quinta-feira, 6 de novembro de 2014

OS TRÊS GRANDES

Durante a Segunda Guerra Mundial, os líderes de Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética tiveram nas mãos o destino de milhões de pessoas. Aliados contra a Alemanha nazista, esses homens de origens tão distintas se encontraram em Teerã (1943), Ialta e Potsdam (1945) para redesenhar as fronteiras de uma nova Europa. O mundo nunca mais seria o mesmo
 Poucas vezes na história três estadistas de origem tão diversa e passado político tão distinto estiveram reunidos para decidir sobre o destino de tanta gente. Somente uma guerra sem precedentes poderia unir aqueles três homens, que representavam coisas tão contrárias, ao redor de uma mesma mesa de negociações. Pelos Estados Unidos, lá estava Franklin Roosevelt, com 61 anos, filho predileto de um clã político poderoso que havia mais de meio século mantinha estreitos vínculos com o poder (seu tio Theodore Roosevelt também fora presidente). Em nome do Império Britânico, o primeiro-ministro Winston Churchill, 69 anos, orgulhoso de seus antepassados aristocráticos, entre eles Lord Malborough, célebre capitão-de-armas do século 18. Na outra ponta, o general Joseph Stálin, líder soviético, 64 anos,filho de um sapateiro da Geórgia.
 Roosevelt era um entusiasta da democracia e do capitalismo, Churchill sentia-se a própria personificação dos interesses universais do Império Britânico, enquanto o todo-poderoso Stálin era o arauto da revolução proletária e da luta anticolonialista, subversões que vinham abalando o mundo desde 1917. Um deles, o inglês, lutava para manter um império, enquanto os outros dois lançavam-se para ampliar seus próprios domínios.

Teerã, dezembro de 1943

Stálin, ao longo de 1943, protelou o quanto pôde o encontro com Roosevelt e Churchill, pois temia que os japoneses, então em acirrada luta contra os EUA e a Grã-Bretanha, mas que não estavam em guerra contra a União Soviética, vissem a reunião como um ato hostil. Tudo que Stálin não queria era ter de se preocupar com uma frente de batalha no Pacífico. Ao esticar ao máximo a data do encontro, finalmente marcado para o fim de novembro de 1943, Stálin acabou beneficiado pelos acontecimentos.
 Ao contrário de Estados Unidos e Grã-Bretanha, que até então tinham no currículo da Segunda Guerra vitórias militares em frontes secundários, como o norte da África e a Sicília, os trunfos de Stálin eram de impor respeito. O resultado da invasão alemã na União Soviética, iniciada em junho de 1941, havia sido muito diferente da guerra relâmpago travada contra poloneses, holandeses e franceses. As enormes distâncias da Rússia, a falta de estradas para um exército mecanizado e a resistência intensa e desesperada dos soldados soviéticos contribuíram para que os invasores não conseguissem conquistar nem Moscou nem Leningrado, a ex-capital que foi sitiada por 900 dias. O ponto culminante da resistência aconteceu na batalha de Stalingrado, travada entre 19 de agosto de 1942 e 2 de fevereiro de 1943, quando 100 mil alemães esfomeados e quase mortos de frio renderam-se ao general Zhukov. O mundo inteiro sentiu que o destino da guerra na Europa seria outro a partir daquele momento: Hitler não venceria.
 A Alemanha não se recuperou das perdas que sofreu – meio milhão de homens e um número incalculável de equipamento bélico.
 A esse triunfo espetacular, o Exército Vermelho acrescentou outro, a vitória em Kursk, na Ucrânia, em agosto de 1943. Na batalha, tida como o maior duelo de tanques travado em toda a história, os soviéticos provaram que podiam derrotar os alemães em pleno verão. Assim, Stálin tornara-se o personagem principal daquele primeiro encontro. Foi ele quem escolheu Teerã, alegando que não podia afastar-se muito do front. E a pergunta no ar era até onde Stálin iria após expulsar os nazistas e seus aliados do solo soviético.
 A primeira preocupação de Churchill, naquela manhã fria, era descobrir os planos soviéticos para a Polônia, rota natural para alcançar Berlim e destruir o regime de Hitler. O premier queria uma Polônia livre, mas Stálin deixou claro que não permitiria a instalação de um regime hostil ao comunismo e que pretendia manter o controle sobre o leste do país, oferecendo em troca parte dos territórios que fossem tomados da Alemanha para acomodar os poloneses refugiados. Churchill não estava em posição de discordar e Roosevelt parecia mais preocupado em deter a sanha imperial do inglês, do que com o destino dos poloneses.
 Roosevelt propôs – e os outros dois aceitaram – a tese da “rendição incondicional”, isto é, os alemães teriam que depor as armas sem nada exigir. Os aliados não aceitariam acordos. Stálin reclamou que lutava sozinho uma guerra pelo destino de todos e conseguiu dos dois outros líderes o compromisso de abrir um segundo front em maio do ano seguinte. A promessa era música para os ouvidos de Stálin, mas não seria cumprida.
 Ficou combinado que os “Três Grandes”, como passaram a ser chamados pela imprensa, forneceriam armas à guerrilha iugoslava que resistia nos Bálcãs ao cerco de 200 mil soldados alemães. Antes da despedida, Churchill presenteou Stálin com uma espada cravejada de jóias, homenagem à vitória em Stalingrado.
 Iata, fevereiro de 1945
 A península da Criméia, situada no mar Negro, ligada à Ucrânia pelo istmo de Perekop, é um pedaço de terra que poucas vezes esteve em paz. Várias vezes invadida e conquistada, permaneceu durante séculos território dos tártaros até que os russos os derrotaram, em 1783.
 Entre junho e julho de 1942, a cidade de Sebastopol fora submetida a um implacável sítio quando mais de 560 mil obuses desabaram sobre ela. Consideravam-na “a maior fortaleza do mundo” até que as resistências do general Petrov cederam e Sebastopol rendeu-se aos alemães. A região só fora reconquistada pelos russos no verão de 1944. Quando, depois de uma cansativa viagem, Churchill desceu do avião no aeroporto de Sebastopol, base aeronaval soviética na Criméia, em fevereiro de 1945, viu-se cercado por ruínas. A pobre península parecia um queijo suíço de tão esburacada.
 O premier britânico odiou o trajeto percorrido de automóvel até Ialta, local da segunda cúpula dos Três Grandes, realizada entre os dias 7 e 11 de fevereiro de 1945. Tratava-se de uma antiga estação de veraneio da família do czar, situada bem no sul da península da Criméia. Ali, em meio a uma paisagem deslumbrante, ao silêncio e ao clima ameno, Roosevelt, Churchill e Stálin decidiriam o destino de nações e de centenas de povos. Os três estadistas controlavam um território descomunal. Incluindo o domínio da Grã-Bretanha sobre as suas 51 colônias espalhadas pelos mundo, somadas ao território americano e ao soviético, os três exerciam sua soberania sobre mais de 55 milhões de quilômetros quadrados, habitados por um terço da população da Terra. Formavam um clube fechado no qual somente entravam, como exigia Stálin, “quem tivesse mais de 5 milhões de soldados”.
 Até aquela altura tudo parecia andar bem para os Três Grandes. As vitórias soviéticas ao longo de 1944 tinham sido impressionantes. Uma enorme linha de frente, com mais de 2 700 quilômetros de extensão, partia das águas geladas do mar Branco, no norte da URSS, estendendo-se até as estepes quentes do sul da Ucrânia. Como um implacável rolo compressor de tanques, aviões, canhões e tropas de infantaria, os russos haviam empurrado e parcialmente destruído quase todas as divisões alemãs, italianas, croatas, romenas e húngaras, colocando-as em debandada para fora do território soviético.
 Na frente ocidental, após a bem-sucedida operação de desembarque aliado na Normandia no Dia D, em 6 de junho de 1944, quando a Muralha do Atlântico de Hitler foi violada, tudo corria bem. Os nazistas cederam à articulação de milhares de bocas de canhões dos 1 200 navios de guerra das Marinhas americana e britânica, com as esquadrilhas de bombardeios com 3 500 aviões. Em seguida deu-se o assalto às praias da Normandia, tomadas por 90 mil combatentes. E aquela era apenas a vanguarda dos 2 milhões de soldados, das mais diversas nacionalidades, que chegariam ao continente europeu nos meses seguintes. As forças nazistas estavam sendo esganadas, na expressão de Churchill, por “um cinturão de ferro e aço”. A vitória era questão de tempo.
 As notícias do front faziam a conferência em Ialta parecer uma mistura de comemoração com leitura de testamento. As reuniões foram estabelecidas num horário que agradou Churchill: às 5 horas da tarde. O premier detestava acordar cedo e costumava despachar do leito, onde ficava até o meio-dia. Roosevelt também parecia feliz, lisonjeado por ter sido apontado por Stálin como árbitro entre os dois superpoderes europeus, o Império Britânico e a União Soviética.
 A principal proposta em discussão era a idéia de Churchill de estabelecer uma política de zonas de influência sobre as áreas liberadas ou a serem liberadas. Por um acordo prévio com Moscou, de outubro de 1944, os britânicos ficariam com a Grécia e metade da Iugoslávia, enquanto Stálin teria domínio quase integral sobre Hungria, Romênia e Bulgária. A questão mais polêmica era a da Polônia. Churchill alegou que a Grã-Bretanha fora à guerra em 1939 para defender a soberania polonesa e não poderia aceitar que aquele país, em véspera de ser ocupado pelo Exército Vermelho, ficasse na órbita soviética.
 Stálin retrucou que não se tratava de uma questão de honra, mas sim de segurança. Milhões de russos morreram durante a invasão alemã e grande parte graças a um ataque surpresa que partira do território polonês. Além disso, alegou que britânicos e americanos, quando ocuparam a Itália, não o chamaram para discutir como seria o regime pós-fascista. Stálin não cederia e, de fato, anunciou que já havia criado o Comitê Nacional de Lublin, formado por exilados poloneses refugiados em Moscou, que assumiriam o controle do país. O máximo que Churchill conseguiu foi um compromisso de Stálin para realizar eleições livres na Polônia, assim que a Alemanha fosse derrotada. Também eram polêmicas as questões de limites entre Iugoslávia, Itália, Bulgária e Áustria e da necessidade de a Turquia participar da etapa final do conflito. Stálin apresentou suas exigências no Extremo Oriente.
 Para lutar contra o Japão, queria em contrapartida que os “direitos russos” na região (Mongólia e ilhas Sakalinas e Kurilas, perdidas na guerra russo-nipônica de 1904) fossem restaurados e ampliados.
 Churchill desistira de cobrar de Roosevelt uma intervenção conjunta nos territórios libertados. Depois de um encontro em outubro, convencera-se de que os americanos preferiam ver os soviéticos controlando os territórios que libertassem do que manter suas tropas na Europa. Roosevelt acreditava na coexistência pacífica com a URSS e disse a Churchill em Ialta que não pretendia acampar no continente muito além de dois anos.
 A ocupação conjunta só foi consenso em relação à Alemanha. O país seria dividido em quatro – além dos Três Grandes, a França também controlaria uma parte. Stálin propôs que os alemães indenizassem todos os países atacados desde 1939: usinas, equipamentos industriais, máquinas, navios, tudo seria repartido e 50% ficaria com URSS. Os alemães teriam seus investimentos no estrangeiro expropriados e entregariam as colheitas e permitiriam o uso de sua força de trabalho para reparar os estragos.
 Mais radical foi a proposta de Henry Morgenthau, o secretário do Tesouro americano, que defendia a “pastorilização” da Alemanha, isto é, fazê-la voltar à Idade Média, com a remoção completa do parque industrial. Para Roosevelt, a dieta dos alemães deveria ser “sopa de manhã, sopa no almoço e sopa na janta"”. O país seria dirigido por um Conselho de Controle e os criminosos de guerra, julgados num tribunal especial.

Potsdam, julho de 1945

Nos anos seguintes, tornaram-se comuns as críticas à postura de Roosevelt em Ialta. Políticos conservadores o acusaram de ter entregue o Leste Europeu aos soviéticos, acusação de certo modo endossada por Churchill. Roosevelt, no entanto, não pôde se explicar: ele morreu em 12 de abril de 1945, três meses depois.
 O fato é que ninguém entregou nada a Stálin. Foi o Exército Vermelho que, na perseguição aos nazistas, levou tudo de roldão. Em 27 de fevereiro de 1945, tropas soviéticas invadiram a Romênia e instituíram um governo pró-comunista. No dia 2 de maio, quando Berlim foi capturada, Bulgária, Polônia, Hungria e Checoslováquia já estavam sob controle de governos alinhados com Moscou.
 Na grande política tudo é simbólico. Se Stálin, anteriormente, marcara a cúpula dos Três Grandes para Ialta, local onde o czar passava as férias, de certo modo queria que seus aliados o vissem como o herdeiro legítimo do Império Russo e não um bandoleiro caucasiano, como muitas vezes fora apresentado pela imprensa ocidental. Por isso, quando foi encerrada a guerra contra Hitler e procurou-se um lugar para o reencontro dos vencedores, a escolha recaiu sobre Potsdam. Distante cerca de 20 quilômetros de Berlim, era a morada dos antigos reis prussianos, algo como uma Versalhes na província de Brandemburgo, no coração da antiga Prússia.
 Havia sido o refúgio preferido de Frederico, o Grande, que lá construíra o belíssimo palácio de Sans Souci, marco do esplendor de seu reinado. Para os três estadistas que lá se reuniram no verão de 1945, Winston Churchill, Joseph Stálin e Harry Truman (antigo vice-presidente de Roosevelt), melhor escolha não havia para sepultar para sempre a ameaça belicista alemã. Os vitoriosos reuniram-se sobre a tumba dos antigos soberanos da Alemanha derrotada.
 Apesar da desolação em que Berlim se achava, Potsdam ainda mantinha a maioria dos seus prédios históricos – saqueados, mas em pé. O discreto mas amplo palácio de Cecilienhof, terminado em 1917, serviu para acolher, a partir de 17 de julho de 1945, os Três Grandes e suas numerosas equipes diplomáticas.
 Coube a Harry Truman capitanear as reuniões. Ex-dono de camisaria de Kansas City que chegara à Casa Branca por esses acasos da política, Truman nunca havia sido intimado nos assuntos de governo por Roosevelt, que o considerava insignificante. Assim, era visível seu embaraço diante daquela situação nova. Porém, apesar de matuto e inexperiente, ele era um político de sorte. Um dia antes da reunião, recebeu a notícia do sucesso da explosão da primeira bomba atômica, no deserto do Novo México. Para alguns historiadores, a Guerra Fria começou ali, pois os EUA, com tal poder de destruição, não viam mais motivos para dividir com os soviéticos o controle do mundo no pós-guerra.
 Churchill, por sua vez, líder do Partido Conservador, foi surpreendido pela derrota eleitoral frente aos trabalhistas em 26 de julho, o que implicou sua imediata substituição do cargo de primeiro-ministro. Sua presença na cúpula foi apenas como enviado do governo.
 Em Potsdam, os Três Grandes afirmaram a sentença final da Alemanha nazista. O país seria ocupado pelos aliados e administrado pelos comandantes militares das quatro zonas (americana, britânica, francesa e soviética), que supervisionariam a remoção da indústria e do material bélicos. Cada aliado extrairia as reparações das respectivas zonas – Stálin, como conquistara a Alemanha Oriental, basicamente agrária, exigiu participação no espólio ocidental – e a população alemã seria deslocada dos territórios orientais, entregues aos poloneses.
 Técnicos e diplomatas definiram as fronteiras da Europa Central e dos Bálcãs, embora não houvesse representantes desses países na conferência. A declaração final era um ultimato aos japoneses. Ou o imperador Hiroito rendia-se incondicionalmente, ou o Japão seria destruído.
 A reunião de Potsdam foi mais longa do que as outras. A situação de paz na Europa permitiu que os Três Grandes pudessem detalhar com mais precisão as decisões. Afinal, tiveram 16 dias para isso, só voltando para casa a partir de 2 de agosto. Ninguém soube dizer se a expressão inalterada de Stálin, quando Truman falou-lhe da bomba atômica, deveu-se a ele já saber do artefato nuclear ou se não se deu conta da potencialidade daquilo. Seja como for, a posse daquela terrível arma deu a Truman, um homem apagado, o degrau necessário para fazer dele um gigante, pronto para enfrentar os soviéticos em escala planetária.
 Revista Aventuras na História, agosto de 2003.



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