quarta-feira, 18 de maio de 2016

A vida no reich: as testemunhas

Eycke Strickland nasceu em Kassel, no coração da Alemanha, nove meses depois de Hitler ter sido nomeado para a chefi a do governo (chancelaria). A mãe da menina, Auguste Laabs, assim como o pai, Karl Laabs, não eram “convencionais”. Eles eram pacifi stas por princípio – o pai servira em Flandres na Primeira Guerra, onde vira o irmão mais velho morrer diante de seus olhos, e o avô materno tombara no campo de batalha, apesar das muitas preces da esposa para que retornasse em segurança.

Tanto o pai quanto a mãe haviam sido educados para serem independentes e para olharem o nacionalismo exacerbado com desconfi ança. Conheceram-se por meio de um movimento da Juventude Alemã chamado Wandervogel (“Pássaro Errante”), que incutiu no casal, assim como em todos os seus membros, um sentimento idealista de amor à natureza e de defesa do igualitarismo, valores que Auguste e Karl, por sua vez, transmitiram a seus filhos.

Karl foi impedido de completar o doutorado em economia e ciências sociais depois de ter escrito uma frase crítica e antinazista na lousa de uma sala de palestras, no dia em que Hitler ascendeu ao cargo de chanceler, assumindo então um emprego de arquiteto. A família estabeleceu-se em Wilhelmshausen, povoado ao norte de Kassel, onde Karl passou a projetar casas de baixo custo para trabalhadores cuja única alternativa seria morar em prédios de apartamentos superlotados.

Em agosto de 1939, às vésperas da guerra, Eycke, então com 6 anos, seus dois irmãos e sua irmã mais nova foram retirados de casa e mudaram-se para Vaake, outro pequeno povoado em Hessen, onde os pais pensaram que a família estaria mais segura. Logo começaram a preparar o pequeno quintal para cultivar seus próprios alimentos, mas, antes de ser possível iniciar o plantio, Karl foi recrutado para prestar serviços civis para a Luftwaffe (força aérea alemã) longe de casa, para trabalhar na construção das instalações de campos de pouso. Pouco tempo depois, Auguste teve de deixar os filhos sob os cuidados de uma criada enquanto era obrigada a comparecer ao tribunal para se defender da acusação de insultar um membro do partido quando fazia reivindicações em nome do marido.

Entretanto, esse era apenas o início dos problemas. Em julho de 1940, a irmã mais nova de Eycke, Ute, teve pleurisia e foi levada a um hospital infantil, onde foi tratada e curada. Contudo, chegado o dia em que poderia voltar para casa, um ataque aéreo fez com que todas as crianças, incluindo os pacientes contagiosos, fossem conduzidas às pressas a um abrigo antibomba. Ute foi infectada com difteria e morreu pouco tempo depois. Seus pais entraram em luto: sua mãe usou apenas vestidos pretos durante um ano inteiro e o pai, uma faixa preta no braço. Eycke não demorou a notar mais mulheres vestidas de preto e homens usando faixas pretas nos braços pelo povoado.

Apenas em 1941, Eycke, então com 7 anos, aprendeu que 30 de janeiro, aniversário de seu pai, tinha um significado especial para outra pessoa. Sua professora explicou que o dia era feriado nacional porque, oito anos antes, o Führer fora nomeado premiê. Em assembleia, naquela manhã, viu-se o saguão decorado com bandeiras alvirrubras e as crianças aprenderam que o símbolo central que viam nelas se chamava suástica. Depois de ouvir a um discurso que exaltava as virtudes do nacional-socialismo e enaltecia o papel de relevância que as próprias crianças teriam enquanto cidadãos e cidadãs da nova Alemanha, exigiu-se que a classe aprendesse a letra de “Deutschland über Alles” (“Alemanha acima de tudo”, o hino nacional), para que cantassem na próxima assembleia. Sua doutrinação já começara.

No entanto, havia algo dentro de Eycke que a impedia de fazer a saudação a Hitler todas as vezes que os bonzen (burocratas subalternos) do povoado apareciam. Em março de 1942, a família mudou-se para a Polônia a fim de ficar junto do pai, que tinha o cargo de arquiteto distrital em Krenau, a poucos quilômetros da cidade que se tornaria sinônimo do Holocausto: Auschwitz.

Em Krenau, Karl conheceu Mordecai Hartmann, jovem judeu cuja função de alimentar a fornalha do prédio onde o arquiteto trabalhava e que apresentou esse alemão “não convencional” à sua família. Por meio desta, o pai de Eycke tomou conhecimento do destino que aguardava os judeus da Polônia e resolveu que deveria fazer todo o possível para salvar quantos pudesse, qualquer que fosse o risco para ele próprio ou para sua família.

Aos olhos de Eycke e de seus irmãos, a fazenda de sete acres, com celeiros e anexos, parecia um paraíso para crianças. Elas ficavam livres para brincar e explorar e tratavam a criação de animais como seu zoológico particular. Foi só quando seu pai começou a erguer novas cercas para manter os animais dentro e os “encrenqueiros” fora, que Eycke começou a pensar que aquele lugar talvez não fosse tão amistoso assim.

Algum tempo depois, outro incidente deixaria Eycke confusa. Quando estava com seu pai, em uma charrete aberta, a menina foi abordada por um homem bem vestido, que trocou cumprimentos com o pai e então ofereceu para a filha uma boneca Kathe Kruse feita à mão. Era uma bela boneca, de grande valor para colecionadores. Era um presente raro para uma criança. No entanto, para espanto de Eycke, seu pai recusou a oferta de maneira ríspida: “Sabe que não posso aceitar seu presente. Adeus, Herr Goldmann”. Pela expressão de seu rosto, o sr. Goldmann ficou tão chocado quanto a menina. Quando Eycke questionou o porquê de ele não tê-la deixado aceitar o brinquedo, disse-lhe apenas que “olhos estão vigiando; ouvidos estão escutando”, e sinalizou na direção do condutor da charrete. No Natal seguinte, a garota viu a irmã mais nova ninando a boneca, e ficou sabendo que a mãe a encontrara próxima ao portão. O Sr. Goldmann achara uma alternativa que não levantaria suspeitas sobre a família.

Só após a guerra, Karl sentiu que poderia contar a Eycke por que ele tivera de cuidar para não ser visto aceitando presentes de um amigo judeu. Como Kreisbaurat (arquiteto distrital), ele era responsável por emitir licenças de trabalho, que garantiriam alimentação, pagamento e circulação segura para os empregados em projetos municipais. Pondo a si próprio em grande risco, Karl dera prioridade aos judeus, que estavam sob a constante ameaça de serem transportados para campos de trabalhos forçados ou de extermínio. Ele chegou a persuadir um oficial da Gestapo de que ele não conseguiria finalizar seus projetos sem aqueles trabalhadores e, finalmente, eles foram liberados.

Para falar conosco, Eycke pediu que suas respostas fossem precedidas pelo seguinte comentário: “Considerando que não posso falar em nome do povo alemão, limitarei a maioria de minhas respostas ao que vi e ouvi quando era criança”.

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