segunda-feira, 29 de setembro de 2014

JUDEU POLONÊS SOBREVIVEU A 7 CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

Judeu polonês sobreviveu a sete campos de concentração nazistas em quatro países. Conheceu Stalin, virou paraquedista e instrutor militar em Israel e acabou imigrando para o Rio de Janeiro, onde foi taxista até dois anos atrás
Flávia Ribeiro (Revista Aventuras na História - Maio de 2012).
"É cobra. Pode jogar no bicho que dá cobra", diz, com um sorriso largo, o taxista aposentado Alexander Liberman sobre o número marcado em seu antebraço esquerdo: A18.534. O bom humor certamente o ajudou a chegar aos 80 anos e não dá pistas do que a vida lhe reservou até aqui. Aos 9 anos, levou um tiro e passou por sete campos de concentração na Polônia, Alemanha, Áustria e Bósnia. Perdeu pai, mãe e três irmãos, mortos pelos nazistas. Com o fim da Segunda Guerra, foi levado para a Rússia e conheceu Josef Stalin. Soldados soviéticos ficaram tão impressionados com seu precário estado de saúde que decidiram mostrá-lo ao ditador. Em 1947, embarcou no navio Exodus para Israel, que levava ilegalmente refugiados judeus, mas acabou preso na ilha de Chipre após confrontar tropas inglesas que interceptaram o navio. Mais tarde, já sargento do Exército israelense, foi atingido por estilhaços de duas granadas durante a Guerra de Independência do país. Uma delas o deixou surdo de um ouvido. Tudo isso até os 21 anos de idade.
 Aos 25, veio para o Brasil, onde foi motorista de táxi até cerca de dois anos atrás nas ruas do Rio de Janeiro. E só recentemente ganhou coragem para contar sua história: "Antes eu me revoltava... Agora conto porque já estou no final... É lógico que me emociono lembrando, já tive muito pesadelo com isso. Mas não tenho mais. O que tinha que passar, passei. Perdi tanta coisa na minha vida... Mas agora estou tranquilo."
Como era sua vida antes da guerra?
Tive uma infância tranquila até os 9 anos. Meu pai era comerciante de material de sapateiro, com meu tio. Nasci na Polônia, em 1930. Eu tinha três irmãos: um de 7 anos, uma de 3 e uma bebê de 6 meses.

O que houve com sua família após a invasão da Polônia, em 1939?
Os alemães logo caíram em cima dos judeus. Primeiro, foram à loja e levaram meu pai e meu tio para Treblinka. Soubemos que os dois foram mortos na guilhotina lá. A gente se escondeu no forro de casa por dois meses, vivendo do que havia na cozinha. Fomos descobertos, nos levaram para um polígono da cidade e botaram a gente na fila para morrer. Vi pessoas sendo fuziladas. Aí pegaram minha irmãzinha de 6 meses, jogaram para o alto e atiraram, como se fosse uma brincadeirinha. Gritei na hora para minha mãe: "Vou fugir. Não vou dar minha cabeça!" Fugi, me desviando das balas, mas uma pegou aqui (mostra uma cicatriz no abdômen). Consegui sumir na floresta que havia ali perto.

Alguém da sua família sobreviveu?
Não sei quando morreram. Não achei nada. Mas morreram, ou eu teria achado. Procurei, mas nunca tive notícia. Descobri um tio em Israel. Depois, achei uma tia na Argentina e um tio no Uruguai.

E o tiro no abdômen?
Essa bala não caiu num lugar para me matar, né? Encontrei seis ou sete pessoas escondidas na floresta. Tinha que entrar naquele grupo que estava lutando com os alemães. Eu era o mais novo, mas era bem desenvolvido e acharam que eu podia ajudar em alguma coisa. Arrumamos gaze e iodo para o ferimento. E não inflamou.

Como era a vida na floresta?
Vivíamos em cima das árvores para não sermos vistos. Os outros tinham fuzis. Me arranjaram um revólver pequeno e me ensinaram a atirar. Fiquei uns dois meses com esse grupo. Éramos partisans. Íamos às casas próximas pegar comida, mas não tinha muito. Uma vez me mandaram à cidade comprar comida, achando que, porque eu era criança, não desconfiariam de mim. Quando eu estava saindo da loja, dois soldados me viram e perguntaram: "Você é judeu?" Eu disse que não, mas me levaram para um quarto e abaixaram minha calça. Fui levado para um campo de trabalho em Budzyn, onde plantávamos batatas. Fui escolhido várias vezes para morrer, mas me escondia nos barracões lotados. No dia seguinte, saía para trabalhar normalmente. Alguns meninos conseguiram se esconder, outros foram achados e morreram. Passei por sete campos de concentração. Em alguns, fiquei só um período de quarentena antes de ser mandado para o que deveria ficar mesmo. Com a guerra já braba, os russos se aproximaram e os alemães levaram a gente para o campo de Majdanek, com sete câmaras de gás. Os nazistas me escolheram para arrancar os dentes de ouro dos judeus mortos usando alicates. Tinha gente que sobrevivia e pedia: "Arranca os dentes, mas não conta que estou vivo!" Tirei dentes de ouro de pessoas vivas. Não doía, não gritavam. Depois, fomos levados embora, a pé.

Quando?
Eu não sabia mais do tempo. Sabia que estava no galinheiro com as outras galinhas e que precisava arranjar um jeito de sobreviver. A guerra é uma confusão danada.

Como o senhor lidava com tudo isso?
Só pensava em viver. Vi um tio morrer e não chorei. Encontrei o irmão do meu pai num dos campos - morreu de tifo. Não dava tempo de chorar. Chorei uma só vez, quando fui pego, aos 9 anos. Achava que ia morrer, mas nunca pensei em entregar os pontos.

Mas o senhor não sentia revolta?
Claro! Quando pedi ajuda a Deus, não fui atendido. Eu disse então: "Sou ateu!" E eu me revoltava comigo mesmo por ter nascido judeu. Se eu não fosse judeu, não estaria passando por tudo aquilo. Era o que eu pensava. Perdi tanta coisa na vida... e era uma criança. Eu não entendia.

E depois de Majdanek?
Fui levado para Birkenau, em Auschwitz. Foi lá que me marcaram, botaram o número no meu braço: A18.534. Pode jogar no bicho que dá cobra! Foi um dos campos em que estive de passagem. Lá me ensinaram a ser ferramenteiro. Para não morrer, tinha vontade de aprender tudo. Me levaram para trabalhar numa fábrica de aviões e canhões. Fui para um lugar chamado Laurahütte (um subcampo do complexo Auschwitz-Birkenau). O engenheiro de lá gostava do meu serviço, tinha pena de mim e me dava, escondido, uns sanduíches. Mas os americanos se aproximaram e tive de me mudar de novo. Fomos para vagões de trem superlotados. Levaram a gente para Mauthausen-Gusen (Áustria) e depois para Dachau (Alemanha). Ficamos também pouco tempo. De lá, fomos para o campo de Gradiska (Bósnia). Quando cheguei, em 1945, eu já estava tão magro que parecia um esqueleto vivo. Estava com 14 anos e com tifo, mas eu ainda não sabia.

Como foi sua libertação?
Os russos chegaram e libertaram o campo (em 23 de abril de 1945). Eles me viram daquele jeito, ficaram impressionados por eu estar vivo e disseram: "Temos de mostrar esse aqui para alguém!" Então me limparam e me botaram num avião para Moscou. Me levaram ao Kremlin. Encontrei Stalin e ele me perguntou se eu sabia falar russo. Eu falava um pouquinho. Stalin me disse que eu seria bem tratado e mandou me botarem num internato em Moscou. Eu estava muito fraco e tinha um grupo de garotos vagabundos. Eu estava com uma roupa boa, que os russos me deram. Quando dormi, veio um mais forte e levou minha roupa. O que eu ia fazer? Roubei a roupa de um menino ainda mais fraco e fui embora. Achei a Cruz Vermelha e pedi para ir para a Polônia.

O senhor conseguiu?
Voltei, mas estava muito fraco. Estava bem doente, com febre e manchas no corpo: era tifo. Fiquei meses no hospital. Quando saí da cama, não conseguia andar. Chegou um avião dos Estados Unidos para levar uma turma para lá, mas eu não quis ir.

Por que não?
Tinha medo de que me matassem. Queria ir para Israel, mas acabei indo para a Alemanha. Me levaram para um internato para sobreviventes de guerra em Landsberg am Lech, onde fiquei dois anos. Já tinha um grupo de Israel lá, o Haganah Palmach (uma milícia). Aprendi hebraico - antes, falava polonês, alemão, iídiche e um pouco de russo. Fizemos treinamento de táticas de guerra. Em 1947, eu estava com 16 anos, chegou o Exodus (navio que levava refugiados para Israel). Eu queria ficar com os que sofreram como eu. Não queria me afastar dos judeus. Sabíamos que iríamos lutar lá e já tínhamos aprendido a lutar na Alemanha. Já tivemos que lutar no navio, com os ingleses (em 1947, a Inglaterra proibiu a imigração clandestina para Israel. O Exodus, com 4515 sobreviventes do Holocausto, foi o primeiro navio a receber a ordem marítima policial, em 18 de julho. Houve combate a bordo e três pessoas morreram). Fui mandado para uma prisão no Chipre, onde fiquei uns dois meses. Primeiro tentei fugir dentro de um caminhão de lixo, mas me pegaram. Com 17 anos, fui solto e consegui ir para Israel. Fui direto para um kibutz trabalhar na terra e aprender coisas do Exército. No Exército, fui treinador de recrutas e paraquedista. Lutamos contra os árabes, participei da Batalha do Egito. Isso foi em 1948, por aí. A gente libertou Israel. Fiquei nas Forças Armadas até 1951.

Como foi sua participação na guerra?
Saltei de paraquedas em lugares perigosos. Uma vez, nosso helicóptero desceu no deserto de Negev. Teve tiroteio e fui atingido, atrás da orelha esquerda, por estilhaços de uma granada. Fiquei três meses no hospital e sou surdo desse ouvido. Também tenho uma cicatriz na perna direita por causa de outra granada. Em Israel, me casei. Tenho duas filhas lá, seis netos e sete bisnetos. Trabalhei em construção, em muita coisa.

Por que o senhor veio para o Brasil?
Eu achava que tinha direito a alguma coisa lá (uma indenização), mas eu não tinha pistolão. Pensei: "Depois de tudo o que eu fiz, ainda preciso de pistolão?" Aí me aborreci, quis ir embora, em 1958. Vim com uns amigos. Depois, minha mulher veio com minhas filhas, uma com 3 anos e a outra com uns 9 meses. Moramos em Ramos (no Rio de Janeiro), mas ela não aguentou a umidade. Tinha bronquite, quis voltar para Israel. Mas eu não podia, né? Trabalhava como vendedor.

O que o senhor fez aqui?
Eu não falava português. Vendia roupas de porta em porta lendo um texto. Me naturalizei brasileiro em 1963. Tive uma loja de modas em Ipanema, depois um salão de cabeleireiro e uma butique na Gávea. Nessa época, arranjei uma úlcera. O doutor Gazzola, um médico que alugava um quarto na minha casa quando era estudante, me operou. Nessa operação, ele tirou aquela bala do abdômen! Depois, a butique não andava bem. Comecei a trabalhar como motorista de táxi nos anos 1960 e foi assim até dois anos atrás. Uma vez, fui sequestrado. Me deram uma injeção de gasolina, me roubaram, mas não levaram o táxi. Isso foi há uns 30 anos. Outra vez, escapei de um assalto no Flamengo me jogando debaixo do carro. Hoje, tem uma pessoa que dirige meu táxi. Recebo uma indenização dos alemães, uma mixaria, e outra mixaria de aposentadoria. Mas me casei de novo aqui (com a católica Lenice, 60 anos), tive dois filhos: o Anderson (engenheiro, 30) e a Alexandra (designer, 25).

O senhor tem algum contato com suas filhas em Israel?
Eu não tinha nenhum contato. Ela (aponta para Alexandra) é que achou minhas filhas e foi à casa delas lá. Quando elas saíram daqui, tentei me comunicar, mas não consegui. Fui ao consulado, pedia ajuda a quem ia para Israel e nada. Falei com minhas filhas (Hedva, 55 anos, e Yocheved, 53) por telefone. Fico feliz de saber que estão bem. Um dos meus netos já veio me visitar (Alexandra explica que, na verdade, foram elas que os encontraram com a ajuda do Museu do Holocausto de Washington).

Por que o senhor demorou tanto para contar sua história?
No táxi, jornalistas viam esse número no meu braço e queriam que eu contasse a minha vida. Mas o meu advogado, na época, achava melhor não para não atrapalhar as coisas com a indenização dos alemães. E antes eu não conseguia nem contar porque me revoltava. Agora conto porque já estou no final... Lógico que me emociono lembrando, já tive muito pesadelo com isso. Mas não tenho mais. O que tinha que passar, passei. Perdi tanta coisa na minha vida... Agora estou tranquilo.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A CIÊNCIA NAZISTA

Os pesquisadores alemães eram os mais capacitados do planeta e muitos deles colocaram seu conhecimento a serviço do 3º Reich. Há uma coleção de atrocidades - e outra de avanço científico


O testemunho que você leu na página anterior lembra o sofrimento que milhões de pessoas enfrentaram nos campos de concentração. Mas é o relato de um dia de trabalho no projeto científico mais importante da Alemanha nazista: a fábrica subterrânea de mísseis Mittelrwerke (Fábrica Central). Lá se produzia o artefato bélico mais espetacular do planeta: o V2, foguete de 14 toneladas, capaz de chegar a 80 km de altitude e que causou pesados danos a Londres na 2ª Guerra. O primeiro objeto a ir além da atmosfera terrestre era a menina dos olhos de Hitler. Tanto que, assim que a "bela adormecida" - apelido da antiga fábrica do V2 - foi bombardeada pelos aliados, o Führer não mediu esforços para transferi-la para baixo da terra, em 1943. "Não deem atenção ao custo humano", disse o responsável pela obra, Hans Kammler. Mais de 20 mil prisioneiros morreram na fábrica - contra 7 mil baixas causadas pelo V2 na Inglaterra. A decisão de usar mão de obra escrava na construção como forma de reduzir custos foi aprovada por Wernher von Braun, criador e supervisor dos mísseis V2.


EUA, 15 de julho de 1969. Em uma entrevista sobre o lançamento da nave Apollo 11, um repórter pergunta a um dos responsáveis pelo projeto: "Você pode garantir que o foguete não vai cair em Londres?" Irritado com a ironia, o cientista abandona o evento. Haviam se passado 26 anos desde os mísseis de Nordhausen lançados sobre Londres. Ele trabalhava para os americanos desde 1945 (chegou à Nasa em 1960). Mas o fantasma do V2 ainda assombrava Von Braun.
A ida de Von Braun para a Nasa está longe de ser um caso isolado na diáspora de cérebros que ocorreu na Alemanha pós-guerra. Os cientistas de Hitler se transformaram em artigo de primeira no mercado científico-militar internacional. Herdeiros de um tempo em que a Alemanha era a meca da ciência mundial - mais da metade dos prêmios Nobel em ciência e medicina até 1921 eram alemães -, conheciam os segredos por trás das maravilhas tecnológicas nazistas: motor a jato, míssil teleguiado, submarinos, transmissão de tevê, armas químicas, foguetes. Inglaterra, França, EUA e URSS se lançaram em uma corrida pelo maior número de cientistas alemães ainda antes do fim da guerra. Colocar as mãos nesse conhecimento traria vantagens políticas e econômicas para qualquer país.


Os americanos montaram o projeto Alsos para buscar reatores nucleares dentro da Alemanha em 1943. Ian Fleming, criador de James Bond e membro da Inteligência Naval britânica, tomou parte na T Force - seu grupo foi o primeiro a chegar à fábrica dos V2. Mas como isso tudo começou? Como o ideal de superioridade da raça ariana se transformou em objeto - e objetivo - da ciência alemã? De que forma a guerra contribuiu para o avanço tecnológico? Para responder a essas perguntas, é necessário voltar no tempo.



"Os guardas nos tocam a uma velocidade infernal, gritando e despejando golpes sobre nós, ameaçando-nos com execução, os demônios! O barulho vara o cérebro e rasga os nervos. O ritmo demente dura 15 horas. Chegando ao dormitório, nós nem sequer tentamos os catres. Bêbados de exaustão, desabamos nas pedras, no chão. Atrás, os guardas nos empurram. Os de trás passam por cima dos camaradas. Logo, mais de mil homens desesperados, no limite da existência e dilacerados pela sede, jazem ali à espera do sono que jamais vem. Pois os gritos dos guardas, o barulho das máquinas, as explosões e o clangor do sino da locomotiva nos alcançam mesmo assim."


Jean Michel, líder da Resistência Francesa preso pelos nazistas, trabalhador escravo em 1943 na fábrica subterrânea de foguetes V2



Ideologia e ciência



1932 - Um professor apelidado de Rassen-Günther (Günther-Raça) estreia na cadeira de antropologia da Universidade de Jena, na Alemanha. Ele explica as ideias do colega Alfred Plötz: "Os avanços da medicina encorajam a sobrevivência de cepas humanas degeneradas. Isso atrapalha o desenvolvimento natural das pessoas mais capazes e impede a supremacia do povo nórdico". Na sala, um aluno ouve o professor com atenção. Em suas mãos, o livro que deu origem ao apelido de Günther: Rassenkunde des Deutschen Volkes (Higiene Racial do Povo Alemão). Nome do aluno: Adolf Hitler.



A doutrina da higiene racial nasceu da eugenia, ciência que prega a seleção genética em seres humanos. Mas o berço do ideal de pureza racial não foi a Alemanha. O primeiro Congresso Internacional de Eugenia aconteceu em 1912 na Inglaterra e contou com a presenca de gente da estirpe do ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill, o inventor Alexander Graham Bell e o filho de Charles Darwin, Leonard Darwin. A nova ciência se espalhou rapidamente para os EUA, onde mais de 100 mil pessoas foram esterilizadas, no período de 1907 a 1960, com base nela. Naquela época, a eugenia não era vista como uma maluquice, mas como uma ciência respeitável, praticada internacionalmente. Nas mãos do futuro Führer, transformou-se em arma política.



O nazismo já tinha na ciência sua justificativa ideológica. E usou-a de novo com objetivo militar. Diante da restrição à produção de armamentos imposta pelo Tratado de Versalhes, após a 1ª Guerra, o Exército alemão concluiu que só existia uma saída: se não é possível vencer pela quantidade de armas, o jeito é investir na qualidade. Quando a opinião dos militares caiu nos ouvidos de Hitler, a vida dos cientistas alemães mudou: o Führer meteu o bedelho na ciência. Que preparo tinha Hitler para lidar com cientistas? Nenhum. Mas isso não era problema. "Hitler achava que tinha respostas para assuntos como munição, aeronaves, ciências naturais, engenharia. Era quem menos queria ouvir os especialistas. Não havia nada que você pudesse dizer a ele", diz o historiador Michael Kater, autor de Doctors Under Hitler (Médicos sob Hitler) e mais 7 livros sobre o nazismo.



Quanto mais conhecemos os mentores e o ideário por trás do projeto científico nazista, mais difícil entender como ele originou uma das principais revoluções científico-tecnológicas da História. Segundo um dos historiadores mais respeitados no assunto, isso se deve a uma visão simplista: "Existe o mito de que a política é capaz de contaminar o desenvolvimento da ciência. Mas, na realidade, o fascismo pode ser um estímulo para a ciência de qualidade", afirma Robert Proctor, pesquisador da Universidade Stanford. Para Proctor, algumas das descobertas mais significativas do período foram feitas não apesar dos objetivos raciais e militares dos nazistas, mas por causa deles. "Os nazistas tinham objetivos malignos, mas não eram idiotas. Alguns desses objetivos, como a política racial, foram a fonte de grande parte da ciência de ponta." Entender o desenvolvimento da ciência nazista já é um desafio difícil, mas pode piorar. Como no caso dos médicos, que ao se formar juram viver para curar pessoas e se dedicaram a pesquisas sórdidas com seres humanos.


"Hitler achava que tinha respostas para assuntos como munição, aeronaves, ciências naturais, engenharia. Ele era quem menos queria ouvir os especialistas."

Michael Kater, historiador



Médicos e monstros



Trancafiados em enfermarias e laboratórios nazistas, seres vivos passavam por atrocidades inimagináveis. Taxados de Lebensunwertes Leben (vidas indignas de serem vividas), eles eram mantidos em água gelada, obrigados a ingerir gás mostarda, usados como "viveiros" de bactérias, fuzilados com balas envenenadas, queimados com bombas incendiárias, amputados sem necessidade e torturados em câmaras de baixa pressão. Diante de tanto horror, é inevitável a pergunta: por que médicos fizeram isso?



A resposta está na situação em que se encontrava a medicina quando Hitler chegou a poder. Em 1933, os médicos formavam a profissão com maior filiação ao partido nazista: 44,8% deles tinham carteirinha. Os advogados, em segundo lugar, não chegavam a 25% de adesão. Além do peso político do nazismo, outra situação ajudou a estimular a xenofobia entre os médicos: "Os judeus estavam super-representados na medicina. Em Viena, eles formavam 80% da categoria", afirma Kater. Esses fatores catapultaram o fanatismo nazista, agravando ainda mais o racismo. E despertaram o interesse em defenestrar a "máfia judia" em busca de vantagens pessoais. O judeu inferior, que roubava o emprego dos arianos superiores, agora deveria ser exterminado feito um rato.



Com a demissão em massa de judeus e a demanda de profissionais para purificar a raça, não faltou mais trabalho para os médicos. Em 1939, eles examinaram 250 mil pacientes psiquiátricos e condenaram 75 mil à eutanásia. Quando o programa de extermínio de doentes foi desaprovado publicamente em 1941, eles continuaram o trabalho. Em segredo, mataram mais 100 mil de fome. O know-how adquirido foi usado no projeto Solução Final, cujo objetivo máximo era o extermínio de 11 milhões de judeus em campos de concentração. Ali, cientistas nazistas ponderaram: "Judeus são ratos. E ratos são cobaias. Logo, judeus são cobaias". É possível que um raciocínio simples como esse explique a conduta de muitos dos 350 médicos envolvidos em experiências que usaram humanos.



Um desses médicos teve atitudes que nem a fria lógica nazista justifica: jogou prisioneiros em caldeirões ferventes, injetou tinta em olhos de crianças, uniu gêmeos cirurgicamente e dissecou anões vivos. Que explicação você daria para os atos do médico conhecido como o "anjo da morte" de Auschwitz, Josef Mengele. "Louco, doente, demônio" são respostas que vêm à mente quase por instinto. Reagir emotivamente à repugnância moral é uma atitude humana. Mas amaldiçoar o homem que extrapolou os limites da criatividade mórbida, especialmente em experimentos com gêmeos, não nos traz mais compreensão sobre o assunto. Para entender a mente de Mengele, o historiador Robert Lifton fez estudos biográficos minuciosos e realizou entrevistas com ex-médicos nazistas. ¿Eu não acho que a psicologia de Mengele esteja além da nossa compreensão¿, diz Lifton. ¿Mas ele é um caso extremo e é necessário se esforçar ao máximo para isso.¿



O uso de cobaias humanas podia não ter justificativa ética, mas tinha razão prática: ajudar o Exército alemão. Pilotos e soldados passavam por situações-limite, como exposição a mudanças bruscas de pressão, imersão em água gelada, queimaduras e infecções. Estudar essas condições implicava aumentar a chance de sobrevivência dos militares. Mas como fazer isso? Se o limite das experiências era a morte, os prisioneiros nos campos de concentração forneciam material farto como nunca antes ¿ e, claro, depois, como cadáveres. Os experimentos eram cruéis, mas alguns produziam resultados significativos. Um exemplo: a melhor técnica atual de aquecimento em casos de hipotermia é baseada em dados obtidos nessas experiências.



Resultados como os das pesquisas de hipotermia contestam a visão de que os experimentos nazistas não passavam de pseudociência. Segundo um estudo da Sociedade Max Planck que durou 6 anos e custou US$ 5 milhões, pode haver valor científico até nas atrocidades de Mengele. Segundo a líder do estudo, Susanne Heim, os experimentos dele, no contexto científico da época, "não eram totalmente implausíveis". Obsessões, como as que Mengele tinha com gêmeos em seus estudos, podem ter impulsionado até a busca por conhecimento científico de vanguarda. Um exemplo é o pioneirismo dos nazistas na produção de estudos sobre a relação entre o hábito de fumar e o câncer de pulmão. Segundo o historiador Robert Proctor, isso ocorreu por uma característica nazista conhecida como "paranoia homeopática": a fixação por pureza e o temor de conviver com "toxinas presentes na comida e no ar".



É incontestável que os experimentos com humanos foram antiéticos. Mas, dos 350 médicos envolvidos nessas experiências, poucos foram julgados. Entre os 23 réus do tribunal especial para médicos em Nuremberg, incluindo Karl Brandt, líder do programa de eutanásia e clínico pessoal de Hitler, 7 foram absolvidos, 7 condenados à morte e o restante foi para a prisão. Mengele não estava entre eles. Livre, teria passado seus últimos dias no Brasil. Mas o destino de muitos cientistas nazistas capturados foi bem diferente do banco dos réus: laboratórios de instituições científicas dos países aliados.



A hora da pilhagem



"Se os americanos têm mesmo a bomba de urânio, vocês são todos cientistas de segunda categoria!", afirmou o físico Otto Hahn a seus colegas de cativeiro semanas antes da explosão em Hiroshima. O descobridor do princípio por trás do funcionamento da bomba atômica e mais 9 cientistas de elite alemães estavam presos em um lugar nada convencional: uma casa de tijolos vermelhos em estilo georgiano na periferia de Godmanchester. Farm Hall, perto de Cambridge, no leste da Inglaterra, era o endereço em que o governo britânico mantinha o maior tesouro intelectual que conquistou no fim da guerra: a nata da física quântica alemã. A ideia era convencê-los a trabalhar para o país. Mas, se dependesse do líder do projeto nuclear alemão, Werner Heisenberg, não seria tarefa fácil. "Nós vamos recusar os 50 mil rublos (oferecidos pela URSS) porque estamos satisfeitos e agradecidos em permanecer do lado dos ingleses?" Mal sabia ele que, em comparação com um lugar para onde os soviéticos mandavam nazistas, Farm Hall era um paraíso.



Para cooptar cientistas alemães, a URSS acenava com a possibilidade de eles trabalharem na Alemanha Oriental. Os que aceitaram se deram mal: era uma pegadinha de Stalin. Muitos dos que negaram receberam uma proposta ainda mais persuasiva: não ser fuzilado imediatamente. Forçados a viver por 6 anos em Gorodmila - uma ilha cercada de arame farpado a meio caminho entre Moscou e Leningrado (hoje São Petersburgo) -, os cientistas moraram em cabanas no meio da floresta e fizeram ciência apenas com um material de ponta: o lápis. A cobiça dos aliados por cérebros alemães era justificada: além dos foguetes V2, eles desenvolveram a física nuclear, o motor a jato e até a transmissão de TV. A bomba atômica nazista tinha tudo para dar certo, mas esbarrou em alguns problemas: a falta de interesse de Hitler - que privilegiava o V2 - e um erro de cálculo: Heisenberg acreditava que seriam necessários 2 toneladas de urânio 235 para fazê-la. Os alemães foram os primeiros a realizar um voo a jato, mas a pesquisa aeronáutica era tão cara que minou os recursos para produção de caças e bombardeiros padronizados. Para ter ideia do quão longe foi a tecnologia nazista, se um extraterrestre um dia for capaz de captar um sinal de TV, verá a primeira imagem transmitida na Terra: o discurso de Hitler nas olimpíadas de Berlim, em 1936. Todo esse potencial científico-tecnológico certamente não passou despercebido pelos EUA.



"Se os americanos têm mesmo a bomba de urânio, vocês são todos cientistas de segunda categoria!" ]

Otto Hahn, descobridor da fissão nuclear



Ir à Lua com os nazistas



Os EUA contrataram o maior superstar da ciência nazista como CEO de seu programa espacial. E Von Braun, o inventor dos foguetes V2, escolheu a dedo 120 pesquisadores especializados em mísseis teleguiados para trabalhar em Fort Bliss, no Texas. A equipe logo recebeu um upgrade: mais 380 cientistas alemães e uma nova base, em Huntsville, Alabama. Huntsville era tão cheia de nazistas que recebeu o apelido de Peenemünde do Sul, alusão à cidade alemã onde estava a "bela adormecida" de Hitler, a antiga fábrica dos V2, de que falamos no começo do texto.



A pilhagem desenfreada de ideias e cérebros alemães ficou muito mais acirrada depois de 1945, mas não foi aí que ela começou. Para entender a fuga de cientistas da Alemanha, é necessário analisar o que o nazismo produziu na ciência. Apesar dos efeitos maléficos do nazismo no meio científico, a afirmação corrente de que Hitler destruiu a ciência alemã é bem difícil de sustentar. Só a dimensão do interesse suscitado pelo conhecimento produzido no período já indica que houve significativa produção de qualidade. Caso contrário, um relatório de 600 páginas feito pelo Departamento de Justiça americano a respeito da migração nazista para os EUA - que veio a público apenas em 2010 - não chegaria à seguinte conclusão: "A América, que se orgulha de ser um porto seguro para os perseguidos, tornou-se, em alguma medida, porto seguro para os perseguidores". Entre os perseguidores que os EUA acolheram estava Hubertus Strughold.



"A América, que se orgulha de ser um porto seguro para perseguidos, tornou-se, em alguma medida, porto seguro também para os perseguidores."

Departamento de Justiça dos EUA, sobre a migração de cérebros nazistas



De ratos e homens



Trabalhando para a Nasa, Hubertus Strughold ganhou a fama de "pai da medicina espacial" e escreveu livros a respeito do tema. Em um deles, explica o que acontece a uma tripulação em uma cabine despressurizada a 15 mil m de altitude: "A menos que tivessem a proteção adicional de trajes pressurizados, eles precisariam recorrer a pequenas reservas de oxigênio do sangue e dos tecidos. Elas durariam cerca de 15 segundos. Depois disso, eles perderiam a consciência e capacidade de se salvarem". Ao ler esse texto científico, objetivo, não dá para ter ideia de como Strughold pode ter chegado ao tempo de 15 segundos. Para isso, é preciso conhecer seu antigo assistente, Sigmund Rascher, responsável pelos experimentos no campo de concentração de Dachau: "Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências em homens, e não em ratos". E, sobretudo, o relato do prisioneiro Anton Pacholegg, assistente de Rascher nos experimentos na câmara de baixa pressão: "Vi um prisioneiro suportar o vácuo até que os pulmões rebentaram. Certas experiências provocaram tal pressão na cabeça dos pacientes que eles enlouqueceram, arrancando os cabelos no esforço para aliviar o tormento. Esses casos de vácuo absoluto terminavam geralmente com a morte do paciente." Strughold é acusado de destruir os dados obtidos por Rascher para evitar ser condenado por crimes contra a humanidade. Nunca demonstrou arrependimento por seu envolvimento em Dachau.



A ciência nazista produziu atos tão desumanos que tendemos a colocar todos os cientistas alemães na mesma "cesta de maçãs podres". "Nós preferimos nos focar nas imagens em preto e branco de nazistas fanáticos marchando porque isso permite que nos distanciemos deles", afirma Robert Proctor. Mas acontece que generalizar um julgamento - em relação a pessoas ou a dados científicos - é usar o mesmo raciocínio simplificador que levou os nazistas a cometerem tantas atrocidades. É um modo de se aproximar da atitude do ex-ministro da Defesa alemão Franz-Josef Strauss em 1957, ao julgar o físico Otto Hahn, que acabara de assinar um manifesto pacifista: "Velho imbecil. Não consegue dormir nem conter as lágrimas quando pensa em Hiroshima".



"Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências em homens, e não em ratos."

Sigmund Rascher, médico responsável por experiências sobre vácuo no campo de concentração de Dachau



Como agiam os cientistas que não eram nazistas?



A ascensão do nazismo separou os cientistas em 3 grupos: os que deixaram a Alemanha, os que ficaram, mas buscaram manter valores éticos - e um formado por gente que colaborou com o regime, porém tentou vender outra imagem ao fim da guerra. O efeito mais devastador do nazismo foi na física: 25% dos físicos de elite deixaram o país logo que Hitler chegou ao poder. O impacto foi ainda pior na física teórica: 50% de evasão. Tudo isso porque o Führer tinha desprezo pela ciência teórica, que associava aos judeus. Com isso, o berço da mecânica quântica e da relatividade foi desmantelado. A proporção de citações alemãs em revistas internacionais de física despencou de 30%, em 1913, para 16%, em 1938. O maior estímulo para o êxodo de cérebros alemães veio da perseguição aos judeus. Desde 1933, a Alemanha perdeu de 2 mil a 3 mil cientistas (24 deles ganhadores do Nobel), a maior parte vítima do processo de arianização do serviço público, logo no começo do governo nazista. O silêncio diante das demissões - e a voracidade para ocupar as vagas - são vergonhas da ciência alemã. O físico Max Planck, que dá nome ao instituto, foi um dos que resolveram ficar. Pai da física quântica, ele procurou Hitler no começo do governo para interceder por cientistas judeus. Ouviu do Führer uma frase que entrou para a História: "Se a ciência não pode passar sem judeus, teremos de nos haver sem ciência". Entre os colaboradores, o mais famoso é o físico nuclear Werner Heisenberg, chefe do projeto de pesquisa atômica alemã. Finda a guerra, ele vendeu a ideia de que fora o responsável por atrasar deliberadamente a criação da bomba de urânio alemã. Quando as gravações de Farm Hall foram reveladas, nos anos 1990, surgiu outra faceta de Heisenberg: a incompetência. Ele simplesmente não foi capaz de fazer a bomba. "Muitos cientistas que colaboraram com o regime se definiam como cientistas puros, sem distorção ideológica", diz a historiadora Margit Szöllösi-Janze, da Universidade de Munique. "Isso é o que realmente preocupa." (Rodrigo Rezende - Revista Aventuras na Hstória, abril de 2012).

Os Cientistas Nazistas


1) Nome - Wernher von Braun (1912-1977)
Ocupação - Engenheiro
O que fez - Criou os mísseis V2. No fim da guerra, foi para os EUA e trabalhou na Nasa

2) Nome - Hans Günther (1891-1968)
Ocupação - Professor universitário
O que fez - Escreveu Higiene Racial do Povo Alemão, usado pelos nazistas para justificar ideias racistas

3) Nome - Josef Mengele (1911-1979)
Ocupação - Médico
O que fez - Usava prisioneiros para estudar hereditariedade e cometia toda sorte de atrocidades

4) Nome - Sigmund Rascher (1909-1945)
Ocupação - Médico
O que fazia - Usou prisioneiros como cobaias em estudos sobre baixa pressão

5) Nome - Karl Brandt (1904-1948)
Oocupação - Médico
O que fez - Líder do programa de eutanásia e médico pessoal de Hitler

6) Nome - Werner Heisenberg (1901-1976)
Ocupação - Físico
O que fez - Chefe do projeto nuclear alemão

7) Nome - Hubertus Strughold (1898-1986)
Ocupação - Médico
O que fez - Criou a medicina espacial

8) Nome - Otto Hahn (1879-1968)
Ocupação - Físico
O que fazia - Descobriu a fissão nuclear
















quarta-feira, 24 de setembro de 2014

LAWRENCE DA ARÁBIA

O Oriente Médio, historicamente, ocupa papel central na geopolítica mundial devido à sua posição geográfica de encontro entre três continentes (Europa, Ásia e África) e devido ao seu papel na origem de civilizações centrais na história mundial (Judaísmo, Islamismo e Cristianismo). Na história recente, continua como um dos pólos centrais da política mundial devido às suas fontes de petróleo, sua posição geográfica estratégica e pela presença de Israel na região. Os ventos que sopram naquela parte do mundo são acompanhados com atenção em praticamente todos os países. As imagens de jovens e crianças armadas com pedras e paus enfrentando tanques de guerra, durante a primeira Intifada, mostradas pela televisão em 1987, compõem o imaginário mundial sobre o tema. Somam-se a estas, as cenas das guerras do golfo e, vez por outra, de assassinatos de palestinos, como nos casos de Jenin, em abril de 2002; e de vítimas de homens-bomba, em Israel, ao longo de todo este tempo. Mais recentemente, temos o caso do bombardeio à flotilha que levava ajuda humanitária a Faixa de Gaza.
 O filme Lawrence da Arábia, produzido em 1962, nos dá pistas importantes sobre como se construiu historicamente o interesse das potências centrais européias pela região, pelo menos desde o fim do século XIX, a Época dos Impérios (1880 a 1914), usando uma terminologia do historiador marxista inglês Eric Hobsbawm. Nesse período, a Ásia e a África, foram divididas entre as potências imperiais: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, EUA, Japão, e Rússia.
 Como historiadores, precisamos nos voltar a este tempo e entender acordos como o de Sykes-Picot, de 16 de maio de 1916, para explicar o papel do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush, e seus aliados europeus, na antiga Babilônia, nas duas últimas décadas do século XX.  O tratado de 1916 é ajuste secreto entre os governos do Reino Unido e da França. Por ele, foram definidas as áreas que no Oriente Médio ficariam sob a influência de cada um deles após a Primeira Guerra Mundial. O tratado dividiu o Império Otomano, incluindo o maior país, a Arábia.
 O filme transpôs para a grande tela o livro Os Sete Pilares da Sabedoria, publicado em 1935, que narra a participação de seu autor, Thomas Edward Lawrence, no movimento nacionalista árabe (a Revolta Árabe) contra a dominação turca, durante a Primeira Guerra Mundial. Os otomanos lutavam ao lado da Alemanha. A Revolta Árabe foi fomentada pelos ingleses que lhes negaram, porém, a artilharia, temendo que um dia ela se voltasse contra eles.
 O filme Lawrence da Arabia ganhou sete oscars e é considerado pelo American Film Institute como um dos dez melhores filmes de todos os tempos.
 Lawrence da Arábia
 “Quem é você?” pergunta um personagem a Lawrence. Ele reflete e percebe que não pode mais responder à pergunta. Lawrence é como o migrante. Ele não é mais do país que deixou, tampouco é parte daquele que o recebeu. Em uma das cenas dramáticas, pegando na própria pele, mostra a sua alvura ao interlocutor árabe e diz que aquilo é que define tudo.
 Lawrence não sabe mais quem ele é. Enviado ao deserto para fomentar a revolta árabe contra os turcos, entrega-se verdadeiramente a este povo tornando-se o Lawrence das Arábias. Se no começo tem dificuldade em aceitar a comida beduína, sente-se logo depois confortável nas roupas locais que passa a usar. Ele respeita a identidade do povo. O conflito entre os dois mundos se dá no campo da razão. Para o inglês o homem é aquilo que decide ser; em contraposição à visão teocrática que determina que o homem é aquilo que Deus quer que ele seja. De volta a Inglaterra, ele não poderá mais ser nem um, nem outro.
 A forma como o Ocidente vê o Oriente aparece em todo o filme. Mesmo Lawrence, imbuído dos melhores sentimentos, ou paixões, é aquele que sabe, que ensina, e que mostra o caminho. Mesmo o guerreiro árabe, o xerife Ali, aprende com ele.  É a visão da superioridade de um povo sobre o outro, como explica brilhantemente Edward Said, no seu livro Orientalismo.
 Os ingleses demonstram o tempo todo o desprezo pelos árabes. Nas palavras dos oficiais da Inglaterra os árabes são sujos, violentos, gananciosos, bárbaros, cruéis. E os árabes sabem que assim são vistos. Alguns, como o xerife Ali, se ressentem disso.
 De acordo com Hannah Arendt, no seu livro A Origem do Totalitarismo, é na época do nascimento dos Impérios europeus, no final do século XIX, que podem ser localizadas as raízes origens do totalitarismo. O imperialismo, por sua vez, teria origem no racismo. Assim, a civilização européia, racista e brutal, quer dominar o outro, considerado irracional, bárbaro, violento, inculto, atrasado, ingênuo, sujo. Ela, a civilização européia, é a portadora da racionalidade e, portanto, da verdade, da sabedoria. Arendt afirma que, mesmo que os britânicos tenham evitado disseminar a lei e a cultura britânicas aos povos conquistados, os nativos desenvolveram o sentimento de consciência nacional, soberania e independência. Para ela, agindo assim, “os britânicos fortaleciam o conceito imperialista baseado em superioridade fundamental de "elementos elevados" sobre os "inferiores” P.160”.
 Os outros, os árabes, são como portas, de tão surdos, não têm valores e necessitam de quem lhes diga o que é bom para eles. São tão desprezíveis que podem ser enganados. A sua independência que seria assegurada no fim da guerra, não veio. Os árabes foram enganados pelos ingleses.
 O mundo hoje
 A disputa, hoje, em pleno século XXI, entre israelenses e palestinos, abordada no início desta resenha, é simbólica. O mundo árabe e o país Israel, protegido pelos países ocidentais, e, estrategicamente plantado na região pelos ingleses são a materialização da disputa de dois mundos. No prefácio da 1 reimpressão brasileira de Orientalismo, Said afirma que as “sociedades contemporâneas de árabes e muçulmanos sofreram um ataque tão maciço, tão calculadamente agressivo em razão de seu atraso, de sua falta de democracia e de sua supressão dos direitos das mulheres que simplesmente esquecemos que noções como modernidade, iluminismo e democracia não são, de modo algum, conceitos simples e consensuais que se encontram ou não, como ovos de Páscoa, na sala de casa (P.15).”
Assim, justifica-se campanhas brutais do Ocidente no Iraque, no Afeganistão e na Palestina em nome da inferioridade, estreiteza e violência do islamismo e do mundo árabe. São visões justificadas pelo orientalismo, já presentes no tempo de Lawrence de Arábia.
 Segue hoje, então, a luta iniciada na Era dos Impérios contra os árabes, de olho no seu  trigo, e, como todos sabem, hoje, no petróleo da região.  A história vem de longe. Não foi à toa que os aliados vencedores da 1ª Guerra, dividiram entre si artificialmente o antigo Império Turco Otomano, no Tratado de Sèvres, assinado em 1920.
Claudia Santiago 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

JOSÉ BONIFÁCIO, O HOMEM DO ANO DE 1822

No Centro de São Paulo, a poucos metros do Pátio do Colégio, fica a praça do Patriarca, um quadrilátero de concreto, com apenas duas árvores. Num dos cantos, de costas para a praça, está a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva. Ele não esteve sempre ali. Na última reforma do logradouro, perdeu seu lugar central, na saída da Galeria Prestes Maia. Bonifácio, ou sua estátua, não mereciam tal sorte. Se houve alguém no começo do século 19 com um olhar estratégico, capaz de pensar o que seria o Brasil e quais caminhos usar para chegar lá, era esse cientista nascido em Santos, no litoral de São Paulo.

Bonifácio passou boa parte da vida fora do Brasil. Na Europa, ganhou reputação de intelectual. Sua principal formação era de mineralogista e ocupou a cátedra de Metalurgia na Universidade de Coimbra no início do século 19. Ali havia se formado em Direito, Filosofia e Matemática. Ocupou vários cargos públicos em Portugal, envolveu-se com a maçonaria, lutou no Exército português durante a invasão francesa e, aos 56 anos, resolveu voltar ao seu país natal "para acabar o resto dos meus cansados dias nos sertões do Brasil, a cultivar o que é meu".
Os dias passados no Brasil, para onde regressou em 1819, foram mesmo cansativos. Os irmãos Andrada - José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco - estavam no olho do furacão político. E se José Bonifácio cultivou "algo de seu" foi a semente da independência brasileira.
A política fervia. Em 24 de agosto de 1820, a Revolução do Porto acabou com a monarquia absolutista do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Pressionado, o rei voltou a Portugal em 24 de abril do ano seguinte, já sabendo que sua figura seria basicamente decorativa. De saída, recomendou ao filho que não perdesse o Brasil para aventureiros. Dom Pedro entendeu o recado. O poder estava nas mãos das cortes.
Bonifácio foi o grande articulador dos deputados brasileiros, em especial dos paulistas. Presidiu a eleição, da qual Antônio Carlos saiu como um dos seis representantes da província de São Paulo e foi o principal autor do documento "Lembranças e Apontamentos do Governo Provisório para os Senhores Deputados da Província". Nele, defendia o fim do tráfico de escravos, a catequização dos índios, a reforma agrária e incentivos à mineração. E até a mudança da capital brasileira, do Rio de Janeiro para algum lugar nas cabeceiras do rio São Francisco. (Brasília teria de esperar 140 anos.)
O papel-chave para a independência veio por meio de carta enviada a dom Pedro, convocado pelas cortes a voltar para a Europa. Para convencer o príncipe a não deixar o Brasil, Bonifácio demolia a biografia futura de um príncipe fujão: "Além de perder para o mundo a dignidade de homem e de príncipe, terá também de responder, perante o céu, do rio de sangue que decerto vai correr pelo Brasil". Dom Pedro leu a carta no dia 1º de janeiro de 1822. No dia 18, José Bonifácio foi nomeado ministro do Reino e dos Estrangeiros, o primeiro brasileiro a ocupar o posto. Ao lado de dom Pedro pelos próximos 18 meses, José Bonifácio urdiu as teias da independência. "Era um homem com um projeto de Brasil", afirma o historiador e jornalista Jorge Caldeira. Uma das ações conduzidas pelo Patriarca foi recusar as ordens que vinham das cortes portuguesas. A outra, dar forma política e institucional a um futuro país. "Nenhum outro homem público brasileiro fez tanto em tão pouco tempo", escreveu Laurentino Gomes em 1822.
Quando dom Pedro I dissolveu a Constituinte, em novembro de 1823, José Bonifácio foi exilado e deportado para a França. Voltou a estudar, traduziu clássicos como Virgílio para o português e se arriscou na poesia. Retornou ao Brasil em 1829 e tornou-se tutor dos filhos do imperador quando dom Pedro I abdicou do trono em abril de 1831 e voltou para Portugal. Ficou no posto por dois anos, até ser deposto pelo gabinete. Recolheu-se à ilha de Paquetá, onde viveu modestamente até os 75 anos. Morreu em Niterói. Seu corpo está no Panteão dos Andradas, em Santos. Sua estátua permanece de costas para a praça do Patriarca.(Wagner Gutierrez Barreira
 Aventuras na História, junho de 2013).


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A CONSTRUÇÃO DAS PIRÂMIDES DO EGITO

A construção das pirâmides botou milhares de egípcios para suar, exigiu conhecimentos avançados de matemática e muitas pedras. Das cem pirâmides conhecidas no Egito, a maior (e mais famosa) é a de Quéops, única das sete maravilhas antigas que resiste ao tempo. Datada de 2 550 a.C., ela foi a cereja do bolo de uma geração de faraós com aspirações arquitetônicas. Khufu (ou Quéops, seu nome em grego), que encomendou a grande pirâmide, era filho de Snefru, que já tinha feito sua piramidezinha. O conhecimento passou de geração em geração, e Quéfren, filho de Quéops, e Miquerinos, o neto, completaram o trio das pirâmides de Gizé. Para botar de pé os monumentos, que nada mais eram que tumbas luxuosas para os faraós, estima-se que 30 mil egípcios trabalharam durante 20 anos. "Esses trabalhadores eram trocados a cada três meses. A maioria trabalhava no corte e transporte dos blocos", diz Antonio Brancaglion Jr., egiptólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além do pessoal que pegava pesado, havia arquitetos, médicos, padeiros e cervejeiros. Tudo indica que esses caras eram livres (e não escravos), pagos com cerveja e alimentos. Mas há controvérsias. Alguns apostam em 100 mil trabalhadores, além de teses que atribuem a obra a ETs!
 Pedra sobre pedra
Cerca de 2,3 milhões de blocos ajudaram a botar de pé a pirâmide de Quéops
As pedras foram o começo de tudo - cada bloco pesava em média 2,5 toneladas, mas isso variava: o tamanho diminuía de acordo com a altura, e em lugares específicos, como a câmara do rei, havia pedras gigantes, estimadas em até 80 toneladas. Depois de cortados nas pedreiras, os blocos eram lixados e catalogados: escrevia-se o nome do faraó e o do grupo de trabalhadores responsáveis. No total, 2,3 milhões de blocos teriam sido usados na construção da pirâmide de Queóps
 É PEDREIRA!
 Para erguer as pirâmides, o terreno foi aplainado. Além de deixar a terra pronta para o trabalho, o processo rendeu uma fonte natural de matéria-prima: o platô era rico em rochas calcárias, um tipo de pedra mais mole, extraída com ferramentas de cobre. Rochas de calcário mais fino, usadas para dar brilho à pirâmide, vinham da região próxima de Tura
 VOU DE BARCO
 O faraó escolheu granito para decorar a câmara do rei, onde ele foi sepultado. Como a pedra não era encontrada na região, os blocos vinham de até 800 quilômetros de distância, da pedreira de Assuã, em barcos pelo rio Nilo. Os pesadíssimos blocos, alguns com até 80 toneladas, também revestiam as câmaras e os corredores internos
 BASE CONCRETA
 Para alguns pesquisadores, a análise da taxa de minerais presentes em partes dos blocos da pirâmide mostra que pode ter sido usado um tipo de concreto primitivo tanto na parte externa quanto na interna. Se a teoria for verdade, essa terá sido a primeira aplicação de concreto de que se tem notícia - antes disso, os pioneiros eram os romanos
 Rock'n'roll
Teorias explicam como os egípcios rolaram as pedras
A proeza de transportar os blocos gigantes é tão complexa que até hoje não existe consenso. Isso pode ter sido feito com cordas; com uma espécie de trenó de troncos de madeira cilíndricos, sobre os quais as pedras deslizavam; ou com a ajuda de tafla, um tipo de barro que, molhado, fica escorregadio e ajuda a deslizar os blocos. Depois de assentados, os blocos eram cortados em um ângulo de 51º, o que deixava a face da pirâmide lisa
 SUBINDO A LADEIRA
 O que é - Uma rampa feita de terra e cascalho, com escoras nas laterais
 Pontos positivos - Como ocuparia apenas uma das faces, esta rampa deixaria as laterais da pirâmide livre - assim, seria mais fácil checar se a obra estava "torta"
 Pontos negativos - Para que a rampa alcançasse a altura total, teria que ser muuuito longa, e o trabalho teria que ser interrompido toda vez que fosse necessário espichá-la
 ZIGUEZAGUE
 O que é - Rampa única em ziguezague construída em torno da pirâmide. É a teoria mais popular atualmente
 Pontos positivos - A rampa teria uma inclinação constante, ao contrário da rampa única
 Pontos negativos - A rampa tampa a visão da totalidade da obra. Assim, haveria o risco de, ao desmanchar a rampa, perceber que as faces da pirâmide estavam tortas
 DEBAIXO DOS CARACÓIS
 O que é - Até os 43 metros de altura, usa-se a rampa externa. A partir daí, seria usada uma rampa interna em espiral, recuada a 15 metros da face externa. No fim de cada andar, uma aresta permite que as pedras girem 90º
 Pontos positivos - Reaproveitaria o material da rampa externa para o resto da construção. Um sistema de contrapeso carregaria as pedras maiores
 Pontos negativos - Como a linha não é reta, a rampa aumentaria a distância pela qual os blocos teriam que ser arrastados
 PAU NA MÁQUINA
 O que é - Várias teorias sugerem que máquinas eram usadas para subir os blocos pirâmide acima. Essas máquinas poderiam ser guindastes, alavancas ou sistema de gangorras, com um cesto de areia de um lado e o bloco de outro
 Pontos positivos - As máquinas dariam alívio à dureza do trabalho braçal
 Pontos negativos - Faltaria espaço para manobrar, e as máquinas não dariam conta dos blocos maiores
 TAMANHO É DOCUMENTO
 Comparada com prédios e campos de futebol, a pirâmide sai ganhando
 ALTURA - 147 metros
 Equivale a - Prédio de 49 andares - o Copan, por exemplo, tem 140 metros
 PESO DE 1 BLOCO - 2,5 toneladas
 Equivale a - 3 Fuscas de 800 quilos
 PESO TOTAL - 6,5 milhões de toneladas
 Equivale a - 11,5 navios de carga carregados
 ÁREA - 13 acres (52 598 m2)
 Equivale a - 6 campos de futebol
Marina Motomura(Revista MUndo Estranho, edição70). 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

SOLANO LOPES E A GUERRA DO PARAGUAI

Solano López esperava um cenário muito diferente quando desafiou as maiores potências da América do Sul na Guerra do Paraguai. Pagou por isso com a vida da maioria da população de seu país, inclusive a sua.
Em 13 de dezembro de 1864, o Paraguai declarou guerra ao Brasil, iniciando o que seria o conflito mais sangrento da América Latina, em que mais de 300 mil vidas se perderiam dos dois lados, entre batalhas, fome e doenças. O Paraguai seria aniquilado na guerra: perdeu 75% de sua população adulta e reduziu seu papel geopolítico a pouco mais que um estado-tampão entre Argentina e Brasil, oscilando entre ser dominado politicamente por um ou outro.
 O ditador do Paraguai, Francisco Solano López, entrou na guerra conhecendo alguns fatos. A população do Brasil era dez vezes maior que a do Paraguai, cerca de 8 milhões de habitantes, contra 800 mil. A Argentina, forte aliada do Brasil, tinha cerca de 2,5 milhões. Ambos os países tinham acesso desimpedido ao oceano Atlântico para comprar armas, navios e o que mais precisassem da Europa e dos Estados Unidos, enquanto o único acesso ao mar do Paraguai era por meio dos rios Paraná e Prata, cruzando o território argentino.
À primeira vista, e sabendo como a guerra terminou, López parece ter sido um louco suicida. Ele era impulsivo e autoritário. Mas suicida ele não era. E tinha um plano - ou pelo menos uma aposta. E, no seu jogo, conquistar acesso ao mar era fundamental.


Tríplice Aliança ao contrário
A primeira coisa sobre o plano de López é que ele não esperava ter de enfrentar Brasil, Uruguai e Argentina, situação que se consolidou com a criação da Tríplice Aliança, em 1º de maio de 1865. Ao contrário, esperava ter Uruguai e Argentina a seu lado e quem sabe unificar os 3 países ao fim da guerra e criar uma grande nação nas fronteiras do antigo vice-reino do Rio da Prata, do Peru à Patagônia. "López imaginava uma Tríplice Aliança ao contrário", diz Francisco Doratioto, professor da Universidade de Brasília e autor de Maldita Guerra e Osório.
Os uruguaios eram aliados de López, e a guerra só começou, tecnicamente, porque o Brasil invadiu o Uruguai, em guerra civil desde 19 de março de 1863, em apoio ao ex-presidente Venancio Flores e 1,5 mil voluntários do Partido Colorado, que desafiou o governo de Montevidéu, controlado pelo Partido Nacional (ou Blanco). Os brasileiros, que formavam um terço da população do Uruguai, apoiavam Flores e passaram a sofrer ataques dos partidários blancos. Em 30 de agosto de 1864, o Paraguai havia mandado um ultimato ao Brasil: invadir o Uruguai seria um ato de guerra.
O Brasil ignorou o ultimato e declarou guerra ao governo blanco em 10 de novembro de 1864, com o apoio tácito da Argentina. "Nem Argentina nem Brasil acreditavam que o Paraguai reagiria a um ataque ao Uruguai", diz o jornalista Moacir Assunção, autor de Nem Heróis, Nem Vilões: Curepas, Caboclos, Cambás, Macaquitos e Outras Revelações da Sangrenta Guerra do Paraguai, que chega este mês às livrarias. Mas López cumpriu a ameaça e atacou o Brasil. Não na fronteira com o Uruguai, mas em Mato Grosso, em dezembro de 1864.
López não contava só com o apoio dos blancos. Havia recebido promessas de Justo José Urquiza. Governador da província de Entre Rios, Urquiza era o maior proprietário rural da Argentina, presidente entre 1854 e 1860, e inimigo do presidente argentino, Bartolomé Mitre. O plano de López era invadir o país ao norte, juntar-se às forças de Urquiza ao sul e seguir para Buenos Aires. Se tudo funcionasse, os 3 aliados - Paraguai, Uruguai e Argentina - atacariam o Brasil.

Blitzkrieg paraguaia

A aposta paraguaia não era apenas diplomática. O Exército paraguaio era muito maior que o brasileiro no começo da guerra. Os paraguaios tinham uma força de 64 mil homens, e os preparativos para a guerra começaram meses antes da declaração, enquanto as tensões entre Brasil e Uruguai se acumulavam. O Exército brasileiro tinha 18 mil efetivos, mal-armados e malvestidos, informações que os blancos uruguaios fizeram questão de levar ao ditador paraguaio. Segundo Doratioto, López queria fazer uma blitzkrieg do século 19. "Ele tinha um plano inteligente e bem estruturado. Era um ataque-relâmpago, uma coisa à frente do seu tempo."
A blitzkrieg paraguaia também contava com outra manobra inteligente: fazer os brasileiros acreditarem que os paraguaios atacariam por outra região, causando um imenso problema logístico. A ofensiva em Mato Grosso envolveu duas colunas e 9 mil homens, que conquistaram cidades como Albuquerque, Coxim e Corumbá até abril de 1865. Os brasileiros esperavam um ataque à capital da província, Cuiabá, que nunca aconteceu. Sem estradas que chegassem à região, a contraofensiva brasileira levou de abril a dezembro de 1865 para se mover de Minas Gerais ao Mato Grosso. Quando finalmente alcançaram a província, os paraguaios simplesmente se retiraram - exceto de Corumbá, onde resistiram até junho de 1867.
Enquanto os brasileiros se perdiam no próprio Brasil, López preparava seu verdadeiro ataque. O Paraguai declarou guerra à Argentina em 18 de março de 1865. Em 13 de abril, um contingente enorme de tropas paraguaias - 37 mil homens - invadiu a província de Corrientes pelo rio Paraná. Com Corrientes capturada quase sem resistência, em maio, as tropas se dividiram. Cerca de 12 mil ficaram na cidade e 25 mil rumaram para o Rio Grande do Sul, onde tomaram São Borja, em 12 de junho, e Uruguaiana, em 5 de agosto. Era o plano de López em ação.


Traição na Argentina
A primeira má notícia para López aconteceu no início da invasão à Argentina. Comandando as tropas para a retomada de Corrientes, apareceu ninguém menos que Justo José Urquiza. O caudilho havia feito promessas a López, mas havia recebido outra visita. O general e senador brasileiro Manuel Luís Osório, com quem teve uma conversa estratégica. "Os brasileiros compraram Urquiza", diz Assunção. Ele foi convencido por Osório de que lucraria muito mais apoiando Brasil e o governo argentino. Para a surpresa de López, o ex-presidente argentino conduziu suas tropas com rara ferocidade. A decisão de Urquiza também surpreendeu muitos argentinos, e vários desertaram a favor do Paraguai nos primeiros meses da campanha. De forma que, em 25 de maio de 1865, quando uma tropa argentina conseguiu reconquistar a cidade de Corrientes, a glória durou menos de 24 horas: os argentinos recuaram, deixando a cidade pronta para ser reconquistada pelos paraguaios. Ainda assim, López destituiu do comando o general Resquín, líder da invasão, que seria executado em janeiro de 1866.


Baixas de uma ditadura
O plano de López começou a naufragar, literalmente, no arroio Riachuelo, em 11 de junho de 1865. A ideia era tomar a esquadra brasileira, de 9 vapores, atacando-os por meio de abordagem - os soldados saltam para dentro do navio inimigo de forma a capturá-lo intacto. A chave do ataque era o fato de os navios brasileiros serem a vapor. À noite, apagavam-se as caldeiras, acesas novamente de manhã. Levava uns 20 minutos até a água ferver e o navio estar em condições de se mover. Assim, os navios paraguaios - também a vapor, e em mesmo número que os brasileiros - poderiam se aproximar da frota nacional.
Uma avaria, no entanto, atrasou o ataque. E aqui o autoritarismo político do Paraguai se mostrou uma desvantagem. "Ninguém ousava contrariar López, que havia ordenado um ataque para aquele dia", diz Doratioto. Com medo do ditador, os paraguaios atacaram com dois navios a menos e só às 9h30, quando os barcos brasileiros estavam totalmente operantes. As abordagens foram repelidas a canhonaços. Ao fim do dia, a esquadra paraguaia jazia no fundo do rio Paraná. A Batalha de Riachuelo foi um desastre que isolou o país do resto do mundo.
Quando os paraguaios invadiram o Rio Grande do Sul, já era tarde para os blancos uruguaios. Em 20 de fevereiro de 1865, brasileiros e colorados haviam conquistado Montevidéu e Venancio Flores assumiu um governo pró-Brasil. Em 18 de agosto, duas semanas após tomar a cidade, os paraguaios se renderam em Uruguaiana, diante de dom Pedro 2º, Bartolomeu Mitre e Venancio Flores. Foi o fim da ofensiva do sul. Em 31 de outubro, as tropas paraguaias em Corrientes se retiraram. A partir daí, a guerra seria uma longa e agonizante defensiva para Solano López, culminando com a captura de Assunção, em 1º de janeiro de 1869. A fuga do ditador pelo interior do país acabou em 1º de março de 1870. Numa emboscada à última tropa paraguaia em Cerro Corá, o cabo brasileiro Chico Diabo atingiu o ditador com uma lança. Sem se render, López foi morto a balas ali mesmo.


O americano no Paraguai
Além de Urquiza e dos blancos uruguaios, havia outro personagem soprando confiança nos ouvidos de López. Ninguém menos que os Estados Unidos da América. Segundo o livro de Moacir Assunção, "no Paraguai, o cônsul americano Charles Ames Washburn ofereceu apoio ao país contra o Brasil ainda antes da guerra e chegou a instigá-lo a iniciar o conflito".
Washburn era cônsul desde 1861, ainda no governo do pai de Solano, Carlos Lopes. E o que ele prometia não era completamente infundado: Brasil e EUA andavam às turras desde o início da Guerra de Secessão (1861-1865). Os americanos unionistas, do Norte, viam os brasileiros como uma monarquia europeia implantada na América e um país profundamente escravocrata, ambas verdades que os brasileiros não gostavam de ouvir. Artigos na imprensa durante a guerra eram principalmente antibrasileiros, quando não idealizando López como um libertador republicano contra uma monarquia de escravos.
Já os brasileiros não ocultavam suas simpatias pelos confederados do Sul, escravocratas, agrários e aristocráticos como eles. Isso levou a alguns incidentes, em que brasileiros recebiam calorosamente os navios confederados, que atacavam navios unionistas na costa brasileira impunemente, enquanto os navios unionistas eram quase proibidos de frequentar portos do Brasil. Em 1864, o ataque de um navio unionista a um confederado em águas brasileiras quase comprometeu as relações diplomáticas.
Em duas ocasiões, Washburn quase fez com que sua promessa a López fosse cumprida. Quando a guerra começou, o diplomata estava em férias no seu país. Em 1866, o navio americano Shamokin tentou furar o bloqueio da Marinha brasileira e levá-lo a Assunção. O comandante prometeu que só seria interrompido "por força maior", o que fez os brasileiros cogitarem abrir fogo. Washburn caíria em desgraça e seria torturado pelas forças de López, que havia ficado paranoico com a possibilidade de conspiração. Em 1868, outro navio foi enviado para retirá-lo - e, desta vez, falaram abertamente em guerra com os brasileiros. Em ambas as situações, os brasileiros engoliram seu orgulho, evitando o pior.(Fabio Marton, Aventuras na História, maio de 2012).