sexta-feira, 24 de junho de 2016

A vida no reich: a nova ordem

"Os grandes homens de negócios, satisfeitos com o novo governo que estava colocando os trabalhadores organizados em seus lugares e deixava os empreendimentos correrem como eles desejavam, foram convidados a pagar. Concordaram em fazê-lo numa reunião em 20 de fevereiro, no palácio do presidente do Reichstag, Hermann Goering, na qual o dr. Hjalmar Schacht agiu como anfitrião e Goering e Hitler explicaram sua orientação a mais de 20 dos principais magnatas alemães, inclusive Krupp von Bohlen, que havia se tornado um nazista entusiasta da noite para o dia, Bosch e Schnitzler, da I. G. Farben, e Albert Voegler, chefe da União do Aço. O registro dessa reunião secreta foi preservado” (William L. Shirer, Ascensão e queda do Terceiro Reich).

A população foi doutrinada com a falácia de que o programa de obras públicas de Hitler, como a abertura de autoestradas e a construção da Linha Siegfried (a linha defensiva conhecida pelos alemães como Westwall, muralha ocidental), havia reduzido automaticamente o desemprego. Essa doutrinação era facilitada pelo fato de o grupo dirigido por Alfred Hugenberg, que controlava mais de um terço da imprensa alemã, ser associado ao Partido Nazista. No entanto, após a queda drástica do primeiro ano – de 6 milhões em 1933 para 3,3 milhões em 1934 –, a ditadura precisou de mais três anos para fazer o desemprego diminuir até um nível aceitável: 1,8 milhão. No entanto, há que considerar que as mulheres foram expurgadas dessa estatística; os judeus, mais ainda. Mas, sem dúvida, empregos foram criados. A contrapartida foram sete anos seguidos de défi cit público que elevaram a dívida alemã a 40 bilhões de marcos. Por essa época, as outras nações industriais haviam se recuperado da Grande Depressão, e o fizeram sem encaminhar todos os homens fi sicamente capazes para o exército e seus irmãos menos capazes para as fábricas, especialmente as de munições, onde a jornada de trabalho tinha passado de 60 para 72 horas semanais.

O “milagre econômico” que alguns creditaram a Hitler na Alemanha foi, de fato, alcançado a um custo considerável. A maioria dos homens que foram arregimentados para construir as autobahns tinha de viver com salários inferiores ao seguro-desemprego. Eles recebiam 51 pfennigs por hora, bem menos que os 66 pfennigs pagos por um trabalho comparável numa fábrica, e eram obrigados a trabalhar ao ar livre sob qualquer tempo. Para aumentar o sofrimento, viam-se obrigados a morar
longe de casa, numa espécie de caserna onde as condições eram comparáveis às de uma prisão e pela qual tinham de pagar 15 pfennigs por dia, além de outros 35 pfennigs por uma refeição descrita por um desses trabalhadores, numa carta à família, como uma “mistura tirada a colheradas de um caldeirão”. O salário médio semanal para esses trabalhadores braçais era de 16 marcos por semana depois de essas “contribuições” compulsórias serem deduzidas, e eles eram recompensados com apenas dez dias de férias por ano.

QUASE ESCRAVAS

As trabalhadoras estavam em situação ainda pior, já que não eram reconhecidas como pessoas de valor igual ao dos homens. Elas geralmente recebiam um terço a menos que os seus colegas. Uma trabalhadora especializada de fábrica podia ganhar 35 marcos por semana com horas extras, mas disso ela devia deduzir o dinheiro para o alimento fornecido pela companhia e pagar pelos próprios deslocamentos. As que estavam acostumadas a entrar num horário que lhes permitia fazer o serviço doméstico antes do trabalho agora viam-se obrigadas a chegar às fábricas de munições ou outros ramos do serviço obrigatório às 6 horas. Se morassem longe da fábrica, tinham de reservar um tempo extra para a viagem, o que significava que poderiam chegar em casa após uma ausência de mais de 12 horas para encontrar a maioria das lojas fechada. Aquelas que ficavam abertas até tarde tinham poucos produtos frescos para vender.

Apesar de todo o cansaço dessas jornadas extenuantes, não era raro as que conseguiam fazer trabalhos extras, como a limpeza de escritórios, que poderiam lhes valer alguns marcos a mais por semana. Isso porque, depois de pagarem pela alimentação no trabalho e pelas viagens, algumas trabalhadoras ficavam com apenas 10 marcos por semana. Não admira que os registros dos serviços de saúde indicassem que muitas mulheres mais velhas sofriam de doenças e fadiga, quadro que se agravou dramaticamente com o início da guerra, quando as incursões aéreas aliadas abalaram seus nervos e as privaram de sono.

Em 1936, o desemprego fora reduzido a um terço. Contudo, a economia havia sofrido como resultado disso porque os programas de obras públicas foram financiados pela exigência de que os bancos fizessem empréstimos maciços, o que reduzira a disponibilidade de crédito, inibindo a iniciativa privada. O problema poderia ter se agravado nos anos seguintes, pelo fato de a administração emitir indiscriminadamente o dinheiro necessário para pagar os gastos públicos. Isso certamente teria criado uma hiperinflação se a Alemanha não tivesse entrado em guerra em 1939. No entanto, este tinha sido o plano de Hitler desde o início: ele mobilizou a população e aumentou a produção de armas e munições com a perspectiva de enfrentar a guerra, não para criar pleno emprego ou beneficiar a economia.





Nenhum comentário:

Postar um comentário