quarta-feira, 24 de setembro de 2014

LAWRENCE DA ARÁBIA

O Oriente Médio, historicamente, ocupa papel central na geopolítica mundial devido à sua posição geográfica de encontro entre três continentes (Europa, Ásia e África) e devido ao seu papel na origem de civilizações centrais na história mundial (Judaísmo, Islamismo e Cristianismo). Na história recente, continua como um dos pólos centrais da política mundial devido às suas fontes de petróleo, sua posição geográfica estratégica e pela presença de Israel na região. Os ventos que sopram naquela parte do mundo são acompanhados com atenção em praticamente todos os países. As imagens de jovens e crianças armadas com pedras e paus enfrentando tanques de guerra, durante a primeira Intifada, mostradas pela televisão em 1987, compõem o imaginário mundial sobre o tema. Somam-se a estas, as cenas das guerras do golfo e, vez por outra, de assassinatos de palestinos, como nos casos de Jenin, em abril de 2002; e de vítimas de homens-bomba, em Israel, ao longo de todo este tempo. Mais recentemente, temos o caso do bombardeio à flotilha que levava ajuda humanitária a Faixa de Gaza.
 O filme Lawrence da Arábia, produzido em 1962, nos dá pistas importantes sobre como se construiu historicamente o interesse das potências centrais européias pela região, pelo menos desde o fim do século XIX, a Época dos Impérios (1880 a 1914), usando uma terminologia do historiador marxista inglês Eric Hobsbawm. Nesse período, a Ásia e a África, foram divididas entre as potências imperiais: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, EUA, Japão, e Rússia.
 Como historiadores, precisamos nos voltar a este tempo e entender acordos como o de Sykes-Picot, de 16 de maio de 1916, para explicar o papel do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush, e seus aliados europeus, na antiga Babilônia, nas duas últimas décadas do século XX.  O tratado de 1916 é ajuste secreto entre os governos do Reino Unido e da França. Por ele, foram definidas as áreas que no Oriente Médio ficariam sob a influência de cada um deles após a Primeira Guerra Mundial. O tratado dividiu o Império Otomano, incluindo o maior país, a Arábia.
 O filme transpôs para a grande tela o livro Os Sete Pilares da Sabedoria, publicado em 1935, que narra a participação de seu autor, Thomas Edward Lawrence, no movimento nacionalista árabe (a Revolta Árabe) contra a dominação turca, durante a Primeira Guerra Mundial. Os otomanos lutavam ao lado da Alemanha. A Revolta Árabe foi fomentada pelos ingleses que lhes negaram, porém, a artilharia, temendo que um dia ela se voltasse contra eles.
 O filme Lawrence da Arabia ganhou sete oscars e é considerado pelo American Film Institute como um dos dez melhores filmes de todos os tempos.
 Lawrence da Arábia
 “Quem é você?” pergunta um personagem a Lawrence. Ele reflete e percebe que não pode mais responder à pergunta. Lawrence é como o migrante. Ele não é mais do país que deixou, tampouco é parte daquele que o recebeu. Em uma das cenas dramáticas, pegando na própria pele, mostra a sua alvura ao interlocutor árabe e diz que aquilo é que define tudo.
 Lawrence não sabe mais quem ele é. Enviado ao deserto para fomentar a revolta árabe contra os turcos, entrega-se verdadeiramente a este povo tornando-se o Lawrence das Arábias. Se no começo tem dificuldade em aceitar a comida beduína, sente-se logo depois confortável nas roupas locais que passa a usar. Ele respeita a identidade do povo. O conflito entre os dois mundos se dá no campo da razão. Para o inglês o homem é aquilo que decide ser; em contraposição à visão teocrática que determina que o homem é aquilo que Deus quer que ele seja. De volta a Inglaterra, ele não poderá mais ser nem um, nem outro.
 A forma como o Ocidente vê o Oriente aparece em todo o filme. Mesmo Lawrence, imbuído dos melhores sentimentos, ou paixões, é aquele que sabe, que ensina, e que mostra o caminho. Mesmo o guerreiro árabe, o xerife Ali, aprende com ele.  É a visão da superioridade de um povo sobre o outro, como explica brilhantemente Edward Said, no seu livro Orientalismo.
 Os ingleses demonstram o tempo todo o desprezo pelos árabes. Nas palavras dos oficiais da Inglaterra os árabes são sujos, violentos, gananciosos, bárbaros, cruéis. E os árabes sabem que assim são vistos. Alguns, como o xerife Ali, se ressentem disso.
 De acordo com Hannah Arendt, no seu livro A Origem do Totalitarismo, é na época do nascimento dos Impérios europeus, no final do século XIX, que podem ser localizadas as raízes origens do totalitarismo. O imperialismo, por sua vez, teria origem no racismo. Assim, a civilização européia, racista e brutal, quer dominar o outro, considerado irracional, bárbaro, violento, inculto, atrasado, ingênuo, sujo. Ela, a civilização européia, é a portadora da racionalidade e, portanto, da verdade, da sabedoria. Arendt afirma que, mesmo que os britânicos tenham evitado disseminar a lei e a cultura britânicas aos povos conquistados, os nativos desenvolveram o sentimento de consciência nacional, soberania e independência. Para ela, agindo assim, “os britânicos fortaleciam o conceito imperialista baseado em superioridade fundamental de "elementos elevados" sobre os "inferiores” P.160”.
 Os outros, os árabes, são como portas, de tão surdos, não têm valores e necessitam de quem lhes diga o que é bom para eles. São tão desprezíveis que podem ser enganados. A sua independência que seria assegurada no fim da guerra, não veio. Os árabes foram enganados pelos ingleses.
 O mundo hoje
 A disputa, hoje, em pleno século XXI, entre israelenses e palestinos, abordada no início desta resenha, é simbólica. O mundo árabe e o país Israel, protegido pelos países ocidentais, e, estrategicamente plantado na região pelos ingleses são a materialização da disputa de dois mundos. No prefácio da 1 reimpressão brasileira de Orientalismo, Said afirma que as “sociedades contemporâneas de árabes e muçulmanos sofreram um ataque tão maciço, tão calculadamente agressivo em razão de seu atraso, de sua falta de democracia e de sua supressão dos direitos das mulheres que simplesmente esquecemos que noções como modernidade, iluminismo e democracia não são, de modo algum, conceitos simples e consensuais que se encontram ou não, como ovos de Páscoa, na sala de casa (P.15).”
Assim, justifica-se campanhas brutais do Ocidente no Iraque, no Afeganistão e na Palestina em nome da inferioridade, estreiteza e violência do islamismo e do mundo árabe. São visões justificadas pelo orientalismo, já presentes no tempo de Lawrence de Arábia.
 Segue hoje, então, a luta iniciada na Era dos Impérios contra os árabes, de olho no seu  trigo, e, como todos sabem, hoje, no petróleo da região.  A história vem de longe. Não foi à toa que os aliados vencedores da 1ª Guerra, dividiram entre si artificialmente o antigo Império Turco Otomano, no Tratado de Sèvres, assinado em 1920.
Claudia Santiago 


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