quarta-feira, 1 de junho de 2016

A vida no reich: vivendo com o inimigo

A austríaca Kitty Werthmann tinha 12 anos quando seu país votou esmagadoramente a favor da anexação pelo Reich no plebiscito de março de 1938. Para Hitler, o ex-cabo austríaco que sempre evocava seu começo como um artista pobre na Viena dos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, foi um triunfo pessoal voltar ao país em que nascera – mas no qual lhe fora negado o acesso à Academia de Belas-Artes – e ser festejado como líder.

Kitty não conseguia entender por que uma “nação cristã” elegera tal homem. No final da década de 1930, porém, a Áustria sofria com alto desemprego e infl ação galopante, e qualquer político que conseguisse despertar a esperança de uma mudança na situação econômica não teria sido investigado muito a fundo. Ela se lembra: “Os fazendeiros estavam quebrando; os bancos haviam tomado suas fazendas. Os negócios estavam fechando um a um. Eles não conseguiam pagar os juros. Não era incomum na minha casa cerca de 30 pessoas por dia baterem à porta pedindo um prato de sopa e um pedaço de pão. Meu próprio pai estava por um fio. A economia estava tão ruim que parecia que não poderíamos mais existir”.

Se a Alemanha se recuperara da Depressão, parecia razoável acreditar que Hitler faria o mesmo milagre econômico por sua terra natal. Kitty continua: “Ele não falava como um monstro, mas como um político americano. Não ouvíamos nada ruim, coisas sobre ele prender e perseguir pessoas. Achamos que ele era um grande líder”.

No dia em que Hitler passou de carro pelas ruas de Viena, sendo recebido como herói por multidões em júbilo, houve um surto de agressões aos judeus que fez empalidecer alguns dos líderes nazistas. Só mais tarde ficou claro que Hitler retornava não como um fi lho pródigo, mas como um conquistador: “Ganhamos rádios de graça, então ele nacionalizou as emissoras. Disseram-nos que, se ouvíssemos transmissões estrangeiras, seríamos inimigos do Estado. Então ele nacionalizou o sistema bancário, depois de saquear todos os bancos judeus”.

Depois da guerra, os austríacos falariam com pesar dos anos de Hitler, como se tivessem sido ocupados por uma força invasora, e se refeririam à rendição como o “armistício”, mas há aqueles que não veem distinção entre os austríacos e seus irmãos nazistas.

O camponês polonês Stefan Terlezki tinha 14 anos quando foi levado da escola pela Wermacht em 1942 e transportado em um caminhão de gado até Voitsberg, perto de Graz. Lá, ele foi vendido como escravo e trabalhou quase até a morte para seu dono austríaco, um fazendeiro. Ele sobreviveu roubando batatas para complementar a escassa sopa que recebia como alimentação. Esse tubérculo era tão abundante que ninguém notava quando uma ou duas sumiam. “Trabalhar em uma fazenda era um inferno pela simples razão de que, como escravo, você não tem direito a nada. Apenas lhe diziam: ‘Faça isso, faça aquilo, venha cá, vá lá’. Na verdade, nunca me chamaram pelo nome, e me perguntava se algum dia seria chamado de Stefan. Não tinha direito a isso nem a qualquer outra coisa. Chamavam-me de muitas coisas, menos Stefan, e aquilo era difícil de engolir. Apenas imagine: 14 anos de idade e levado como escravo. Tinha de cuidar de mim. Não tinha ombros para chorar além dos meus próprios.”

Nos anos imediatamente anteriores à chegada dos nazistas ao poder, a dona de casa de Hamburgo Christabel Bielenberg, britânica de nascimento, frequentemente ouvia amigos da família e vizinhos, cuja intensidade e devoção a Hitler a príncipio pareciam quase engraçadas, falando sobre os benefícios do nacional-socialismo. Ela se tornou uma cidadã alemã em 29 de setembro de 1934, o mesmo dia em que ela se casou com um jovem estudante de Direito, Peter Bielenberg, que viria a ser preso por seu papel na malsucedida tentativa de matar Hitler dez anos depois. Ele sobreviveria.

Christabel suspeitava que os jovens seus conhecidos que pregavam o credo nazista esperavam conseguir convertê-la para sua causa. Ela, porém, ouvia apenas por educação e curiosidade. Seu marido se opunha ideologicamente ao fascismo sob qualquer forma e nunca se cansava de lembrá-la de que a única vez que ouvira Hitler falar, no Zoológico de Hamburgo, tivera a pior das impressões.

Tendo vivido tanto nos distritos mais abastados quanto nos mais modestos de Hamburgo em seus dias de estudante, Christabel estava familiarizada com a opinião amplamente compartilhada sobre quem era culpado pelos problemas da Alemanha. Tanto do professor universitário com quem ela dividiu um alojamento quanto das famílias de classe média com quem ela fi caria depois, ela ouvia os mesmos argumentos: a aristocracia e o exército prussianos não perderam a guerra, mas haviam sido “apunhalados pelas costas” por judeus e comunistas.

Os alemães pareciam acreditar que tinham sido a única nação que sofrera privações como resultado da guerra. Apenas Hitler entendia suas preocupações e poderia trazer estabilidade e segurança para a Alemanha, no Raichstag e nas ruas. Ele acabaria com a violência esmagando os comunistas e havia prometido restaurar o orgulho nacional rasgando o odiado Tratado de Versalhes e retomando os territórios ocupados tirados deles após 1918. Estava claro, mesmo para uma pessoa de mente apolítica como Christabel, que essa era uma questão emocional e não estava aberta para um debate racional e razoável. Ela achava cansativo ouvir sermões a cada oportunidade e ficava estupefata com a facilidade e sinceridade com que seus vizinhos engoliam a propaganda nazista, assim como com sua devoção espalhafatosa a Hitler. Como alemães honestos e trabalhadores poderiam esperar conseguir um trabalho decente se não tivessem amigos judeus influentes, lhe perguntavam. Muitas famílias alemãs respeitáveis perderam quase tudo durante a Depressão. Apenas os judeus floresceram, diziam. A imprensa nazista lhes fornecia fatos e números, devidamente distorcidos, para provar.


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