sua crença", diz Geary. Em 1190, com a ajuda de uma esquadra genovesa, os cristãos tomaram a cidade de Acre, importante porto na região de Jerusalém, que tinha sido perdida para os muçulmanos dez anos depois da vitória de Montgisard.
No ano seguinte, outra conquista, em Arsuf, sob o comando do rei inglês Ricardo Coração de Leão. Como se tornou tradicional nas batalhas na Terra Santa, os 30 mil cristãos foram liderados por 1,2 mil templários, que sempre assumiam a vanguarda dos ataques. Mais uma vez, Saladino, agora em minoria, com seus 20 mil homens, foi derrotado. Enquanto os cristãos finalizavam a Terceira Cruzada e faziam um acordo para ter acesso a Jerusalém, os templários viraram o século como uma força militar fundamental para manter o controle da região.
O sucesso levou muitos nobres a aderir à ordem. Para isso, era preciso doar todos os bens, o que aumentou o patrimônio do grupo. Mas o principal motivo para o seu rápido enriquecimento foi a invenção de um sistema para garantir a segurança financeira dos viajantes à Terra Santa. Para impedir que fossem roubados durante o trajeto, eles deixavam seu dinheiro com os cavaleiros, que lhes davam cartas de crédito - resgatáveis em Jerusalém ou em qualquer outra propriedade dos templários na Europa (veja na pág. 34). "A ordem fundou um sistema muito parecido com as contas correntes atuais", diz Johnathan Edgeller, historiador da Universidade do Texas e autor de Taking the Templar Habit: Rule, Initiation Ritual, and the Accusations Against the Order (Usando o Hábito Templário: Regra, Ritual de Iniciação e as Acusações Contra a Ordem, sem edição no Brasil). A transação, é claro, pagava uma taxa que a ordem investia em novos patrimônios. Era, sim, usura, mas ela se provaria essencial ao futuro do grupo. "Rapidamente, os cavaleiros se viram em uma situação contraditória. Haviam feito votos de pobreza e não tinham nada de seu, mas viviam em castelos e fortalezas luxuosos, com acesso a banquetes e bebidas", afirma Edgeller. Com tanto poder, as arruaças se tornaram frequentes. Eram vistos bebendo em tabernas e por vezes se envolviam em brigas típicas de soldados comuns, e não de monges.
Os casos de abusos se tornaram recorrentes. Em 1291, a viúva de um templário escocês foi expulsa de casa por ordem do chefe da região, que ignorou o acordo prévio de que, em caso da morte do nobre, sua família retomaria suas posses. A casa da mulher foi arrombada, e seus dedos, decepados. Os exageros se refletiam na conduta individual. Na Alemanha, beber "como um templário" é sinônimo de encher a cara. Os conflitos com outras ordens religiosas e militares também eram constantes.
Os maiores rivais eram os membros da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, conhecidos como hospitalários. Criada com o mesmo objetivo, ela era menos militarizada e mais voltada ao atendimento de feridos e doentes. Eles se odiavam. De um lado, os hospitalários quase puseram a perder a Batalha de Arsuf, quando desobedeceram ao rei Ricardo e partiram para o ataque antes da hora. De outro, os templários perseguiam os rivais abertamente nas ruas de Jerusalém. Chegaram a invadir uma missa, rezada na Igreja de São João por um sacerdote da outra ordem. Gritando e rindo, 20 deles quebraram os bancos de madeira e provocaram uma chuva de flechas dentro do templo.
Na ocasião, os templários já sustentavam guerras dentro da Europa com seus empréstimos a juros altos - como a mantida entre a Inglaterra e a França. Os monarcas europeus temiam que eles chegassem a criar seu próprio país - já dominavam Chipre e tinham territórios suficientes na França para seguir o exemplo de outra ordem militar, a dos Cavaleiros Teutônicos de Santa Maria de Jerusalém, que entre 1229 e 1279 conseguiu ocupar e controlar quase toda a Prússia. "Os templários passaram a ser temidos, mas suportados porque eram muito úteis", afirma Edgeller. "Muitos de seus procedimentos, como os rituais de iniciação, eram secretos, o que provocava desconfiança. E o poder que eles alcançaram era grande demais."
Logo os templários não se mostrariam tão úteis. A partir da metade do século 13, os cristãos perdiam espaço rapidamente na Terra Santa. O grão-mestre Gerard de Ridefort, por exemplo, cometeu graves erros em Acre. Rendeu-se aos muçulmanos e acabou devolvido aos cristãos só para morrer em outra batalha. Ridefort passou a ser lembrado como prova de incompetência. As derrotas e humilhações se seguiram até 1291, quando os mamelucos invadiram a Fortaleza de São João de Acre, o último bastião templário no Oriente Médio. Os cavaleiros resistiram por 10 dias e receberam autorização para se retirar. Ao abrir os portões, viram que, do lado de fora, os cristãos estavam sendo massacrados. Voltaram para dentro e lutaram até a morte. Jerusalém só seria controlada por cristãos, de novo (e por pouco tempo), no século 20.

O papel de cada um
Os rituais de iniciação eram mantidos em segredo. O treinamento era bastante rígido, mas apenas 10% dos membros da ordem eram, de fato, cavaleiros. Muitos tinham origem na nobreza da França. O lema do grupo era Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam (Não a nós, Senhor, não a nós, mas em nome da sua glória). O símbolo da ordem era um cavalo montado por dois cavaleiros, demonstração do voto de pobreza.(Tiago Cordeiro - Revista Aventuras na História, Junho de 2012).