segunda-feira, 31 de março de 2014

50 ANOS DO GOLPE MILITAR

Muitos historiadores e estudiosos ainda hoje divergem da data em que se deu o "golpe". para alguns foi 31 de março, data que para os militares se deu a chamada "Revolução". para outra vertente foi o dia primeiro de abril. uma outra vertente ainda defende o dia 2 de abril, data que marca a deposição oficial do então presidente João Goulart. Essas discussões são meras considerações cronológicas que não alteram a essência do fato histórico, que é marcado pela derrubada de um governo eleito democraticamente e a imposição de uma ditadura militar, onde os cidadãos brasileiros tiveram seus direitos civis desrespeitados e mergulhou o país em 21 anos sob o regime da intolerância política, a falta de liberdade de expressão e o direito de escolher. Isso sim é importante lembrar e discutir. Lembrar para não esquecer o quão valiosos são os valores da liberdade e a condição de pensar e agir. Simples direito, mas fundamental para a construção de uma sociedade mais justa. Por pior que seja a condição de uma nação somente a liberdade pode se configurar na melhoria das condições de vida da mesma. Mas não podemos esquecer que o povo que não sabe usar sua liberdade com sabedoria acaba por perde-la.Lembramos que para sermos livres temos que ter a consciência e a inteligência de sabermos desfrutar dessa liberdade. Se não outros ditadores, com farda ou sem farda farão por nós.  
Prof. Fabrício Colombo

quinta-feira, 27 de março de 2014

POR DENTRO DA MOSSAD, O SERVIÇO SECRETO JUDAICO

Antes de existir o estado de Israel, já havia um serviço secreto judaico. Saiba por que hoje ele é o mais eficiente do mundo e inspira tanto terror e admiração
Em 19 de janeiro de 2010, uma loira de batom vermelho embarcou no voo 526 da Air France, em Paris, com destino a Dubai. O funcionário da imigração dos Emirados Árabes Unidos checou o passaporte da moça: a irlandesa Gail Folliard, 23 anos. Pouco tempo depois, a jovem se hospedava no Al Bustan Rotana, um 5 estrelas da cidade. Ninguém desconfiou que a bela garota se tratava de uma agente do Mossad, o serviço secreto israelense. Ela integrava uma operação para matar Mahmoud al-Mabhouh, o maior traficante de armas do Oriente Médio. O árabe estava em Dubai para negociar a compra de mísseis iranianos para o grupo palestino Hamas. Como era de praxe, fez o check-in no Al Bustan Rotana. Só que, desta vez, ele não saiu vivo de lá.

Folliard ficou na cola de Mahmoud. Foi ela que provavelmente o convenceu a abrir a porta de seu quarto, às 20h30, quando dois agentes do Mossad entraram para executá-lo. Funcionários do hotel só acharam o corpo deitado sobre a cama no dia seguinte. "Foi ataque cardíaco", afirmou o médico de plantão. Mas a autópsia revelou que o sangue continha traços de succinilcolina, um poderoso relaxante muscular. A polícia de Dubai concluiu que os agentes do Mossad injetaram a droga na coxa de Mahmoud para impedir que ele reagisse e depois o sufocaram com travesseiros - simulando morte natural. Xeque-mate. Como sempre faz nessas ocasiões, Israel manteve um discurso ambíguo. Não negou nem confirmou que o assassinato havia sido obra do Mossad. "Vocês veem muitos filmes de James Bond", disse aos jornalistas Avigdor Lieberman, ministro de relações exteriores de Israel. Mas os especialistas não têm dúvida: a operação mostrou que o Mossad continua em forma - e de fazer inveja a 007. Nesta reportagem, revelamos os bastidores do melhor serviço secreto do mundo.



Encalço dos inimigos


A semente do Mossad foi plantada nos anos 30, em meio à crescente tensão entre árabes e judeus da Palestina - na época, uma colônia britânica. O agricultor Ezra Danin recebeu uma missão da Haganá, a brigada paramilitar judaica: passar informes sobre árabes que organizavam atentados contra judeus. O negócio de Danin era plantar laranja, mas a Haganá sabia que ele tinha muitos contatos entre o bando inimigo. O pacato camponês largou a enxada e, em pouco tempo, já sabia os endereços, hobbies, placas de carros e clubes que os líderes árabes frequentavam.
"Danin lançou as bases da compilação, da interpretação e do uso de inteligência sobre os árabes nos anos da luta pela Palestina", escrevem o historiador israelense Benny Morris e o jornalista britânico Ian Black no livro Israel¿s Secret Wars (Guerras Secretas de Israel, sem tradução no Brasil). Em 1936, quando estourou uma revolta árabe em larga escala, Danin liderou uma unidade que grampeava telefones, decodificava mensagens e farejava agentes duplos. Em 1940, ele fundou o Shai, o braço de contraespionagem da Haganá. Diversos árabes se tornaram seus informantes - e não só por dinheiro. Na maioria das vezes, sofriam perseguições de outros árabes por fazer negócios com judeus. "Eles temiam por sua vida e tinham fortes razões para se livrar de seus perseguidores. E nós exploramos essas situações na hora de recrutá-los", escreveu Danin anos depois.
Como se vê, antes de declarar sua independência, em 1948, Israel já tinha seu serviço secreto. Mas ele foi criado oficialmente em 1951 como Instituto de Inteligência e Operações Especiais, ou simplesmente Instituto (Mossad, em hebraico). O foco inicial eram os países árabes hostis a Israel. Não havia dinheiro nem gente suficiente para outras missões, como perseguir nazistas pelo mundo. Em 1960, porém, o diretor Isser Harel abriu uma exceção ao saber que Adolf Eichmann vivia calmamente na Argentina. O arquiteto da Solução Final da Alemanha nazista trabalhava na filial da Mercedes-Benz, fingindo ser o mecânico Ricardo Klement.
Um comando do Mossad liderado pelo agente Rafi Eitan sequestrou Eichmann quando ele caminhava pela rua Garibaldi, nos arredores de Buenos Aires, e o manteve por 9 dias algemado à cama de um apartamento alugado. O nazista deixou a Argentina sedado num avião da companhia israelense El Al rumo a Jerusalém, onde foi julgado e condenado por crimes contra a humanidade. Morreu na forca em 1961, no único caso de sentença de morte de uma corte em Israel.
"A Argentina protestou, dizendo que violamos sua soberania, mas a operação não afetou a relação entre os dois países", disse Rafi Eitan por telefone a AVENTURAS NA HISTÓRIA de seu gabinete em Jerusalém, onde hoje lidera o partido político Gil. Com a operação, Eitan e os israelenses mandaram um recado ao mundo: o Mossad podia alcançar o inimigo onde estivesse. E nada poderia detê-lo.
Em 1962, Eitan e seus colegas descobriram que o médico Joseph Mengele, responsável por experimentos macabros em Auschwitz, vivia no interior de São Paulo. "Estivemos lá, conversamos com pessoas que conheciam Mengele e o fotografamos", diz Eitan. "Mas decidimos não capturá-lo porque não estávamos preparados o suficiente. Uma operação desse tipo demanda meses. Logo depois o governo de Israel mudou e a nova administração decidiu cancelar a missão." O nazista morreu em 1979 e foi enterrado em Embu, em São Paulo.



Guerra nas sombras



Nos anos 70, organizações terroristas começaram a recrutar estudantes palestinos na Europa. O Mossad pescava nas mesmas águas. "Os palestinos usavam a saudade de casa e o patriotismo como isca. O Mossad usava dinheiro", diz Aaron J. Klein, ex-membro da Direção de Inteligência Militar de Israel. Numa rápida conversa, o recrutador do Mossad descobria o ponto fraco do estudante que abordava. Se o jovem tinha um parente doente, por exemplo, oferecia tratamento num bom hospital. E conseguia informações valiosas.
Com informações assim, o Mossad saiu à caça do Setembro Negro, o grupo palestino que matou 11 atletas israelenses na Olimpíada de Munique, em 1972. Um dos alvos foi Mahmoud Hamshari, representante da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) em Paris. Ele tinha no currículo a explosão de um avião que voava entre Zurique e Tel Aviv em 1970, matando 47 pessoas. Hamshari não titubeou quando um jornalista italiano o convidou para um encontro num café. O repórter era um agente. Enquanto Hamshari saboreava um croissant, agentes invadiram seu apartamento e rechearam o gancho do telefone com explosivo plástico. No dia seguinte, quando a esposa e a filha do palestino já haviam saído, o telefone tocou. "Por favor, posso falar com o doutor Hamshari?", disseram. "É ele", respondeu. A explosão causou um rombo na cabeça do terrorista, que morreu 3 semanas depois. A vítima seguinte foi Abu-Khair, emissário da OLP no Chipre. Seu corpo foi dilacerado por uma bomba sob sua cama no Olympic Hotel. Os chefes do Setembro Negro foram caindo um a um, como peças de dominó.
Em junho de 1976, veio a revanche: uma facção liderada pelo palestino Wadi Haddad sequestrou um avião da Air France e o levou para o aeroporto de Entebe, em Uganda, onde o ditador Idi Amin Dada lhe deu proteção. Os terroristas fizeram de reféns os 105 passageiros judeus (os demais foram liberados) e exigiram que Israel libertasse 53 terroristas. Com orientações do Mossad, Israel enviou 3 aviões Hércules C-130 numa missão de resgate que incluiu 200 soldados, jipes e até um Mercedes-Benz preto idêntico ao de Idi Amin.
"Seis agentes rodearam o aeroporto de Entebe com aparelhos que interferiam no radar da torre de controle. Desse modo, confundiram as autoridades", diz o escritor galês Gordon Thomas no livro Gideon¿s Spies: The Secret History of Mossad (Espiões de Gedeão: A História Secreta do Mossad, sem tradução no Brasil). "Os soldados liberaram os reféns e mataram os terroristas. O único oficial morto foi Yoni, irmão do atual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu."
Haddad, o cérebro do sequestro, foi fisgado em 1977 com uma caixa de chocolate belga. Os agentes sabiam que ele era chocólatra e envolveram os doces com um veneno letal. A caixa foi dada de presente por um palestino infiltrado. Haddad morreu no ano seguinte, vítima de uma doença misteriosa. A facção que ele liderava se desintegrou e o número de atentados contra alvos israelenses no exterior caiu de imediato.
Mas não se engane: o Mossad também erra, e feio. Em julho de 1973, por exemplo, o marroquino Achmed Bouchini foi alvejado com 10 tiros numa piscina pública da cidade norueguesa de Lillehammer. Os israelenses o confundiram com o terrorista Ali Hassan Salameh, líder do Setembro Negro. (O verdadeiro Salameh foi eliminado em Beirute, em 1979.) Outro papelão foi quando o Mossad tentou matar o líder do Hamas Khaled Meshal na Jordânia, em 1997. Os agentes esguicharam um veneno em seu ouvido, mas foram pegos pela polícia. A Jordânia só os liberou quando Israel entregou o antídoto para a toxina ¿ e o chefão do Hamas sobreviveu.



A chave do êxito



Como o Mossad se tornou o melhor serviço secreto do mundo? Por pura necessidade. Num país cercado de inimigos como Israel, manejar inteligência é crucial para prevenir ataques e punir agressores. "Este é o único país que não terá uma segunda chance se perder uma guerra", dizem os israelenses. O Mossad leva isso muito a sério. E embora esteja na vanguarda no uso de tecnologias, continua fazendo espionagem à moda antiga. Infiltra agentes, alicia informantes e leva a cabo operações encobertas.
Tudo isso demanda muito esforço. Para eliminar Mahmoud al-Mabhouh, por exemplo, 30 agentes do Mossad viajaram a Dubai divididos em equipes. A maior delas, de vigilância, acompanhou cada passo do alvo desde sua chegada ao aeroporto. "Para não chamar a atenção, os agentes mudam de identidade todo o tempo: trocam de roupa, usam bigode, peruca, óculos, maquiagem. Assumem várias feições para espreitar o lobby e os corredores do hotel", diz Klein. "Mulheres são fundamentais na missão. Se o alvo está num bar, um casal vai lá e se senta na mesa ao lado. Ou uma jovem atraente o observa no balcão."
A unidade de assassinato, Kidon, costuma ter 4 pessoas trabalhando em duplas. Operações assim têm ainda o grupo de comando (2, em geral) e uma equipe de suporte, que cuida de passagens, hotéis e aluguel de carros. A ação é monitorada por outro grupo a distância, que pode estar num país europeu ou até mesmo no céu. Isso mesmo: quando kidons eliminaram o terrorista palestino Abu Jihad numa estância em Túnis, em 1988, o grupo de controle sobrevoava a cidade em círculos num Boeing 707. A bordo estava o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, que deu sinal verde para a emboscada. Outro Boeing levava equipamentos para bloquear e rastrear comunicações, e dois mais levavam combustível.
A formação dos agentes depende da especialidade. Os que fazem tarefas de escritório ficam na sede do Mossad, em Tel Aviv. Já os kidons treinam longe dali, na área restrita de uma base militar no deserto do Neguev. Eles viajam com frequência a Frankfurt, Roma e outras cidades europeias para exercícios de simulação. Os "alvos" são colaboradores locais que participam como voluntários. "Em geral, os colaboradores acham que se trata de um exercício de proteção a uma sinagoga ou escola e às vezes levam um susto quando percebem que foram roubados no meio da rua ou jogados dentro de um porta-malas", diz Gordon.



Irã, o arqui-inimigo
Não é nenhum segredo que o Irã é o atual arqui-inimigo de Israel. E um dos grandes objetivos do Mossad é impedir que a nação persa desenvolva a bomba atômica. Tal como foi feito com o Iraque. Em 1981, caças israelenses bombardearam um reator nuclear construído por Saddam Hussein usando segredos passados por informantes. Em 1990, o canadense Gerald Bull foi morto com 5 tiros em Bruxelas, quando desenvolvia para Saddam um supercanhão de 150 metros que poderia atingir Tel Aviv e cidades europeias. Hoje Saddam é passado, e os katsas estão dispostos a tudo para frear as ambições dos aiatolás. Isso inclui até as tarefas mais básicas. "O Mossad está desesperado por conseguir gente que saiba farsi, o idioma do Irã, para traduzir conversas e documentos", diz Klein.
A Divisão de Tecnologia é a que mais cresce no Mossad. O motivo é simples: nos anos 70, quando caçava o Setembro Negro, 90% das informações vinham da chamada "inteligência humana" - ou seja, a clássica rede de informantes. Hoje, a maior parte dos dados vem de mensagens de internet, celulares e computadores. Há uma verdadeira guerrilha cibernética contra o extremismo religioso, e nesse campo o Mossad não combate sozinho. Conta com a cooperação de agências como a CIA (EUA), o MI5 (Inglaterra) e o BND (Alemanha).
Aparentemente, o Mossad é o responsável pela morte de pelo menos 3 cientistas atômicos iranianos desde 2010. A vítima mais recente foi Mostafa Ahmadi Roshan. O carro em que viajava explodiu dia 10 de janeiro, depois que um motociclista colocou uma bomba magnética sob o chassi. O Irã culpou Israel e os EUA pelo ataque. Agentes do Mossad também teriam ajudado os EUA a fabricar o Stuxnet e outros vírus de computador usados pela Casa Branca para atrasar o programa nuclear iraniano.
O próprio ofício de espião mudou. Antes, o sujeito construía uma carreira no Mossad, passava por várias funções até ocupar cargos de chefia. Foi o caso de Efraim Halevy, diretor do Instituto entre 1998 e 2002, que dedicou 28 anos à espionagem. "Hoje, os contratos tendem a ser menores. A pessoa presta um serviço por 5 anos, digamos, e depois vai trabalhar em outro lugar", diz Klein.
E lá se foi o tempo em que os espiões agiam sem deixar rastros. Imagens de Gail Folliard e dos outros agentes que viajaram a Dubai, registradas nas câmeras do hotel, foram parar no YouTube. Mas o que vemos na internet são disfarces. A verdadeira identidade deles continua um mistério. Mas no futuro bancar o James Bond vai ser mais difícil. A maioria dos aeroportos europeus deverá contar com aparelhos que detectam medidas biométricas - a identificação da íris ou da retina. Segundo Rafi Eitan, isso não vai inviabilizar as atividades de inteligência no futuro. "As agências vão encontrar formas de superar as dificuldades", diz Eitan. "Já penso nisso de vez em quando, mas não quero dar ideias aos inimigos."

Texto Eduardo Szklarz |Revista Aventuras na História, dez / 2012.

quarta-feira, 26 de março de 2014

HISTÓRIA DA REPÚBLICA DOMINICANA

Um dos menores países da América, a República Dominicana ocupa lugar estratégico nas rotas marítimas entre América e Europa e entre o canal do Panamá e os Estados Unidos.
Situada na ilha de Hispaniola, a maior das Antilhas depois de Cuba, a República Dominicana tem superfície de 48.443km2, quase dois terços da ilha. O restante corresponde ao território do Haiti. Seus limites são, a leste, a ilha de Porto Rico, da qual está separada pelo canal de Mona; ao norte, o oceano Atlântico; ao sul, o mar das Antilhas; e a oeste, o Haiti. Está separada de Cuba pelo estreito de Barlavento, de 77km de largura, e da Jamaica, pelo canal da Jamaica, de 170km de largura.
Quando Cristóvão Colombo descobriu a ilha, em 1492, batizou-a como Hispaniola, forma latina de Espanhola. Logo fundou um núcleo e expulsou os índios que ali habitavam. Ao voltar de uma viagem exploratória pela região, encontrou o núcleo destruído. Mandou matar o cacique Guatinguaná e a maioria de seus homens, capturou cerca de 500 deles e os levou para a Europa a fim de vendê-los como escravos. Foi Colombo também quem iniciou a colonização da ilha, com gente, gado e sementes. Hispaniola foi a pioneira, na América, da indústria do açúcar, que entrou em operação na ilha em 1515 e em meados do século XVI já contava com 25 engenhos. Quando o governo espanhol entrou em conflito com os Países Baixos, principal mercado consumidor do açúcar, e proibiu a venda do produto a esse país e a Flandres, arruinou a economia de Hispaniola, que perdeu boa parte da população.
Os holandeses ocuparam o espaço vazio e iniciaram  intenso contrabando, com a troca de produtos manufaturados por peles. Como forma de defesa, o governo espanhol ordenou que a população se concentrasse na região leste da ilha e exterminasse os rebanhos de que não pudesse cuidar. Mas como as pastagens da ilha eram excelentes, o gado se multiplicou de tal forma que não foi possível cumprir a ordem. Deixado à solta no oeste de Hispaniola, o gado alimentou os franceses que ali chegaram e que em 1590 foram expulsos pelos espanhóis da pequena ilha de San Cristóban, hoje Saint Kits. A ocupação francesa deu origem ao Haiti.
Os dominicanos viviam da venda de gado e fumo aos franceses do oeste da ilha, em meados do século XVIII. Em 1791 uma rebelião haitiana acabou por dominar toda a ilha. Em 1795, a Espanha cedeu à França a totalidade de Hispaniola, pelo Tratado de Basiléia. O governador espanhol se negou a entregar São Domingos até que, em 1801, Toussaint Louverture, líder da independência do Haiti, passou a controlar toda a ilha.
O Haiti tornou-se independente da França em 1804, mas a parte espanhola permaneceu em poder das forças francesas 1821, quando o governador da zona espanhola da ilha, José Núñez Cáceres, proclamou a independência do Haiti Espanhol e em seguida enviou um representante do novo governo para entrevistar-se com o líder dos movimentos pela independência de outros países da América do Sul, Simón Bolívar. A entrevista nunca se realizou e, por esse motivo, não se pode ligar a luta pela independência de São Domingos à do restante da América espanhola.
O período seguinte foi marcado pela invasão haitiana em 1829, mas em 1844 a resistência local triunfou e instituiu, em 27 de fevereiro, a República Dominicana, que nos anos seguintes seria alvo de novos ataques haitianos.
No final do século XIX os americanos passaram a investir na indústria açucareira e em ferrovias. Ulysses Heureaux, que governava o país de forma ditatorial, foi morto por Ramón Cáceres, que lhe sucedeu e foi também assassinado. Iniciou-se então uma série de guerras internas, interrompida pela primeira invasão americana, cujo objetivo foi garantir a aquisição de terras para cultivo de cana-de-açúcar. Os Estados Unidos passaram a governar a República Dominicana por meio de um comandante militar. Com a queda dos preços do açúcar no mercado internacional, em 1920, os americanos promoveram eleições e em 1924 deixaram o país. Em 1930 o presidente eleito, Horacio Vásquez, foi deposto pelo comandante do Exército, Rafael Leónidas Trujillo, que, diretamente ou por intermédio de prepostos, governou o país até ser assassinado, em 1961. Durante esse período, Trujillo estimulou a industrialização e favoreceu os interesses americanos. Seu sucessor, Joaquín Balaguer, foi deposto por pressões externas, principalmente dos Estados Unidos, e o mesmo destino teve o presidente seguinte, Juan Bosch.

A partir de então seguiu-se uma série de governos militares, interrompida pela rebelião cívico-militar de abril de 1965, que exigiu o restabelecimento da constituição de 1968. Sob a alegação de que se tratava de movimento comunista, apesar de liderado pelo coronel Francisco Caamaño Deño, o governo dos Estados Unidos determinou nova invasão. Em seguida a força americana foi substituída por uma "força de paz" da Organização dos Estados Americanos (OEA), comandada pelo general brasileiro Hugo Panasco Alvim e integrada por representantes do Paraguai, Nicarágua, Honduras e Costa Rica. Em julho de 1966 a força retirou-se e Balaguer foi novamente eleito. Em 1973 decretou estado de emergência, ante o desembarque de Caamaño à frente de um grupo de guerrilheiros. Desbaratado o grupo, Caamaño foi morto. Em 1978, pela primeira vez na história dominicana, um presidente eleito, Balaguer, passou o cargo a outro presidente eleito, Antonio Guzmán Fernández, que tentou implantar um programa de reformas econômicas e sociais. Nos anos seguintes, aumentaram os problemas econômicos e a dívida externa. Em 1986 Balaguer voltou a ocupar a presidência da república e, para fugir à dependência econômica da cana-de-açúcar, passou a estimular a produção de café e cacau. Em 1990 foi novamente eleito e conseguiu reduzir os índices inflacionários. O governo reescalonou a dívida externa e procurou diversificar a economia. Apesar de todos os incentivos, ao final da década a taxa de desemprego ainda era grande.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

segunda-feira, 24 de março de 2014

RECONQUISTA DA PENÍNSULA IBÉRICA

Reconquista é o nome dado para o processo de retomada por parte dos cristãos da Península Ibérica, que ficou por séculos sob ocupação muçulmana.
 Durante a Idade Média, o embate entre cristãos e muçulmanos tornou-se muito extremizado em constante. Os conflitos eram recorrentes principalmente no que estava ligado à Terra Santa. A região em torno de Jerusalém é considerada um lugar sagrado para as duas religiões, tanto o Cristianismo como o Islamismo possuem fortes ligações com o local. O interesse de ambos os lados em manter o domínio sobre Jerusalém fez com que surgissem várias guerras de cunho religioso.
 No século VIII, os muçulmanos invadiram a Península Ibérica e conseguiram se apoderar das terras daquele lugar, estabelecendo moradia com seus hábitos e com sua religião. Já em 718 aconteceu uma revolta em Pelágio que marcou o começo de um processe de Reconquista, o objetivo era reaver as terras que sempre foram dos cristãos e de um povo de origem e cultura européia, bastante diferenciado daquele povo que vinha do Oriente.
 A Reconquista foi um processo que durou oito longos séculos. O processo já foi identificado apenas como o momento de efetiva retomada dos territórios na Península Ibérica, no século XV, mas os historiadores entendem agora que há uma ligação entre diversos eventos ao longo de todo esse período de combate entre cristãos e muçulmanos que ansiavam por retomar os territórios originais dos cristãos.
 Os muçulmanos sempre foram considerados como invasores na Península Ibérica, apesar de uma permanência de oito séculos. Isso acontecia porque seus costumes eram completamente diferenciados dos cristãos e, tampouco, procuravam interagir com os habitantes originais da região. As práticas religiosas também eram muito diversas, mantendo sempre presente o desagrado e o não relacionamento de cristãos e muçulmanos na Península Ibérica.
 No decorrer de todo o processo de Reconquista, que teve início com a revolta de Pelágio, muitas outras situações de embate se desenvolveram e as guerras entre as duas religiões só aumentaram. As Cruzadas  são um exemplo de envolvimento com a Reconquista. Os líderes religiosos do Cristianismo apelaram para as Cruzadas convocando seus fiéis a combater os muçulmanos que ocupavam a região. Em meio a esse artifício, Portugal foi beneficiado através das condições que se criaram e permitiram a unificação como Estado Nacional.
 Houve também a participação de ordens religiosas e militares, das quais se destacou a presença e atuação dos Cavaleiros Templários. Surgiram também outros reinos cristãos, como Leão, Navarra, Castela e Aragão, os quais seriam importantíssimos para a definitiva expulsão dos muçulmanos no século XV.
 A Reconquista da Península Ibérica só foi consolidada em 1492 com a tomada do reino de Granada. No final do século XV, os cristãos uniram forças e encurralaram os muçulmanos no território da Península Ibérica. Os Reis Católicos formaram uma aliança de grande capacidade e que conseguiu alcançar um objetivo de longa data para o Cristianismo. Ainda assim, os cristãos concederam aos muçulmanos alguns privilégios para conseguir reaver todo o território que antes possuíam. O processo de Reconquista culminou com a retomada da Península Ibérica e também forneceu as condições necessárias para a unificação da Espanha como Estado Nacional no mesmo ano de 1492.
Antonio Gasparetto Junior 

sábado, 22 de março de 2014

VAMPIROS

As histórias de vampiros, amplamente difundidas por todo o mundo, provêm do fabulário húngaro do século XVIII. Foi no entanto o romance Dracula, de Bram Stoker, adaptado para o cinema na década de 1930, o responsável pela grande divulgação das histórias de vampiros.
Vampiro, de acordo com a superstição popular, é a alma aflita de um suicida, criminoso ou herege que sai de sua sepultura à noite, em geral sob a forma de morcego, para beber o sangue de seres humanos. Suas vítimas transformam-se também em vampiros. Ao romper do dia, o vampiro deve retornar a sua cova ou para um caixão que contenha terra de seu local de origem.
O típico vampiro tem rosto pálido, olhos arregalados e dentes caninos salientes. Alimenta-se mordendo o pescoço de suas vítimas e sugando-lhes o sangue. Os métodos para reconhecer vampiros (eles não projetam sombra e sua imagem não se reflete em espelhos) e para repeli-los (mostrando-lhes um crucifixo ou dormindo com uma coroa de alhos em volta do pescoço) são bastante conhecidos das crianças, assim como as formas de vencê-los definitivamente: fincar uma estaca em seu coração, queimá-los ou destruir o local onde repousam durante o dia.

Entre os demônios da tradição folclórica antiga, o vampiro obteve o sucesso literário mais notável e constante durante o século XX, devido, em grande parte, à popularidade do romance gótico Dracula (1897), do autor britânico Bram Stoker. O conde Drácula, vilão morto-vivo da Transilvânia, tornou-se o tipo representativo de vampiro. Esse romance, uma peça encenada em 1927 e uma série de filmes transformaram o interesse por vampiros numa verdadeira mania. O clássico filme Dracula (1931), dirigido por Tod Browning e estrelado por Bela Lugosi, serviu de modelo para dezenas de filmes de vampiros produzidos a partir de meados do século XX.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

sexta-feira, 21 de março de 2014

IMPÉRIO CAROLÍNGIO

Recebeu o nome de Império Carolíngio  (também conhecido como o Império de Carlos Magno), o império estabelecido pela dinastia carolíngia, da qual foi seu maior representante Carlos Magno (742 – 814). Ocupando grande parte da região central da Europa, este estado medieval é o embrião da atual França.
 Com a desagregação do Império Romano e a organização da sociedade feudal, inúmeros reinos se formaram. O reino Franco, formado na Gália (atual França), foi o mais duradouro desses novos territórios. Ali, a dinastia carolíngia sucedeu à dinastia merovíngia em 751, sendo fundada por Pepino, o Breve, que naquele ano depôs o último merovíngio e se fez eleger rei dos francos por uma assembleia do seu povo, para além da sagração papal em 754.
 Em 768, a dinastia carolíngia foi entregue a Carlos Magno, monarca responsável pelo apogeu da dominação dos francos na Europa medieval. Seguindo uma política de tom expansionista, o novo rei promoveu o domínio de territórios situados na península itálica e entrou em luta contra os muçulmanos, estabelecendo a Marca Hispanica, na região sul dos Pirineus (espécie de zona neutra, destinada a isolar e proteger as fronteiras do império). Logo depois, conquistou a cidade de Barcelona, as ilhas Baleares e impôs sua dominação sob os povos saxões da Germânia.
 Formando um vasto território, Carlos Magno teve grande preocupação em organizar administrativamente as regiões conquistadas. Para tanto, realizou a doação de terras a todos os nobres que o auxiliavam durante as batalhas. Além disso, dividiu todos os domínios imperiais em duzentos condados que seriam geridos por um nobre e um bispo. O controle do poder exercido por esses líderes locais era fiscalizado por um funcionário público chamado missi dominici (“enviados do senhor”).
 Com a morte de Carlos Magno, em 814, o poder passou para seu filho Luís, o Piedoso, que governou até 840. Fortemente influenciado pela Igreja, Luís foi um monarca fraco. Terras da Igreja e domínios senhoriais conseguiam livrar-se do controle do poder central, tornando-se autônomos, deixando de cumprir suas obrigações para com o poder central. Após sua morte, seus três filhos repartiram o Império por meio do Tratado de Verdun (843). Carlos, o Calvo, ficou com a França Ocidental (que deu origem ao Reino da França); Luís, o Germânico, com a França Oriental (a futura Alemanha); e Lotário, com a França Central, repartida após a sua morte, em 870, entre Carlos e Luís.

 Em 987, morre o último soberano carolíngio da França Ocidental, Luís V, e os aristocratas escolheram Hugo Capeto, Conde de Paris, como rei. É o fim da dinastia carolíngia sobre a França, dando origem à dinastia capetíngia, que governou o país até o século XIV.
Emerson Santiago.

quinta-feira, 20 de março de 2014

ISLAMISMO: COMO SURGIU A DIVISÃO ENTRE SUNITAS E XIITAS

Como surgiram as diferenças entre sunitas e xiitas e como a divisão entre os muçulmanos tornou-se uma ameaça à paz mundial

Em 12 de março deste ano, o líder religioso xiita Abdullah Dadou morreu sufocado durante o incêndio de uma mesquita em Bruxelas, na Bélgica. Ele tinha 46 anos e era pai de 4 filhos. Segundo as autoridades, as chamas foram provocadas por um extremista sunita que entrou no templo com uma faca, um machado e um galão de combustível. Ataques desse tipo estão pipocando ao redor do mundo. Em junho, por exemplo, a explosão de uma bomba no Paquistão matou 15 peregrinos xiitas que voltavam de uma viagem ao Irã.
A violência entre grupos xiitas e sunitas também deixou quase 200 mortos no Iraque. Nove deles eram jogadores e torcedores que morreram com a detonação de um artefato perto de um campo de futebol em Hilla, no sul do país. Todos os dias, a violência sectária faz novas vítimas. Por trás de todas essas cifras recentes, contudo, existe um conflito histórico que remonta às primeiras gerações de muçulmanos. Tudo começou com uma desavença política, que sofreu uma transformação gradual nos séculos seguintes. Os dois lados adquiriram diferenças teológicas, colecionaram ressentimentos e hoje protagonizam um confronto geopolítico. É o que você vai ver nesta reportagem.



O sucessor de Maomé
Para entender a disputa entre xiitas e sunitas é preciso voltar ao século 7, quando Maomé fundou o Islã. Segundo a tradição muçulmana, os seguidores do Profeta deixaram a idolatria para seguir Alá, o deus único. Maomé foi perseguido em Meca, sua cidade natal, e migrou para Medina – onde fundou a primeira comunidade islâmica (a umma). Lá, tornou-se um líder religioso, político e militar. E as revelações divinas feitas a ele ficaram registradas no Corão, o livro sagrado dos muçulmanos.
Maomé nunca deixou claro quem seria seu sucessor. Quando morreu, em 632, a comunidade muçulmana tinha um belo abacaxi nas mãos. Como seria escolhido o novo líder? Que funções ele teria? Quanto duraria o mandato? Assim, surgiram dois grupos antagônicos. “O primeiro, minoritário, preferia reservar a honra da linhagem profética à família de Maomé. Seu pretendente era Ali ibn Abi Talib, genro do Profeta, casado com sua filha Fátima”, diz o historiador Peter Demant, autor de O Mundo Muçulmano. “Para a segunda corrente, porém, qualquer fiel poderia ser candidato, desde que fosse aceito por consenso pela comunidade.”
O grupo menor formava o Shiat Ali, ou “partido de Ali”. Seus seguidores ficaram conhecidos como xiitas. A facção majoritária foi chamada de sunita (do termo Ahl al Sunna, “o povo da tradição”). Em meio à emergência de escolher um novo líder, o círculo íntimo dos seguidores do Profeta elegeu Abu Bakr, velho companheiro de Maomé. Abu Bakr usou o título de califa (khalifa khalifa), uma palavra árabe que combina as ideias de sucessor e representante. Os sunitas aplaudiram a escolha, mas o xiitas protestaram: eles
insistiam que Ali era o candidato legítimo.
Pouco antes de morrer, em 634, Abu Bakr apontou Umar ibn Al-Khatab como seu sucessor. As tropas de Umar expandiram o domínio do Islã pela península arábica, Egito, Síria, Palestina, Mesopotâmia e parte do Cáucaso. Em seu leito de morte, Umar nomeou um conselho para decidir quem seria o terceiro califa. E o escolhido foi Uthman ibn Affan, membro de uma família grã-fina de Umaya, em Meca. Uthman derrotou a Pérsia e ampliou ainda mais os domínios do califado, mas os conflitos internos minaram seu governo. As tribos nômades o identificavam com os privilégios dos aristocratas que Maomé havia combatido. A crise desbancou para uma guerra civil e rebeldes muçulmanos assassinaram Uthman em 656, abrindo espaço para que Ali – o preferido dos xiitas – se tornasse califa. “Quando Ali finalmente assumiu, as divisões eram profundas demais para que ele conseguisse impor sua autoridade”, diz Demant. Ali foi morto 5 anos depois – também pelas mãos de um opositor. Os xiitas apoiaram a posse de Hassan, filho de Ali, mas o jovem cedeu ante a oposição de Muawiya ibn Abu Sufyan, governador da Síria. Muawiya fundou então a primeira dinastia de califas: a dos omíadas, sunitas. Os sunitas reconheceram o reinado dos 4 primeiros califas – os Reshidun (“os retamente justos”). Para os xiitas só o reinado de Ali foi legítimo

A mutação do conflito
Nos séculos seguintes, a divisão passou a incluir também agravos e diferenças teológicas. E essas mudanças começaram a tomar forma em 680. Foi quando Hussein, filho caçula de Ali e neto de Maomé, comandou uma rebelião xiita para impedir que o califa omíada Yazid assumisse o trono. Hussein foi degolado e seus aliados acabaram mortos na Batalha de Karbala, no atual Iraque. “O tratamento dado a Hussein motivou ressentimentos entre os xiitas. A celebração de seu assassinato durante a Ashura (o décimo dia do mês de Muharran) se tornou um período emotivo no qual a comunidade xiita compartilha seu sofrimento”, diz Yvonne Haddad, professora de História do Islã na Universidade de Georgetown.
A tragédia também ajuda a entender por que os xiitas valorizam tanto a noção de martírio. Segundo Haddad, a principal distinção entre os grupos vem de sua visão de mundo. Sunitas acreditam que o Corão é a palavra eterna de Deus que coexistia com Ele antes da Criação. Já para os xiitas, o Corão foi criado no tempo e passou a existir quando Deus se revelou à humanidade. Isso faz toda a diferença na maneira como eles leem o livro sagrado. “Xiitas consideram que precisam ser guiados para interpretar o Corão na vida diária, pois o livro depende da época e do lugar. Assim, precisam um imã (líder religioso) para ajudá-los a entender a mensagem do Corão”, diz Haddad. “Os sunitas, por sua vez, acreditam que a palavra de Deus é a mesma e vale para qualquer tempo e lugar. Portanto, as opiniões dos clérigos sunitas não são tomadas muito seriamente. E aqueles que clamam por um retorno às interpretações originais são levados muito a sério. Sunitas tendem a ser mais doutrinários.”
Os dois grupos também seguem diferentes coleções de Hadith, as narrativas sobre atos e palavras do Profeta. Isso porque cada lado confia em narradores diferentes. Sunitas preferem aqueles que eram próximos de Abu Bakr, enquanto os xiitas confiam nos que pertenciam ao grupo de Ali. Aisha, por exemplo, é considerada uma fonte importante pelos sunitas e desprezada pelos xiitas por ter lutado contra Ali.
 Aqui é possível fazer uma comparação com o cisma cristão, pois ele também deriva de um embate sobre a autoridade religiosa.

Católicos defendiam que a Igreja tinha o poder de definir o que é o cristianismo, enquanto os protestantes deixavam essa decisão na mão dos indivíduos. No caso do cisma muçulmano, a discussão é um pouco diferente. Sunitas creem que a autoridade está calcada na tradição, isto é, nas práticas do Profeta e de seu círculo íntimo tal como eles a definiram.
Já para os xiitas a autoridade está nas “fontes de emulação” – os líderes supremos da hierarquia religiosa xiita, como os aiatolás. Sunitas também consideram que o imã é simplesmente a pessoa que lidera a congregação, como o pastor dos cristãos. Já para os xiitas, o termo Imã (com letra maiúscula) assumiu um significado totalmente diferente. Ele se refere aos verdadeiros sucessores espirituais do Profeta Maomé, começando por Ali. Os xiitas veem os Imãs como uma espécie de santos – o que para muitos sunitas é uma verdadeira heresia.
Além disso, os xiitas cultivam uma expectativa messiânica sobre a vinda do Mahdi (Redentor), o que não se observa tanto na outra corrente. Ou seja: os sunitas são ancorados no passado, ao passo que os xiitas são mais experimentadores e olham mais para o futuro. O título de aiatolá, aliás, é bastante recente. E – veja só que ironia – acaba reproduzindo no Islã xiita a estrutura do clero cristão. “Os líderes do Irã já dotaram seu país dos equivalentes de um pontificado, de um colégio de cardeais, um conselho de bispos e, principalmente, de uma inquisição, coisas que eram todas alheias ao Islã”, diz o historiador britânico Bernard Lewis, da Universidade de Princeton, EUA. “É possível que acabem provocando uma Reforma.”

Assassinos: os avós dos terroristas
O martírio é uma noção fundamental entre as seitas xiitas. Mas nenhuma delas levou a ideia tão a sério quanto a Ordem dos Assassinos, que espalhou o terror na Pérsia e na Síria nos séculos 11 e 12. Seus integrantes eliminavam gente graúda: monarcas, ministros, generais e religiosos – do bando rival, claro. “O inimigo era o sistema político, militar e religioso sunita. Os assassinatos eram planejados para aterrorizá-lo, enfraquecê-lo e, finalmente, derrubá-lo”, diz o historiador Bernard Lewis no livro “Os Assassinos”. Executar a vítima significava um ato de devoção e envolvia um belo ritual. Segundo os relatos do explorador Marco Polo, que esteve na Pérsia em 1273, os chefes da seita ofereciam haxixe aos jovens convocados para matar – daí o nome Haxaxin, que depois derivou para Assassinos. A droga lhes dava um gostinho antecipado das delícias do Paraíso.
É que nenhum deles esperava sair vivo da missão. “Depois de matar, os Assassinos não tentavam fugir nem cometiam suicídio. Eles esperavam morrer na mão dos inimigos”, diz Lewis. Sempre usavam a adaga em vez de veneno ou armas de arremesso, o que tornava a operação muito mais arriscada. Atacavam em mesquitas, mercados ou palácios, agiam sob absoluto sigilo e muitos se vestiam de mulher para garantir o sucesso da emboscada. O fundador da seita teria sido o persa Hassan i-Sabah, conhecido como Velho da Montanha. Ele teria recrutado os primeiros Assassinos depois de se converter ao ramo ismaelita do xiismo no século 11 – época em que o Oriente Médio foi invadido pelos cruzados.

Disputa virou geopolítica
Atualmente, os sunitas representam cerca de 90% do Islã e os xiitas, 10%. A velha rixa é travada por governos cujos interesses vão além da tradição religiosa. “O que vemos hoje é um conflito geopolítico”, diz o escritor Reza Aslan, especialista em história do Islã. Para ele, há dois polos de influência no mundo islâmico: Arábia Saudita (sunita) e Irã (xiita). “Vemos diversos grupos fundamentalistas, como o sunita Al Qaeda, que acusa os xiitas de infiéis. Mas de onde vem a Al Qaeda? Da Arábia Saudita, que enxerga o Irã como a principal ameaça”, diz .
O conflito é alimentado com o dinheiro do petróleo. O Irã patrocina grupos terroristas xiitas, como o libanês Hezbollah. A monarquia saudita fomenta uma versão extremista sunita, o wahhabismo, ensinado em escolas e mesquitas ao redor do mundo. “O wahhabismo exerce uma influência tremenda sobre a diáspora muçulmana”, diz Lewis. “Em países não-islâmicos não existe controle sobre o que é ensinado nessas escolas. Há um ensino muito mais extremo em colégios muçulmanos da Europa e da América que na maioria dos países islâmicos.”
O Iraque virou palco perfeito para o embate entre os polos muçulmanos. Desde a retirada das tropas americanas do país, em dezembro, a violência sectária explodiu com atentados quase diários. A maioria xiita deseja vingar as atrocidades do ditador Saddam Hussein, um sunita. O Irã apoia as milícias xiitas. Os sauditas e a Al Qaeda atuam no campo rival. A dinâmica se repete pelo Oriente Médio. No Barein, por exemplo, a maioria xiita se rebela contra rei Hamad, que é sunita. Na Síria, principal aliada do Irã, a Primavera Árabe motivou uma rebelião contra o regime alauíta, da minoria xiita.
Segundo as Nações Unidas, os confrontos já produziram mais de 9 mil mortos no país. Isso não significa que o conflito seja mais violento hoje. Nos primeiros séculos do Islã, houve guerras massivas. “Nos séculos 7 e 8, os omíadas construíram um império sunita. E quem não fosse sunita era massacrado”, diz Aslan. “No século 8, os abássidas assumiram o poder. Eles descendiam de Maomé através de Fátima (filha do Profeta e mulher de Ali). Eram xiitas. E seu império massacrou sunitas.”
 Eduardo Szklarz (Aventuras na Histíro, agosto de 2012)

quarta-feira, 19 de março de 2014

OS SOBREVIVENTES DA CORDILHEIRA

Numa sexta-feira 13, em outubro de 1972, jovens jogadores uruguaios de rúgbi se divertiam no bimotor que fretaram da Força Aérea. O time iria disputar um amistoso em Santiago, no Chile. Dias depois, perdidos na cordilheira dos Andes, se alimentariam dos corpos dos colegas de viagem.
A história começou no dia 12 de outubro. A tripulação saiu de Montevidéu, com destino a Santiago do Chile, mas, com o tempo muito ruim para atravessar a cordilheira dos Andes, parou para uma escala forçada na cidade argentina de Mendoza. O voo foi remarcado para o dia seguinte, às 12h30. Os pilotos, Julio Ferrádas e Dante Lagurara, tentaram adiar a partida mais uma vez. Ao que os militares presentes responderam: "Ustedes son unos maricones". Por volta de 15h30, os pilotos pediram que os passageiros apertassem os cintos. O avião perdeu altitude uma primeira vez. Na segunda, foi arremessado contra uma montanha e explodiu. O rombo no casco foi preenchido pela neve.
Num primeiro momento, fez-se silêncio dentro da aeronave. Segundos depois, os sobreviventes, na maioria apenas com ferimentos leves, começaram a chorar e gritar. Havia sangue e corpos mutilados. Uma hora depois, a noite caiu. Naquele ponto, a 4 mil m de altitude, a temperatura chegava a -30 ºC. Encolhidos, os jovens se abraçaram dentro do casco.

O avião estava na região de Los Maitenes, do lado argentino dos Andes - os sobreviventes, tal como a equipe de resgate, acreditavam que o acidente havia acontecido do lado chileno. Antes da queda, os pilotos haviam informado a torre de comando que estavam sobre da localidade de Curico, um dado errado (o avião caiu a 90 km do local informado à torre de controle, em Santiago do Chile).
Nenhum militar estava vivo. Os sobreviventes eram jovens, na casa dos 22 anos, filhos da classe média alta uruguaia. Enquanto as buscas começavam no lugar errado, os menos feridos faziam um levantamento da situação. Um atleta que estudava medicina, Gustavo Zerbino, 19 anos, providenciou talas, enquanto outros separavam mantimentos. Era a época do governo de Salvador Allende no Chile e as notícias de racionamento de comida no país fizeram com que os jovens levassem um grande estoque, principalmente de chocolates e vinho. Apesar do esforço de Zerbino, 72 horas depois da queda, restavam 27 sobreviventes. Doze haviam morrido no acidente, outros 5 na primeira noite e um no dia seguinte.
O problema da comida estava temporariamente resolvido - e os sobreviventes acreditavam que o resgate não demoraria. Mas o gelo não servia como suprimento de água potável: ele queimava as bocas, já machucadas pelo frio. Com isqueiros, os jovens passaram a derreter neve e a armazená-la em potes. Para economizar fluido, queimavam todos os papéis que encontravam. Menos dinheiro: certos de que seriam localizados, não queriam desperdiçar suas notas. Depois o método evoluiu: a neve foi colocada sobre chapas de metal, para derreter ao sol, e a água era armazenada em garrafas de vinho vazias. O grupo conseguia produzir de 2 a 3 litros diários de água.
Os dias passavam rápido e as noites eram longas; começavam por volta das 16h30 e só acabavam perto das 10h. Os jovens dormiam protegidos pelos restos do avião. Quando se sentiam mais animados, cantavam e contavam piadas. Liliana Methol, a única mulher que escapara com vida, tinha 35 anos e tratava a todos como filhos. Em grupos de dois ou três, os jovens tentaram fazer excursões rápidas em busca de socorro.
Uma dessas incursões levou à parte traseira do avião, onde havia um aparelho de rádio e mais caixas com cigarros e mantimentos. Foi quando as esperanças diminuíram: ao sintonizar uma emissora de Montevidéu, descobriram que as buscas tinham sido encerradas 8 dias após o acidente. Para todos os efeitos, estavam desaparecidos e não seriam mais procurados.
Couro das roupas
Depois de dez dias, toda a comida acabou. Não se sabe bem como apareceu a sugestão de comer carne humana. "Uma pessoa comentava aqui, outra ali. Quando nos demos conta, estávamos convencidos de que, se necessário, teríamos que nos alimentar do corpo de quem não sobreviveu", diz Carlitos Páez, que era estudante de agronomia e hoje é dono de uma agência de publicidade.
Não foi uma decisão imediata: na falta de comida e de animais para caçar, os sobreviventes haviam tentado comer até o couro das roupas. A iniciativa que serviu de estopim para o canibalismo veio do estudante Nando Parrado, que perdeu a mãe e a irmã na queda do avião. Ele conversava com Páez sobre sair novamente em excursão em busca de ajuda. Quando o amigo alegou que ele não iria aguentar a caminhada por falta de alimento, Parrado respondeu: "Então vou cortar a carne de um dos pilotos. Afinal de contas, eles nos meteram nessa confusão". (Parrado foi eleito o maior palestrante do mundo em 2010 pelo World Business Forum.)
O também estudante Roberto Canessa ouviu a conversa e reforçou: "Isso é carne, nada mais. As almas deixaram os corpos e estão no paraíso com Deus". Com um pedaço de vidro, cortou a pele das nádegas de um grupo de mortos, separou 20 tiras em bifes finos e os colocou em silêncio sobre a fuselagem. No dia seguinte, não restava nenhum pedaço. Com o passar dos dias, todos comeram carne humana. Quando conseguiam fazer fogueiras com papelão, descongelavam e tostavam os nacos. Ninguém tocava no assunto. As conversas animadas foram trocadas por descrições dos familiares e choro. E as coisas ficariam ainda piores.
Em 29 de outubro, depois de 13 dias nos Andes, uma nevasca atingiu os escombros da aeronave. A avalanche que se seguiu soterrou 7 homens e a mulher, Liliana. Os demais passaram 3 dias escavando a neve até encontrar uma saída. Emergiram do gelo 16 pessoas, com pontas de dedos e orelhas congeladas. E uma decisão: só comer os mortos mais recentes em último caso. Mesmo tal disposição seria quebrada.
Convencidos de que não havia saída a não ser organizar outra expedição em busca de ajuda, os jovens passaram 3 dias preparando a viagem de Parrado e Canessa. Os dois caminharam por 10 dias, até encontrar o camponês Sergio Catalán. A dupla estava separada de Catalán pelo rio Portillo e o camponês não conseguia entender o que diziam. Fez um gesto de que voltaria na manhã seguinte - e cumpriu o prometido. Levou pães e jogou uma pedra com um papel amarrado. Recebeu-a de volta, com um bilhete: "Sou de um avião que caiu na montanha. Sou uruguaio. Estamos andando há 10 dias. Meu amigo está ferido. No avião há 14 pessoas, algumas delas feridas. Não têm coisa alguma para comer e não podem sair do local. Não podemos andar mais. Onde estamos? Por favor, ajude-nos". Sergio levou os dois para a cidade argentina de Malarqüe.
Por volta de 12h45 de 22 de dezembro de 1972, uma sexta-feira, os sobreviventes ouviram o som de helicópteros. Pelo rádio, já sabiam que a dupla tinha sido bem-sucedida. Ainda assim, só acreditaram que o pesadelo estava para acabar quando viram descer homens vestindo jaquetas vermelhas e carregando macas. O local era de tão difícil acesso que os bombeiros foram deixados ali e prepararam as vítimas para o resgate, que só aconteceu no dia seguinte.

Os sobreviventes foram levados para Santiago, para ser tratados de fraturas, queimaduras, escorbuto e desidratação. E dali para Montevidéu, onde foram recebidos com festa, no dia 28 de dezembro. Num primeiro momento, afirmaram que viveram à base de queijo e chocolate. Mas logo admitiram que só sobreviveram a 72 dias em condições extremas porque romperam um tabu. Revoltadas, muitas pessoas protestaram contra a atitude. A polêmica ainda ronda os sobreviventes. Todos voltaram ao local, hoje conhecido como Vale das Lágrimas. Os destroços congelados da aeronave ainda estão lá, assim como os corpos, identificados e enterrados.
Gustavo Zerbino, o estudante de medicina, saiu em peregrinação pelas famílias dos mortos. Enquanto esteve perdido na neve, reuniu objetos pessoais das vítimas. No começo de 1973, distribuiu fotos, carteiras e relógios que encontrou nos Andes. Todos os sobreviventes eram católicos e muitos compararam o canibalismo ao gesto da comunhão. Outros defendem sua atitude por motivos pragmáticos. "A antropofagia só impressiona a quem não sabe o que são -30 ºC e que não sabe o que é ver um amigo morrendo sem poder fazer nada", diz Roberto Canessa, que hoje é cardiologista.
Dados:


45 pessoas estavam a bordo do avião da Força Aérea Uruguaia
16 é o número de sobreviventes do acidente
72 dias passaram na espera pelo resgate
Tiago Cordeiro (Revista Aventuras na Hstória, abril de 2013).

segunda-feira, 17 de março de 2014

OS BASTIDORES DA PRIMEIRA VIAGEM DO HOMEM AO ESPAÇO

Em 1961, a URSS conseguiu colocar o primeiro homem no espaço. Os bastidores da viagem mostram como ela esteve perto de se transformar em desastre
Na manhã de 12 de Abril de 1961, Alan Shepard foi acordado na Flórida com uma péssima notícia. Ele não seria mais o primeiro homem no espaço. Foi por pouco. Havia dois meses, em vez de um astronauta, a Nasa decidiu lançar do Cabo Canaveral outro macaco, o terceiro desde o início dos testes. Sobre a cabeça dos americanos, a cerca de 250 km de altura e algumas horas antes, a Vostok-1 deixava claro, mais uma vez, quem liderava a corrida do século. A bordo da pequena cápsula, um filho de camponeses de 27 anos testemunhou que "a Terra é azul. Enquanto Shepard escovava os dentes, Yuri Alexeyevich Gagarin já colhia as glórias de seus 108 minutos em órbita.
O dedicado membro do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não poderia exigir mais de si mesmo. Na última noite antes do lançamento, sensores pregados em seu corpo indicaram um sono tranquilo. Às 5:30 da manhã (hora de Moscou), Gagarin foi acordado. Diante de dados "normais demais" para quem estava prestes a enfrentar viagem tão espetacular quanto desconhecida, os médicos perguntaram como foi possível para ele dormir tão bem. O rapaz foi enfático: "Seria correto decolar se eu não estivesse descansado? Dormir era meu dever, então eu dormi."
Não foi bem assim. Mais tarde, diante da desconfiança de todos, ele revelaria a verdade: sem pregar os olhos, procurou ficar imóvel o máximo possível para não parecer inseguro. Na plataforma de lançamento de Baikonur, no Cazaquistão, porém, não houve tempo para descanso. Dezenas de técnicos vararam a noite preparando o Vostok-K, enchendo os tanques de combustível e realizando testes. Pela primeira vez, aquele foguete decolaria com um ser humano a bordo. Não havia margem para erros.
"Poyekhali!"*
Após um "saboroso" café da manhã com tubos de pasta sabor carne, batata e chocolate, Gagarin começou a vestir seu traje espacial. Às 9h06, os 20 motores do primeiro estágio se acenderam. Segundos depois, as quatro garras de metal que seguravam o foguete se retraíram, liberando os 20 milhões de cavalos de potência do Vostok-K. "Lá vamos nós!"*, gritou o cosmonauta, iniciando o voo mais importante de sua vida.
Quatro anos antes, ele tornara-se piloto de caças. Em plena Guerra Fria, isso não era pouco. No começo de 1959, o governo russo iniciou a seleção do primeiro grupo de cadetes do espaço. Mais de 3 mil candidatos se apresentaram. Entre os critérios de avaliação, era essencial ter menos de 30 anos, medir menos de 1,70 m e pesar menos de 70 kg. Mas não bastava caber na diminuta nave espacial, ainda em fase de projetos. A máquina de propaganda soviética também precisava de um espécime russo perfeito. Demonstrar um firme comprometimento com o partido e ter uma biografia impecável eram tão ou mais importantes que as qualificações técnicas. A maioria dos inscritos ficou pelo caminho. Somente 400 passaram para a segunda fase e pouco mais de 100 chegaram ao fim. Em 25 de fevereiro de 1960, os 20 aprovados foram anunciados. Dois homens sobressaíram logo nos treinamentos: Yuri Gagarin e Gherman Titov. Ainda eram bonitos e tinham boas ligações políticas. Em uma votação entre os colegas, Gagarin recebeu 60% dos votos e Titov ficou em segundo lugar. Ainda assim, a quatro dias do lançamento, a decisão sobre quem seria o pioneiro em órbita não estava tomada. Em 8 de abril, o comandante do destacamento dos cosmonautas, Nicolai Kamanin, anotou em seu diário: "É difícil decidir qual deles deve ser enviado à morte e é igualmente difícil decidir qual desses dois grandes homens deve ser tornar mundialmente famoso". A escolha foi tomada com base em um detalhe prático. O primeiro voo espacial seria rápido e exigiria pouco do cosmonauta. O segundo, já programado, duraria quase um dia inteiro. Titov, por ser mais novo e mais forte, acabou escolhido para o voo mais longo. A Gagarin, "sobrou" a honra de ser o primeiro no espaço. Perguntado anos depois sobre o que lhe passou pela cabeça ao saber da decisão, respondeu: "Pensei em Titov. Por que eu? Por que não ele? Teria sido melhor fazermos a viagem juntos".
Preparação
Se os Estados Unidos tinham na Nasa o engenheiro Wernher von Braun, a URSS tinha Serguei Korolev. O sucesso da exploração espacial soviética se deve quase totalmente aos foguetes que ele ajudou a construir. Sua insistência em usá-los não só para lançar armas nucleares mas também como o transporte que levaria satélites e homens ao espaço se provaria acertada. Sem a luta de Korolev para que a nação saísse na frente dos americanos, a corrida ao espaço teria sido bem diferente. "A demonstração cabal do avanço russo foi o voo do primeiro cosmonauta humano", afirma Gildo Magalhães, pesquisador da faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Das obras de Korolev, a mais genial foi o R-7, o primeiro míssil balístico intercontinental. Sua capacidade e suas dimensões foram exageradas desde a encomenda pelo Exército soviético, em 1950. As bombas de hidrogênio podiam pesar até 10 toneladas. Se a URSS queria uma forma eficaz de destruir os EUA, era preciso ter um foguete capaz de transportá-las.
A família de foguetes R-7 é a mais antiga e confiável da história da exploração espacial. Ela colocou em órbita o Sputnik, o primeiro satélite artificial da Terra, e ainda hoje lança todas as naves Soyuz russas. O R-7 havia sido testado 46 vezes, com diversas configurações. Era, portanto, uma escolha natural para a mais pretensiosa das missões até então. Sua versão adaptada, com a adição de mais um estágio, foi batizada com o mesmo nome da nave que carregaria: Vostok (que, aliás, significa "leste", em russo), mais a letra K. O local de lançamento, no Cazaquistão, foi escolhido por ter uma grande área de planície, o que permitiria manter a comunicação com as naves por mais tempo. Embora a base se chamasse Baikonur, esse era o nome de uma cidade a centenas de quilômetros dali.
Ignição
Ninguém percebeu de imediato, mas o lançamento teve um problema potencialmente sério. A Vostok-1 deveria atingir a altitude máxima de 230 km e levava suprimentos de oxigênio, água e comida para dez dias. A ideia era garantir que Gagarin sobrevivesse na nave caso os retrofoguetes (responsáveis pelo retorno ao solo) falhassem. Àquela altitude, a nave perderia velocidade e cairia de volta à Terra em menos de dez dias. Mas uma falha no segundo estágio fez os motores do foguete desligarem segundos depois do previsto. Assim, a Vostok-1 alcançou até 327 km de altitude. Sem retrofoguetes para reduzir a velocidade da cápsula e a essa distância do solo, ela levaria 15 dias para cair, muito além do limite de suprimentos.
Enquanto esteve em órbita, Gagarin executou algumas experiências para avaliar seu estado físico e mental. Até então, ninguém sabia ao certo como o corpo humano se comportaria no espaço. (Teorias iam desde olhos saltando das órbitas até a morte.) Ele leu textos em voz alta para analisar a visão, ingeriu comida e água para verificar se era possível se alimentar em gravidade zero e fez testes de coordenação motora. Todos com resultados satisfatórios.
A atenção com a segurança era tanta que os controles da nave ficaram travados durante todo o voo. Temia-se que o espaço "enlouquecesse" as pessoas. Se isso acontecesse a Gagarin, era melhor protegê-lo de si mesmo. Os códigos de liberação dos controles foram guardados em um envelope selado e só poderiam ser usados em uma emergência que demandasse intervenção humana. No fim das contas, o cosmonauta não passou de um passageiro. Para compensar, seus comandantes lhe prepararam uma surpresa: às 9h57 o primeiro tenente Yuri Gagarin foi promovido a major.
A incerteza sobre o sucesso fez com que as autoridades soviéticas só anunciassem ao mundo a missão quando ele já se preparava para voltar à Terra. Às 10h25, os retrofoguetes da Vostok-1 dispararam automaticamente por 42 segundos. Dez segundos depois, a cápsula de reentrada deveria se separar do módulo de serviço, mas isso não aconteceu. Cabos ligando os dois módulos não se partiram como o programado e, unidos, começaram a girar sem controle, enquanto queimavam devido ao atrito com o ar. Só dez minutos mais tarde os cabos se romperam e a cápsula estabilizou. O cosmonauta sofria, então, com outro problema: a rápida desaceleração, que produziu uma força G até dez vezes maior que a gravidade terrestre.
Nada impediu, porém, que ele fosse ejetado e caísse de paraquedas nos arredores de Saratov. A visão daquele ser assustou duas meninas e um homem que dirigia um trator. "Quando me viram de traje espacial laranja, começaram a se afastar com medo. Aí eu disse: Não tenham medo! Sou soviético como vocês! Eu venho do espaço e preciso de um telefone para ligar para Moscou!", contou Gagarin. A sorte estava mais uma vez ao seu lado. Poucos dias antes do voo, técnicos notaram que o traje não tinha insígnias ou outros sinais que mostrassem o seu país de origem - o que poderia dar a impressão de que se tratava de um espião estrangeiro. Só então grafaram CCCP (URSS no alfabeto cirílico) em letras garrafais na testa do cosmonauta.
De acordo com as regras da Federação Internacional de Astronáutica, um voo tripulado ao espaço só seria considerado válido se o piloto pousasse com sua nave. Embora a Vostok-1 possuísse seus próprios paraquedas, ela não tinha um sistema de pouso suave. Se os cosmonautas não ejetassem, poderiam não morrer, mas quebrariam alguns ossos. Por dez anos o governo e o próprio Gagarin negaram o pouso de paraquedas. Sem saber da artimanha, a federação validou o feito soviético.
Logo após seu voo histórico, o cosmonauta partiu para uma turnê mundial. No Brasil, foi condecorado pelo presidente Jânio Quadros no Rio de Janeiro e visitou a Baixada Santista, onde foi recebido por uma multidão. "As pessoas não entendiam bem o que aquele homem havia feito, mas sabiam que era algo importante e queriam se aproximar dele", conta Francisco Rodrigues, policial que fez a escolta de Gagarin durante o desfile em carro aberto pelas ruas de Santos e São Vicente.
Nos EUA, a reação não foi tão animada. O Congresso cobrava uma resposta à altura. Em 25 de maio de 1961, pouco mais de um mês depois da Vostok e após 20 dias do primeiro voo espacial americano (quando Alan Shepard finalmente chegou lá), o presidente John Kennedy lançou um desafio: "Esta nação deve se comprometer a conquistar o objetivo de, antes de esta década terminar, pousar um homem na Lua e trazê-lo de volta em segurança". Começava uma nova etapa da corrida espacial. Para Shozo Motoyama, livre-docente em História da Ciência na USP, "o voo de Gagarin foi o início da aventura cósmica, e o Cabo Canaveral, o promontório de Sagres das grandes navegações. A Terra ficou pequena para a ambição humana".


Yuri Gagarin não viveu para ver o homem na Lua. A fama e as chances mínimas de voltar ao espaço (a URSS não arriscaria perder seu herói) o fizeram se interessar mais por mulheres e álcool do que pelo trabalho. Num ostracismo forçado, decidiu retomar a carreira de piloto. Em 27 de março de 1968, o caça Mig-15 em que treinava caiu. Embora os russos ainda tivessem o foguete mais seguro do mundo, "descendente" do R-7 e do Vostok-K, eles jamais voltaram a liderar a disputa pelo espaço. O Leste que assombrou o mundo em 1961 morreu com seu piloto.
Fernando Britto, Revista Aventuras na História, julho de 2012.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O NAZISMO CONTRA O MODERNISMO

Durante o Congresso do Partido Nazista em Nüremberg, em 1933, Hitler citou a si próprio utilizando-se de uma passagem do Mein Kampf referente à opinião que tinha sobre a arte contemporânea. Considerava-a obra de loucos e degenerados, parecer não muito distante do público comum perante os experimentos estéticos dos cubistas e dos expressionistas que vinham desde o período anterior à Grande Guerra de 1914-1918. Era o começo de uma guerra contra o Modernismo.
 Rosemberg entra em ação
Walter Laqueur, estudioso da cultura alemã daquela época, indica que os nazistas não tiveram inicialmente participação muito ativa nas polêmicas sobre a arte e a estética moderna que inundavam as revistas e semanários alemães dos anos vinte. Todavia isto não demorou a mudar.
 Foi devido à atuação pessoal de Alfred Rosenberg, o ideólogo oficial do partido nazista, que a luta contra o modernismo se materializou. Em 1927, ele publicou uma série de ensaios no jornal Völkische Beobachter sob o título geral de "Der Sumpf" (O pântano), em que acusava a estética do seu tempo de ser uma doença da alma, do desequilíbrio, da alienação, do resultado do capitalismo (dominado pelo mamonismo, isto é, pelo dinheirismo) em conjugação com o coletivismo, a cultura de massas manobrada por comunistas.
 Tratava-se, segundo ele, de retirar as críticas à arte moderna feitas em nichos intelectuais reacionários ou elitistas e transformá-la numa luta. Em vista de tal propósito, Alfred Rosenberg associou-se, em 1928, a Paul Schultze-Naumburg, pintor e arquiteto, para lançar-se numa campanha organizada contra a chamada Entartete kunst, a "arte degenerada", no periódico Weltkampf.
 Em 1929, os dois aliaram-se para estruturar a Kampfbund für Deutsche Kultur, a Liga para a Defesa da Cultura Alemã, que seria um instrumento de combate do partido nazista e voltado contra a arte do seu tempo, contra o que chamavam de Kulturbolchevismus, a cultura bolchevista.
 Fixaram então os motivos para uma aberta condenação ao movimento estético que predominava até então na Cultura de Weimar: em Emil Nolde denunciaram ser sua obra uma aberta blasfêmia contra Deus; na de Otto Dix viram uma apologia pacifista-marxista; em Max Beckmann, recriminaram-no por retratar a vida dos bordéis e outras casas suspeitas, condenando sua imoralidade; em Paul Gauguin viram uma posição simpática às raças inferiores; em Ernst Ludwig Kirchner criticaram o favorecimentos ao trafico humano e sintomas de doença neuro-psíquica; na arte abstrata em geral, viram um comportamento embotado, além de ser uma arte feita por gente de raça inferior ( judeus, ciganos, eslavos, etc.).
 Pode-se dizer que poucas vezes na história da cultura, a arte foi objeto de tanta polêmica, ódio e difamação como durante os anos vinte e trinta na Alemanha. Parte deste destempero deveu-se aos próprios artistas que, desde os tempos do futurismo não paravam de lançar manifestos arrogantes em que insultavam o mau gosto da gente comum e jogavam no opróbrio aqueles que se lhes opunham ou simplesmente não os entendiam, englobando-os todos sobre a palavra infamante de "filisteus".
 Em 1911, Vassily Kandinsky, em seu tratado Über das geistige in der Kunst, (Sobre o espiritual na arte), afirmou que as grandes realizações da pintura da vanguarda tinham o status de gestos simbólicos de liberação universal e atendiam as necessidades espirituais de uma humanidade pressionada pelas exigências excessivas de uma era materialista. Alertou para a existência de uma "mão negra", o mal, o princípio negativo, que procurava limitar a liberdade dos artistas com seu espírito medíocre e conservador. A isto contrapunha o "raio branco", o espírito livre, construtivo, capaz de sozinho demolir os preconceitos dos reacionários e do público medíocre em geral contra as inovações apresentadas pelos vanguardistas.
 A tragédia que se abateu sobre a arte moderna alemã (e de certo modo sobre parte considerável da arte moderna de outros países) foi que ela se difundiu num momento de desgraça nacional. A estreita relação histórica entre sua complexidade, abstração, niilismo, deformação propositada, com a decadência socioeconômica ocorrida na Alemanha depois de 1918 e o clima negativista que pairou sobre o país derrotado na Grande Guerra foi-lhe fatal. A catástrofe e o Movimento Modernista pareciam andar de mãos dadas. Ela passou a ser vítima dos ataques de extremistas ultranacionalistas que denunciaram suas tortuosidades e inquietações como responsáveis pelo ar derrotista e pessimista que passou a imperar entre os meios culturais alemães nos anos vinte.
 Em pouco tempo os grandes nomes da inovação estética dos começos do século XX, tais como Ernst Nolde, Ernst Ludwig Kirchner, Max Beckmann, Franc Marc, Oskar Kokoschka, Lyonel Feininger, Paul Klee, Otto Dix, George Grosz e Vassily Kandinsky, entraram na lista daqueles a serem ideologicamente execrados.
 Os artistas, estavam numa situação deveras perigosa. Ao afirmarem enfaticamente o primado expressionista, cujo princípio básico era a pureza dos sentimentos sobre todo o resto, terminavam por retratar em seus quadros e gravuras uma sociedade dilacerada, desmoralizada pelos efeitos punitivos do Tratado de Versalhes, atormentada pela inflação e depressão econômica e por violentas convulsões políticas (como a rebelião espartaquista de 1919, o putsch Kapp, de 1920, e o levante nazista de 1923, em Munique, demonstravam). Não havia nada de belo a ser levado em consideração, ou que fosse digno de merecer uma visão otimista na Alemanha no tempo deles.
 Nas ruas de Berlim, Hamburgo , Frankfurt, e de tantas outras, espalhavam-se os mendigos, os mutilados, os desempregados, os deserdados e desamparados de uma guerra em que a nação, outrora orgulhosa, resultara vencida.. Ao serem fiéis aos seus sentimentos e honestos na sua maneira de olhar a realidade circundante, mostrando aos alemães uma pátria deformada e dissoluta, os artistas atraíram para si o rancor dos extremistas da direita que os acusaram de produzir uma arte Volksverbunde (inacessível ao povo). As cores predominantes deles eram o preto e o cinza. O líder nazista os estigmatizou por isso. Para Hitler, os modernistas ou eram loucos ou charlatães:
 "Se cada coisa a que deram à luz foi resultado de uma experiência interior, então eles são um perigo público e devem ficar sob supervisão médica ... se era pura especulação, então deviam estar numa instituição apropriada para o engano e a fraude", disse ele.
 As exigências ideológicas
Outros elementos, por igual, pesaram na perseguição que se desencadeou sobre eles. Nunca como até então as ideologias que irromperam no após Primeira Guerra Mundial utilizaram-se tão abertamente da arte para atingir seus objetivos políticos. Vivia-se na época da polit-art, quando a arte foi partidariamente aparelhada, transformando-se em instrumento de uma monumental propaganda política, ocorrendo à restauração do naturalismo idealizado como a forma mais adequada e ajustada a serviço da política de estado.
 Esperava-se do artista que, ao invés de concentrar-se em abstrações complicadas, descrevesse um mundo idílico, clássico, radioso, virtuoso, que imperaria no futuro não muito distante, desde que grande causa, fosse ela qual fosse, vencesse as suas rivais. Havia um imenso abismo entre os expoentes máximos da arte de vanguarda daquela época e as ambições estéticas feitas pelas ideologias dominantes em vários estados europeus nos anos vinte e trinta.
 A consagração histórica daqueles que foram então perseguidos, todavia, terminou se dando por meios transversos. Para afirmar a magnitude da arte nacional-socialista sobre a cultura "degenerada", Hitler orientou Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda e Cultura do Reich, que realizasse uma exposição concorrente na recém inaugurada Haus der Deutschen Kunst, em Munique, em julho de 1937. O desejo do Führer era confrontar a ¿arte verdadeiramente alemã¿ com a ¿arte degenerada¿ para destacar o processo de purificação que ele desencadeara na Alemanha desde sua ascensão em 1933. Ocorre que nos dias de hoje praticamente nenhum daqueles artistas que se tornaram obedientes soldados da estética nacional-socialista são lembrados, ocorrendo o contrário com aqueles que os nazistas perseguiram ou desterraram. Os nomes de Kokochka, Marc, Kandinsky , Klee, e tantos outros, tidos como degenerados, foram universalmente consagrados no transcorrer do século XX.

 Voltaire Schilling