terça-feira, 17 de maio de 2016

A FAMÍLIA BÓRGIA E A IGREJA

A família Bórgia tomou o controle da Igreja com truculência
TEXTO Rodrigo Casarin | ILUSTRAÇÕES Sérgio Bergocce | 03/07/2014 12h24
O momento político para os Bórgia era conturbado. Inimigos ameaçavam a soberania da família à frente da Igreja Católica e dos reinos por ela comandados. César Bórgia, espécie de líder da guerrilha papal, colocava em prática uma de suas habilidades preferidas: prender e assassinar adversários. Rodrigo Bórgia, àquela altura o papa Alexandre VI (outro que costumava eliminar quem se opunha ao seu poder), optou por também agir. Prendeu o rival, o cardeal Orsini, nas sombrias, isoladas e precárias masmorras do Castelo de Sant’Angelo, imponente construção erguida às margens do Rio Tibre.

Era para o Sant’Angelo que Alexandre VI se retirava nos momentos introspectivos. Era a partir de lá que começaria a acertar suas contas com Orsini. Deixou o cardeal preso até que definhasse e morresse. Depois, confiscou seus bens, prendeu alguns familiares e despejou outros. Em seguida, mandou César assassinar dois sobrinhos do inimigo. Com isso, a família Bórgia se reafirmava como a grande força daquelas regiões que mais tarde seriam transformadas num único país, a Itália, bem como de outras áreas católicas, como a Espanha e a França. Abençoado, Alexandre VI, o santo homem, o papa, nem sequer se dava ao trabalho limpar o sangue sempre quente que escorria pelas suas mãos antes de se deitar – não para dormir, mas, provavelmente, para se divertir com alguma mulher.
Espanha em Roma
A família Bórgia chegou ao cargo máximo da Igreja após a Espanha ganhar importância dentro do cenário político e econômico europeu, principalmente por causa das grandes navegações. O papa – um posto, então, essencialmente político – era escolhido de acordo com os interesses das famílias mais poderosas de cada região, e chegara a hora de um espanhol poder jogar conforme os interesses de seus conterrâneos.
Após a morte do papa Nicolau V, o cardeal Afonso Borja, de 76 anos, assumiu como papa Calisto III. “A chegada dos Borja, que passariam a se chamar Bórgia, é a entrada da própria Espanha no Vaticano”, diz Oscar Luiz Brisolara, mestre e doutor em linguística, professor de língua e cultura latina na Universidade Federal do Rio Grande e autor de Sancta Lucrezia dei Cattanei, obra de ficção sobre Lucrécia, peça-chave na família Bórgia.
Calisto III ficou pouco mais de três anos no poder, de 1455 a 1458. Durante o mandato, fortaleceu o nome de sua família nos reinos católicos e, mais importante, colocou parentes em alguns cargos importantes. Entre eles estava seu sobrinho Rodrigo Bórgia, que, aos 27 anos, já era um dos cardeais mais influentes de Roma – ele foi o responsável pela introdução da Inquisição na Espanha em seus tempos de cardeal em Valência, que levou a julgamento mais de 13 mil judeus convertidos entre 1480 e 1492.
“Em uma época em que cada família importante tinha um cardeal, principalmente para negociar impostos e fazer articulações políticas, Calisto III colocou Rodrigo no posto de cardeal e secretário do Estado. Ele fazia a administração financeira, mantinha relações com outros reinos e países e defendia os interesses da Espanha”, afirma Brisolara.
Vaga no céu
A habilidade política de Rodrigo foi fundamental para que Pio II sucedesse seu tio. A Igreja ainda passou pelas mãos de Paulo II, Sisto IV e Inocêncio VIII antes de, finalmente, em 1492, o próprio Rodrigo Bórgia tornar-se o sumo pontífice. No posto, seria um dos principais responsáveis por transformar os Bórgia em uma das famílias mais famosas e temidas de todos os tempos. Como Alexandre VI, intensificou o nepotismo e nomeou familiares para dezenas de cargos próximos e importantes. Agindo como dono de toda a fortuna e propriedades da Igreja Católica, distribuía terras e dinheiro. Para seu filho Pedro (sim, filho, mesmo em uma época em que o celibato já era exigência da Igreja) comprou o ducado de Gandía, na Espanha. Também construiu um enorme palácio repleto de símbolos de ostentação em frente à Santa Sé para que tivesse uma residência à altura de seu poder. Apesar das fontes de receita da Igreja serem diversas e muito rentáveis, logo precisaram ser ampliadas para que seus gastos fossem cobertos. As vendas de indulgências dispararam – jamais foi tão fácil comprar uma vaga no céu.

“Alexandre VI passou a tratar os territórios pontifícios como sendo dos Bórgia, isso causou um choque com outras famílias poderosas. Ele também fez um uso muito grande da simonia, a venda dos cargos eclesiásticos. Nenhum cardeal foi nomeado sem ter comprado o posto. Esse dinheiro ajudava na contratação deexércitos mercenários, usados para incrementar ameaças com poderio militar, algo fundamental para se tecer a diplomacia”, diz Rui Luis Rodrigues, especialista em história moderna e professor da Unicamp.
Antes mesmo de assumir o papado, Rodrigo começou a demonstrar sua força e dar indícios de como seria seu mandato. Durante o conclave que o elegeu, Roma vivia um período de extrema violência – os assassinatos chegavam à casa das centenas. Assim que foi eleito, resolveu dar uma resposta à situação. Mandou identificar os bandidos, ordenou a destruição de suas casas e que fossem enforcados no lugar em que moravam, para ficarem expostos e servir de exemplo para a população. No dia 26 de agosto, quando foi nomeado papa, tinha a cidade em paz e aos seus pés.
O tratamento dado aos assassinos seria muito parecido ao dispensado àqueles que tentavam se opor à família Bórgia. Se alguém se colocasse no meio dos interesses políticos, não havia pudor em matá-lo. Uma das práticas mais comuns era o envenenamento – normalmente uma substância letal colocada na comida ou na bebida do inimigo. Com a desculpa de proteger os cristãos dos muçulmanos, Alexandre VI criou a Santa Liga, um exército do cristianismo, e nomeou Giovani, seu filho mais velho, comandante. César, o rebento mais novo, destinado à vida na Igreja, não gostava do papel que lhe cabia. Após um jantar em família, matou Giovani e se desfez do corpo no Tibre. O pai descobriu que César assassinara o irmão e optou por findar as investigações para que o caso não se transformasse em escândalo. Antes de completar 18 anos, César Bórgia se tornou cardeal, chefe militar, líderdas tropas papais – e um frio assassino. Na prática, o braço armado da Igreja virou um instrumento de conquista e intimidação e César despontou como líder sanguinário, que não titubeava em resolver qualquer pendência de maneira sinistra.
Lascívia
Além de Pedro, Giovani e César, Rodrigo Bórgia já era pai de outros quatro filhos que moravam em Roma, de relacionamentos com mulheres diferentes. Para manter as amantes por perto, ordenava que casassem com funcionários da Igreja. Com isso, atenuava os boatos acerca da fama de mulherengo. Como Alexandre VI, manteve durante muito tempo uma relação com Giulia Farnese, amiga de sua filha Lucrécia, com quem começou a se engraçar quando a menina tinha 15 anos – os dois provavelmente tiveram uma filha. Os boatos diziam que o papa mantinha um grande leque de prostitutas à disposição para utilizar junto com os filhos, muitas vezes em orgias sob teto santo. As lascívias poderiam envolver até mesmo Lucrécia, que, num jogo incestuoso, manteria relações sexuais com seu pai e seu irmão César – contudo, isso jamais foi provado.
O que realmente se prova é como Lucrécia acabou utilizada como fantoche por César e Alexandre VI. Aos 13 anos, a garota foi obrigada a se casar. O marido era Giovanni Sforza, a princípio um aliado da família Bórgia. Logo ele se mostrou uma ameaça. Não demorou e surgiram pressões para que o casamento se encerrasse. Sforza até tentou resistir, mas, após César ameaçá-lo de morte, achou melhor aceitar a decisão. Alexandre VI garantiu que o casamento não havia sido consumado porque Sforza era impotente.
O segundo marido de Lucrécia não teve a mesma sorte. Quando a relação entre a menina e Alfonso de Aragão se tornou politicamente desinteressante, ele foi atacado por quatro homens na escadaria da Basílica de São Pedro. Conseguiu sobreviver, mas não por muito tempo. Enquanto se recuperava, foi estrangulado.
Todos sabiam que César Bórgia era o mandante do crime. Lucrécia ficou abalada, mas não havia espaço para lamúrias. As alianças e manobras políticas precisavam continuar. Aos 21 anos, a filha mais querida do papa estava indo para o seu terceiro casamento, com Alfonso d’Este, filho do Duque de Ferrara, com quem permaneceria pelo resto da vida.
FAMÍLIA DO BARULHO | Quem eram os Bórgia que mandavam e desmandavam em Roma
RODRIGO
Rodrigo Bórgia nasceu em 1431, no reino de Aragão, na Espanha. Aos 18 anos foi mandado para a península italiana, onde estudou direito na Universidade de Bolonha. Aos 25, já era vice-chanceler do Vaticano, cargo que lhe rendeu muito dinheiro e onde se manteve até conseguir se eleger papa – na base de compra de votos. Teve provavelmente oito filhos com cinco mulheres diferentes. Como papa, coube a ele dividir as terras da América recém-descoberta entre Portugal e Espanha, por meio da Bula Inter Coetera.
CÉSAR
Para alcançar seus objetivos ou honrar a família, envenenava, assassinava e, se preciso, esquartejava a vítima para que o crime se tornasse mais cruel. Líder do exército de Alexandre VI e apaixonado por soluções bélicas inventivas, teve Leonardo da Vinci como funcionário. Um dos homens mais ricos da península italiana, casou-se com a princesa Charlotte, da França, e recebeu o título de duque de Valentinois. César serviu de inspiração para Nicolau Maquiavel escrever O Príncipe.
LUCRÉCIA
Filha de Rodrigo com Giovanna dei Cattanei, suposta dona de uma rede de prostíbulos, Lucrécia inspirou diversas manifestações artísticas. Pinturicchio a retratou como Santa Catarina de Alexandria. Depois de deixar de ser instrumento de manobra política de Alexandre VI e César, viveu com seu último marido e diversos amantes, algo comum às nobres do Renascimento. Lucrécia teve 11 filhos e morreu quando dava à luz o último deles, em 1519, aos 39 anos.
Ponderação
“Acredito que as orgias e os incestos façam parte das lendas que buscam atacar os Bórgia, vindas dos inimigos da família. O papa tinha uma vida sexual sabidamente intensa, e algumas fontes sugerem que César tinha, sim, fixação pela irmã, mas, quando olhamos a trajetória de Lucrécia, é difícil acreditar em incesto”, diz Rodrigues. O especialista da Unicamp faz uma importante ponderação sobre a família Bórgia: “Os valores morais eram outros, temos que ter isso em mente para não cometermos o anacronismo de julgarmos o que aconteceu com os olhos de hoje. Determinadas práticas, como o assassinato e o envenenamento, eram usados por todos os tiranos da região”, afirma Rodrigues. “No caso dos Bórgia, o agravante foi a concentração de poderes seculares e religiosos. Esses fatos, aliados a produções artísticas exageradas, sem pesquisa histórica séria, faz com que o imaginário no entorno da família cresça bastante. Acredito que, se dermos os devidos descontos, eles cometeram, sim, atos condenáveis, mas numa situação em que agir dessa maneira, matar rivais, dar filhas a casamentos de interesse, vender cargos eclesiásticos, não era estranho. Eles não eram uma aberração dentro da realidade do Renascimento.”
Brisolara reforça esse ponto de vista: “Os assassinatos políticos acontecem até hoje”. Com exageros e anacronismos históricos ou não, ironicamente, o veneno, uma das armas dos Bórgia, talvez tenha sido o motivo que os levou à queda. Alexandre VI faleceu em 18 de agosto de 1503, aos 73 anos. Há duas versões: uma defende que ele morreu em decorrência da malária, enquanto outra garante que foi vítima de envenenamento por arsênico. Na ocasião, César estava gravemente doente – há indícios de que o assassino tentou matar pai e filho, que sobreviveu por ser mais jovem. Ao se recuperar, César enfrentou articulações políticas contrárias aos Bórgia. Logo suas cidades foram tomadas e as fontes de renda secaram. César foi preso e levado à Espanha, de onde fugiu e retornou à península italiana. Mas a vida clandestina não duraria muito. Depois de matar inúmeros inimigos, foi assassinado em 1507, aos 31 anos. Foi-se com ele o último resquício do grande poder dos Bórgia dentro da Igreja Católica.




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