sexta-feira, 6 de maio de 2016

Os combates da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra

O batismo de fogo dos soldados brasileiros na Itália os levou a batalhas importantes na libertação do território
TEXTO André Bernardo | 18/08/2014 12h49
Quando o navio americano USS General W.A. Mann partiu do porto do Rio de Janeiro em 2 de julho de 1944, as tropas expedicionárias brasileiras não faziam ideia do que iam encontrar do outro lado do Atlântico. Ao chegarem a Nápoles, no litoral sul da Itália, 14 dias depois, os 5 mil homens que integravam o 1º Escalão da Divisão de Infantaria Expedicionária se depararam com um país dividido: de um lado, as forças aliadas; do outro, as tropas alemãs. Já no desembarque, se deram conta do que esperava por eles. O porto estava tomado de carcaças de embarcações abatidas.
Natural de Caçapava (SP), cidade a 109 km da capital, o sargento Gilberto Luiz Quinsan, 93 anos, e o irmão, Hildo, estavam entre os 5 mil soldados que desembarcaram em Nápoles naquele dia. “Se pudesse, esqueceria os meses que passei lá. Riscaria aquele inferno da minha mente”, confessa o ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que integrava o 6º Regimento de Infantaria. “Guerra é uma estupidez sem tamanho: você não pode acender uma luz, fumar um cigarro ou fazer uma refeição porque não sabe se o inimigo está de olho em você”, diz.

Sob o comando do general Zenóbio da Costa, aquele seria o primeiro dos cinco escalões enviados à Itália para lutar na Segunda Guerra. Ao todo, 25.334 expedicionários – 15.265 deles combatentes propriamente ditos – participaram do maior confronto militar do século 20. Na Campanha da Itália, os soldados da FEB, incorporados ao 5º Exército dos EUA, comandado pelo general Mark Clark, participaram de importantes batalhas, como a conquista de Monte Castelo, Castelnuovo e Montese.
Adversários naturais
Assim que pisaram na Itália, os soldados brasileiros descobriram que os alemães não seriam o único inimigo a ser combatido. Os Exércitos germânicos recuaram até os Montes Apeninos, onde estabeleceram sólidas linhas de defesa. Do alto da cordilheira italiana, tinham posição privilegiada para atirar em quem ousasse se aproximar de suas posições. “O terreno montanhoso favorecia a defesa e exigia uma superioridade numérica mínima de três para um da parte dos atacantes”, afirma Dennison de Oliveira, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor dos livros Os Soldados Brasileiros de Hitler e Os Soldados Alemães de Vargas.
Como se não bastasse a geografia acidentada, os pracinhas brasileiros também enfrentaram um dos invernos mais rigorosos do século naquela região da Itália. Por diversas vezes, a temperatura chegou a 20 graus abaixo de zero. “As condições climáticas desfavoráveis impunham enorme sacrifício e desgaste à tropa, que tinha que se deslocar e combater o inimigo sob forte chuva e intenso nevoeiro. Se o clima hostial inviabilizava o uso de aeronaves, o terreno acidentado anulava o emprego de tanques e blindados”, diz Dennison.
Na opinião dos historiadores, o treinamento das forças expedicionárias foi precário e insuficiente. Não levava em consideração nem o terreno montanhoso do teatro de operações, nem as condições climáticas do inverno italiano. Na maior parte das vezes, o combatente brasileiro foi mandado para a linha de frente sem ter a menor noção de como manusear um fuzil, desarmar uma armadilha ou invadir uma casamata.
“O pior inimigo da FEB na Segunda Guerra Mundial, além do soldado alemão, é claro, foi seu treinamento deficiente no Brasil”, diz Francisco César Ferraz, doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). “Dos três primeiros escalões, apenas o primeiro, formado pelo 6º Regimento de Infantaria, teve algum tipo de treinamento mais satisfatório. Algumas unidades foram encaminhadas para a ação sem terem disparado um único tiro com os armamentos norte-americanos.”
Na linha inimiga
Durante as patrulhas, o risco de morte era iminente. Muitas vezes observados pelo inimigo, os pracinhas estavam expostos a minas e armadilhas escondidas em casas, móveis, objetos e até em cadáveres de soldados. “Logo que chegamos, perdi um primo, Abílio Fernandes. O coitado pisou numa mina terrestre e voou pelos ares”, afirma Antônio Fernandes das Neves, 96 anos, do 6º R.I. “Certo dia, uma granada caiu bem do meu lado na trincheira. Graças a Deus, não explodiu. Se tivesse explodido, não estaria aqui hoje para contar a história”, diz, emocionado.
Ao contrário do que se possa imaginar, a troca de tiros de fuzil e metralhadora não era prática recorrente na Itália. “Os dois lados evitavam ao máximo abrir fogo contra o inimigo”, recorda o cabo Naldo Caparica, 93 anos, que integrava o Serviço Especial da FEB e editava o jornal Zé Carioca, muito popular entre os soldados. “Na calada da noite, você ouvia um barulhinho qualquer mas não sabia identificar a origem. O pior é que você também não podia atirar à toa. Se errasse o alvo, denunciava sua posição para o inimigo”, diz.

De posse das informações obtidas pelas equipes de patrulha, os comandantes preparavam os ataques. Se os inimigos se rendessem ou recuassem, o ataque poderia ser considerado bem-sucedido. Então, as tropas ocupavam o território recém-conquistado e já se preparavam para defendê-lo de um eventual contra-ataque. Se a ofensiva fosse malsucedida, as tropas atacantes deveriam recuar, socorrer os feridos, contabilizar as baixas, recompor as unidades e planejar uma nova investida.
Dormir em pé
Entre patrulhas e missões, os expedicionários se acomodavam como podiam em casas, celeiros e estábulos abandonados. “Na Itália, aprendi a cochilar de pé. Dormir era praticamente impossível. Um minuto de desatenção podia ser fatal”, afirma o soldado Artur Mariano dos Santos, 90 anos, do 6º R.I. “Os alemães não davam folga. Esperavam a gente dormir para atacar. No início, você se assusta com o barulho das bombas e dos morteiros. Mas, depois de alguns dias, se acostuma”, afirma o veterano, que perdeu parte da audição no campo de batalha.
Na maioria das vezes, os expedicionários da FEB cavavam trincheiras no chão, que os americanos apelidaram de foxholes (“buracos de raposa”). “Muitos soldados desenvolveram problemas de saúde em função das condições insalubres desses foxholes, principalmente o ‘pé de trincheira’, uma espécie de trombose causada pela falta de circulação”, afirma Cesar Campiani Maximiliano, doutor em História pela USP e pesquisador do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura da PUC-SP.
Tomar banho, dormir em colchão ou comer algo menos indigesto que as rações de combate eram privilégios que os soldados não tinham na linha de frente. Muito pelo contrário. Tiveram que enfrentar dificuldades típicas de uma guerra, como falta das condições mais básicas de higiene, privação de sono por meses a fio e exposição a frio insuportável. Os combatentes tentavam atenuar os efeitos do frio da maneira que podiam. Uns colocavam palha e jornal dentro das galochas para manter os pés aquecidos. Outros dormiam com o cantil entre as pernas para que a água não congelasse.
Direto do front
Os expedicionários tiveram seu tão esperado batismo de fogo no dia 16 de setembro de 1944. Nesse dia, um batalhão do 6º Regimento de Infantaria tomou a cidade de Massarossa, importante entrocamento ferroviário na região da Toscana. “A missão foi confiada a um destacamento do 1º Escalão da FEB, que teve um treinamento relativamente rápido e incompleto, mas foi cumprida. Pela primeira vez, os soldados brasileiros receberam tiros de artilharia, se depararam com campos minados e tiveram contato com patrulhas inimigas”, afirma Francisco César Ferraz, autor do livro Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial.
Para Maximiano, o verdadeiro batismo de fogo das tropas brasileiras só aconteceu 45 dias depois, mais exatamente em 31 de outubro, no ataque a Castelnuovo di Garfagnana, no vale do Rio Serchio. “O ataque foi bem-sucedido na fase inicial. Mas, antes que as tropas brasileiras, cansadas pelo combate, conseguissem assumir o controle do território, sofreu inesperado contra-ataque. Como os alemães tinham tropas de reserva naquela região, eles puderam organizar muito rapidamente uma forte reação”, descreve.
Autor dos livros Onde Estão Nossos Heróis?, Irmãos de Armas e Barbudos, Sujos e Fatigados, Maximiano pondera que a ação em Castelnuovo pode ser considerada o primeiro grande ataque da FEB na Segunda Guerra porque empregou um batalhão de aproximadamente 900 homens. “Em geral, o batismo de foto das unidades de Infantaria era feito gradualmente nos setores mais calmos do front para aclimatar os combatentes. Camaiore e Monte Prana, entre outras operações, foram meras ações de patrulha, coisa de pouquíssimos homens”, compara.

Para Ferraz, o revés da FEB em Castelnuovo di Garfagnana pode ser atribuído ao excesso de confiança das tropas brasileiras, somado à inexperiência em preparar-se para um eventual contra-ataque inimigo: “Esse trecho da linha de frente era muito extenso (12 km) e foi mantido pelos alemães por mais cinco meses. Os norte-americanos também não tiveram sucesso”.
Na opinião de Dennison de Oliveira, o ataque a Castelnuovo pode ser descrito como “um dos mais intensos e ferozes” na Campanha da Itália. “Quando chegamos lá, os alemães já estavam enfraquecidos. Caso contrário, não teria sobrado um brasileiro sequer para contar história. Mesmo assim, lutaram até o fim”, afirma o cabo Cleir de Carvalho, 89 anos, do 6º Regimento de Infantaria.
Sete meses e 19 dias depois da tomada de Massarossa, os expedicionários puderam, finalmente, comemorar o fim da guerra. No dia 2 de maio de 1945, as tropas alemãs que combatiam na Itália anunciaram sua rendição. Segundo Francisco César Ferraz, o desempenho da FEB pode ser comparado ao das melhores unidades aliadas envolvidas no front italiano. “Tropas novatas costumam cometer erros estúpidos, e os expedicionários brasileiros tiveram que aprender com seus reveses. Seu aprendizado, rápido, foi no próprio combate e, dentro das limitações próprias de uma divisão do Exército, eu diria que eles se saíram bem”, avalia o historiador.



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