quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A VIDA DE ALEXANDRE, O GRANDE

A vida do maior líder militar da Antiguidade revela as investidas de um conquistador nato, temperamental e inquieto mesmo fora dos campos de batalha
Celso Miranda e Ernani Fagundes | 01/02/2011 12h42

Nos últimos anos, as produções de Hollywood têm mostrado, como nunca, a vida íntima de personagens históricos. E sem muito compromisso com a verdade. Mas, antes de jogar pedra na liberdade criativa dos cineastas, vale lembrar que antes deles, por exemplo, pintores criaram a imagem de Alexandre III, o Grande, como um cara bonitão, sarado e inspirador. Quem assiste a Alexandre (Oliver Stone, 2004) é tão inocente quanto os apreciadores dos artistas do século 17, que o mostram em haréns ou promovendo bacanais. Numa recente polêmica sobre a presença de gays no Exército brasileiro, um ex-sargento desavisado, certamente influenciado pelo cinema, garantiu que o soberano era homossexual. Onde estará a verdade? Onde investigar para conhecer melhor a vida privada de Alexandre e sua personalidade? A forma mais segura é mirar os textos que compilaram os originais do grego para o latim, como fizeram os historiadores romanos, ou os fragmentos gregos escritos por fontes diretas que conviveram com o rei (isso não garante a verdade absoluta, claro, mas reduz o risco de bobagens) e procurar evidências que comprovem ou desmintam o que lhe é atribuído. É o monarca que surge daí que você conhece a seguir.
Alexandre sempre foi retratado por historiadores gregos e romanos como um homem cortês e respeitoso com as mulheres. Até os 20 anos, porém, não parecia preocupado com descobertas amorosas. Sua vida era controlada pela mãe, Olímpia, que vigiava sua educação e saúde. "Como qualquer mãe, a rainha anotava a altura e o peso do príncipe e acompanhava seu crescimento", diz Victor Davis Hanson, da Universidade de Chicago. Alguns autores concluem por isso que o rapaz era pequeno para a idade, ou Olímpia, superprotetora. Aos 13 anos, ele foi entregue ao pai, o rei Felipe II, da Macedônia, que determinou sua rigorosa educação militar. "Alexandre teve ainda lições de matemática, retórica e filosofia com Aristóteles", afirma Hanson. O tutor foi influência decisiva na formação do soberano, mas eles podiam ter visões de mundo distintas. Até sobre as mulheres (leia à pág. 31). O historiador romano Diodoro Sículo, que viveu no século 1 a.C. (200 anos depois da morte de Alexandre, em 323 a.C.) diz que, após o assassinato de Felipe, em 336 a.C., o jovem rei foi aconselhado pelos generais de seu pai, Antípatro e Parmênio, a se casar e a produzir um herdeiro aos 20 anos. Ele, que iria partir para o Oriente numa campanha militar histórica contra os persas, preferiu continuar solteiro: "Seria uma vergonha, apontou, depois de citar que tinha sido nomeado pela Grécia para comandar a guerra e herdado forças invencíveis de seu pai, ficar em casa comemorando um casamento e aguardando o nascimento de uma criança", escreveu Diodoro.
No entanto, o moço não era alheio ao charme feminino. Plutarco, escritor grego do século 1, relata que, após a destruição de Tebas, Alexandre deixou que uma mulher, Timocleia, partisse da cidade só porque, com o perdão do trocadilho, não tinha nada de mocreia: "Vendo-lhe o rosto, o porte e o andar, a princípio julgou que era uma dama de honra, enquanto ela caminhava com segurança (...) Maravilhado, mandou que a deixassem ir em liberdade para onde quisesse".
Ao pé da letra, os textos históricos garantem: a primeira mulher que Alexandre conheceu in natura foi a bela Barsena, viúva de seu inimigo Mêmnon, comandante das tropas mercenárias gregas e persas na batalha do rio Granico. Ela foi apresentada após a captura do tesouro real persa de Dario III, em Damasco. Segundo Plutarco, ela "era sábia em literatura grega, doce e graciosa (...). Alexandre conheceu-a por sugestão de Parmênio, conforme escreve Aristóbulo, que lhe solicitou travasse relações com tão bela e nobre dama". Na narrativa de Aristóbulo (contemporâneo de Alexandre), a insistência do general Parmênio em conseguir uma mulher para seu rei faz supor que ela inicia o rapaz no amor, aos 23 anos, em 333 a.C.
Depois ele não parou mais e até foi seduzido pelos pedidos femininos. A amante de seu amigo e general Ptolomeu, a africana Taís, lhe dirigiu gracejos no palácio de Persepólis durante uma bacanal (a festa de Baco, o deus do vinho) - "Um festim de músicas a que até as concubinas de seus amigos compareceram" - e ele, embriagado, atendeu, mandando botar fogo na cidade para depois arrepender-se da destruição (leia às págs. 32 e 33). Mas o auge de seu encantamento pelas mulheres acontece após a morte de Dario. Sem a preocupação de enfrentar um grande oponente no campo de batalha, adotou o costume persa do harém. Diodoro relata que ele reuniu concubinas "em número não inferior aos dias do ano e destaque em beleza, selecionadas de todas as mulheres da Ásia. Cada noite, elas desfilavam em torno do divã do rei para que ele pudesse selecionar aquela com quem iria ficar à noite". A fama do harém correu o mundo helênico e gerou até a lenda de que uma rainha amazona chamada Thallestris foi a seu encontro no acampamento da fronteira da Hyrcânia (veja à pág. 34) com o intuito de conseguir um filho e se "consorciou com ele por 13 dias". Plutarco investigou as fofocas e deu a versão de Ptolomeu: "Dizem que tudo isso é falso (...) e parece que Alexandre mesmo, disso dá o seu testemunho porque, escrevendo a Antípatro (...) ele lhe diz que o rei da Cítia lhe queria dar a filha em casamento, mas não faz menção alguma a amazonas".
Vários costumes assumidos por Alexandre causavam estranheza aos companheiros. "O rei foi muito criticado pelo fato de exigir de seus súditos que se prostrassem diante dele. Isso horrorizava os gregos. Para eles e até entre seus generais macedônios, os costumes orientais utilizados por Alexandre eram traços que representavam a barbárie", diz Maria Beatriz Borba Florenzano, diretora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. "Ele chocou os gregos com um conceito muito avançado para a época. Ao aceitar orientais para seu Exército, disse, na Babilônia, que todos os homens são iguais", afirma o historiador José Luciano Cerqueira, da UFPE.


Marketing pessoal


O que se pode dizer da personalidade de alguém que se tornou general aos 16 anos, rei aos 20 e subjugou um império? Ele não apenas adotou e impôs novos costumes, como também promoveu um intenso intercâmbio cultural entre o Ocidente e o Oriente. "Alexandre foi um grande difusor do conceito de helenidade e seu sistema de propaganda está presente em esculturas (como as de seu escultor pessoal, Lísipo) e em moedas que mandou cunhar. Utilizava essas imagens para mostrar sua força física e o vigor em suas vitórias", diz Florenzano. "Costumava usar nas moedas as imagens de Zeus e Athena, seus deuses protetores, e também a do herói Hércules, que, na prática, era o retrato de Alexandre disfarçado." Cunhada ou esculpida, sua feição remetia ainda à de um leão.



De acordo com José Cerqueira, havia dois tipos de grego: os apolíneos (de Apolo), voltados à razão, e os dioníseos (de Dionísio, equivalente a Baco). "Alexandre estava nesse segundo grupo (como se vê pelas bacanais, que adorava). Sua ansiedade de conquistar tudo o angustiava", diz Cerqueira. "Ele tinha uma presença de espírito muito grande. Antes do início da campanha, ele foi consultar um oráculo. A pitonisa o mandou esperar na fila. Ele foi lá várias vezes, puxá-la pelo braço, para que fosse atendido. Depois de muita insistência, ela reclamou com ele: Com você, Alexandre, não há quem possa. Ele retrucou: Não preciso de mais respostas, já me disse o que precisava saber."

Muitos casamentos



Alexandre abandonou todas as suas concubinas quando se apaixonou por Roxana, filha do rei bactriano Oxyartes, irmão de Dario. Grande dançarina, ela o enfeitiçou numa apresentação assim que se conheceram. Foi seu primeiro casamento. Ainda durante a campanha na Índia, Aristóbulo relata que ele se casou com Parysatis, a filha caçula de um rei chamado Ochus, mas dela nada mais se sabe. Provavelmente, o ciúme de Roxana (ele sim relatado) deixou a rival no meio do caminho. De volta da Índia, Alexandre se casou em Susa com a filha mais velha de Dario, Estatira, e também com a mais nova, Barsine. Historiadores gregos e romanos alegam que esses casamentos eram uma forma política de Alexandre legitimar o trono persa (ou seja, uma jogada diplomática) e resultado de seu descontentamento por Roxana demorar a lhe conceder um herdeiro. Para o historiador grego Arriano, Alexandre mostrou o interesse de ter herdeiros. "Ele desejava que seus filhos e os de Heféstion fossem primos de primeiro grau." O rei aproveitou a ocasião de seu casamento com Estatira e Barsine para casar os seus companheiros de batalha (Heféstion, Crátero, Pérdicas, Ptolomeu, Eumênio, Nearcos e Selêuco) e, afirma Diodoro, a festa de núpcias foi sensacional: "Ele repartiu igualmente todas as demais damas persas, de sangue nobre e da mais alta linhagem, aos maiores de seus amigos. (...) Nesse banquete, escreve-se que havia 9 mil pessoas sentadas à mesa e a cada uma delas foi dada uma taça de ouro".
Segundo Plutarco, quem não gostou dos casamentos foi Roxana. Após a morte do marido, em 323 a.C., ela tratou de eliminar as concorrentes. Grávida do rei, enganou Estatira, forjando uma carta de Alexandre. Chamou-a ao palácio e "matou-a, ela e sua irmã mais nova, e depois jogou-lhes o corpo dentro de um poço". Quem diria! Quatro esposas rainhas e um harém. Alexandre era mesmo um grande conquistador.




Amor materno
Longe de Olímpia, ele adotou novas mães por onde passava
A pioneira no coração de Alexandre, claro, foi Olímpia, sua mãe e primeira esposa de Felipe II. Plutarco a retratou como uma feiticeira que criava serpentes, mas também como uma mãe que defendia o trono do filho e Alexandre a amava muito por isso. Mas a relação foi abalada após suspeitas investigadas por Aristóteles sobre a morte de Felipe: é que ela ordenou o assassinato da segunda esposa do marido. Alexandre partiu à Ásia brigado com a mãe, mas fizeram as pazes por cartas. Nelas, ela dava conselhos, demonstrava ciúme de Heféstion e não aceitava as noras como rainhas. Acabou assassinada após a morte do filho. Na Ásia, Alexandre "adotou" várias "mães". A primeira foi Ada, regente da Cária, durante a campanha na Ásia Menor. Obteve, assim, segundo Diodoro, o apoio dos carianos contra os persas. Ela costumava mimá-lo, oferecendo quitutes. Já Sisygambis, a mãe de Dario, foi tratada como rainha-mãe após a vitória na batalha de Issus. Alexandre manteve regalias e a nomeou tutora das netas, com quem se casaria mais tarde. Ao saber da morte do rei, ela teria se suicidado parando de comer. "Ele tratava muito bem as mulheres. Diferentemente de seu tutor, Aristóteles, que as igualava a escravos e bárbaros", diz José Cerqueira.



Nenhum comentário:

Postar um comentário