quarta-feira, 4 de maio de 2016

LEITURA COMPLEMENTAR: CORONELISMO

Coronelismo
Ao se transformar em república federativa, o Brasil parecia modernizar a sua estrutura política ao permitir que os cidadãos escolhessem os seus representantes pela força política do voto. Contudo, essa disseminação democrática do poder não passou de uma teoria sem aplicação em terras brasileiras. A instituição da República, ao invés de privilegiar a participação dos cidadãos, transformou o coronel em figura política essencial.
A figura do coronel surgiu durante a era regencial, quando o governo resolveu conceder títulos de alta patente para os grandes fazendeiros que financiavam a Guarda Nacional. O poder conferido ao coronel permitiu que esses latifundiários formassem milícias que deveriam manter a ordem interna reprimindo toda espécie de levante popular. Com o passar do tempo, a patente militar se transformou em claro sinônimo de poderio político.
Utilizando das armas e soldados que tinha à sua disposição, um coronel poderia perseguir os seus inimigos políticos ou impor seus interesses à população local. Na passagem do Império para a República, o poder político do coronel foi ampliado com a proteção e as oportunidades de trabalho oferecidas por esses grandes proprietários. Dessa forma, os camponeses e trabalhadores livres de uma região se viam enlaçados em uma rígida relação de dependência.
Afrontar o interesse econômico e político de um coronel poderia significar a exposição do indivíduo ao mais amplo leque de punições, que poderiam ir da perda do trabalho ao homicídio. Com isso, ao dominar os moradores de uma região pela força do dinheiro e das armas, o coronel estabelecia um “curral eleitoral” subordinado às suas decisões no tempo das eleições. Nessa época, o coronel indicava qual o candidato cada um de seus “apadrinhados” deveria votar.
Essa prática, mais conhecida como “voto de cabresto”, era também acompanhada por outra série de fraudes eleitorais. Quando julgava necessário, um coronel poderia alterar o resultado de uma eleição fraudando a contagem dos votos ou incluindo o voto de pessoas que não existiam ou já estariam mortas. Através desse conjunto de ações, uma mesma família poderia manter-se durante anos seguidos no controle político de uma região.
Em troca de favores políticos, esses coronéis garantiam a eleição de representantes que controlavam o cenário político nacional. Sem maiores dificuldades, o resultado das eleições executivas ou a hegemonia do poder legislativo poderiam ser manipulados pelo interesse particular dessa pequena elite de proprietários. Dessa forma, pontuando uma forte contradição da nossa democracia, o coronelismo perpetuava uma cultura política autoritária e permissiva no país.
Essa falta de autonomia política integrava uns processos onde deputados, governadores e presidentes se perpetuavam em seus cargos. Os hábitos políticos dessa época como a chamada “política dos governadores” e a política do “café-com-leite” só poderiam ser possíveis por meio da ação coronelista. Mesmo agindo de forma hegemônica na República Oligárquica, o coronelismo tornou-se um traço da cultura política que perdeu espaço com a modernização dos espaços urbanos e a ascensão de novos grupos sociais, na década de 1920 e 1930.
Apesar do desaparecimento dos coronéis, podemos constatar que algumas de suas práticas se fazem presentes na cultura política do nosso país. A troca de favores entre chefes de partido e a compra de votos são dois claros exemplos de como o poder econômico e político ainda impedem a consolidação de princípios morais definidos nos processos eleitorais e na ação dos nossos representantes políticos. (Texto de Rainer Sousa).

Nenhum comentário:

Postar um comentário