quinta-feira, 26 de maio de 2016

A vida no Reich: dias de tempestade

Para o alemão comum, a Segunda Guerra Mundial não começou com o ronco infernal dos bombardeiros Stuka e explosões que faziam a terra tremer, como foi para os cidadãos de Varsóvia e Cracóvia. Não houve ataques aéreos ou blecautes como na Inglaterra, ou as corridas em pânico para comprar mantimentos e combustível, como na França, Bélgica e Holanda. Em vez disso, o primeiro sinal de que a Alemanha estava envolvida em um conflito internacional veio com o rompimento de todas as comunicações com o mundo exterior. A partir da tarde de 1º de setembro de 1939, nenhuma ligação telefônica podia ser feita para fora do Reich. As telefonistas foram instruídas a informar às pessoas que ligavam que não conseguiriam conectá-las, mas o serviço normal seria restabelecido o mais rápido possível.

O rádio era, agora, a principal fonte de informação das pessoas e todas as transmissões tinham que ser aprovadas pelo Ministério do Esclarecimento Público e da Propaganda, comandado por Goebbels. Consequentemente, o tom dos primeiros anúncios na véspera da guerra era de resignação e determinação. Era “uma pena” que as coisas tivessem chegado a esse ponto, mas a liderança tinha a “consciência tranquila”. O povo alemão tinha direito ao seu Lebensraum (espaço vital): “Fizemos tudo que qualquer país faria para estabelecer a paz”, dizia um comunicado lido nas rádios.

Poucos entre os alemães que ouviam as notícias naquela tarde amena de outono teriam questionado tal direito. Por mais de um ano, diuturnamente, a população da Alemanha e de seus aliados do Eixo havia sido condicionada a acreditar que eram vítimas dos rancorosos poderes inimigos, que haviam imposto reparações punitivas excessivas após a derrota na Primeira Guerra Mundial e ocupado território que o Führer declarara solo sagrado. A invasão da Polônia não era um ato de agressão, diziam, mas meramente a Alemanha exercendo sua autoridade para “libertar” os alemães dos territórios ocupados e para limpar a Europa das “raças inferiores”, a fim de que a Europa oriental pudesse ser arianizada.

Quando a guerra foi declarada, um dos primeiros ajustes a que todos tiveram de se acostumar foram os blecautes. Meras cortinas eram insufi cientes, como a população era lembrada em termos claros pelos diligentes oficiais de bloco e a polícia, que autuavam qualquer um que deixasse um um mínimo traço de luz escapar.

O humor sombrio por todo o país contrastava frontalmente com o patriotismo ufanista com que a declaração de guerra fora recebida em 1918. Havia também muitos resmungos e descontentamento, principalmente nas comunidades rurais, que veriam muitos homens mais velhos de famílias camponesas – alguns com mais de 40 anos – serem recrutados, enquanto um número expressivo de homens mais jovens era isentado do serviço militar sob a alegação de que estavam em profissões valiosas. Essas exceções criaram um “clima disseminado de ressentimento venenoso” pela população, segundo um relatório oficial.

Se os civis alemães imaginavam que a guerra se confinaria aos campos de batalha e que as primeiras vitórias na Polônia, França, Bélgica e Holanda trariam paz e prosperidade internas, logo foram desiludidos. Racionamento e escassez eram apenas duas das muitas inconveniências impostas à dona de casa alemã nos primeiros meses da guerra.

Elas rapidamente aprenderam que a única forma de comprar alguns produtos alimentícios era começar cedo e percorrer as gôndolas atrás de produtos frescos, ou cair nas graças dos vendedores e fazendeiros locais, deixando de lado qualquer reserva que tivessem quanto a colocar o bem-estar de sua família acima do bem da comunidade, ao contrário do que os cartazes de propaganda diziam para fazer. “Gemeinnutz geht vor Eigennutz” (o interesse da comunidade acima do interesse pessoal) era o slogan que as lembrava de seu dever cívico quando entravam na fila para comprar itens de que não tinham necessidade imediata, mas que achavam que poderiam escassear no futuro.

O racionamento era uma difi culdade a que se poderia acostumar, mas essa dificuldade se tornava cada vez maior a cada mês, já que as rações iam sendo reduzidas à medida que o tempo e a guerra passavam. Mesmo a dona de casa suburbana mais orgulhosa considerava fazer um galinheiro escondido no quintal na esperança de trocar o ovo em pó pelo verdadeiro. Se as aves não fossem produtivas, ao menos dariam um jantar decente.



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