quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Como o acidente na usina de Three Mile Island mudou a trajetória da energia nuclear

Antes do colapso dos reatores de Fukushima, em março, e da catástrofe de Chernobyl, em 1986, a usina de Three Mile Island, na Pensilvânia, redefiniu os rumos da exploração da energia nuclear nos Estados Unidos. Após o acidente de 1979, o programa atômico local foi praticamente congelado por três décadas e suas consequências ecoaram por todo o planeta. Assim como o tsunami japonês hoje mergulhou os investimentos mundiais do setor na incerteza, Three Mile acendeu o debate sobre o legado atômico, ainda que com fins pacíficos. A então "energia do futuro" escancarou seus riscos e ganhou contornos de "força diabólica" em 28 de março.
Às 3h53 daquela quarta-feira, parte dos moradores da cidade de Harrisburg acordou com um barulho ensurdecedor. Lembrava o som de uma chaleira, mas era tão potente quanto o de um jato decolando. Vinha da usina na ilha de Three Mile, no rio Susquehanna. Abaixo dos condensadores de 57 m de altura, na sala de controle do complexo, quatro funcionários tentavam se manter acordados com café, observando as 1,2 mil luzes indicadoras do painel central, que tomava três paredes. Involuntariamente, eles transformariam uma falha mecânica num incidente muito mais sério.

 Toda usina nuclear é, em verdade, um grande motor a vapor. Durante a operação normal, a temperatura do reator nuclear é mantida sob controle pela água (ou outro elemento que favoreça a refrigeração) - pense numa panela de pressão no fogo: enquanto há alguma coisa dentro dela, o calor é transferido para o que está sendo cozido e a temperatura se mantém constante. Mas, se a panela ficar vazia, ela superaquece e pode acabar destruída. As bombas de água de Three Mile falharam por motivos ainda hoje desconhecidos. (As de Fukushima, coincidentemente, estão no centro da crise no Japão.) Medidas de segurança faziam com que muitas funções da usina fossem automáticas e a turbina parou de pronto. O acúmulo de vapor elevou a pressão, uma válvula automática se abriu e o liberou a cerca 100 kg por cm2. Foi esse o estrondo ouvido pelos vizinhos. Em oito segundos, o reator foi desligado também automaticamente, usando varetas de segurança, de material que absorve radiação, encaixando-se entre as varetas de combustível nuclear - bloqueando a reação em cadeia. Mas o efeito não é imediato, e o calor residual precisa ser contido por água ou por um fluido refrigerante especial. A bomba de fluido estava em manutenção e, mesmo sendo ativada como o esperado, o material não chegou ao reator. A válvula de emergência permaneceu aberta e ele perdeu ainda mais água.


Decisão errada

A equipe da usina fez o que pôde para tentar controlar a situação. O painel piscava insistentemente e alarmes tocaram, mas as informações que os funcionários recebiam eram confusas. Não sabiam da válvula aberta nem tinham nenhum indicador do nível de água ou fluido refrigerante dentro do reator. Assim, usaram os medidores de pressão para julgar a situação - como a pressão continuava a subir, concluíram que havia líquido no reator e cortaram o suprimento de água. Só pioraram a situação.
Enquanto os operadores debatiam o que fazer, o nível de água baixou a ponto de descobrir as varetas de urânio radioativo. Este derreteu e atingiu a água que ainda havia no fundo do reator. A água e o vapor contaminados continuaram a vazar pela válvula de emergência e formaram uma camada de aproximadamente 60 cm de líquido no chão das instalações.
Às 6h56, o diretor da usina declarou emergência. Minutos depois, uma sirene alertava todos os empregados para que abandonassem as áreas críticas. As autoridades locais foram avisadas na hora seguinte, e a notícia chegou à Casa Branca às 9h15. Às 11 horas, todo o pessoal já havia sido removido da usina, exceto os funcionários que tentavam resolver o problema. Ninguém sabia ainda que o núcleo havia derretido. Só por volta das 15 horas a falha foi identificada, e as bombas de refrigeração foram ligadas adequadamente uma hora depois.
Pela TV, a população recebia notícias contraditórias. O pânico foi geral: 140 mil pessoas fugiram de sua casa, as escolas fecharam e os fazendeiros esconderam seu gado, temendo uma chuva radioativa. Na sexta-feira, a notícia de que havia o acúmulo de hidrogênio na câmara de vapor levou ao temor de que a usina fosse explodir, mas a situação acabou controlada.
O reator foi fechado. A retirada do material radioativo começou no ano seguinte e terminou apenas em 1993. Reaberto em 1985, o segundo reator de Three Mile funciona até hoje.
A radiação liberada no incidente foi mínima, equivalente a 1/6 de uma chapa de raio X para as pessoas a 2 km da usina. Não houve vítimas, mesmo entre os funcionários.

Coincidência

Na verdade, houve uma: a reputação da energia nuclear. Protestos começaram nos Estados Unidos e se repetiram no mundo todo. Em setembro de 1979, Jane Fonda levou 200 mil pessoas às ruas de Nova York para pedir o cancelamento da construção de usinas nucleares. A atriz tornou-se a cara e a voz da militância antinuclear. Ela era a protagonista do filme A Síndrome da China (de James Bridges), lançado 12 dias antes do acidente, numa impressionante coincidência. Na trama, ela é uma repórter de TV que presencia uma parada de emergência dentro de uma usina. A diretoria, inescrupulosa, recusa-se a tomar as medidas adequadas e tenta encobrir a situação - material radioativo atinge o solo e torna inabitável uma área "do tamanho do estado da Pensilvânia" (pouco maior que Santa Catarina).
O nome do filme vem da ideia de que as substâncias radioativas liberadas num acidente assim poderiam corroer a crosta da Terra e chegar ao outro lado do mundo - a China. Era um termo corrente nas revistas populares de ciência, e um evidente exagero. As equipes de relações públicas da indústria nuclear rapidamente acusaram o filme de panfletismo radical e tecnofóbico, mas o episódio em Three Mile Island parecia cumprir uma previsão macabra. Para não parecer estar explorando o desastre, o estúdio tirou Síndrome de alguns cinemas, mas, ainda assim, foi o oitavo longa-metragem mais visto em 1979.
Empresas do setor passaram a ser acionadas na Justiça. Sob pressão do público e das leis, a construção de novas usinas caiu rapidamente. Mas o prego no caixão da indústria nuclear veio em 1986, quando a usina de Chernobyl, na Ucrânia, se incendiou e o teto desabou sobre o reator, que havia derretido, liberando uma quantidade imensa de radiação no ambiente. Houve falha humana. Trinta e duas pessoas morreram em poucos dias e, no mínimo, 5 mil nos anos seguintes. "O número de usinas no mundo se manteve praticamente o mesmo desde 1986, com algumas novas apenas substituindo as que eram desativadas", diz Ivan Salati, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Retomada

No Brasil, as obras de Angra II ficaram paralisadas até 1998. "Após Three Mile Island, todos os reatores em operação e os em construção adotaram algumas modificações e introduziram sistemas de segurança adicionais justamente para que um acidente daquele tipo não ocorresse. Foram acrescentadas válvulas e modificados procedimentos e treinamentos para evitar erro humano", afirma o diretor de segurança da CNEN, Lárcio Vinhas. "Atualmente, há 58 usinas em construção no mundo, e o Brasil planeja mais quatro", diz Salati.
A maior causa da volta das usinas após Three Mile e Chernobyl é a demanda por energia limpa, que não agrave o aquecimento global. O substituto mais "barato", as usinas termoelétricas, queimam combustíveis fósseis, que têm forte impacto. "A energia nuclear é certamente uma das mais seguras em relação ao efeito estufa", afirma Salati.
As usinas nucleares produzem lixo atômico, mas esse é um resíduo sólido. Na atmosfera, só lançam vapor de água (não radioativo). Por isso, ambientalistas como James Lovelock (pai da tese de que a Terra é um organismo vivo) passaram a defender a opção nuclear na última década. A "renascença" da solução atômica levou um banho de água fria com o maremoto de março. A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu o fechamento dos reatores nucleares mais antigos do país. Outras nações reavaliam seus programas e podem seguir o mesmo caminho. Países como a França e o Brasil, porém, não recuaram. Patrick Moore, um dos fundadores do Greenpeace e defensor da alternativa nuclear, acusou a imprensa de sensacionalismo: "Eles deveriam estar preocupados mais com os 500 mil desabrigados ou com os 10 a 15 mil que morreram por essa coisa (o tsunami). Os reatores não mataram ninguém". Entre os próprios ecologistas, a polêmica está mais acesa do que nunca. Para Kumi Naidoo, atual diretor-executivo do Greenpeace, a opção nuclear "é uma distração cara e mortífera às verdadeiras soluções", baseadas em fontes de energia não fósseis e renováveis.


Escala de perigo

Algumas das mais graves ocorrências já registradas
A Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU, adota 7 níveis de alerta nuclear.
De 1 a 3, trata-se de "incidentes" e, de 4 a 7, de "acidentes". A cada um, a gravidade é 10 vezes maior que o nível anterior, segundo o alcance e o impacto.
Fukushima - 11/3/2011 (Japão)
Terremoto e tsunami cortaram a energia das bombas de resfriamento de três reatores, que "derreteram".
Césio 137 - 13/9/1987 (Brasil)
Material de equipamento médico foi achado num lixão, contaminando catadores que o manusearam e o ambiente - quatro morreram.
Chernobyl - 26/4/1986 (Ucrânia)
É o mais grave. O sistema de controle à base de grafite falhou. Mortes passam de 5 mil.
Three Mile Island - 28/3/1979 (EUA)
Erro humano agravou defeito no sistema de refrigeração. Não houve vítimas.
Kyshtym - 29/9/1957 (Rússia)
Reacão química (não nuclear) no material armazenado na usina de Mayak causou uma explosão, que espalhou radiação por milhares de quilômetros. Mortes passam de 200.
Fabio Marton (Aventuras na História, julho de 2012). 

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