sexta-feira, 30 de maio de 2014

CARTA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL CHEGA DEPOIS DE 70 ANOS

Uma senhora americana recebeu uma correspondência para lá de inesperada: uma carta de seu pai, felicitando-a por seu nascimento, escrita pouco antes de ser ferido mortalmente durante uma batalha na Segunda Guerra Mundial. Peggy Addington Smith nasceu em junho de 1944, precisamente quando seu pai, o soldado John Addington, combatia no fronte de batalha italiano. Poucos dias antes ele havia escrito e enviado a carta que, até então não chegarei a seu destino.
A história deste desencontro começou a mudar há 14 anos, quando o envelope perdido foi encontrado no estado do Missouri, enquanto uma vizinha fazia uma limpeza na casa de parentes. Apesar de ser do conhecimento de alguns que o veterano Addington vivia no Missouri antes de partir para à guerra, nunca foi possível estabelecer conexões entre carta e a residência onde foi encontrada.
Finalmente, no dia 21 de setembro de 2013, Peggy recebeu a carta de seu falecido pai, depois de uma cerimônia especialmente organizada para a ocasião e comemoração de seus 69 anos de idade.

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quinta-feira, 29 de maio de 2014

O LADO B DE STALIN

O ditador que matou milhões de pessoas de fome, traiu companheiros e usou seu povo como bucha de canhão... Ainda tem fãs na Rússia, para quem ele foi responsável pela modernização do país e pela vitória sobre Hitler.

No começo do ano, no povoado de Akura, na Geórgia, a população reinaugurou um busto de Josef Stalin, o ditador que comandou a União Soviética com mãos de ferro e sede de sangue por três décadas, de 1922 até sua morte, há 60 anos. A estátua havia sido retirada pela prefeitura em 2010, mas os moradores resolveram gastar dinheiro do próprio bolso para restaurar a obra e devolvê-la ao seu pedestal na praça principal do lugar. "Não se pode esconder a história", disse a moradora Elgudja Bluishvili. "Se foi bom ou mau, ele agora é parte disso, e nasceu na Geórgia."

A história já deu a Stalin seu lugar: o de tirano cruel. O homem sem escrúpulos que não se importou em matar milhões de ucranianos, cazaques e siberianos de fome durante o perío-do de coletivização do campo na URSS, no início dos anos 30. O líder responsável pela morte de 700 mil bolcheviques e militares nos chamados Processos de Moscou, no qual a maioria das "confissões" era obtida por meio de tortura. O maquiavélico que fez alianças com membros do partido apenas para isolar supostos adversários e, em seguida, traí-los e condená-los à morte. O comunista sem princípios que se aliou ao nazismo com o pacto de não agressão de 1939. O general paspalho que usou a população russa como bucha de canhão na Segunda Guerra, na qual a URSS perdeu quase 24 milhões de pessoas (em comparação, as baixas da derrotada Alemanha não chegaram aos 8 milhões). Por fim, sua morte levou à divisão mundial do comunismo, com defensores e detratores que romperam com o monolito esquerdista que seguia os ditames de Moscou.

A volta do culto à personalidade de Stalin nos países da antiga União Soviética, em especial na Geórgia, onde nasceu, e na Rússia, a capital do império, não é obra de amadores nem se limita a fãs esparsos do ditador bigodudo. Ela encontra eco em intelectuais e historiadores. E pode ser vista nas ruas de Moscou. Desde outubro do ano passado, uma organização civil chamada Sindicato dos Cidadãos Russos recolhe assinaturas para devolver a Volgogrado o nome pelo qual a cidade se tornou célebre em todo o mundo: Stalingrado. Ali, durante a Guerra Civil que se seguiu à Revolução Bolchevique, Stalin conduziu o Exército Vermelho e conquistou uma grande vitória. Em 1925, quando ele já exercia plenamente o poder na URSS, o Comitê Central do Partido Comunista propôs que a cidade ganhasse seu nome - e como Stalingrado ela foi palco de uma das maiores, mais sangrentas e heroicas batalhas da Segunda Guerra. O nome perdurou até 1961.
Stalingrado


No site da organização, explica-se que "a posição do Sindicato dos Cidadãos da Rússia é simples e compreensível a cada patriota". O abaixo-assinado recolheu na internet 9 780 assinaturas a favor da mudança - e 687 contra. Na véspera das últimas eleições presidenciais, já se acreditava que o presidente russo, Vladimir Putin, rebatizaria a cidade para atrair eleitores. Membros do Clube de Especialistas de Volgogrado conseguiram mudar o nome da cidade por um dia em comemoração aos 70 anos da vitória das tropas soviéticas, em 2 de fevereiro. "A ideia é fazer disso uma tradição, enquanto não se resolve a questão da renomeação da cidade", diz o cientista político Vitáli Arkov, membro do grupo.
Stalin, batizado Iosif Vissarionovich Djugashvili, morreu em março de 1953. Desde então, a Rússia está na terceira onda de "desestalinização". A primeira, conduzida por Nikita Kruschev em seu discurso secreto no 20º Congresso do Partido Comunista da URSS, revelou os crimes de Stalin. Em 1961, quando Stalingrado foi rebatizada de Volgogrado, o corpo do tirano foi retirado do gélido mausoléu da Praça Vermelha, onde ainda hoje estão em exposição os restos de seu predecessor, Vladimir Lenin. Stalin foi enterrado próximo de um dos muros do Kremlin - ainda hoje é um dos túmulos mais visitados no local.
A segunda onda veio nos anos 80, com a perestroika de Mikhail Gorbachev. O líder que implodiu a URSS combatia qualquer manifestação de apoio ao totalitarismo. Um dos pontos altos dessa fase foi o filme Pokaianie (Confissão), de 1984. Uma crítica alegórica ao stalinismo, a ficção do georgiano Tenghiz Abuladze foi imediatamente proibida na União Soviética. Relançado três anos depois, com a abertura promovida por Gorbachev, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1987.
Por fim, a terceira onda é recente. Iniciou-se em 2010 com a nomeação de Mikhail Fedotov ao cargo de chefe do Comitê Presidencial para os Direitos Humanos. Uma das primeiras ações de Fedotov foi declarar guerra ao culto a Stalin. Ele contava com o apoio do então presidente Dmitri Medvedev para a criação de um novo projeto de "desestalinização da consciência russa" a partir de 2011. A confirmação de Fedotov no cargo em 2012 levou os russos, que antes acreditavam na contrariedade de Putin ao processo, a crer no seu apoio à desestalinização, apesar de seu silêncio quanto ao assunto.
O silêncio se explica. Até hoje o tirano goza da simpatia de uma boa parcela da população russa. De acordo com estudo do VtsIOM (Centro Russo de Pesquisas de Opinião Pública) publicado em abril de 2011, um em cada quatro russos afirma que sua família sofreu repressão na era Stalin. Mas só 26% dos entrevistados apoiam a "desestalinização" - e quase metade consideram os esforços como "tagarelice" e "mitificação". Também cresceu o número de russos que consideram o papel de Stalin como positivo: de 15% em 2007 para 26% em 2011.




Avanços econômicos


Combater o georgiano, notaram logo as autoridades russas, não era tarefa fácil. Na primeira vez em que se ensaiou uma reabilitação do tirano, não havia transcorrido nem dez anos de sua morte. O líder Leonid Brejnev, considerado um neostalinista, citou Stalin nas comemorações dos 20 anos do fim da Grande Guerra Patriótica, o nome como os russos chamam a Segunda Guerra. "Não devemos encobrir os erros, mas também não podemos encobrir os méritos. Portanto, respeitemos Stalin", disse Brejnev, sob aplausos.
Que méritos são esses? O ex-vice-presidente da Comissão Presidencial Contra a Falsificação da História em Favor dos Interesses da Rússia Issaak Kalina é conhecido por defender o uso de livros de história da Federação Russa redigidos por Aleksandr Filippov, os quais se referem a Stalin como "um administrador eficiente" e à repressão civil como "custos" do progresso. De fato, a habilidade como "administrador" é o principal argumento dos que advogam em seu favor hoje. Mesmo durante sua vida, teve seus méritos reconhecidos, até pela insuspeita revista conservadora norte-americana Time, que o escolheu "homem do ano" duas vezes, em 1939 e 1942.
Basta uma análise de alguns números dos dois primeiros Planos Quinquenais soviéticos, tocados a mando de Stalin. Vale lembrar que o planeta enfrentava a Grande Depressão que sobreveio ao Crash de 1929 (a URSS era um país isolado, mas ainda assim os avanços são impressionantes). "A economia soviética, segundo as mais recentes e confiáveis estimativas, cresceu no mínimo 70% entre 1933 e 1938", registra Richard Overy, professor do King¿s College de Londres, em seu livro Os Ditadores. Ainda que os esforços soviéticos não tenham valorizado o consumo de massa, o planejamento econômico dos comunistas foi capaz de, entre 1928 e 1937, fazer a produção de máquinas crescer incríveis 2 425%. O número da produção de automóveis foi catapultado de 800 unidades anuais para 200 mil no mesmo período. Muitos fundamentos do estudo da macroeconomia, hoje matéria obrigatória em cursos de economia, são resultado do trabalho dos burocratas soviéticos.



"Vinte milhões de pessoas morreram em três ou quatro anos com a Guerra Civil, e a Primeira Guerra resultou em ainda mais 1,5 milhão de mortos. O país sumiu do mapa da política mundial, era apenas sangue, chamas, violência", diz o historiador Aléksandr Vershínin, do Centro de Análises da Governança. "Stalin surgiu do sangue da guerra civil. E, no lugar do caos, instalou a calmaria."


Se houve calma, foi a paz dos cemitérios. Não existem números definitivos, mas fala-se em 8 milhões de mortos de fome na URSS, 5 milhões dos quais na Ucrânia, por causa da política de industrialização e da coletivização forçada do campo. Stalin enviava comissários para checar a produção e identificar desvio de grãos, mas não dava ouvidos às críticas. Quando um funcionário ousou relatar o que ocorria na Ucrânia, Stalin o cortou, como relata Simon Sebag Montefiore em Stalin, a Corte do Czar Vermelho: "Fabricar tal conto de fadas sobre a fome! Achou que nos assustaria, mas não vai funcionar". Em seguida, sugeriu que o burocrata deixasse o comitê central do partido na Ucrânia e entrasse para a União dos Escritores, onde poderia se dedicar à ficção. Mas a fome era real. Tristemente real.


Linha do tempo
1902 - A primeira das sete prisões de Stalin, que usava o codinome Koba, tirado de um romance


1905 - Atende ao congresso do partido, na Finlândia, onde atrai pouca atenção


1912 - Por indicação de Lenin, entra para o comitê central do partido e adota o nome Stalin


1913 - Publica um artigo sobre marxismo e questão nacional que vai ajudá-lo a crescer no partido


1917 - Torna-se editor responsável do Pravda, o jornal oficial dos bolcheviques


1917 - Na Revolução de Outubro, é ofuscado pelas ações de Leon Trotski


1918 - Destaca-se em vários fronts na Guerra Civil. Também vira comissário de nacionalidades


1921 - Em seu testamento político, Lenin pede que Stalin não ocupe o secretariado


1922 - Assume o posto que só deixaria morto: secretário-geral do comitê central do Partido Comunista


1924 - Lenin morre. Stalin e aliados eclipsam Trotski, o sucessor natural na liderança da União Soviética


1924 - Stalin assume o poder em um triunvirato, ao lado de Grigory Zinoviev e Lev Kamenev


1928 - Começa o processo de industrialização e de coletivização da agricultura na URSS


1929 - Stalin manda Trotski para o exílio, acusado de trair a revolução. Ele seria morto no México, em 1940


1934 - Sergo Kirov é assassinado em Leningrado. Foi o pretexto para os expurgos no partido


1936 - Kamenev e Zinoviev são julgados por traição, depois de confessarem sob tortura, condenados e mortos


1937 - Mikhail Tukhachevsky, maior autoridade militar do país, é condenado à morte por traição


1939 - URSS e Alemanha assinam o pacto de não agressão, que garante aos comunistas o leste da Polônia


1941 - Com a Operação Barbarossa, a Alemanha invade a URSS e em outubro chega perto de Moscou


1945 - Tropas soviéticas entram em Berlim e colocam a bandeira comunista no alto do Reichstag


1948 - Tito, o líder comunista da Iugoslávia, é o primeiro dirigente a romper com o stalinismo


1947 - Jdanov, membro do comitê central, inicia uma série de expurgos entre intelectuais e cientistas soviéticos


1953 - Stalin comanda a prisão e morte de médicos, a maioria judeus, que trabalhavam no Kremlin


1953 - Stalin morre sozinho em sua dacha depois de ser vítima de um acidente vascular cerebral


1956 - No 20º Congresso do Partido Comunista, Nikita Kruschev denuncia os crimes de Stalin



A vida íntima do ditador


Certa vez, Stalin perdeu a compostura com seu filho Vassíli, que havia se aproveitado do sobrenome famoso. "Mas eu sou um Stalin também", rebateu o filho. A tréplica foi colérica: "Não, você não é. Você não é Stalin e eu não sou Stalin. Stalin é o poder soviético. Stalin é o que ele é nos jornais e nos retratos, não você, nem mesmo eu!" A vida pessoal do ditador foi um grande tumulto. Iosif Vissarionovich Djugashivili nasceu 1878 em Gori, na Geórgia. Vissarion, seu pai beberrão, trabalhou como sapateiro e costumava espancar a mãe, a lavadeira Ekaterina (Keké) e o pequeno Soso - ele morreu numa briga e foi enterrado como indigente. Seus dois irmãos morreram na infância e ele mesmo sobreviveu à varíola. O menino estudou em um seminário e conviveu com dúvidas sobre a paternidade. "É possível que Stalin seja filho de seu padrinho, um rico estalajadeiro", diz Simon Montefiore. O próprio ditador disse uma vez que seu pai era um padre.Em 1899, expulso do seminário, tornou-se revolucionário em tempo integral e assaltava bancos para ajudar o caixa do partido. Adotou o nome Koba, um personagem fora da lei do romance O Parricida. Foi preso pela primeira vez em 1902 e enviado para a Sibéria. Fugindo da cadeia e voltando a ela, casou-se com Ekaterina Svanidze, com quem teve um filho, Iákov. Ela sucumbiu a uma tuberculose, aos 29 anos. No enterro, Stalin disparou uma frase premonitória: "Ela morreu e com ela morreram meus últimos sentimentos ternos pelas pessoas".
Stalin, codinome que adotou em 1912, significa aço, ou feito de aço. O viúvo se casou com um antiga datilógrafa de Lenin, Nádia Alliluyeva. Ele tinha 41, ela 18. Tiveram dois filhos, Vassíli e Svetlana. Nádia se suicidou com um tiro, dentro do Kremlin.
O primogênito Iákov, oficial de artilharia, foi preso no início da Segunda Guerra e os nazistas tentaram envolvê-lo numa troca de prisioneiros. Stalin rejeitou a proposta e seu filho morreu no campo de concentração de Sachsenhausen. Vassíli foi um jovem desregrado, piloto da aeronáutica. Morreu em 1962, em decorrência do alcoolismo. Svetlana, a queridinha, depois de vários casamentos infelizes, fugiu da URSS, voltou, e por fim se estabeleceu nos EUA. Escreveu duas autobiografias e ficou rica. Perdeu todo o dinheiro e morreu na obscuridade.

Marina Damaros (Revista Aventuras na História, março de 2013).

terça-feira, 27 de maio de 2014

OS ANOS OCULTOS DE JESUS

O que ele fez antes dos 30 anos? A Bíblia não conta. Mas a história e a arqueologia têm muito a dizer
O Novo Testamento contém 27 livros, 7 956 versículos e 138 020 palavras. E uma única referência à juventude de Jesus. O Evangelho de Lucas nos conta que, aos 12 anos, ele viajou com os pais de Nazaré a Jerusalém para celebrar o Pessach, a Páscoa judaica. Quando José e Maria retornavam a Nazaré, perceberam que Jesus tinha ficado para trás. Procuraram o garoto durante 3 dias e decidiram voltar ao Templo, onde o encontraram discutindo religião com os sacerdotes. "E todos que o ouviam se admiravam com sua inteligência" (Lucas 2:42-49).
 Isso é tudo. Jesus só volta a aparecer no relato bíblico já adulto, por volta dos 30 anos, ao ser batizado no rio Jordão por João Batista. É quando o conhecemos realmente. Da infância, as Escrituras falam sobre o nascimento em Belém, a fuga com os pais para o Egito - para escapar de uma sentença de morte impetrada por Herodes, rei dos judeus - e a volta para Nazaré. Da vida adulta, o ajuntamento dos apóstolos e a pregação na Galileia, além do julgamento e da morte em Jerusalém. Mas o que aconteceu com Jesus entre os 12 e os 30 anos? Qual foi sua formação, o que moldou seu pensamento nesses 18 "anos ocultos"? Afinal, o que ele fez antes de profetizar na Galileia?
 A notícia para quem deseja reconstruir o Jesus histórico é que novas análises dos Evangelhos, documentos históricos e achados arqueológicos nos dão pistas sobre a sociedade da época. E dessa forma podemos chegar mais perto de conhecer o homem de Nazaré. E entender o que passava em sua cabeça.

 O pedreiro cheio de irmãos
 Uma coisa é certa. Aos 13 anos, Jesus celebrou o bar mitzvah, ritual que marca a maioridade religiosa do judeu. E é bem provável que ele tenha seguido a profissão de José, seu pai. Carpinteiro? Talvez não. "Em Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, Jesus é chamado de tekton, que no grego do século 1 designava um trabalhador do tipo pedreiro, não necessariamente carpinteiro", diz John Dominique Crossan, um dos maiores especialistas sobre o tema. Para o historiador, os autores de Mateus e Lucas, que se basearam em Marcos, parecem ter ficado constrangidos com a baixa formação de Jesus. E deram um jeito de melhorar a coisa. Mateus (13:55) diz que o pai de Jesus é que era tekton. E Lucas omitiu todo o versículo.
 As mesmas passagens de Marcos e Mateus informam que Jesus tinha 4 irmãos (Tiago, José, Simão e Judas), além de irmãs (não nomeadas). Mas dá para ir mais longe a partir dessa informação. "Se os nomes dos Evangelhos estão corretos, a família de Jesus era muito orgulhosa da tradição judaica. Seus 4 irmãos tinham nomes de fundadores da nação de Israel", diz a historiadora Paula Fredriksen, da Universidade de Boston. "Seu próprio nome em aramaico, Yeshua, recordava o homem que teria sido o braço direito de Moisés e liderado os israelitas no êxodo do Egito, mais de mil anos antes."
 Assim, a família teria pelo menos 9 pessoas, mas nem por isso era pobre. Nazaré ficava a apenas 8 km de Séforis - um grande centro comercial onde o rei Herodes, o Grande, governava a serviço de Roma. Com a morte dele, em 4 a.C., militantes judeus se revoltaram contra a ordem política. Deu errado: o general romano Varus chegou da Síria para reprimir os rebeldes. E seu amigo Gaio completou o serviço, queimando a cidade. "Homens foram mortos, mulheres estupradas e crianças escravizadas", diz Crossan. Mas a destruição de Séforis teve um lado positivo: Herodes Antipas, filho do "o Grande", transformou o lugar num canteiro de obras. Isso trouxe uma certa abundância de empregos para a região. Um pequeno boom econômico. Então o ambiente ao redor da família de Jesus não era de privações. "A reconstrução da cidade deve ter gerado muito trabalho para José", diz Paula Fredriksen.
 Jesus nasceu no ano da destruição da cidade, 4 a.C. Ou perto disso. O Evangelho de Mateus diz que Jesus nasceu no tempo de Herodes, o Grande (4 a.C. ou antes). Lucas coloca o nascimento na época do primeiro censo que o Império Romano promoveu na Judeia. E isso aconteceu, segundo as fontes históricas romanas, em 6 a.C. A única certeza, enfim, é que "foi por aí" que Jesus nasceu. E que o ódio contra o que os romanos tinham feito em Séforis permeava o ambiente onde ele viveu. "Não é difícil imaginar que Jesus pensou muito sobre os romanos enquanto crescia", diz Crossan.
 Na década de 20 d.C., quando Jesus estava nos seus 20 e poucos anos, o sentimento antirromano cresceu mais ainda. Pôncio Pilatos assumiu o governo da Judéia cometendo o maior pecado que poderia: desdenhar da fé dos judeus no Deus único.
 Mas, em vez de se unir contra o romano, os judeus se dividiram em seitas. Os saduceus, por exemplo, eram os mais conservadores. Os fariseus eram abertos a ideias novas, como a ressurreição - quando os justos se ergueriam das tumbas para compartilhar o triunfo final de Deus. Os essênios viviam como se o fim dos tempos já tivesse começado: moravam em comunidades isoladas, que faziam refeições em conjunto seguindo estritas leis de pureza. Já os zelotes defendiam a luta armada contra os romanos.
 Em qual dessas seitas Jesus se engajou na juventude? Não há consenso entre os pesquisadores. Para alguns, porém, existem semelhanças entre a dos essênios e o movimento que Jesus fundaria - ambas as comunidades viviam sem bens privados, num regime de pobreza voluntária, e chamavam Deus de "pai". Essa hipótese ganhou força com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947. Eles trouxeram detalhes sobre uma comunidade asceta de Qumran, que viveu no século 1 e estaria associada aos essênios. O achado ar-queológico não provou a ligação entre Jesus e essa seita. Até porque os essênios eram sujeitos reclusos, ao passo que Jesus foi pregar entre as massas da Galileia e Jerusalém.
 Jesus podia não ser essênio. Mas, para alguns estudiosos, seu mentor foi.

 João, o mestre
 Dois dos 4 Evangelhos começam a falar de João Batista antes de mencionar Jesus. É em Marcos e João. O homem que batizaria Cristo aparece descrito como um profeta que se vestia como um homem das cavernas ("em pelos de camelo") e que vivia abaixo de qualquer linha de pobreza traçável ("comia gafanhotos e mel silvestre").
 Para a historiadora britânica Karen Armstrong, outra grande especialista no tema, isso indica que João pode ter sido um essênio. A vocação "de esquerda" que Jesus mostraria mais tarde, inclusive, pode vir da ligação do mestre João com a "sociedade alternativa" dos essênios. "É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus", ele diria mais tarde.
 Os Evangelhos não falam de João como mestre de Jesus. Nada disso. Ele apenas reconhece Jesus como o Messias na primeira vez que o vê. Os textos sagrados também informam que ele usava o batismo como expediente para purificar seus seguidores, que deviam confessar seus pecados e fazer votos de uma vida honesta.
 Então Jesus aparece pedindo para ser batizado. Na Bíblia, esse é o primeiro momento em que vemos o Messias após aqueles 18 anos de ausência.
 Depois de purificado nas águas do rio Jordão, Jesus parte para sua vida de pregação, curas e milagres. A vida que todos conhecem.
 Para quem entende esse relato à luz da fé, isso basta. Mas é pouco para quem tenta montar um panorama da vida de Jesus, um retrato puramente histórico de quem, afinal, foi o homem da Galileia que sairia da vida para entrar na Bíblia como o Deus encarnado. E uma possibilidade é que Jesus tenha sido um discípulo de João Batista. Discípulo e sucessor.
 As evidências: tal como João Batista, Jesus via o mundo dividido entre forças do bem e do mal. E anunciava que Deus logo interviria para acabar com o sofrimento e inaugurar uma era de bondade. Em suma: tanto um como o outro eram o que os pesquisadores chamam de "profetas apocalípticos". E se os Evangelhos jogam tanta luz sobre João Batista (Lucas fala inclusive sobre o nascimento do profeta, assim como faz com Jesus), a possibilidade de que a relação deles tenha sido mais profunda é real.
 O grande momento de João Batista na Bíblia, porém, não é o batismo de Jesus. É a sua própria morte. Morte que abriria as portas para o nosso Yeshua, o Jesus da vida real, começar o que começou.


E Yeshua vira Cristo
 João Batista podia se vestir com pele de animal e se alimentar de gafanhotos. Mas tinha a influência de um grande líder político. Prova disso é que morreu por ordem direta de Antipas. O Herodes júnior tinha violado o 10º mandamento da lei judaica: "Não cobiçarás a mulher do próximo". Não só estava cobiçando como estava de casamento marcado com a ex-mulher do irmão, Felipe. João condenou a atitude do rei publicamente. E acabou executado.
 Mateus deixa claro como Jesus, então já com seus 12 discípulos e em plena pregação, recebeu a notícia: "Ouvindo isto, retirou-se dali para um lugar deserto, apartado; e, sabendo-o o povo, seguiu-o a pé desde as cidades". Logo na sequência, o Cristo emenda o maior de seus milagres. Sentido com a fome da multidão que ia atrás dele, pegou 5 pães e dois peixes (tudo o que os apóstolos tinham) e foi dividindo. Passava os pedaços aos discípulos, e os discípulos à multidão. "E os que comeram foram quase 5 mil homens, além das mulheres e crianças" (Mateus 14:21). Horas depois, no meio da madrugada, outro milagre de primeiro escalão: Jesus apareceria para os apóstolos andando sobre as águas.
 Esses episódios, claro, são parte da vida conhecida de Jesus (ou da mitologia cristã, em termos técnicos). Mas deixam claro: a morte de João foi importante a ponto de ter sido seguida de dois dos grandes episódios da saga de Cristo.
 O filho do pedreiro assumiria o vácuo religioso deixado pelo profeta. Agora sim: Yeshua caminharia com as próprias pernas. E começaria a virar Jesus Cristo. "Ele não só assumiu o manto de João, mas alterou sua doutrina. A diferença interessante entre João Batista e Jesus Cristo é que Jesus ergueu o manto caído de Batista e continuou seu programa mudando radicalmente sua visão", diz Crossan.
 Ele continua: "João dizia que Deus estava chegando. Mas João foi executado e Deus não veio". Ou seja: para o pesquisador, Jesus teria ficado tão chocado ante a não-intervenção divina que mudou sua visão sobre o que o Reino de Deus significava.
 "João Batista havia imaginado uma intervenção unilateral de Deus. Jesus imaginou uma cooperação bilateral: as pessoas deveriam agir em combinação com Deus para que o novo reino chegasse", diz o pesquisador. Ou seja: não adiantaria esperar de braços cruzados. O negócio era fazer o Reino dos Céus aqui e agora. Como? Primeiro, extinguindo a violência. Mas e se alguém me der um soco, senhor? "Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra" (Lucas 6:29). Depois, amando ao próximo como a ti mesmo, ajudando ao pior inimigo se for necessário, como fez o bom samaritano da parábola famosa... Em suma, a essência da doutrina cristã.

 A natividade
 Agora, um aparte: chamar de "anos ocultos" apenas a juventude de Jesus é injustiça. O nascimento também é uma incógnita completa. A começar pela data de nascimento: 25 de dezembro era a data em que os romanos celebravam sua festa de solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Não porque gostassem de noites sem fim, mas porque ela marcava o começo do fim do inverno. Praticamente todos os povos comemoram esse acontecimento desde o início da civilização - nossas festas de fim de ano, a semana entre o Natal e o Ano-Novo são um reflexo disso. O dia em que Jesus nasceu não consta na Bíblia - foi uma imposição da Igreja 5 séculos depois, para coincidir o nascimento do Messias com a festa que já acontecia mesmo - com troca de presentes e tudo.
 "Na verdade, não sabemos nada histórico sobre Jesus antes de sua vida pública, já que os dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas [os que relatam o nascimento] são basicamente parábolas, não história", diz Crossan. De acordo com Mateus, José soube num sonho que Maria daria à luz um menino concebido pelo Espírito Santo. Quando Jesus nasce, magos surgem do Oriente e seguem uma estrela que os conduz a Jerusalém. Lá, eles ficam sabendo que o Cristo nasceu em Belém. Seguindo a estrela, os magos chegam à cidade para adorar o menino e lhe regalam com ouro, incenso e mirra. Mas Herodes fica perturbado com o nascimento e manda soldados matarem todos os bebês de até 2 anos em Belém. Assim, José foge com a família para o Egito e depois vai morar em Nazaré, na Galileia, onde Jesus é criado.
 "Não há nenhum relato, em qualquer fonte antiga, sobre o rei Herodes massacrar crianças em Belém, ou em seus arredores, ou em qualquer outro lugar. Nenhum outro autor, bíblico ou não, menciona isso", diz o teólogo americano Bart D. Ehrman no livro Quem Foi Jesus? Quem Jesus Não Foi?
 No relato de Lucas, o anjo Gabriel vai à casa de Maria, em Nazaré, e lhe avisa que daria à luz um futuro rei. E que o "Filho de Deus" se chamaria Jesus. Maria era uma virgem prometida a José, e o anjo lhe explicou que o filho seria gerado pelo Espírito Santo. Lucas diz que naquela época, "quando Quirino era governador da Síria", um decreto do imperador Augusto obrigou os súditos a se registrar no primeiro censo do Império. Todo mundo devia retornar à cidade de origem para se alistar. Como os ancestrais de José eram de Belém, ele foi com Maria grávida para lá. Jesus nasceu em Belém pouco depois, e foi envolvido em panos na manjedoura. Lá o menino recebeu a visita de pastores e foi circuncidado aos 8 dias, para depois passar a infância em Nazaré.
 "Os problemas históricos em Lucas são ainda maiores", diz Ehrman. "Temos registros do reinado de Augusto, e em nenhum deles há referência a um censo para o qual todos teriam de se registrar retornando ao lar dos ancestrais."
 Ok, mas afinal por que Mateus e Lucas fazem Jesus nascer em Belém? Bom, de acordo com uma profecia do livro de Miqueias, do Antigo Testamento, o salvador viria de lá. Por que de lá? Porque era a cidade do rei Davi, o mais lendário dos soberanos de Israel.
 Depois que o general Pompeu invadiu a Judeia, em 63 a.C., e fez dela província do Império Romano, os profetas passaram a dizer que um rei da linhagem de Davi inauguraria o "reino de Deus". Chamavam essa figura de "o ungido" - já que Davi e outros reis israelitas haviam sido ungidos com óleo. Os Evangelhos foram escritos em grego, o inglês da época. E em grego "ungido" é christos. O Cristo tinha que nascer em Belém. Yeshua provavelmente era de Nazaré mesmo.
 Os Evangelhos, por sinal, são obra de autores desconhecidos. É apenas uma convenção dizer que foram escritos por Marcos (secretário do apóstolo Pedro), Mateus (o coletor de impostos), João (o "discípulo amado") e Lucas (o companheiro de viagem de Paulo). Além disso, os escritores não foram testemunhas oculares. "O autor de Marcos escreveu por volta do ano 70. Mateus e Lucas, de 80. E João, no final dos 90", diz Karen Armstrong. E claro: "Eram cristãos. Eles não estavam imunes a distorcer as histórias à luz de suas crenças", diz Ehrman. Afinal, "evangelho" deriva da palavra grega euangélion, que significa "boas novas". O objetivo dos autores não era escrever a biografia de Jesus, e sim propagar a nova fé. Levando isso em conta, chegamos a outra polêmica: os anos considerados como os mais conhecidos da vida de Jesus também são cheios de episódios misteriosos. Vejamos.

 Yeshua sai da vida para entrar na Bíblia
 Talvez tenha sido em busca de audiência que Yeshua rumou com os discípulos da Galileia para Jerusalém, por volta do ano 30 d.C. Depois de 3 anos pregando na periferia, já seria hora de atuar no palco principal.
 Jerusalém era o pivô do fermento espiritual judaico, e milhares de judeus iam para lá na Páscoa. Os Evangelhos nos dizem que Jesus causou um tumulto no local, destruindo as banquinhas de câmbio (que trocavam moedas estrangeiras dos romeiros por dinheiro local cobrando uma comissão), já que seria uma ofensa praticar o comércio em pleno Templo de Jerusalém, o lugar mais sagrado da Terra para os judeus. Por perturbar a ordem pública, ele foi condenado à cruz. Parece historicamente sólido, mas o episódio central do Novo Testamento também é fonte de reinterpretações.
 No julgamento, por exemplo, a multidão teria pedido que Barrabás, um assassino, fosse solto em vez de Jesus - já que era "costume" da Páscoa. Esse costume, porém, não é mencionado em nenhum lugar, exceto nos Evangelhos. Além disso, Jesus pode não ter sido exatamente crucificado, mas "arvorificado". É a teoria (controversa, é verdade) do arqueólogo Joe Zias, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Suas pesquisas indicam que as vítimas dos romanos eram mais comumente crucificadas em árvores, pregando uma tábua de madeira no tronco para prender os braços do condenado. Seja como for, não há por que duvidar de que ele tenha sido executado. Roma usava e abusava do expediente para tentar manter o controle das regiões que conquistava. Segundo Flávio Josefo, historiador judeu do século 1, numa só ocasião 2 mil judeus foram executados
 A história de Jesus não acaba aí, claro. "Alguns discípulos estavam convencidos de que ele ressuscitara. E que sua ressurreição anunciava os últimos dias, quando os justos se reergueriam das tumbas", diz Armstrong. Para esses judeus cristãos, Jesus logo retornaria para inaugurar o novo reino. O líder do grupo era Tiago, irmão de Jesus, que tinha boas relações com fariseus e essênios. E o movimento se expandiu. Quando Tiago morreu, em 62, Jerusalém vivia o auge da crise política. Em 66, romanos perseguiram os judeus com medo de uma insurgência. Os zelotes se rebelaram e conseguiram manter as tropas do Império afastadas por 4 anos. Com medo de que a rebelião judaica se espalhasse, Roma esmagou os revoltosos. Em 70, o imperador Vespasiano sitiou Jerusalém, arrasou o Templo e deixou milhares de mortos.
 "Não temos ideia de como seria o cristianismo se os romanos não tivessem destruído o Templo", diz Armstrong. "Sua perda reverbera ao longo dos livros que formam o Novo Testamento. Eles foram escritos em resposta à tragédia."
 Para os pesquisadores, então, os textos sagrados refletem a realidade da Judeia do final do século 1 - e não a do início, a que Jesus viveu de fato. Por exemplo: Barrabás personificaria os sicários, judeus que saíam armados de punhais para matar romanos na calada da noite, como uma forma de vingança pela destruição do Templo. E que por isso mesmo eram assassinos amados pela população.
 Quer dizer: Barrabás seria um personagem típico da década de 70 d.C., inserido no episódio da morte de Jesus, fato que aconteceu na década de 30 d.C, num momento em que o ódio aos romanos e o louvor a quem se dispusesse a matá-los não eram tão violentos.
 Até a época em que os Evangelhos foram escritos, o movimento de Jesus era apenas um entre as várias seitas judaicas. Os primeiros cristãos se diziam "o verdadeiro Israel" e não tinham intenção de romper com a corrente principal do judaísmo. Mas tudo mudou com a destruição do Templo.
 Ela intensificou a rivalidade entre as facções judaicas. "Em sua ânsia por alcançar o mundo gentio (o dos não-judeus), os autores dos Evangelhos estavam dispostos a absolver os romanos da execução de Jesus e declarar, com estridência crescente, que os judeus deviam carregar a culpa", diz Armstrong. João, o Evangelho mais virulento, declara que os judeus são "filhos do Diabo" (João 8:44). Até o autor de Lucas, que tinha uma visão mais positiva do judaísmo, deixou claro que havia um bom Israel (os seguidores de Jesus) e um Israel mau - os fariseus.
 A rixa com os fariseus tem lógica, já que eram competidores diretos dos judeus cristãos. "Num extremo do judaísmo estavam os saduceus, a ala mais conservadora. No outro, os essênios, a mais radical. Já os fariseus e os judeus cristãos estavam no meio. Eles lutavam pela mesma coisa: a liderança do povo, que estava entre as duas pontas", diz Crossan.
 Não é surpresa, aliás, que os livros do Novo Testamento contenham tantas contradições entre si. "Quando os editores finais do Novo Testamento juntaram esses textos, no início da Idade Média, não se incomodaram com as discrepâncias. Jesus havia se tornado um fenômeno grande demais nas mentes dos cristãos para ser atado a uma única definição", diz Armstrong. Os Evangelhos atribuídos a Marcos, Lucas, Mateus e João seriam finalmente selecionados para o cânon da Igreja. Dezenas de outros evangelhos ficaram de fora.
 Só no século 2, quase 100 anos após a morte de Jesus, começam a aparecer relatos sobre ele no centro do Império. Um deles é uma carta do político romano Plínio ao imperador Trajano. Plínio cita pessoas conhecidas como "cristãs" que veneravam "Cristo como Deus". Outra fonte é o historiador romano Tácito, que menciona os "cristãos (...), conhecidos assim por causa de Cristo (...), executado pelo procurador Pôncio Pilatos". Suetônio, que escreveu pouco depois de Tácito, informa sobre uma perseguição de cristãos, "gente que havia abraçado uma nova e perniciosa superstição". Uma "superstição" cuja mensagem convenceria cada vez mais gente, a ponto de, no século 4, o imperador romano em pessoa (Constantino, no caso) converter-se a ela. E o resto é história. Uma história que chega ao seu segundo milênio. Com 2 bilhões de seguidores.

 Eduardo Szklarz e Alexandre Versignassi Tweet (Revista Superinteressante).

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A ORIGEM DOS SÍMBOLOS DO CASAMENTO

Quando Kate Middleton entrou na abadia de Westminster, em Londres, em 2011, para encontrar o príncipe William no altar, ela começou a influenciar a escolha de milhares de noivas mundo afora. Foi o que aconteceu nas décadas seguintes ao casamento da rainha Vitória, em 1840, que eternizou o vestido branco e o véu. No entanto, grande parte dos hábitos ligados às bodas vem de muito antes, da Antiguidade e da Idade Média, e é copiada por casais até hoje, independentemente da religião que praticam. Claro que um monte de coisa mudou. Até o século 12, uma simples troca de beijo em público e o anúncio da decisão de união já bastavam para legitimar um matrimônio. Foi só em meados do século 13 que a Igreja incluiu o casamento na sua lista de sacramentos sagrados. Atualmente, mesmo nas cerimônias mais inovadoras, ritos tradicionais continuam na festa, ainda que a sua origem já tenha se diluído com o passar de tantos séculos.
O grande dia
Entenda o porquê de tanta tradição
A ALIANÇA
O círculo sem começo e fim, que representa a eternidade do amor, ganhou força a partir do século 13. A escolha do dedo anelar esquerdo vem da crença de que, nesse dedo, passa uma veia ligada diretamente ao coração. Na Segunda Guerra, os soldados passaram a usá-la para terem uma lembrança das esposas.
O ARROZ
Durante muito tempo, o único objetivo do casamento era gerar herdeiros, o que dava força a costumes em prol da fertilidade. Foi assim que surgiu o ato de jogar arroz, tido pelos orientais como um símbolo de fertilidade há mais de 2 mil anos.
DAMAS DE HONRA
Na Antiguidade, as mulheres se casavam ainda crianças e precisavam de ajuda na hora de se arrumar. Foi por isso que surgiram as damas de honra, que eram da família da noiva. No século 19, elas viraram sinal da elegância de uma cerimônia.
O BUQUÊ
Na Idade Média, era comum a noiva, ao lado de uma comitiva, fazer a pé o trajeto até a igreja. No caminho, ela recebia flores, ervas e temperos e os juntava nas mãos. No século 14, nasceu o hábito de jogar o buquê para as convidadas, uma forma de retribuir toda a sorte desejada aos noivos.
A TRILHA SONORA
A Marcha Nupcial foi composta por Felix Mendelssohn em 1842. Em janeiro de 1858, ela foi tocada no casamento da princesa Vitória com o príncipe Frederick William, da Prússia, e virou tradição. A trilha foi escolhida por influência da mãe da noiva, a rainha Vitória.
O VESTIDO E O VÉU
A suntuosidade do casamento da rainha Vitória fez do branco a cor oficial dos vestidos e véus. Antes de 1840, as noivas usavam qualquer tom, até vermelho e preto. Mas o burburinho na entrada da inglesa na capela do Palácio de St. James é algo desejado pelas noivas até hoje.
DO LADO ESQUERDO
A tradição de a noiva ficar sempre do lado esquerdo do homem no altar também é medieval e está relacionada a questões de segurança e proteção. Com ela nessa posição, o lado direito do noivo ficava livre para que ele pudesse puxar a espada e lutar contra quem tentasse roubar a sua mulher.

A evolução do vestido de noiva
Da túnica às pernas de fora
Na Roma antiga
As noivas ganham uma roupa especial para o dia do casamento. Normalmente, o figurino inclui uma túnica branca e um véu de linho muito fino, conhecido como flammeum.
No início da Idade Média
O vestido de noiva, bastante bordado, surge com o objetivo de exibir a riqueza da família. O vermelho é comum por representar a capacidade de gerar sangue novo.
Na alta Idade Média
O verde vira moda entre as noivas da burguesia, que o usam em busca de fertilidade. Elas também costumam desfilar com o ventre saliente para exibir possibilidade de procriação.
No início do Renascimento
A peça se torna mais suntuosa, com muito veludo e brocado. As cores do brasão da família do noivo são as preferidas para os vestidos. A tiara é um acessório obrigatório.
No fim do Renascimento
O preto é estabelecido como a cor mais adequada para as cerimônias religiosas, inclusive o casamento. Nesse mesmo período, surgem as primeiras peças brancas, consideradas mais elegantes.
No período rococó
Ganham destaque os vestidos com tecidos brilhantes, bordados com pedrarias e babados de renda. Tons pastel, como o lilás, o pêssego e o verde, são as cores preferidas.
Era vitoriana
Quatorze anos após o casamento da rainha Vitória, que contraria a tradição ao vestir branco, o papa Pio IX decreta que todas as noivas devem usar trajes claríssimos para demonstrar a castidade.
Século 20
Eles continuam sendo brancos, mas os modelos ganham flexibilidade total. As tendências da moda dão o caminho e vale tudo - até vestido curtinho.


 Lívia Lombardo (Aventuras na História, abril de 2013).
 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

SHAKESPEARE APAIXONADO

Que o bardo inglês foi o maior escritor de todos os tempos ninguém duvida. Se o filme "Shakespeare Apaixonado" fez jus ao seu personagem central, existem muitas dúvidas a respeito. Nem mesmo o prêmio de melhor filme concedido pela Academia de Hollywood (o Oscar) parece ter feito do filme uma unanimidade entre os críticos, pelo contrário, muitas foram as pessoas que questionaram a entrega de tão conceituado prêmio a um filme considerado apenas mediano ou razoável.
 Premiações à parte, "Shakespeare Apaixonado" tem muitos méritos e, para os educadores pode se tornar um bom referencial para trabalho em sala de aula. Joseph Fiennes (como William Shakespeare), Gwyneth Paltrow (no papel de Lady Viola, a amada de Will Shakespeare) e o elenco de apoio formam um base sólida para as interpretações. A reprodução de época foi realizada de forma admirável, com os locais por onde circulavam atores, diretores e escritores tendo sido refeitos de acordo com os modelos de época. O figurino é outro rico ornamento utilizado no filme para nos fazer viajar no tempo e sentir os ares da Inglaterra do século XVI.
 A história do filme aborda uma paixão fulminante que teria atingido o grande escritor no momento em que passa por uma crise que não permite a ele escrever. Will precisa desesperadamente produzir uma nova peça teatral para conseguir pagar suas dívidas (pelas quais, inclusive, corre risco de vida), no entanto, esse vazio criativo que o atinge impede que ele termine uma peça entitulada, à princípio, como "Ethel e o pirata". Uma outra preocupação que o aflige refere-se ao fato de que ele parece instado a competir com um outro grande autor daquela época, que desfruta de muito mais prestígio que ele nos meios teatrais londrinos.
 Sua paixão, o grande mote do filme, também lhe causará problemas. Sua amada Lady Viola, pertence a outro nível social (a nobreza) e, está sendo prometida a um importante figurão da região onde mora. O status social, no entanto, não parece ser impedimento para a realização de um amor que desde o primeiro momento contou com uma resposta positiva por parte da bela dama. Através de subterfúgios dignos de Romeu, Will Shakespeare consegue se aproximar de sua Julieta e, concretizar uma bela história romântica.
 Paralelamente a trama central do filme, Shakespeare descobre as peças que lhe permitem, aos poucos, a composição de uma de suas maiores obras, justamente "Romeu e Julieta". A história do filme nos faz crer que, motivado por um romance particular, Shakespeare teria encontrado motivação para realizar um de seus clássicos. Nesse momento o professor que estiver trabalhando com o filme deve esclarecer que a história apresentada no filme é uma peça ficcional. Dessa forma, evita que essas informações sejam encaradas pelos alunos como fidedignas e verdadeiras.
 Se a história do filme utiliza-se de um personagem histórico que realmente existiu e cria situações não verificadas a respeito do mesmo, numa obra de ficção, então qual é o valor educational desse material filmado?
 Poder circular pela Inglaterra desse importante período, verificando as condições gerais em que foram criadas algumas das mais importantes obras do Renascimento Cultural, despertando os alunos para o fato de que essa época traduziu-se em produções imortais de alguns dos maiores pensadores, literatos, cientistas e artistas de todos os tempos.
 Aprofundar o conhecimento sobre Shakespeare, incentivando dessa forma a leitura de textos como "Hamlet", "Otelo", "Sonhos de uma noite de verão", "O Mercador de Veneza" ou mesmo de "Romeu e Julieta", entre tantas outras obras fantásticas produzidas pelo grande escritor inglês. Fazer uma ponte que permita ao aluno entrar em contato com outros grandes literatos do período como Camões ou Cervantes.
 Ampliar a noção de Renascimento Cultural, extrapolando os limites da literatura e permitindo aos alunos associar esse grande momento da história da humanidade a produções na área da ciência (com destaque para os trabalhos de Copérnico, Galileu, Kepler,…), das artes (como podemos deixar de enaltecer as produções de Michelângelo, Rafael, Leonardo Da Vinci,…) ou da filosofia (com as decisivas contribuições de Maquiavel, Hobbes, Descartes,…).
 Além disso tudo, discutir em filosofia ou literatura o maior de todos os sentimentos, o amor. O mais interessante é notar que o brilhantismo da obra de Shakespeare decorre justamente da intensidade e riqueza com que aborda a natureza humana, seus temores e fraquezas, suas virtudes e qualidades, seus rancores e sentimentos (entre os quais, com grande brilho, dedicam-se páginas e páginas ao amor, justamente o tema central do filme).


quinta-feira, 22 de maio de 2014

TRÊS ANOS DE CONSPIRAÇÃO

Renúncia de Jânio e Veto a Jango alimentam as ambições militares que levam ao golpe de 1964
 Alguém está esmurrando a porta do quarto. Do lado de dentro, o vice-presidente do Brasil acorda assustado e pula da cama para ver o que está acontecendo. Seu secretário de imprensa, Raul Riff, está desesperado para lhe dar uma notícia bombástica: naquela madrugada do dia 25 de agosto de 1961, em Cingapura, parada final da viagem diplomática pela União Soviética e China, João Goulart, aos 42 anos, é informado que será o novo presidente do Brasil. Jânio Quadros, após apenas sete meses no cargo, renunciara na véspera. Contra todos os prognósticos, Goulart ocuparia a cadeira que havia sido de seu padrinho político, Getúlio Vargas. Ou não. Consciente dos obstáculos a sua posse, ele faz um brinde premonitório: “Ao imponderável, ao futuro”, diz a seus compatriotas, reunidos na suíte do Hotel Raffles.
 Ele sabia muito bem do que estava falando. No Brasil, os três ministros militares não queriam ver Jango, como era conhecido, na Presidência nem pintado de ouro. Imediatamente tentaram unir as Forças Armadas e setores da elite civil em uma conspiração para impedir a posse do vice. “Foi um ‘golpe branco’, que só não deu certo porque a população, incluindo grande parte dos contingentes das próprias Forças Armadas, levantou a bandeira da legalidade e da democracia”, analisa a historiadora Maria Celina D’Araújo, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, e da Universidade Federal Fluminense (UFF).
 As restrições dos militares a Goulart, um político que sempre havia tido sua base eleitoral nos trabalhadores e nas camadas mais pobres, vinham de longa data. Os mesmos golpistas de 1961 haviam conseguido que, em 1954, Jango fosse demitido do posto de ministro do Trabalho, durante o governo de Vargas. Em sua curta passagem pelo governo, de menos de um ano, Goulart deu apoio aos sindicatos, então bastante influenciados pelo Partido Comunista, não reprimiu greves e propôs um aumento de 100% no salário mínimo. Foi demais para o partido de oposição, a União Democrática Nacional (UDN), profundamente antigetulista, e os militares, segundo o brasilianista Thomas Skidmore, da Brown University, nos Estados Unidos. “Getúlio fora advertido inúmeras vezes pelos militares conservadores que o primeiro passo para recuperar a confiança da oficialidade seria a destituição do ministro do Trabalho”, afirma Skidmore no livro Brasil: de Getúlio a Castelo.
 Quando Jânio apresentou sua renúncia, todos os partidos a aceitaram prontamente, relata a socióloga Argelina Figueiredo, da Unicamp. Sua gestão havia sido tão confusa que provocara até um racha dentro do partido que o apoiava, a UDN, enquanto esteve no poder. Mas os opositores de Vargas não se conformaram com o fato de que, constitucionalmente, o cargo agora cabia a Goulart. “Uma figura que era herdeira direta de Getúlio, e apoiada pela esquerda, era tudo que os conspiradores não queriam”, diz Maria Celina D’Araújo.
 A renúncia fez o país mergulhar numa crise política. Em agosto de 1961, os generais golpistas chegaram a escrever um Manifesto à Nação, em que diziam que, se Goulart assumisse, aconteceria no Brasil “um período de choques sangrentos nas cidades e no campo, de subversão armada”. Na época, para sorte de Jango, ninguém levou muito a sério a previsão. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola, correligionário e cunhado de Jango, convenceu o general Machado Lopes, do Terceiro Exército, a ficar do lado dos legalistas, ameaçando pegar em armas. Os golpistas, então, recuaram.
 Só que a conspiração continuou, com os golpistas tentando unir políticos da UDN, militares e a classe média. Carlos Lacerda, governador do então estado da Guanabara, foi um dos que apoiaram publicamente a causa. “A nação esteve à beira da guerra civil”, diz o historiador Daniel Aarão Reis, da UFF.
 Jango finalmente assume a Presidência em 7 de setembro de 1961, mas num regime parlamentarista criado às pressas. Um parlamentarismo à brasileira: o presidente, não o primeiro-ministro, era quem tinha poder para nomear ministros, vetar projetos de lei e nomear para cargos federais. Mas quem propunha projetos e até o orçamento era o primeiro-ministro – Tancredo Neves, do PSD. “Foi um sistema híbrido, que custou o bom funcionamento do governo”, diz Argelina Figueiredo.
 Se o parlamentarismo afastou o país da guerra civil e de um golpe, também dificultou que a equipe de João Goulart implantasse seu programa de governo, que previa as chamadas reformas de base – agrária, bancária, tributária, eleitoral e urbana. “O arranjo castrava o poder do presidente e dava mais força ao Congresso, que era conservador”, analisa Maria Celina D’Araújo. “O novo regime excluía a possibilidade de reformas políticas e sociais profundas”, concorda Argelina Figueiredo.
 Esse quadro, no entanto, logo mudaria. Nem o presidente queria o parlamentarismo nem os fortes governadores da Guanabara, de Minas Gerais (Magalhães Pinto) e da Bahia (Juraci Magalhães), além do popular ex-presidente Juscelino Kubitschek – todos de olho na eleição marcada para 1965. Nesse ano, também deveria ocorrer um plebiscito para escolher entre parlamentarismo e presidencialismo. Goulart conseguiu antecipar o plebiscito para 1963. “Entre setembro de 1961 e janeiro de 1963, Jango manobrou cuidadosamente a fim de recuperar seus poderes presidenciais”, conta Skidmore.

Crise na economia
 Quando finalmente recuperou plenos poderes, em janeiro de 1963, após uma vitória esmagadora do presidencialismo nas urnas, é que seu governo de fato começou. Uma das primeiras medidas de Jango foi lançar um plano de combate à inflação e de incentivo ao desenvolvimento. O Plano Trienal, elaborado pelo economista Celso Furtado, previa a regulamentação de alguns preços – o que desagradou a setores empresariais – e restrições para aumentos de salário – o que irritou os trabalhadores. O projeto também dava forma às reformas de base. Sem apoio de nenhum setor, o programa de Celso Furtado só vigorou durante três meses. A essa altura, a economia nacional, que já não ia muito bem, piorou.
 Por sinal, a economia é com freqüência apontada como uma razão de fundo para o golpe militar. No começo dos anos 60, teria entrado em crise o modelo de substituição de importações, que desde a década de 30 tinha feito o Brasil se industrializar, com base na fabricação crescente no país de produtos antes importados. Naquele momento, teria acabado uma etapa “fácil” da industrialização e seria preciso reorganizar as forças econômicas e sociais para iniciar uma nova fase. A saída adotada pelo regime militar apostou em capital concentrado, alta tecnologia, participação de multinacionais e, de forma geral, maior competitividade. Isso explicaria por que outros governos latino-americanos também viveram golpes na época – Argentina, em 1966; Peru e Panamá, em 1968; Equador, em 1972; Chile, em 1973, para citar alguns exemplos.
 Outra explicação dá peso ao momento econômico por que o país passava. Nos primeiros anos daquela década, segundo relato do sociólogo Gláucio Soares, o Brasil viveu o que os economistas chamam de estagflação – o pior dos mundos, sem crescimento e com preços em elevação contínua. Depois de 1960, quando atingiram 26,3%, as taxas de inflação cresceram seguidamente, até chegar a 78% em 1963, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas. A elevação rápida dos preços no início 1964 dá a muitos setores a impressão de que Jango havia perdido o controle.
 Do lado do crescimento, as notícias não eram melhores. Desde o fim da Segunda Guerra, o Brasil crescia de forma acelerada. Nos anos anteriores, o aumento do produto nacional bruto (PIB) fora espetacular – 9,7% em 1960 e 10,3% em 1961. Mas a economia entra em crise e, em 1963, o PIB cresce apenas 0,6%, a menor taxa desde 1947.
 Para o brasileiro, 1964 começa com menos dinheiro no bolso e preços em disparada. “Foi mais um susto para a classe média, já suficientemente apavorada com o fantasma do comunismo”, comenta o historiador Jorge Ferreira. Na época, não parecia fantasia o temor de que o Brasil se transformasse numa sucursal da União Soviética, como acontecera com Cuba apenas cinco anos antes. “A esquerda inconscientemente colaborava para aumentar esse medo, radicalizando cada vez mais seu discurso”, analisa Ferreira. Os próprios esquerdistas dos anos 60 hoje concordam com a afirmação. “Houve um processo de radicalização tanto da esquerda, que pregava reformas pela lei ou na marra, quanto da direita”, raciocina Aarão Reis.
 Muitos militares diziam que a “ameaça comunista” andava de mão dada com a “anarquia” e o desgoverno na administração federal. É nesse contexto que acontecem três episódios que desencadearam o golpe, no relato posterior dos conspiradores: o comício na Central do Brasil, no Rio, a rebelião dos marinheiros e a reunião dos sargentos no Automóvel Clube – os dois últimos vistos como claro estímulo à violação da hierarquia, base da vida nos quartéis. Para Gláucio Soares, foram fatos que levaram os que estavam comprometidos com o golpe à ação e estimularam os indecisos ou neutros a apoiar os golpistas, mesmo sem participar.

Três passos para o abismo
 O comício da Central do Brasil aconteceu em 13 de março. Cedendo aos apelos da esquerda, Jango participa do ato, assinando o decreto da reforma agrária diante de 350 mil pessoas. Para completar, dias depois João Goulart propõe ao Congresso mudança na lei para permitir a reeleição do presidente e a candidatura de seus parentes. “Ou seja, o próprio Jango poderia se reeleger, ou então Leonel Brizola, seu cunhado, o que era intolerável para os golpistas”, explica o historiador Jorge Ferreira.
 A reação é imediata. No dia 19 de março, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade leva 200 mil pessoas às ruas, em São Paulo. “Depois da marcha, um grande número de atores passou a atribuir uma alta probabilidade de sucesso ao movimento contra o governo”, conta Argelina Figueiredo no livro Democracia ou Reformas?.
 A rebelião dos marinheiros começa em 26 de março, contra a prisão de José Anselmo, detido por tentar organizar uma associação da classe. O protesto acontece na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, em uma reunião que estava proibida pelo comando da Marinha. O governo federal não pune os rebelados, ferindo o princípio da disciplina militar. “Daí em diante, os militares ficaram com a impressão de que tudo poderia acontecer dentro das próprias Forças Armadas, e passaram a alardear que Jango daria o golpe”, diz Maria Celina D’Araújo.
 No dia 30 de março, o presidente Jango e sete ministros vão a uma reunião de suboficiais e sargentos no Automóvel Clube do Rio, em homenagem aos líderes da rebelião. Em discurso, o presidente afirma que não admitirá “o golpe dos reacionários”. “O golpe que nós desejamos é o golpe das reformas de base, tão necessárias ao nosso país”, prossegue. “É especulação dizer se o presidente ia ou não derrubar a democracia, porque tudo aconteceu muito rápido, mas havia um discurso da esquerda contrário à ordem democrática”, comenta Maria Celina.
 No dia seguinte, o general Olímpio Mourão, de Minas Gerais, parte com suas tropas para o Rio. Em 1º de abril, Jango foge para o Sul. Líderes civis, como Lacerda, Magalhães Pinto e Ademar de Barros, apóiam o golpe.
 Não há resistência, e começa uma ditadura que vai durar 21 anos.

 "Revolução" nasceu em Minas
 Governador daria ordempara ação, mas foi atropeladopor generais
 O estado de Minas Gerais foi decisivo no golpe. Os conspiradores já haviam acertado que a insurreição partiria de Minas, estado onde a trama ganhara mais força, apoiada pela divisão local do Exército e pelo governador Magalhães Pinto. Ele ficara de dar a senha, com a data e a logística da ação. Dois generais, no entanto, decidem não esperar. Às vésperas da aposentadoria, Olympio Mourão Filho, da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria, e seu colega Carlos Luiz Guedes, comandante da Infantaria Divisionária, não querem perder tempo. Colocam os tanques nas ruas sem aviso prévio, na tarde de 31 de março de 1964. Sob o comando do general Antonio Carlos Muricy – um conspirador chamado às pressas –, os soldados partiram de Juiz de Fora, a 150 quilômetros do Rio, esperando apoio de fluminenses e paulistas. A adesão custa a vir, e a coluna fica estacionada em Estação Paraibuna, a 25 quilômetros de Juiz de Fora. Para o golpe se concretizar, precisavam do apoio do chefe do Exército em São Paulo, general Amaury Kruel, amigo de João Goulart. Na noite do dia 31, ele finalmente se decide, e manda seus tanques para Minas. “Essa manobra era essencial para a revolta, devido à importância estratégica do Vale do Paraíba no caso de uma guerra civil”, relata o historiador Thomas Skidmore. O golpe estava em marcha. À meia-noite, o 1º Batalhão de Caçadores, de Petrópolis, se une às tropas de Muricy, e algumas horas depois chegava o 1º Regimento de Infantaria do Rio. Só faltava o comando do Exército se pronunciar. O general Argemiro de Assis Brasil, chefe do Gabinete Militar, comunica a generais que Goulart deixara claro que não iria contra-atacar. Em 2 de abril, Jango deixa oficialmente o cargo e vai para o Uruguai, onde morreria em 1976, de enfarte. O Brasil é dos golpistas, e a edição especial da revista O Cruzeiro estampa: “Magalhães [Pinto], o herói da revolução”.

EUA enviou frota pró-golpe
 Participação do governoamericano não é considerada decisiva, apesar de navios de guerra estarem prontospara auxiliar conspiradores
 Estava em curso a Operação Brother Sam, planejada pelo governo dos Estados Unidos para ajudar os militares brasileiros no golpe. Por ordem de Lyndon Johnson, que assumira a Presidência do país após o assassinato de John Kennedy, no final de 1963, seguia para o Brasil, na manhã do dia 31 de março de 1964, uma esquadra equipada para dar munição extra aos conspiradores. Zarparam dos Estados Unidos seis contra-torpedeiros, um porta-aviões, um porta-helicópteros e quatro petroleiros com 533 mil barris de combustível, segundo documentos do próprio Estado-Maior americano. “O governo de lá estava pronto para se meter abertamente na crise brasileira, caso estalasse uma guerra civil”, relata o jornalista Elio Gaspari em A Ditadura Envergonhada. Não se meteu por uma razão simples: não houve reação alguma ao golpe.
 A frota estava de prontidão para partir desde 20 de março, por sugestão do bem informado embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Lincoln Gordon. Na verdade, o plano todo vinha sendo arquitetado havia bem mais tempo. Em 30 de julho de 1962, Gordon se reuniu com Kennedy para avisar seu chefe de que os militares planejavam uma insurreição. “Do jeito que o Brasil vai, daqui a três meses o Exército pode vir a ser a única coisa que nos resta”, disse o embaixador a Kennedy nessa conversa, gravada, como é usual na Casa Branca. Por essas e outras é que durante muito tempo a esquerda brasileira atribuiu aos EUA um poder muito grande sobre o destino do país. “Havia até um bordão irônico na época que dizia: ‘Chega de intermediários, Gordon para presidente’”, lembra o historiador Daniel Aarão Reis. Com o passar do tempo, essa visão mudou. Hoje, quem estuda o período acredita que o papel dos EUA não foi decisivo. “Claro que interessava muito aos EUA tirar do poder Goulart e outros presidentes de linha mais esquerdista, mas quem deu o golpe foi nossa elite, apoiada por grande parte da classe média”, diz o historiador. Os militares também relatam o apoio dos EUA como irrelevante para o golpe. Tio Sam, de qualquer forma, começou a sorrir para o Brasil logo depois da quartelada. O país conseguiu, por exemplo, nova linha de crédito com os Estados Unidos, o que ajudou a economia. “O governo brasileiro passou, depois de 1º de abril de 1964, a desfrutar uma cooperação muito mais ampla dos Estados Unidos no campo da assistência econômica e financeira”, afirma o historiador Thomas Skidmore.
 A relação dos Estados Unidos com a ditadura brasileira era tão boa que o sucessor de Lyndon Johnson, Richard Nixon, chegou a elogiar publicamente o governo Médici, no ápice da fase da tortura. Em 1971, ele disse que o Brasil guiaria o restante da América Latina, em reportagem do jornal americano The New York Times. “O bom relacionamento do Brasil com os Estados Unidos se manteve durante todo o período militar, e só não foi excelente durante a gestão de Jimmy Carter”, analisa Maria Celina D´Araújo. Ainda em campanha, o democrata Carter deu entrevista à revista Playboy criticando a tortura no Brasil, para espanto dos ditadores brasileiros. “O Brasil não tem um governo democrático, é uma ditadura militar”, disse. Na Presidência, Carter fez da defesa dos direitos humanos peça central de sua política externa. Pior para as oito ditaduras existentes na América do Sul à época. Relatórios oficiais do Departamento de Estado chegaram a criticar abertamente a forma como o governo lidava com seus opositores. A tensão entre os dois governos cresceu também por conta da energia nuclear. O governo Carter fez gestões para impedir que o Brasil comprasse da Alemanha tecnologia capaz de produzir usinas e armas nucleares – num contrato de bilhões de dólares, em que a americana Westinghouse foi preterida. Em 1977, os esforços de Carter foram derrotados, e Geisel assinou o acordo com os alemães. De novo, a atitude dos EUA não pôde ser interpretada como decisiva para os rumos – agora, ladeira abaixo – da ditadura. “Apesar de criticar o regime e incomodar os militares, a administração Carter não interferiu de fato no Brasil”, afirma a historiadora Maria Celina D´Araújo.

  Carla Aranha (Revista Aventuras na História, abril de 2005).