terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O falso paciente zero e os equívocos da busca pela origem da aids

Nos anos 1980, cientistas acreditaram ter encontrado o responsável pela entrada da aids na América. Pesquisas genéticas mostraram que a invasão silenciosa tinha começado muito antes
Texto Goretti Tenório | 24/02/2014 17h50
Em 1984, em um estudo publicado no American Journal of Medicine, profissionais do Centro de Controle de Doenças (CDC), em Atlanta, agruparam os casos conhecidos de aids, mal que havia três anos assombrava o mundo, e apontaram o que a ciência chamou de Paciente Zero – aquele que, de acordo com uma investigação epidemiológica, estaria ligado à origem da doença nos Estados Unidos. O mapeamento havia começado em 1982. A partir de entrevistas com os primeiros a apresentarem quadros de infecções oportunistas, os pesquisadores encontraram um personagem em comum: boa parte dos enfermos, na maioria homossexuais, relatava ter mantido contato sexual com um comissário de bordo franco-canadense. Os encontros tinham acontecido em Los Angeles, São Francisco, Nova York e outras nove cidades do país. Fazia muito pouco tempo que os cientistas haviam chegado a um consenso sobre o nome da doença e, quando isso aconteceu, ela já tinha recebido a pecha de peste gay.

Três anos depois do rastreamento feito pelo CDC, o jornalista norte-americano Randy Shilts lançou o livro And The Band Played On com uma revelação: o tal paciente zero se chamava Gaëtan Dugas e morrera em 1984. Shilts descreveu o homem como um atraente funcionário da Air Canada, que, viajando país afora, teria propagado o HIV em boates e saunas gays. Dugas tinha sido diagnosticado com sarcoma de Kaposi em 1980, antes portanto dos primeiros estudos sobre a aids que viriam relacioná-la a esse tipo de câncer. Trabalhando na cobertura da nova síndrome desde o começo, Shilts tinha se aproximado de cientistas e pacientes, e sua narrativa rica em detalhes acabou virando também um filme, em 1993, com o ator Jeffrey Nordling no papel de Dugas.
Se o desconhecimento ajudou a espalhar preconceitos e equívocos, os esforços para conhecer e conter a aids levaram a descobertas sobre o sistema imunológico e virologia. “Não se reconhece mais esse Paciente Zero”, diz Stefan Cunha Ujvari, infectologista e autor de A História da Humanidade Contada pelos Vírus. “Hoje os estudos genéticos mostram a disseminação de maneira mais clara.” Nas pesquisas, explica o médico, usam-se questionários para avaliar grupos de pacientes e tentar descobrir pontos em comum entre quem adquiriu a doença e também entre aqueles que escaparam dela. No caso das infecções que despontavam nos EUA, entrevistaram aqueles que apresentavam os sintomas, cruzaram as informações e chegaram a Dugas. Mas segundo um trabalho de 2007 do biólogo Michael Worobey, da Universidade do Arizona, estima-se que o vírus já estava circulando no país 12 anos antes de a aids ser reconhecida, em 1981.
Do SIV ao HIV
Stefen Ujvari, que atua no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, conta que a partir de 1990 os cientistas se debruçaram sobre o material genético do HIV, comparando suas semelhanças com o SIV, vírus encontrado em chimpanzés e outros primatas. “Assim se chegou ao triângulo africano formado por Congo, Gabão e Camarões”, afirma. Foi nesses territórios que o SIV passou ao organismo humano. Nas primeiras décadas do século 20, com a região dominada por conflitos, escassez de alimentos e pobreza, caçadores se embrenhavam nas matas perseguindo e matando esses animais. Na ação, eram mordidos, arranhados, cobriam- se com o sangue dos bichos ao destrinchá-los – e dessa forma foram contaminados, sem contudo apresentar nenhum problema de saúde. Acontece que o vírus é mutante e foi se transformando até chegar ao HIV, este, sim, capaz de provocar estragos nas defesas e levar a infecções fatais.

A pergunta persistia: quando surgiu a primeira pessoa infectada? Hoje se sabe que a aids estava presente na população africana desde o começo do século 20, mas ninguém relacionava, por exemplo, as mortes por diarreia e pneumonias a ela. Para chegar a essa data, estudiosos lançaram mão de uma espécie de marcador do ritmo das mudanças nos agentes infecciosos. “Usam-se amostras de vírus do mundo inteiro, de várias épocas. Com as análises monta-se um cálculo que chamamos de relógio molecular”, diz Cunha. De forma simplificada: os pesquisadores comparam os microorganismos e anotam as diferenças que vão aparecendo em seus códigos genéticos com o tempo. Digamos que a cada dez anos surgem duas alterações. Um cálculo retroativo pode inferir quando o ancestral da cepa pandêmica do HIV se originou.
Para calibrar o relógio molecular no caso do HIV, os pesquisadores usaram duas amostras sanguíneas obtidas no Congo, uma em 1959 e outra em 1960, confrontando-as com as de pacientes diagnosticados com aids décadas depois. A primeira veio de material colhido por dois cientistas que realizavam estudos genéticos das diferentes etnias africanas. Na ocasião não sabiam, claro, que havia um vírus circulando no país. Mas o fato é que aquele fragmento foi guardado e, quando a aids deu as caras, o sangue foi usado e descobriu-se a presença do HIV. A segunda peça a colaborar na engrenagem veio de uma biópsia feita em um nódulo linfático de uma mulher em Kinshasa, capital do Congo – na época, a cidade tinha o nome de Leopoldville –, também congelada nos laboratórios americanos.
Na América
Acredita-se que o HIV começou a se difundir pela África com a urbanização, o crescimento das cidades, que aumentou o contato entre as pessoas e fez surgir zonas de prostituição. “Em 1960 houve muitas migrações de tropas de um país a outro em razão das lutas pela independência e das guerras civis no continente”, diz Stefan Ujvari. Com os soldados mudando de lá para cá, o HIV passou a circular largamente.

As comparações de material genético revelam que, na América, o vírus chegou primeiro ao Haiti, em 1960, e alcançou os EUA em 1969. Por quê? “Quando o Congo se tornou independente, o país entrou numa guerra civil. O Haiti enviou tropas para as forças de paz e professores para reconstituir o ensino naquele país”, afirma o infectologista. Muitos voltaram para casa contaminados, e a enfermidade foi abrindo caminho, chegando aos EUA por meio de haitianos que procuravam ali refúgio da feroz ditadura de François “Papa Doc” Duvalier. Na mesma época, caiu o governo de Fulgêncio Batista em Cuba, e a ilha deixou de ser o playground dos norte-americanos. A rota do turismo sexual migrou para o Haiti.
Somente quando a aids surgiu entre mulheres, crianças e pessoas que necessitavam receber transfusão de sangue começou a arrefecer o estigma que levantava bandeiras moralistas em vez de se preocupar com proteção de verdade. Ficou claro, finalmente, que a doença viajava – e ainda viaja – pelo globo bem antes de ter levado à morte personagens como Gaëtan Dugas. E, apesar dos avanços obtidos em trabalhos de décadas nos laboratórios, o sexo seguro, com o uso de camisinha, continua valendo como recomendação para todos. Assim como os testes para detectar o HIV em doadores de sangue e o não compartilhamento de seringas.



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