quinta-feira, 24 de julho de 2014

CAVALEIROS HOSPITALÁRIOS

Os Cavaleiros Hospitalários representavam uma ordem militar cristã criada no século XI.
 Jerusalém é um local sagrado para as principais religiões do mundo. Durante a Idade Média, o território foi extremamente disputado entre cristãos e muçulmanos. Estes, conquistaram a chamada Terra Santa no século XI, incomodando os cristãos. Foi por esse motivo que surgiram as famosas Cruzadas, tentativas cristãs de se reconquistar Jerusalém. No final do mesmo século, o papa da época convocou os cristãos para marcharem até a Terra Santa e retomarem para os cristãos o território no qual havia vivido Jesus Cristo. Em 1099, partiu a Primeira Cruzada. No mesmo ano, alguns mercadores de Amalfi fundaram em Jerusalém uma casa religiosa para recolher os peregrinos. Essa casa cresceu em funcionalidade, passou a operar sob a regra de São Bento e, mais tarde, passou a contar com um hospital. Por algum tempo, Godofredo de Bulhão foi o financiador da iniciativa, garantindo a existência daquilo que viraria uma congregação especial e adotaria o nome de São João Batista. Em 1113, a congregação foi reconhecida pelo papa e passou a operar sob regra própria. Alguns anos depois, o serviço de proteção e atenção aos doentes passaria a contar também com serviços militares, constituindo, assim, a fundação da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários.
 A Ordem surgiu em função das ameaças muçulmanas que os cristãos sofriam em suas jornadas de fé para visitar a Terra Santa. No meio do caminho, os fieis eram atacados, saqueados, feridos e até assassinados pelos islâmicos. Para oferecer proteção, os Hospitalários prestavam serviços médicos aos cristãos. Com o tempo, notaram que só o cuidado com os doentes não resolveria a difícil situação no Oriente, e a Ordem adotou também uma conduta militar. Os Cavaleiros Hospitalários ou Cavaleiros de São João incorporaram os treinamentos de batalha e participaram de diversos combates.
 Os Cavaleiros Hospitalários assumiram como hábito, ou seja, vestimenta característica utilizada, a túnica branca e um grande manto preto dotado de uma cruz de ouro com esmalte branco no lado esquerdo. Os cavaleiros pertencentes à Ordem eram sempre pertencentes à fidalguia. Além de manterem o hospital em Jerusalém, envolveram-se diretamente com as Cruzadas e, ao contrário do que aconteceu com outras Ordens, mantiveram-se vivos e ativos com o fim delas.
 Os Cavaleiros Hospitalários sobreviveram à Idade Média e a Ordem permaneceu viva, recebendo de Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico a Ilha de Malta como doação, em 1530. Nesta época, a Ordem dos Hospitalários mudou de nome, passando-se a se chamar de Ordem de Malta. Existente até os dias atuais, a organização exerceu funções de espionagem para o Vaticano e sempre se manteve ativa em iniciativas de beneficência. Atualmente, a Ordem tem atividade discreta, porém presente em muitos países do mundo. Seus integrantes são médicos, homens de ciência ou com tendências ao sacerdócio.
Antonio Gasparetto Junior 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

MÚMIAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

As mudanças climáticas estão provocando o derretimento da neve dos Alpes italianos fato que, por sua vez, revelou uma curiosa descoberta: o surgimento de diversos cadáveres da Primeira Guerra Mundial, na maioria, mumificados. O fenômeno trouxe à tona incontáveis restos humanos de batalhas travadas entre a Itália e o Império Austro-húngaro, durante a Primeira Guerra.
A descoberta aconteceu nas áreas de Presena e Ortles-Cevedale, na pequena cidade italiana de Peio. No local, milícias de ambos os lados construíram uma fortaleza bélica no topo das montanhas geladas, uma área estratégica para guardar as armas pelo seu difícil acesso. Entretanto, o gelo se transformou no verdadeiro e cruel inimigo comum, já que muitos morreram em decorrência da temperatura (abaixo dos 30°C negativos) e avalanches.
 Durante a década de 90, diários, cartas e fragmentos de jornais russos começaram a aparecer. A quantidade de objetos encontrada fez com que residentes da área construíssem um local para guardá-los, que hoje é o atual Museu da Guerra de Peio. Depois disso, em 2004, um guia da montanha achou três corpos mumificados em uma parede congelada, próximo ao pico San Matteo. Os cadáveres eram de soldados austríacos, estavam desarmados e traziam pacotes de ataduras nos bolsos, uma indicação de que poderiam ser enfermeiros austríacos mortos durante a Batalha de San Matteo, de 3 de setembro de 1918.
 Desde então, mais de 80 corpos foram encontrados e todos, naturalmente, acabaram mumificados em função do tempo e das condições climáticas. A última cerimônia para as vítimas encontradas ocorreu no final do ano passado. Os corpos eram de dois soldados austríacos, de 17 e 18 anos de idade. Eles morreram nas montanhas e foram enterrados em uma fenda, na geleira, por seus companheiros. A previsão de alguns arqueólogos é que muitos outros corpos ainda serão encontrados.

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terça-feira, 22 de julho de 2014

AS OUTRAS FACES DE JESUS

A Bíblia é omissa em 26 dos 33 anos de Cristo. O que teria feito durante sua infância, adolescência e boa parte da vida adulta? A procura de pistas sobre seu paradeiro é recente. Muitas fontes antigas pintam um retrato diferente do filho do Deus dos cristãos
Quando criança, Jesus matou um colega com o poder de sua voz, andou sobre um raio de sol e salvou a vida de seu irmão moribundo. Desobedeceu aos pais e destratou os professores. Também foi educado na Índia, com passagem pela Pérsia e até mesmo pela Grécia. E ainda teria ido à Inglaterra, levado por José de Arimateia (o homem que depois, segundo a Bíblia, cuidou de seu enterro). Nesse meio tempo, encontrou-se com vários personagens que se revelariam importantes em sua vida adulta. Na juventude, foi um seguidor fiel de João Batista, um essênio, a seita dos judeus ascetas. Absurdo? O que você leu faz parte de lendas e teorias sobre a vida de Jesus.



É incrível, mas a vida do homem mais importante do Ocidente nos últimos 2 mil anos resume-se a poucos fragmentos na sua, digamos, biografia oficial. E, nos Evangelhos, ele anda sobre as águas, ressuscita mortos, transfere demônios de pessoas para porcos e multiplica comida. A procura pelo chamado Jesus histórico tem como fonte principal os mesmos Evangelhos - descontados os milagres - e a arqueologia. 



O filho de Cleópatra 



Os textos bíblicos saltam do nascimento para a adolescência e dali direto para a parte final de sua vida, que daria início ao cristianismo. O Novo Testamento é silencioso sobre 26 dos 33 anos de vida de Jesus Cristo: a fase entre os 4 e os 30 anos de idade, com uma breve descrição de um episódio do jovem Jesus. Essa falta de informações alimentou uma série de lendas e textos apócrifos sobre os anos perdidos de Cristo. 



Uma delas aproveita a referência bíblica da fuga de José e Maria para o Egito. A vida em terras egípcias deu origem a uma lenda, ainda hoje muito popular naquele país: a de que Jesus seria egípcio, filho da rainha Cleópatra e do general romano Marco Antônio. Para preservar o fruto de um relacionamento tão perigoso politicamente, ele teria sido doado para ser criado por José e Maria. É uma lenda anacrônica: Cleópatra e Marco Antônio morreram em 30 a.C., décadas antes do nascimento de Jesus. E seria um bizarro caso de poderosos que doam o filho para ser criado por gente pobre. 



Outras lendas sobre Jesus no Egito se mostrariam decisivas para a Igreja Ortodoxa Copta, denominação cristã no país e no mundo árabe, hoje com 15 milhões de seguidores. Logo na chegada ao novo lar, o menino expulsou demônios de um garoto possuído - que saíam da boca do jovem às dezenas, na forma de cobras e morcegos, segundo o Evangelho da Infância de Nosso Senhor Jesus. Ele teria sido reverenciado por animais e as palmeiras se curvariam à medida que passava. Também teria conhecido ali duas crianças que depois se tornariam os bons ladrões crucificados ao seu lado, 30 anos depois. Salomé, uma das futuras seguidoras de Cristo, teria sido sua babá e assistente de Maria - sua mãe, ou a mulher escolhida para educá-lo, segundo a lenda. 



O nascimento de Jesus está presente nos textos sagrados de outra religião, o islamismo. Segundo o Alcorão, tal como na Bíblia, ele nasceu de uma virgem. Mas ali é comparado a Adão, pois ambos vieram ao mundo diretamente pela vontade de Alá. Os muçulmanos, porém, não o chamam de "filho de Alá". Para eles, Jesus é um profeta. E dos grandes, o que antecedeu a Maomé, o maior de todos. Maria, para os islâmicos, não deu à luz numa manjedoura, mas no deserto - e era solteira. Ao sentir as dores do parto, Jesus falou com ela de seu útero, dizendo para que chacoalhasse a tamareira sob a qual estava abrigada. Ela deveria comer os frutos que caíssem no chão e beber a água de um riacho próximo - eram presentes de Alá para que se sentisse melhor. Jesus nasceu logo depois. Quando voltou a Belém, Maria foi ridicularizada. Na sinagoga, o recém-nascido, com apenas 40 dias de vida, falou para a comunidade, que duvidava do milagre e acusavam Maria de ser mãe solteira: "Sou, de fato, servo de Alá. Ele fez de mim um profeta". 



Para além das religiões estabelecidas, histórias da infância de Jesus extrapolam a própria geografia do Oriente Médio. Ele não só teria sido educado na Índia e em monastérios do Himalaia como teria escapado da crucificação, voltado para a Caxemira, passando por Grécia e Pérsia - e permanecido em território indiano até a morte, aos 120 anos. Quem consolidou a lenda foi o jornalista russo Nicolai Notovitch, em The Unknown Life of Jesus Christ, após visita à Índia, em 1887. Relatos antigos mencionam um profeta chamado Issa. Há quem veja nos ensinamentos cristãos de não violência - inaceitáveis para os padrões de pensamento judaico de então - um eco da filosofia budista. Outra viagem alucinante: a Inglaterra. O contato de Jesus com a ilha britânica supostamente ocorreu por intermédio de seu tio José de Arimateia. Sua educação teria passado por ali, em contato com a antiga sabedoria dos druidas. E ele voltou para a Palestina apenas depois dos 20 anos de idade. Um dos maiores divulgadores dessa história é o poeta William Blake, que no século 19 escreveu um poema muito famoso, conhecido como And Did Those Feet. 



Pedreiro em Séforis 



Os Evangelhos só retomam a trajetória de Jesus aos 12 anos, quando ele viaja com os pais para celebrar o Pessach, a Páscoa judaica, em Jerusalém. Maria segue em uma caravana de mulheres. José, em uma de homens. Na volta, ela acha que o filho está com ele e vice-versa. O casal volta para a capital da província e, depois de três dias, encontram o adolescente surpreendendo os rabinos com seu grau de conhecimento das Escrituras. Tentam dar uma bronca no garoto, mas a reação dele os espanta: "Não sabes que me convém tratar dos negócios de meu Pai?" A dar-se crédito ao episódio, fica claro que Jesus não era apenas um aprendiz de marceneiro, ou pedreiro (a palavra tekton define melhor um mestre de obras, um faz-tudo, do que um carpinteiro). "Ele sabia ler e escrever e conhecia as Escrituras com bastante profundidade", diz a historiadora Paula Fredriksen, da Universidade de Boston. 



Nazaré não tinha escolas respeitáveis, nem mercado de trabalho para uma família de construtores sobreviver - ainda assim, no Evangelho de Marcos, Jesus é citado como um tekton. Como foi possível que tivesse esse grau de conhecimento das Escrituras e exercesse a profissão do pai? A resposta mais provável não está na Índia, no Egito, na Grécia, nem na Inglaterra. Acontece que a Nazaré da época foi uma cidade-satélite de Séforis, que ficava a apenas 8 km de distância e era um grande centro administrativo da Galileia. Sob o governo de Herodes Antipas, Séforis havia sido transformada em um imenso canteiro de obras depois que uma rebelião judaica foi reprimida ali com a destruição da cidade. Como se vê, Séforis era também um centro judaico expressivo e local de conflitos com a cultura romana. Atualmente, Séforis abriga um grande sítio arqueológico - ruas inteiras com casas judaicas foram desenterradas e preservadas. 



"Séforis é o lugar ideal para se imaginar a formação do jovem Jesus. Fornecia o ganha-pão para ele e sua família e a instrução que ele certamente recebeu", afirma Robert Eisenman, professor de religião e arqueologia da California State University. A pujança da cidade vizinha ajudaria a entender a instrução elevada de Cristo. "A cena do nascimento na manjedoura em Belém, que dificilmente aconteceu, deixa a impressão de que Jesus teve uma infância pobre. Mas nada nos textos bíblicos indica isso, e Séforis era bastante rica, com muito emprego e centros de formação", diz Eisenman. 



As histórias sobre a infância de Jesus também são encontradas nos chamados evangelhos apócrifos (não reconhecidos pela Igreja) e até nos textos da Ordem Rosa Cruz, que compilou versões gnósticas, entre elas a história da educação na Índia. O Evangelho de Pseudo-Tomé tenta resgatar sua vida entre a volta da temporada no Egito, aos 4 anos, e o episódio do encontro com os rabinos, aos 12 - descrito no Evangelho de Lucas. Ao que tudo indica, o autor, de origem gentia, reuniu relatos orais e epístolas. "O Evangelho de Pseudo-Tomé é o mais influente texto apócrifo sobre a infância de Jesus", diz James Tabor, professor da Universidade da Carolina do Norte. 



Fúria de criança 



Uma das passagens do Evangelho de Pseudo-Tomé conta uma história que também está citada no Alcorão. Menino, Jesus fez 12 pássaros de barro durante o sábado. Seu pai, José, o repreendeu, por trabalhar em um dia considerado santo para os judeus. Como resposta, ele soprou os pássaros, que imediatamente ganharam vida. Em outra passagem, dá vida a um peixinho morto. Certa vez, desafiou seus amigos a subir por um raio de sol que entrava pela janela. Ninguém topou, e então ele mesmo caminhou sobre o raio. 



O mesmo evangelho mostra um lado pouco conhecido e sombrio de Jesus. O filho do escriba Anás destrói uma pequena represa que o menino havia construído. Furioso, ele lança uma maldição: "Ficarás agora seco como uma árvore". E o garoto fica paralisado. No texto, ele aparece como responsável pela morte de mais dois meninos. Outra criança é amaldiçoada depois de dar um soco em Jesus. Os pais da vítima procuram José e Maria para reclamar e Jesus faz com que fiquem cegos. Em compensação, ao ser acusado de ter empurrado Zenon, um garoto que morrera ao cair de um terraço, ele ressuscita o menino só para que ele confirmasse sua versão. "Estas variações foram elaboradas séculos depois da morte de Cristo, quando a Igreja já estava solidificada. Elas ao mesmo tempo justificavam o poder divino de Jesus e eram coerentes com os relatos tradicionais: o mesmo líder que mata um amigo mais tarde teria um acesso de raiva e atacaria os mercadores do templo de Jerusalém", diz James Tabor. 



Jesus também salvou seu irmão Tiago, quando ele foi picado por uma cobra - bastou assoprar sobre a mordida para que o garoto, que estava quase morto, ficasse curado na hora. Irmão? "Jesus teve irmãos, disso não resta a menor dúvida", afirma Robert Eisenman. "Os textos sagrados fazem referência a eles e a cultura e a economia locais não possibilitavam a existência de uma família pouco numerosa." Os Evangelhos citam seis, duas mulheres, das quais se desconhecem os nomes, e quatro homens: Tiago, Judas, José e Simão. A interpretação de que "irmãos" é uma tradução aberta da expressão grega a-delphos, que dá espaço para considerar que eles eram primos ou discípulos muito fiéis, não se sustenta - ainda que seja a oficial para a Igreja Católica. "Muitas denominações cristãs, em especial os católicos, usam este argumento, mas ele não faz sentido", afirma Tabor. 



Jesus também é questionador: desafiou os conhecimentos de pelo menos dois de seus professores, que desistiram de ensinar a ele as leis judaicas - o que dá a entender que o jovem Cristo não tinha muita paciência para as aulas, que na época eram particulares e muito caras. Mais do que isso. Ele corrigia seus professores - e fazia questão de ensinar a eles o real significado das Escrituras. Um de seus tutores, de acordo com o Evangelho de Pseudo-Tomé, tenta ensinar-lhe grego. "Diga alfa", diz o professor. "Primeiro me diga o significado de beta", rebate o menino. Irritado, o mestre tenta bater em Jesus. E na primeira palmada cai morto. 



O messias casado 



Não é de hoje que se discute se Jesus foi casado - a maior candidata a esposa é Maria Madalena, a seguidora que, de acordo com os Evangelhos canônicos, descobriu que o túmulo do mestre estava vazio três dias depois de sua morte e anunciou a novidade aos discípulos (e, com isso, tornou-se a primeira apóstola em sentido literal, a primeira pessoa a divulgar a boa-nova). Um fragmento de um antigo papiro, divulgado em setembro, fornece a primeira evidência concreta a respeito do casamento de Jesus. O texto, escrito em copta, uma língua egípcia baseada no grego, afirma: "E Jesus disse: `minha mulher". Em outro trecho, encontra-se a frase: "ela poderá ser minha discípula". 



A professora Karen King, da Universidade Harvard, teve acesso ao pedaço de papiro, de apenas 4 por 8 cm. Ela foi procurada por um colecionador privado, que adquiriu a peça no Egito ou na Síria. Karen cruzou evidências com tradutores, arqueólogos e historiadores, até trazer a público a informação de que o texto, possivelmente uma cópia em copta, feita no século 4, de um texto em grego datado do século 2, indica que Jesus foi casado. Mas não diz com quem. De toda forma, a professora afirma que esse papiro pode fazer parte de um Evangelho da Esposa de Jesus, um texto apócrifo mais longo com informações sobre a vida conjugal do messias. 



Karen foi criticada pelo Vaticano, que não levou a sério a descoberta e desmentiu o papiro no jornal Osservatore Romano. O celibato entre padres e freiras é obrigatório desde o século 12, sob o argumento de que os seguidores de Cristo deviam respeitar seu exemplo e se manter castos. "O fragmento não serve como prova, mas é o primeiro documento escrito que cita que Jesus pode ter tido uma esposa", diz a pesquisadora. 



A discussão começou logo nos primeiros séculos depois da morte de Jesus. Os primeiros textos que afirmam que Cristo era celibatário datam do ano 200, por obra do teólogo Clemente de Alexandria. Antes disso, não havia nenhuma referência indicando seu estado civil - até o aparecimento do papiro. "Clemente deu início a um movimento que argumentava que Jesus preservou sua pureza. Os líderes da igreja acabaram por aceitar essa posição, mas mesmo em Roma ela foi polêmica por muitos séculos", afirma Karen. "Não fazia sentido um judeu do século 1 ter se mantido casto. Seus discípulos diretos não eram e os primeiros líderes da igreja divergiam sobre o assunto. Alguns não viam problema no casamento, outros diziam que o líder religioso deveria se dedicar exclusivamente a seus fiéis". 



O chamado Evangelho da Esposa de Jesus tem semelhanças com o Evangelho de Maria, um texto descoberto em 1896 e publicado em 1955. Nele, Madalena é uma discípula importante, cujos conhecimentos dos ensinamentos de Jesus superam até os de Pedro, o primeiro bispo. No Evangelho de Maria, Pedro diz a Madalena: "Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos." 



Se Jesus foi casado, será que teve filhos? Não há evidências históricas nem relatos de época que apontem nem que sim, nem que não. Mas, com base na hipótese de Cristo ter sido casado com Madalena, é possível supor que exista uma árvore genealógica para os descendentes do filho de Deus. Os autores Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln defendem que o filho de Jesus e Maria Madalena deu origem à dinastia merovíngia. Donovan Joyce argumenta que Cristo teve vários filhos, que viveram na Cashemira. A romancista americana Kathleen McGowan foi mais longe: afirma ser ela mesma descendente direta do casal. Seus livros sobre Madalena venderam mais de um milhão de exemplares. 



Jesus a.C. 



As datas bíblicas não batem com a História do período 



Segundo o Evangelho de Mateus, Jesus nasceu em Belém, no reino -de Herodes, o Grande, e a Sagrada Família fugiu para o Egito. Só que Herodes morreu em 4 a.C. - portanto Jesus nasceu "antes de Cristo". Contando o tempo passado no Egito, ele pode ter nascido entre 7 e 4 a.C. A culpa é de um erro de cálculo do monge Dionísio Exíguo (470-544), o inventor da contagem dos anos com base no nascimento de Jesus - ele era tão respeitado que ninguém contestou sua conta. Já a possível data da crucificação fica em algum ponto entre 30 e 36 d.C., o que torna plausível a data tradicional, em 33. Mas se Jesus nasceu em 7 a.C. e morreu em 36, ele teria 43 anos ao ser crucificado. A confusão vai além. O Evangelho de Lucas tenta explicar o que a família de Jesus fazia em Belém quando ele nasceu. A causa seria o Censo de Quirino. José teria ido à cidade, terra de seus ancestrais, da linhagem do rei Davi. Só que o censo data nos anos 6 e 7, o que não bate com a cronologia do reinado de Herodes. Para a maioria dos historiadores, a história de Belém foi criada para fazer com que Jesus se encaixasse numa profecia do Livro de Miqueias, pela qual o messias nasceria na cidade-natal do rei Davi. Jesus era de Nazaré mesmo. 



A vida com os essênios 



João Batista teria sido influência decisiva para Jesus 



No Novo Testamento, a história de Jesus é retomada quando ele tem 30 anos e pede para ser batizado por João Batista. O profeta vivia em isolamento com um grupo de seguidores fiéis. No relato bíblico, ele mora no deserto, veste peles e se alimenta de gafanhotos e mel silvestre. Para muitos intérpretes, João era um essênio, um grupo de ascetas que deixou os Manuscritos do Mar Morto, encontrados em 1947. Assim como Jesus, os essênios valorizavam a pobreza por opção e chamavam Deus de "pai". A interpretação é reforçada por seus ensinamentos, como o famoso "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus". Hábitos das primeiras comunidades cristãs e dos monges que se isolaram do mundo lembram os costumes essênios - o uso de roupas simples, alimentação escassa, celibato, muito silêncio e oração e pouco contato social. "Não é certo que Jesus fosse essênio", diz Harold W. Attridge, professor da Universidade Yale. "Mas ele certamente foi muito influenciado por João Batista. Os relatos bíblicos deixam claro que, à sua maneira, Jesus deu continuidade aos passos de João." Especula-se que a relação era tão próxima que Cristo teria passado a juventude vivendo com o grupo de João até dar início à sua vida de pregador. 

Texto Tiago Cordeiro | Ilustrações Felipe Massafera (Aventuras na História, setembro de 2013).

segunda-feira, 21 de julho de 2014

VESTIDOS PARA O PODER

Desde o século 17, os homens fizeram do terno uma forma de expressão política
Maiores potências políticas e culturais do mundo ocidental durante séculos, França e Inglaterra disputam ainda hoje a paternidade de uma combinação que revolucionou a forma de os homens se apresentarem em sociedade. O terno - por definição moderna, formado por paletó, colete e calça confeccionados com o mesmo tecido - vestiu os soberanos de Versalhes e Gales no século 17 e, desde então, tem se firmado como sinônimo de status e poder. "O terno era a roupa do rei e transformou-se em tradição: define o homem, sua imagem de trabalho e liderança a partir do momento que Luís XIV vestiu-o para assinar seus despachos", diz Lula Rodrigues, autor de Almanaque da Moda Masculina. Nesses três séculos e meio de trajetória, o terno figurou também em cortesãos, plebeus, burgueses e homens de negócio, promovendo uma identidade visual cada vez mais afastada do universo feminino. "A alfaiataria é uma técnica específica, que promove a arquitetura elaborada do corpo e de sua imagem", explica Patricia Sant’Anna, pesquisadora do Grupo de Estudos em Arte, Design e Moda da Unicamp.

Dos bordados à alfaiataria
A evolução das peças que viraram traje universal
Segunda metade do século 17
Trajes reais
Luís XIV, o Rei Sol, governou a França por mais de sete décadas. Seu império caracterizou-se pela pujança, refletida nos ricos bordados que vestia em sua combinação de trabalho. Os expedientes reais eram cumpridos em trajes que compunham os primórdios do terno. Na Inglaterra, Charles II instituiu o uso do colete em 7 de outubro de 1666.

Século 18
Pompa comedida
No decorrer de 1700, os aristocratas vestem rendas e bordados aplicados em tecidos como cetim, veludo e brocado. Os volumes seriam, no entanto, reduzidos até o fim do século. Cada vez mais, homens e mulheres diferenciam-se pela forma de se apresentar em público. Os excessos tornam-se atributos do guarda-roupa feminino.

Virada século do 18 para o 19

Revoluções liberais
A História sofre momentos de efervescência. Revoluções como a Francesa marcam o mundo ocidental, com o triunfo da burguesia, que valoriza o trabalho e ascende desfilando tons escuros e foscos. O homem burguês deixa a ostentação a cargo de sua esposa. Com a vida aristocrática em desuso, caem perucas, brilhos e grandes joias.

Século 19

Combinação definitiva
Alguns pesquisadores definem esse como o século em que o terno encontra a sua forma moderna. O paletó torna-se cada vez mais usado nos anos 1800. A Revolução Industrial inglesa ganha o mundo e impulsiona a tecelagem: no fim do século, o terno já era a roupa masculina corrente.

Início do século 20

Todos os tamanhos

As novas tecnologias de confecção e a urbanização ampliam a oferta e a demanda por ternos. Se antes eles eram restritos à alfaiataria, agora os modelos são popularizados pela produção em massa nos tamanhos P, M e G. O mundo empresarial inglês e americano dita que o poder é expresso pela discrição.

Século 20

Todos os gostos
As liberdades individuais e sociais são acompanhadas pelas infinitas possibilidades de combinações das peças. O modelo usado nos anos 1960 pelos Beatles foi uma apropriação das ideias do estilista Pierre Cardin. Desde 2009, Barack Obama tem influenciado o mundo com seus paletós de dois botões.



Acessórios

Curiosidades sobre os acompanhantes do terno

Gravata
Luís XIV teria popularizado o acessório, inspirado nos longos lenços que mercenários croatas usavam no pescoço. Cravate, em francês, é derivado do adjetivo pátrio croate.

Smoking
O luxuoso conjunto aparece por volta de 1880, adotado por jogadores de cartas, cansados de passar a noite de casaca. Até 1910, o modelo limitava-se às reuniões masculinas.

Colarinho branco
Quando a burguesia se estratifica, surgem os colarinhos brancos, em oposição aos azuis, dos trabalhadores. Eles viram símbolo da falta de esforço.


 Érica Georgino
 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A EXTINÇÃO DOS DINOSSAUROS

Físicos de Harvard criam teoria que explica fenômeno de uma outra forma:

Os dinossauros, sua época e seu completo desaparecimento, são tema de diversas teorias e estudos. A mais nova surgiu com base na física, e defende que a extinção deles na Terra ocorreu em função de um evento recorrente na história do planeta: um bombardeio de meteoros. O episódio catastrófico teria sido causado pela matéria escura, e aconteceria a cada 35 milhões de anos. 
Os físicos Lisa Randall e Matthew Reece, da Universidade de Harvard, apresentaram a teoria com base em estudos recentes. Na primeira hipótese, tudo isso acontece em função da existência de uma fina camada de matéria escura situada no meio da nossa galáxia. Essa membrana seria responsável por grande parte dos impactos de meteoros que ocorrem na Terra. De períodos em períodos, causariam a extinção massiva das espécies, incluindo os dinossauros. Ao longo da história planetária, o fenômeno haveria ocorrido ciclicamente, em diversas ocasiões.
A razão do fenômeno seria o movimento oscilante produzido em nosso sistema solar. A cada 35 milhões de anos, a camada de matéria escura passa novamente pelo centro.  Essa passagem resulta em uma pressão gravitacional que repercute nos cometas da nuvem de Oort, causando uma chuva de meteoros sobre a Terra. A dedução dos cientistas de que o fenômeno ocorre em ciclos de 35 milhões de anos se baseia em evidências obtidas no estudo das crateras de mais de 20 quilômetros de diâmetro. Entretanto, a precisão do número pode não ser garantida.
Apesar do caráter hipotético da teoria de extinção dos dinossauros, estima-se que a existência definitiva da matéria escura poderá ser comprovada em estudos astronômicos próximos. E assim, os cientistas poderão entender mais, e de melhor forma, o comportamento de nosso sistema solar e seu ciclo de vida.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A ONDA

Rainer Wegner, professor de ensino médio, deve ensinar seus alunos sobre autocracia. Devido ao desinteresse deles, propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo e do poder. Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhe o lema “força pela disciplina” e dá ao movimento o nome de A Onda. Em pouco tempo, os alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério, Wegner decide interrompê-lo. Mas é tarde demais, e A Onda já saiu de seu controle. Baseado em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

LEVANTE DOS MALÊS: GUERREIROS DE ALÁ NA BAHIA

Com uma espada na mão e o Corão na outra, os africanos conhecidos como malês puseram Salvador em pânico numa madrugada de 1835, usando o Islã para unir os escravos contra a opressão
 Os poucos soldados da polícia de Salvador que foram acompanhar o que parecia outra averiguação de rotina sobre escravos rebeldes, numa madrugada sonolenta de janeiro de 1835, provavelmente tiveram a pior surpresa de suas vidas ao dar de cara com aquela cena. De espada em punho, um bando enfurecido de uns 50 homens negros partiu para cima dos incrédulos policiais, gritando “mata soldado” e palavras de ordem em idiomas africanos. De repente, o papel de escolta do juiz de paz Caetano Galião, que comandava a diligência, deu lugar a uma reação desesperada para tentar salvar a própria pele. Carregando afobados as espingardas, os soldados nada puderam fazer para impedir o avanço dos guerreiros africanos, que mataram um patrulheiro e feriram outros quatro, ganhando a seguir as ruas da cidade. Começava o que ficaria conhecido como “levante dos malês”, uma rebelião comandada por muçulmanos em plena Bahia.
 Esse primeiro esquadrão de revoltosos, impelido a começar o levante algumas horas antes do combinado devido à delação de outros africanos, alertou os demais grupos malês da cidade para se unirem ao combate. No fim das contas, centenas de muçulmanos e seus aliados enfrentaram o Exército nas ruas de Salvador durante a madrugada, no que foi a maior revolta urbana de escravos das Américas. A documentação da época sobre o levante não é muito clara quanto ao objetivo final dos rebeldes, mas há indícios de que eles pretendiam implantar um Estado comandado por africanos islâmicos, no qual até os negros e mulatos nascidos no Brasil teriam um status subalterno.
 Aos poucos, as investigações do governo baiano sobre o levante foram revelando uma rede clandestina de propaganda islâmica, que unia os escravos que já tinham vindo da África como muçulmanos a outros convertidos no Brasil e a africanos adeptos de outras religiões. Graças ao ambiente um pouco menos sufocante da escravidão urbana na Bahia, os malês conseguiram criar uma organização rebelde bem diferente da representada pelos quilombos, em geral formados por escravos que escapavam de grandes propriedades rurais. “A maioria das mais de 20 conspirações e levantes escravos acontecidos na Bahia na primeira metade do século 19 envolveu escravos rurais dos engenhos do Recôncavo”, afirma o historiador João José Reis, da Universidade Federal da Bahia, autor de Rebelião Escrava no Brasil – A História do Levante dos Malês, 1835, um dos principais estudos sobre o tema.
 A África e o Brasil que produziram a rebelião malê eram bem diferentes da situação que favoreceu a existência do quilombo de Palmares por quase 100 anos durante o século 17. E isso a começar pela própria região de origem dos negros trazidos para a Bahia no final do século 18 e começo do 19. Em vez das tribos de agricultores angolanos que predominavam no início da colonização, a principal fonte de novos escravos para Salvador e os engenhos de açúcar baianos eram os belicosos reinos da África Ocidental, onde hoje é a Nigéria. “Eram as civilizações mais desenvolvidas da África negra”, afirma o historiador Décio Freitas, ex-professor da Universidade Federal de Alagoas.
 Donos de tecnologia comparável à da Europa medieval e totalmente integrados às rotas de comércio que uniam a África ao Ocidente, povos como os iorubás, os jejes e os haussás chegaram a formar Estados poderosos, muitos deles já influenciados pelo islamismo. Contudo, naquela época, tais nações não estavam durando muito, dizimadas por uma série catastrófica de conflitos. O destino dos guerreiros derrotados ou o de sua família tanto podia ser o trabalho de pastor escravo no reino iorubá de Oyo, quanto a terrível travessia do Atlântico rumo à Bahia. A moeda que pagava essa viagem sem volta normalmente era o fumo baiano. “É graças a esse rentável comércio de fumo que a Bahia foi a única região do Brasil a receber escravos sudaneses em grande quantidade”, diz Décio.
 Não demorou muito para que os senhores de escravos percebessem que estavam dormindo com o inimigo, já que décadas de guerras internas ou contra Estados rivais haviam forjado uma forte tradição guerreira entre os africanos recém-chegados. Para João Saldanha da Gama, o conde da Ponte, governador português da província entre 1805 e 1810, os novos escravos pertenciam a “Naçoens as mais guerreiras da Costa Leste” e eram uma séria ameaça à paz.
 Dentro de alguns anos, contudo, os baianos se viram às voltas com problemas ainda mais sérios. No rastro da independência do Brasil, foi preciso retomar em combate a própria Salvador das mãos dos portugueses, e a província toda, assim como diversas outras regiões do país, virou palco dos conflitos entre brasileiros e portugueses que permaneceram aqui, sem falar nas rebeliões militares e nas revoltas das camadas mais pobres da população contra a crise econômica. O cheiro de insurreição contra os impopulares regentes, que estavam no poder enquanto o jovem dom Pedro II ainda era menor de idade, estava tão forte no ar que o levante dos malês explodiu no mesmo ano que a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul, e a Cabanagem, no Pará.

Como se não bastasse todo esse fermento revolucionário, boa parte dos escravos de Salvador (dos quais 63% tinham nascido na África) gozavam de um grau de liberdade insuspeito. É que, diferentemente dos negros que se esfalfavam nos engenhos, muitos deles nem moravam com seus senhores ou, quando isso acontecia, trabalhavam o dia todo fora de casa. Era a chamada escravidão de ganho, na qual os escravos exerciam os mais variados ofícios (vendedores ambulantes, pescadores, pedreiros, carregadores de cadeiras) para sustentar o próprio dono, trazendo-lhe depois o que conseguiam trabalhando.

Livres na cidade
 Alguns até podiam ficar com uma porcentagem (ridícula, obviamente) do que ganhavam, e com esse dinheiro compravam mais tarde a própria alforria. Além de gerar um número considerável de libertos (que incluía também os que eram libertados pelo patrão por qualquer que fosse o motivo), esse sistema permitia que os negros montassem sua própria rede de amizades e contatos. Entre os malês, por exemplo, não era raro encontrar um liberto morando no andar térreo de um sobrado que alugava a sua “loja” (uma espécie de porão das antigas casas coloniais) para um escravo e este, por sua vez, alugava um cantinho do lugar a outro amigo.
 Foi graças a isso tudo que a revolta começou a tomar forma em Salvador. Inadvertidamente, os traficantes de escravos acabaram trazendo para as praias baianas não só guerreiros experientes, mas também pessoas que freqüentaram escolas onde se ensinava a ler e escrever em árabe, a recitar as suras ou versículos do Corão e a seguir os demais preceitos do profeta Maomé. A maioria dos que tomaram parte no levante parece ter sido de origem iorubá (ou nagô, como se dizia na Bahia de então), etnia africana criadora da religião dos orixás, mas entre a qual o Islã estava em expansão no começo do século 19. A própria palavra “malê” parece vir do termo iorubá imale, que quer dizer “muçulmano”.
 Sujeitos como os escravos iorubás Ahuna e Pacífico Licutan, pessoas experientes, muito cultas e carismáticas, logo se puseram a unir em torno de si seus companheiros que já eram muçulmanos e a espalhar a palavra de Maomé entre outros escravos. Essa pregação incluía ensinar a ler e escrever em árabe, a recitação de passagens do Corão e a distribuição de pequenos amuletos de couro, recheados com trechos do livro sagrado. Esses talismãs foram muito difundidos e eram considerados poderosos até por quem não era islâmico.

Aparentemente, a idéia de uma revolta só foi tomando corpo devagar.
 A princípio, os malês se contentavam em organizar um fundo comum para pagar alforrias uns dos outros, ou em se reunir para celebrar sua religião. Segundo João José Reis, o grupo chegou até a construir uma espécie de mesquita – uma palhoça no quintal dos fundos do inglês conhecido como Abraham, senhor dos escravos malês James e Diogo. Ali, eles conseguiram celebrar o Lailat al-Miraj, festa que comemora a ascensão de Maomé ao céu, no final de novembro de 1834. Tudo ótimo, se não fosse o aparecimento do inspetor de quarteirão Antônio Marques, que pôs os pobres malês para correr e denunciou a reunião às autoridades baianas. Abraham, tentando evitar problemas para si próprio, ordenou que seus escravos pusessem a mesquita abaixo. “Não é impossível que essa última humilhação tenha sido o estopim da revolta”, afirma João Reis.
 Tanto a união em torno do Islã quanto a solidariedade étnica influenciaram os rebeldes. Para Décio Freitas, foi o cimento religioso que conseguiu unir povos diferentes e até inimigos entre si no mesmo levante. “O grande problema dos africanos aqui é que eles eram muito diferentes uns dos outros. Em Palmares, foi preciso até inventar uma nova língua, com base em vários idiomas africanos e no português. Uma religião universal como o Islã conseguiu aglutiná-los”, diz Décio. Mesmo assim, era difícil esquecer as velhas divisões. “Em 1835, nem todo muçulmano entrou na revolta e nem todo rebelde era muçulmano”, diz João José. Segundo ele, os haussás, por exemplo, que constituíam o grupo étnico mais numeroso entre os mais islamizados, compareceram com poucos guerreiros. O movimento foi levado a cabo sobretudo por muçulmanos de origem iorubá, os nagôs.
 Esse contorno étnico da revolta permitiu, por seu turno, que muitos nagôs não-islamizados, mas que acreditavam na solução armada para a liberdade e na força protetora dos amuletos malês, entrassem no levante.

Guerreiros do Ramadã
 Seja como for, não poderia haver data mais religiosa para a revolta. O dia 25 de janeiro, um domingo, era a festa de Nossa Senhora da Guia, mas também o dia 25 do mês muçulmano do Ramadã – época do ano consagrada ao jejum, na qual acreditava-se que espíritos malignos e forças do mal eram neutralizadas. O plano era simples: ao amanhecer, a vanguarda dos rebeldes, espalhada por vários grupos menores na cidade, reuniria o maior número possível de africanos e depois iria se juntar aos adeptos da zona rural do Recôncavo. A idéia era tomar o poder matando todos os nascidos no Brasil, inclusive outros negros, embora alguns depoimentos falem em conservar os mulatos como escravos dos vitoriosos. O inimigo principal, é claro, eram os brancos.
 Informações sobre o levante, porém, vazaram no começo da noite anterior, por meio de alguns libertos que, sabendo do plano, o denunciaram a seus ex-senhores. Estes, por sua vez, alertaram o presidente da província da Bahia, Francisco de Souza Martins. Sem perder um segundo de tempo, ele reforçou a guarda do palácio do governo, colocou todos os quartéis da cidade em alerta e redobrou as rondas noturnas. As casas de africanos suspeitos começaram a ser reviradas no início da madrugada.
 Foi então que explodiram os confrontos, por volta da 1h30 da manhã, na “loja” onde morava Manoel Calafate, um dos líderes malês. Tentando arrombar a casa onde parte dos conspiradores se reunia, a patrulha ficou impotente diante dos muitos guerreiros muçulmanos, armados de espadas e vestindo o abadá, espécie de camisolão branco que era o traje ritual dos malês. A maioria deles subiu a Ladeira da Praça, onde estava o sobrado de Calafate, enquanto outros pularam o muro dos fundos e seguiram outro caminho. Ambos os grupos tentavam acordar e reunir o maior número possível de adeptos do movimento, muitos dos quais ficaram desnorteados com o início precoce do levante.
 A primeira parada foi a praça do Palácio. A intenção dos malês era arrancar da cadeia seu líder Pacífico Licutan, preso para ser leiloado por causa de uma dívida de seu senhor. Má idéia: os guardas da prisão, que ficava no subsolo da Câmara Municipal, se entrincheiraram e disparavam sem parar sobre os africanos, que também ficaram sob fogo cerrado dos guardas do palácio governamental. Os rebeldes mataram só um dos guardas palacianos e saíram dali, recebendo reforços de todos os lados. Uma tentativa de tomar o quartel do convento de São Bento repetiu o que acontecera na prisão: os soldados se fecharam dentro da fortaleza e acabaram repelindo os malês. A essa altura, alguns deles já tinham morrido.
 Depois desse último combate, o grupo conseguiu se reorganizar perto do convento das Mercês, para onde se dirigiram mais malês vindos do bairro da Vitória, muitos deles escravos de uma colônia de ingleses do lugar. O ataque seguinte dos malês, que já contavam centenas de guerreiros, foi sobre o quartel de polícia no largo da Lapa. Tudo conforme o figurino de novo: dos 32 guardas, dois foram mortos, enquanto os demais recuaram para o interior do quartel e, à bala, impediram que os malês o tomassem.
 Após mais algumas escaramuças, os rebeldes viram que aquilo não estava funcionando. Decidiram deixar a cidade e buscar seus companheiros que viviam no Recôncavo, mas no meio do caminho havia um quartel da cavalaria baiana, numa localidade chamada Água de Meninos. Tentando passar, foram recebidos com uma saraivada de balas e forçados a combater a cavalaria lá fora, enquanto agüentavam os disparos dos soldados a pé dentro do quartel.
 Foi um massacre. Uma primeira carga de cavalaria dispersou o grupo inicial de 50 ou 60 africanos e passou a caçá-los pela estrada. Logo chegaram mais malês, mas não dava para suportar por muito tempo os tiros ininterruptos que vinham do quartel, ainda mais com o baixíssimo número de armas de fogo de que dispunham os rebeldes. Um segundo ataque dos soldados montados encerrou qualquer resistência. No total, cerca de 70 rebeldes tinham morrido, contra apenas nove soldados e civis baianos. Bem antes de amanhecer, tudo estava terminado.
 Saldo da derrota
 A devassa que se seguiu puniu cerca de 500 africanos, mas como muitos processos estão incompletos é difícil identificar a sentença de todos eles. Apenas quatro foram condenados à morte, já que isso acarretaria prejuízos sérios a seus senhores, que recorreram quase invariavelmente desse tipo de sentença. Muitas chibatadas, em geral na casa das centenas, aguardavam 45 deles, enquanto 34 foram deportados de volta à África. É difícil especular qual teria sido o destino da rebelião, se ela tivesse sido vitoriosa.
 “Isso não fica claro, exceto que seria uma sociedade controlada pelos africanos, possivelmente pelos nagôs islamizados. Mas eles não conseguiriam manter-se no poder sem alianças sólidas com outros grupos étnicos e sobretudo com os numerosos nagôs adeptos do culto aos orixás”, diz João José. “A delação certamente selou a sorte dos rebeldes mais cedo, mas os fatores se encontram tanto entre os africanos como entre seus adversários. Além de mais bem armados, estes estavam unidos quando se tratava de dar combate aos africanos, para o que contavam com brasileiros de todas as classes e cores, escravos ou não.”
 O controle sobre os escravos cresceu na Bahia, mas a revolta também ajudou a impor uma redução do tráfico negreiro e, finalmente, sua extinção em 1850, por medo de que mais africanos se unissem como os malês. Segundo João José, os escravos baianos ganharam fama de rebeldes e, de certa forma, isso pode ter aumentado seu poder de barganha junto aos senhores. “O medo foi uma conseqüência nada desprezível que a revolta de 1835 conseguiu fincar por muito tempo na mente senhorial”, afirma.
Reinaldo José Lopes(Revista Aventuras na História, agosto de 2003). 



sexta-feira, 11 de julho de 2014

BANDEIRA DO URUGUAI

As nove listras horizontais na bandeira representam os nove departamentos que originaram o Uruguai.
Quanto ao significado das cores, devido à inspiração francesa, elas expressam os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

O Sol de Maio é uma representação do deus do sol inca, chamado Inti. Sua denominação faz referência à Revolução de Maio, ocorrida na semana de 18 a 25 de maio de 1810, que marcou o início do processo de independência da Espanha dos países que na época formavam o Vice-Reino do Rio da Prata, que continha territórios da Argentina, Bolívia, parte do sul do Brasil, parte norte do Chile, Paraguai, partes do sul do Peru e todo o Uruguai, assim como as Ilhas Malvinas (reclamadas pela Argentina).

terça-feira, 8 de julho de 2014

MITOS E SEGREDOS DE JERUSALÉM

A saga de 4 mil anos da cidade mais importante da história, de acordo com cada uma das 3 grandes religiões que a tratam como lugar sagrado
Uma faixa de terra árida e remota, do tamanho de 2 campos de futebol. Cravada num platô a 760 m de altura, cercada por colinas e distante das rotas de comércio. Sem nenhuma riqueza mineral... Apenas pedras, pedras e pedras. Jerusalém era assim quando nasceu, há mais de 4 mil anos: um assentamento do Oriente Médio como tantos outros, fadado a desaparecer na poeira do tempo.

Por que Jerusalém se tornou a cidade mais importante da História? Como sobreviveu após ter sido duas vezes destruída, 23 vezes sitiada e 44 vezes capturada por povos e impérios tão diversos quanto egípcios, assírios, persas, gregos, romanos, árabes, mamelucos, turcos e ingleses? Como se converteu no solo sagrado de 3 religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo) e capital reivindicada por duas nações (Israel e Palestina)? Por que Jerusalém era - e em grande parte ainda é - o centro do mundo?


A resposta, quem diria, está nas pedras. A começar pela Pedra Fundamental (Even Shetiya, em hebraico), que hoje se encontra dentro do Domo da Rocha - a famosa cúpula dourada dos cartões-postais. Segundo os textos sagrados, foi dela que Deus criou o mundo, que Salomão construiu o primeiro Templo judaico, Jesus caminhou antes de ser crucificado e Maomé ascendeu aos céus. Claro que não sabemos se isso tudo aconteceu, mas nem é preciso: em Jerusalém, os mitos costumam ser mais importantes que as verdades.
"Jerusalém é a única cidade que existe duas vezes: na Terra e no céu", diz o historiador britânico Simon Sebag Montefiore no livro Jerusalém, uma Biografia. "Ela se tornou o ponto de comunicação entre os homens e Deus." Jerusalém é também a única cidade portátil, já que suas sagas terrenas e celestiais são narradas na Bíblia. Ao longo dos séculos, o caráter sagrado dessas pedras tem sido exaltado, e até fabricado, por líderes políticos. E as pessoas continuam se matando por elas.


Jerusalém Judaica



Jerusalém viveu seus primeiros milênios no anonimato. Em 3200 a.C., quando surgiram os núcleos urbanos em Canaã (onde estão hoje Israel e Palestina), a futura Cidade Dourada não passava de um cemitério da vizinha Jericó. A tribo dos cananeus construiu casas ali em 19 a.C. e, no século seguinte, os jebusitas aproveitaram a proteção natural das colinas para erguer uma fortaleza. Conhecida como Sião, a cidadela jebusita abrigava 1,2 mil pessoas em 6 hectares. Uma ninharia perto de centros como a Babilônia, dona de uma área 170 vezes maior.

Só que a Babilônia virou ruína. E Sião - aliás, Jerusalém - foi alçada ao estrelato há 3 mil anos pelos judeus. Segundo a mitologia judaica, eles haviam fugido do cativeiro no Egito e se firmaram em Canaã atendendo a um chamado de Javé, o Deus único. Fundaram os reinos de Judá (ao sul) e Israel (ao norte). "Por volta de 1000 a.C., o rei Davi unificou os dois reinos e escolheu Jerusalém como capital porque não pertencia às tribos judaicas do norte nem às do sul", diz Montefiore. Foi como escolher o Planalto Central para construir Brasília, longe do Rio e de Salvador.
A diferença é que a decisão de Davi mudou o curso da História. Segundo a tradição judaica, o monarca guardou em Jerusalém a Arca da Aliança, que continha as tábuas dos Dez Mandamentos. E seu filho, o rei Salomão, construiu um templo para Javé no topo do monte Moriá, hoje chamado de Monte do Templo - o lugar mais disputado do planeta. Já que ali também seriam construídos o Domo da Rocha e a mesquita de Al-Aqsa, dois ícones islâmicos.
A existência histórica de Davi motivou controvérsias até 1993, quando arqueólogos descobriram uma inscrição em pedra em Tel Dan, norte de Israel. O texto confirmou que a dinastia de Judá era chamada de Casa de Davi, indicando que o rei existiu. Tudo o que sabemos sobre o Templo de Salomão, no entanto, vem da Bíblia. Mas pouco importa. O Templo povoa o imaginário de Jerusalém de forma tão profunda que é impossível entendê-la sem ele. Isso vale para outros objetos que compõem a história da cidade, como a cruz de Cristo.
Com a morte de Salomão, em torno de 930 a.C., os reinos judaicos se dividiram e ficaram à mercê das potências locais: egípcios, assírios e babilônios. No livro Antiguidades Judaicas, o historiador antigo Flávio Josefo diz que em 586 a.C. o rei babilônio Nabucodonosor arrasou Jerusalém, destruiu o Templo e mandou os judeus ao exílio. "Nabucodonosor queria extinguir a cidade, mas só fez aumentar sua importância", diz Montefiore. "Os judeus transformaram a tragédia numa experiência transformadora, que redobrou a santidade de Jerusalém, criando o protótipo para o Dia do Juízo Final."
Em 538 a.C., o rei persa Ciro derrotou os babilônios e converteu Judá em província persa. Batizou-a de Judeia. Mas Ciro permitiu que os judeus construíssem o Segundo Templo no lugar do primeiro. Mas a bonança durou pouco. No século 4 a.C., o líder macedônio Alexandre, o Grande, derrotou os persas e expandiu a cultura grega pelo Oriente Médio. A imposição grega atingiu o auge em 167 a.C., quando o rei Antíoco 4º desfigurou o Templo e o dedicou a Zeus. A afronta estimulou uma resistência judaica em larga escala, liderada pelos macabeus. Em 141 a.C., os guerrilheiros derrotaram a guarnição de Antíoco 4º e fundaram o último estado judeu que existiu por lá até a criação do Israel moderno, em 1948. Por ironia, a dinastia dos hasmoneus, herdeira dos macabeus, abraçou ainda mais a cultura grega e causou uma profunda divisão entre os judeus. O entrevero chamou a atenção do general romano Pompeu, que derrubou as muralhas de Jerusalém em 63 a.C. e montou acampamento no Monte do Templo. Pompeu logo perdeu poder na sede do Império - e a Judeia mergulhou de novo no caos.
Até que Herodes, filho de um líder local, fugiu para Roma e convenceu os senadores de que era capaz de governar a província. Em 40 a.C., obteve deles o título de "rei dos judeus". "Em 37 a.C., tomou Jerusalém após um massacre. Milhares de judeus foram mortos", diz a pesquisadora britânica Karen Armstrong no livro Jerusalém - Uma Cidade, Três Religiões. Herodes pelo menos deixou dois legados. Reergueu as muralhas e reformou o templo judaico, que já tinha 500 anos. "O santuário ficou conhecido como Segundo Templo", diz Armstrong.


Jerusalém cristã



O cristianismo abraçou Jerusalém aos poucos. Para entender essa história, é preciso lembrar que no início do século 1 os judeus estavam divididos em facções. Os saduceus eram aliados da monarquia. Os fariseus eram contra. Os essênios viviam isolados e os zelotes defendiam a luta armada contra Roma. Pôncio Pilatos, o prefeito da Judeia, incitava os judeus espalhando retratos de César pela cidade. Isso gerou o temor de uma nova agressão ao Templo - e aprofundou a sensação de apocalipse. Os rabinos diziam que um rei da linhagem de Davi inauguraria o Reino de Deus. Chamavam-no de mashiah (christos, em grego), que significa "ungido" - Davi havia sido ungido com óleo.

Foi nesse clima de tumulto que uma procissão irrompeu em Jerusalém, por volta do ano 30, na véspera da Páscoa judaica. Seu líder era Jesus, profeta judeu da Galileia (ao norte da Judeia). Segundo a Bíblia, Jesus entrou no Templo e usou um chicote para expulsar os cambistas, acusados de transformar o santuário num covil de ladrões. E profetizou: "Não restará pedra sobre pedra". O que Jesus pretendia? "Só nos resta conjecturar, já que os Evangelhos não fornecem muitas informações", diz Armstrong. Os historiadores hoje sabem que os relatos atribuídos a Marcos, Lucas, Mateus e João foram escritos décadas depois por autores desconhecidos que não testemunharam os fatos. Seja como for, não há por que duvidar que Jesus tenha sido crucificado, pois essa era uma sentença comum usada pelos romanos.
A Bíblia conta que Pilatos obrigou Jesus a carregar uma cruz desde o Pretório até o local da crucificação: o monte Gólgota, ou Lugar da Caveira (Calvarius, em latim). Foi quando Jesus se tornou Cristo: alguns discípulos afirmaram que ele ressuscitara para anunciar o Reino Vindouro. O movimento cristão se expandiu pela costa do Mediterrâneo, sobretudo graças às viagens missionárias de Saulo de Tarso, o apóstolo Paulo.
Desde o início, houve cismas entre os seguidores de Cristo. O grupo de Jerusalém, liderado por Tiago, tinha desavenças com o da diáspora, encabeçado por Paulo - que acabaria prevalecendo. Em 49, os dois polos se reuniram em Jerusalém para tentar um acordo. "Mas o Concílio de Jerusalém foi um fracasso. Delineou um consenso, mas foi impossível levá-lo à prática", diz Paul Johnson no livro História do Cristianismo. Em 66, os zelotes iniciaram um novo levante contra Roma. E o imperador Vespasiano foi implacável. Em 70, enviou uma tropa que sitiou Jerusalém e arrasou o Templo. Flávio Josefo fala em 1,5 milhão de mortos - um exagero, mas que expressa a dimensão da tragédia. Os judeus nunca reconstruíram o santuário, esperando fazer isso após a vinda do Messias. Restou a muralha ocidental, que sustentava a plataforma, o Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado do judaísmo.
Para os cristãos, a tragédia do Templo significou que os judeus haviam perdido o elo com Deus. "Com a destruição de Jerusalém, o cristianismo deixou de ser um partido político do judaísmo e se tornou um partido dos gentios, externo e hostil ao judaísmo", diz o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira na introdução de A Origem do Cristianismo, de Karl Kautsky. Roma seguia perseguindo os cristãos. O imperador Adriano até ergueu um templo dedicado a Vênus no lugar identificado com a tumba de Jesus. E rebatizou Jerusalém de Aelia Capitolina. Tudo mudou no século 4, quando o imperador Constantino se converteu ao cristianismo. "A hierarquia cristã, com seus bispos e presbíteros, tinha um paralelo com a estrutura imperial: haveria um estado, uma religião, um imperador", diz Montefiore.
Constantino enviou a mãe, Helena, a Jerusalém para rastrear os passos de Jesus. Beirando os 80 anos, Helena anunciou ter achado a tumba de Cristo (sob o templo de Vênus, que foi demolido), o lugar da crucificação e até a cruz - algo sonhado por qualquer arqueólogo. Iniciou as obras das igrejas do Santo Sepulcro e da Ascensão e indicou a Via Dolorosa (o caminho pelo qual Jesus carregou a cruz), criando uma rota para os peregrinos. Com a queda de Roma, no século 5, Jerusalém passou para o Império Bizantino. Depois caiu sob domínio persa e muçulmano. Os cristãos só voltariam lá em 1099, quando as Cruzadas tiraram a Terra Santa do Islã. O líder Godofredo de Bulhão morou na mesquita de Al-Aqsa e transformou o Domo da Rocha em igreja.


Jerusalém Islâmica



No século 7, um novo Deus se debruçou sobre as muralhas de Jerusalém. Os exércitos de Alá chegaram trazendo a mensagem revelada a Maomé, um profeta que migrou de Meca a Medina (na atual Arábia Saudita) para formar a primeira comunidade islâmica, a ummah. Maomé foi ao mesmo tempo chefe político e religioso. E essa união entre Igreja e Estado foi mantida no Islã por seus sucessores, os califas.

Quando entrou nas muralhas, o califa Omar comandou a conquista mais pacífica da história de Jerusalém. Rendeu os cristãos sem derramar sangue e permitiu que os judeus rezassem no Monte do Templo após séculos de repressão bizantina. Judeus e cristãos receberam o status de dhimmis ("minorias protegidas"). Eles podiam seguir sua fé desde que pagassem tributos.
A tolerância inicial dos muçulmanos com os "povos do livro" tinha razão de ser. Maomé havia estudado as escrituras judaicas e cristãs. Pregava a submissão ("islã") a Alá, mas respeitando profetas como Moisés e Jesus. No entanto, tal como os monoteísmos anteriores, o Islã reivindicava o seu Deus como o verdadeiro. Isso geraria conflitos nos anos seguintes - e Jerusalém, mais uma vez, seria o palco da disputa. O sinal mais evidente da mudança veio com o califa Abd al-Malik. Ele vislumbrou um império unificado em torno da fé islâmica, tal como Constantino fez ao enlaçar Roma com o cristianismo. Em 691, Al-Malik construiu um imenso edifício octogonal com uma cúpula dourada de 20 m de diâmetro, o Domo da Rocha, exatamente no Monte do Templo - tão sagrado para judeus e cristãos. "O recado de Al-Malik foi claro: o Islã não era mera religião sucessora do cristianismo, mas uma nova e universal revelação", diz o historiador Bernard Lewis no livro O Oriente Médio. "E o califado não era apenas o sucessor de Roma e da Pérsia, mas uma sociedade mundial."
A importância do Domo foi reforçada pelos versículos do Corão (livro sagrado do Islã) gravados em seu interior. Um deles diz: "Não há outro Deus, mas só um Deus, e ele não tem companheiro. Maomé é o Profeta de Deus, que enviou seu mensageiro com a sua orientação e a religião verídica para que faça prevalecer sobre todas as outras" (9:33).
"O califa Al-Walid, filho de Al-Malik, construiu a Mesquita de Al-Aqsa a poucos metros do Domo, formando o primeiro grande complexo de santuários muçulmanos", diz o arqueólogo Eric Cline no livro Jerusalem Besieged (Jerusalém Sitiada, sem tradução no Brasil). Segundo Cline, a obra foi fundamental. Embora o Corão nunca mencione Jerusalém, um versículo narra a viagem noturna que Maomé fez da Mesquita Sagrada, em Meca, a uma "mesquita distante" (al-masjid al-aqsa) - de onde o Profeta teria subido ao céu. A tradição muçulmana associou a "mesquita distante" a Al-Aqsa.
Assim, Jerusalém se tornou a terceira cidade sagrada do Islã, atrás de Meca e Medina. Os muçulmanos primeiro a chamaram de Bait al-Maqdis, numa alusão ao hebraico Beit ha-Mikdash, o nome bíblico do Templo. Depois de Al-Quds ("a Santa", em árabe). E, quanto mais santa, mais dividida Jerusalém se tornou. Pense bem: 3 deuses disputando uma cidade... É como acionar uma bomba-relógio. Coincidência ou não, em 747 um terremoto causou estragos no Domo e na mesquita, que desde então foi restaurada diversas vezes.
Os cruzados conquistaram a Terra Santa com um massacre em 1099, mas o sultão curdo Saladino rendeu-os com cortesia em 1187. No século 13, Jerusalém caiu sob o império dos mamelucos, um povo islamizado da Ásia Central. Foi nessa época que começou a se parecer mais com a Jerusalém Velha de hoje, com os bairros muçulmano, judeu, cristão e armênio - onde se concentraram igrejas ortodoxas. Os mamelucos também construíram madaris (escolas religiosas) sobre os pórticos ao redor do Monte do Templo.
E a velha tolerância chegou ao fim. "Os mamelucos obrigaram os judeus a usar um turbante amarelo, e os cristãos, a usar um azul", diz Montefiore. "Seus dias de minorias protegidas eram coisa do passado." No século 15, Jerusalém caiu sob o domínio do último califado muçulmano, o dos turcos-otomanos. Eles mantiveram 400 anos de relativa coexistência entre os habitantes e restauraram o espaço público. Foi o sultão otomano Solimão, o Magnífico, que mandou reerguer as muralhas da cidade - que podem ser vistas até hoje.


Texto Eduardo Szklarz | Ilustrações Bruno Algarve (Aventuras na História - março de 2012).