segunda-feira, 16 de maio de 2016

A campanha dos EUA no México, que redefiniu suas fronteiras

A campanha dos EUA no México, que redefiniu suas fronteiras
O conflito levou o exército americano até a Cidade do México, mas os militares acharam melhor devolvê-la aos mexicanos
TEXTO Rodrigo Casarin | ILUSTRAÇÃO Cassio Bittencourt | 08/08/2014 16h52
Sobre uma colina com mais de 60 m de altura, o forte de Chapultepec abrigava a Academia Militar e era um dos pontos mais importantes para que a Cidade do México, a capital do país, permanecesse intocada. As defesas mexicanas já estavam bastante enfraquecidas, restavam algumas centenas de homens - muitos deles jovens cadetes - para zelar por aquele ponto estratégico. Os ataques norte- americanos começaram na madrugada. Ainda que tenha havido uma breve trégua, retomaram com força antes mesmo do sol raiar. A resistência dos defensores causou diversas baixas nos invasores, elevou alguns combatentes ao status de heróis da nação e deixou uma sensação de vitória moral nos mexicanos. Mas não foi suficiente para que os ianques deixassem o seu objetivo de lado. Restava aos sobreviventes debandarem para a cidade. Ao amanhecer, o forte estava tomado pelo Exército estrangeiro, que teria como próximo alvo a capital - faltava apenas invadi-la e tomá-la para, definitivamente, vencerem a guerra.

Estado rebelde
Na campanha até ali, os norte-americanos haviam triunfado em duras batalhas. Mas a tomada da Cidade do México talvez tenha sido mais fácil do que poderiam imaginar. Ainda que necessitassem enfrentar alguns focos pontuais de rebeldes e as adversidades provocadas pela própria população, em pouco tempo tirariam a bandeira mexicana que tremulava sobre o Palácio Nacional e içariam a dos Estados Unidos, definindo, simbolicamente, vencedores e vencidos.
Era o dia 14 de setembro quando os invasores chegaram à capital. A tomada da cidade foi o último capítulo belicoso de uma guerra iniciada em 1846, resultado de um conflito sobre o território do Texas que se juntou à necessidade de expansão dos Estados Unidos. O México, que não queria perder um estado rebelde, acabou perdendo muito mais do que isso.
A república do Texas
A história dos problemas no território texano começou quando a região ainda pertencia à coroa espanhola - como boa parte do atual sul dos Estados Unidos, por isso nomes como Flórida, Los Angeles e Santa Bárbara. O governo do México concedeu licença para que 300 famílias de colonos norte-americanos se estabelecessem no lugar. Em 1821, o México conquistou sua independência da Espanha e, dois anos depois, o Congresso votou pela abolição da escravatura, algo que ia contra a vontade dos estrangeiros estabelecidos no Texas. Apesar do decreto, os texanos continuavam governando a região de forma praticamente autônoma e independente. Isso até o general Santa Anna instituir uma Constituição que centralizava o poder, acabando com leis locais.
Os colonos não desejavam ser submissos ao governo mexicano e rebeliões começaram a ocorrer, bem como negociações entre o México e os EUA para discutir as proibições. Tensões e dificuldades surgiram, até que parte do Exército mexicano foi deslocada para a região e entrou em conflito com os texanos. O México vivia um momento delicado, no qual o Estado nacional procurava estabelecer sua organização política, um período crítico após a guerra pela independência que durou mais de 10 anos e levou à destruição da economia local. Os texanos, apoiados pelos EUA, conseguiram mais do que derrotar os militares inimigos: transformaram o general Santa Anna em refém.
Em março de 1836, o Texas proclamou sua emancipação, alegando romper com a tirania militar, a intolerância religiosa e a falta de escolas na região. A partir da declaração, os texanos elegeram seu próprio presidente, fizeram uma nova Constituição - na qual a escravidão era legal - e obtiveram o reconhecimento dos EUA, país para o qual fariam uma solicitação de anexação em 1845.


Boa parte da população texana estava insatisfeita com as leis mexicanas. Por isso batalharam por sua independência e, em seguida, pediram anexação aos Estados Unidos, que aceitou o pedido. "Os Estados Unidos declararam guerra ao México dez anos depois da independência do Texas, num projeto mais amplo, a expansão para o oeste, no qual caravanas avançavam levando fortes militares", diz Maria Ligia Prado, doutora em História Social pela USP e especialista em América Latina. A desavença entre México e Texas caiu como uma luva na necessidade de expansão territorial dos EUA. Serviu como catalisador da nação e impulsionou, entre outras coisas, a expansão territorial rumo ao oeste e ao sul, numa série de conquistas de novos territórios antes pertencentes a franceses, ingleses, russos e espanhóis.

Metade para mim, metade para você
Antes da batalha de Chapultepec e o domínio da Cidade do México, outros episódios já haviam ocorrido. Para invadir o país vizinho, o Exército dos Estados Unidos se dividiu em três frentes, duas que rumaram para o sul do Texas e outra que foi para o Novo México e, em seguida, para a Califórnia. Vitórias em Palo Alto e Resaca de la Palma foram decisivas para que a ofensiva se consolidasse, seguindo para Monterrey - palco de uma batalha de três dias que causou muitos danos aos dois Exércitos. Apesar dos triunfos, os norte-americanos perceberam que os mexicanos, liderados pelo general António Lopez de Santa Anna, não se entregariam. Então, para que conseguissem alcançar a capital, utilizaram também a Marinha. Após uma série de conflitos em Vera Cruz, Cerro Gordo, Contretas e Molino del Rey, finalmente chegaram a Chapultepec.



Mas se o principal objetivo dos EUA era a ampliação do território e seu Exército conseguiu chegar até a Cidade do México, por que não ficaram com todo o bolo? "Quando você vence a guerra, precisa tomar a capital do país vencido, isso é uma regra básica. Contudo, anexar o país inteiro significaria também provocar uma resistência muito grande por lá. No norte do México, a ocupação sempre foi menor, é muito deserto. A própria população do Texas era muito pequena. Desde o período colonial, a maior parte das pessoas estava no centro e no sul do país, e não aceitaria que o EUA tomassem a capital, haveria ainda mais resistência", afirma a professora Maria Ligia.

Para colocar fim à guerra - iniciada pelo México, não custa lembrar -, autoridades mexicanas e norte-americanas assinaram, em fevereiro de 1848, o Tratado de Guadalupe-Hidalgo, no qual o país latino cedia aos invasores, além do Texas, áreas que atualmente correspondem aos estados do Novo México, Califórnia, Arizona, Colorado, Nevada, Utah e Wyoming, além de pequenas partes de Kansas e Oklahoma - um espaço de aproximadamente 2,4 milhões de km2, que corresponde à metade do então território mexicano. O Rio Grande serviu (e ainda serve) como referência para a fronteira. Em troca, o México recebeu uma indenização de 15 milhões de dólares.
O tratado foi criticado por expansionistas norte-americanos, que o consideraram condescendente com os derrotados - queriam todo o território onde o Exército invasor fincou bandeira. Mas o acordo foi atacado até por autoridades dos EUA, responsáveis pelas negociações de paz, que julgaram tamanha perda territorial uma grande humilhação aos mexicanos, provocando neles um grave sentimento de frustração. Seja como for, muito do que é hoje território norte-americano foi descoberto, ocupado e colonizado por descendentes de espanhóis e mexicanos.
Os pequenos heróis
Durante a batalha de Chapultepec, seis cadetes militares mexicanos, com idade entre 13 e 19 anos - o que dá uma ideia de como era a formação do Exército do país - recusaram a ordem de recuo dada por seu general e procuraram defender o lugar que ocupavam até a morte. Esses jovens resistentes passaram a ser conhecidos como "Los niños héroes" (meninos heróis) e se tornaram uma espécie de mito patriótico. A versão mais romântica da História diz que o último deles, ao perceber que o fim era inevitável, enrolou-se em uma bandeira do país e pulou do alto do forte, evitando que o pavilhão caísse em mãos inimigas.




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