quarta-feira, 15 de junho de 2016

A vida no reich: o mito da raça superior

Enquanto toda a Alemanha parecia marchar em compasso atrás de seu líder, havia um pequeno, mas significativo, número de inconformados que escolheram dançar em outro ritmo. Apesar de ser necessária considerável dose de coragem para zombar abertamente dos ditames de um regime totalitário, os “garotos do swing”, como passaram a ser conhecidos, não eram estrategistas políticos. Nem todos eram, de fato, opositores do regime. Muitos deles eram, simplesmente, adolescentes determinados a exercer seu direito de fazer o que bem entendessem. Eles se ressentiam de receber ordens quanto ao que deveriam vestir, como cortar o cabelo e o que deveriam ouvir. O fato de estarem vivendo sob o regime mais repressor dos tempos modernos não os impediu de afirmar sua individualidade.

Em meados da década de 1930, uma nova forma de jazz americano, mais acelerado e sincopado, eletrificava as ondas das rádios por todo o mundo e enchia as pistas dos salões de baile e clubes noturnos. Era o chamado swing, e a juventude alemã não via motivo para apenas ficar olhando o mundo livre se divertir dançando Jitterbug. O regime fizera saber que não aprovava a “música da floresta” e o que vinha junto: um visual mais ousado e colorido, visto como espalhafatoso e decadente. Para o governo, ambos eram parte de uma conspiração global para minar o nacional-socialismo e contaminar a cultura ariana.

A música era condenada por, supostamente, encorajar o sexo casual, a bebida em excesso e relacionamentos íntimos inter-raciais. Então, os fãs de swing disfarçavam, fazendo festas em casas privadas e nos porões de bares e cafés, mas continuavam a ostentar um desafio público ao se vestir de modo chamativo e com penteados inspirados em artistas de cinema americanos. Os meninos penteavam o cabelo comprido para trás com brilhantina, em contraste com o cabelo curto obrigatório da Juventude Hitlerista, enquanto as meninas adotavam penteados longos e adereçados, sem as tradicionais tranças usadas pelas moças do BDM.

Os garotos do swing vinham, sobretudo, das classes médias e altas da sociedade alemã, o que lhes permitia usar roupas e acessórios relativamente caros e seguir um estilo de vida mais hedonista. Havia variações regionais, mas os rapazes geralmente se identificavam usando zoot suits que iam até os joelhos e jaquetas folgadas trespassadas com lapelas largas, que viam em fotografias de cantores de jazz americanos, talvez com uma sobrecasaca como aquelas usadas pelos valentões dos filmes de gângster, como Humphrey Bogart e James Cagney. As barras dobradas nas calças eram obrigatórias, assim como sapatos com solados claros e um cachimbo. Um chapéu estilo Homburg, com a aba larga voltada para cima, completava o tipo.

As moças copiavam os ícones da moda de Hollywood tanto quanto as restrições sobre roupas, sapatos e cosméticos importados permitiam. O uso de maquiagem era malvisto pelos nazistas, que a viam como sinal de promiscuidade sexual e declaravam ser contrária à aparência saudável natural da mulher ariana, mas as mulheres aplicavam tanto quanto podiam e em cores tão berrantes quanto conseguissem encontrar. Era sabido que as esposas dos oficiais nazistas continuavam a usar batom, esmalte, máscara e pó de arroz na presença de Hitler, e, assim, as moças do swing não viam por que deveria ser-lhes negada a oportunidade de ficarem atraentes.

Em desafio aberto à estética nazista, as meninas do swing imitavam o estilo magro, andrógino e de cintura pinçada popularizado pelas modelos parisienses, e os ternos com calças que as estrelas de cinema Katherine Hepburn e Bette Davies tornaram parte essencial de sua imagem. As atrizes de Hollywood deram às garotas modelos de comportamento elegantes e confiantes. Elas se deixavam fotografar afetando uma pose despreocupada, portando uma longa piteira, que as moças alemãs também copiaram, em desafio ao desprezo de Hitler com o fumo (a Alemanha foi o primeiro país a promover uma campanha antitabaco, encampada pelos nazistas). Além das roupas, um hepcat usava também gírias próprias e caminhava pelas ruas com atitude tranquila e desleixada – a antítese da disciplina estrita instilada nas escolas hitleristas.

Os jovens do swing, porém, eram mais que um movimento de rebeldia jovem ou uma moda provocativa. Eles eram fãs apaixonados de uma música que, para eles, simbolizava liberdade pessoal. O fato de ela ser efetivamente banida na Alemanha significava que o simples fato de a ouvirem na BBC ou em transmissões americanas os colocava sob o risco de serem presos. No entanto, a proibição tornava tudo mais atraente.


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