segunda-feira, 20 de junho de 2016

A vida no Reich: o pior dos tempos

Os nazistas não atraíram seus apoiadores iniciais por meio de argumentos políticos persuasivos nem por um apelo a seus ideais e aspirações, mas simplesmente por lhes prometer atender a suas necessidades imediatas e fundamentais: trabalho e pão. Muitos dos que votaram neles nos anos 1920 e até mesmo alguns entre os que se juntaram a suas fileiras e marcharam sob suas bandeiras durante esses primeiros dias da “luta” acreditavam sincera e ingenuamente que o nacional-socialismo oferecia a única oposição digna de crédito ao bolchevismo. Nem todos os primeiros seguidores de Hitler compartilhavam seu violento antissemitismo, ou subscreviam os elementos mais fantasiosos da ideologia romântica e pseudofolclórica do partido, que declarava que os alemães eram descendentes de uma raça de senhores ariana e estavam destinados a dominar as nações inferiores.

Imediatamente após a derrota, em novembro de 1918, a população alemã estava esgotada, desencorajada e buscando um líder com respostas prontas – alguém que pudesse identifi car e punir os culpados pela tragédia que se abatera sobre a outrora orgulhosa nação, que agora se sentia traída. Por todo o país as famílias estavam enlutadas pela incalculável perda de vidas e perplexas com a repentina e inesperada capitulação de um exército que, segundo lhes fora assegurado, se encontrava à beira da vitória. Essa sensação de desespero era agravada pela abdicação do Kaiser e pela cumplicidade aparentemente servil do novo governo de Weimar com os termos punitivos impostos pelo Tratado de Versalhes. Não chega portanto a espantar que essa atmosfera venenosa favorecesse o crescimento de um nacionalismo extremo e da crença de que o exército havia sido “apunhalado pelas costas”, para usar uma frase atribuída ao general Erich Ludendorff , o comandante militar alemão da Primeira Guerra que, depois, aderiria aos nazistas, antes de se afastar da vida política em fins dos anos 1920.

Esses graves ferimentos poderiam ter sarado com o tempo se não fossem agravados pela galopante inflação de 1922-1923, que viu as poupanças serem instantaneamente varridas e os salários se desvalorizarem até o ponto em que os trabalhadores estavam sendo pagos duas vezes por dia, para que pudessem comprar comida antes que o preço subisse. Nesse momento, tornou-se comum ver fregueses pagando por um quilo de carne com o que no mês anterior havia sido o equivalente a um mês de salário. Tudo isso enfatizava a fragilidade da economia e a inefi cácia do governo de Weimar. Em apenas um ano, o preço médio de um pão elevou-se de 165 marcos para 1 milhão e meio. A sensação de descontrole dominava todos os aspectos do cotidiano alemão.

Em cada aldeia, cidade ou metrópole da Alemanha podiam ser vistos homens, mulheres e crianças pedindo esmolas ou um pouco de comida, ou qualquer tipo de trabalho que aparecesse. Nessa situação desesperadora, os nazistas despontaram sob o título de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, com uma promessa de empregos para os desempregados e ajuda para os mais pobres. Mais ainda, eles explicitaram sua intenção de expurgar as instituições comerciais da influência judaica e de libertar o mundo dos negócios alemão da “competição desleal” (ou seja, dos judeus). Eles prometeram esmagar os comunistas e colocar um fi m aos frequentes e sangrentos confrontos entre facções políticas rivais que tornavam as ruas inseguras para os cidadãos obedientes à lei. Prometeram também restaurar o orgulho nacional, rasgando o odiado Tratado de Versalhes e exigindo a devolução dos territórios que ficaram em poder dos aliados depois de 1918. A estratégia nazista, efi ciente para aquele momento histórico, era persuadir cada cidadão a acreditar que era seu dever patriótico votar por um programa como aquele. Os críticos de Hitler acusaram-no de ser um agitador grosseiro e inculto, mas ele articulou a ira e o senso de injustiça da população mais efetivamente que os políticos profissionais, e era evidente que ele havia tocado um nervo exposto.

“Ele não desanimava facilmente e sabia como esperar. Enquanto recolhia os fios de sua vida num pequeno apartamento de dois quartos no último andar da Thierschstrasse, no 41, em Munique, durante os meses de inverno de 1925, e depois, quando chegou o verão, em diversas estalagens de Obersalzberg, ao norte de Berchtesgaden, a contemplação das desventuras do passado recente e o eclipse do presente serviram apenas para fortalecer sua decisão (…) Renascera-lhe uma ardente consciência de missão – para si mesmo e para a Alemanha – da qual todas as dúvidas haviam sido extirpadas” (William L. Shirer sobre Hitler após sua libertação da prisão de Landsberg em dezembro de 1924, depois de ficar preso 264 dias por planejar o fracassado Putsch de Munique no ano anterior, em Ascensão e queda do Terceiro Reich).

A popularidade dos nazistas cresceu e decresceu na década de 1920, à medida que a economia se recuperava, para, em seguida, afundar novamente após o crash de Wall Street, em 1929. Em 1933, porém, o povo alemão havia perdido a paciência com seus representantes eleitos e estava preparado para descartar quaisquer preocupações que pudesse ter em relação aos “excessos” praticados pelos SA (tropas de assalto, a milícia paramilitar do partido, também conhecida como “camisas-marrons”) e dar uma chance a esses recém-chegados não testados e que pareciam tão diferentes dos políticos tradicionais que, até ali, não tinham conseguido reerguer a nação.

Contudo, nada houve de inevitável na tomada do poder pelos nazistas. Na última eleição parlamentar antes de Hitler receber a chancelaria das mãos do idoso presidente Paul von Hindenburg, então com 86 anos, em janeiro de 1933, o partido sofreu uma significativa reviravolta de fortuna. Os votos que lhes foram conferidos caíram de 37% para 33%, dando-lhe menos de 200 cadeiras no Reichstag – apenas um terço do total. Os acólitos de Hitler, porém, estavam certos de que era somente uma questão de tempo para que seu dia de glória chegasse.


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