quinta-feira, 7 de julho de 2016

Companhia de Jesus: Todos contra os jesuítas

A Companhia de Jesus arrumou encrenca com políticos, militares e até com o primeiro bispo no Brasil na missão de catequizar os índios
Texto: Marcus Lopes | Ilustrações: Rodrigo Idalino | 11/12/2013 15h24
Nem bem desembarcou na Bahia, o primeiro bispo no Brasil, dom Pero Fernandes Sardinha, tratou logo de mostrar quem mandava nas almas do lugar. Seu primeiro alvo foram os jesuítas, que chegaram ao Brasil junto com o primeiro governador-geral, Tomé de Souza, em abril de 1549. Sardinha ficou estarrecido com uma prática dos religiosos da Companhia de Jesus: flagelações públicas, parte de um processo de "exercícios espirituais" idealizado pelo fundador da ordem, Inácio de Loyola. Liderados por Manoel da Nóbrega, os jesuítas saíam à noite pelas ruas de Salvador em procissão, submetendo-se a açoites - e convidando os moradores a imitá-los. "Inferno para todos que estão em pecado mortal", bradavam.


Sardinha, um ex-professor formado em Direito e Teologia, não gostou da maneira como os religiosos purgavam os pecados. "Tais exercícios, ainda que sejam santos e virtuosos e ordenados para mortificar a carne e quebrar a soberba, todavia são mais meritórios se feitos em segredo", escreveu ao chefe de Nóbrega, Simão Rodrigues de Azevedo, líder da Companhia de Jesus em Portugal. O curioso é que Nóbrega foi o primeiro a defender que Salvador tivesse um bispo, preocupado com o comportamento do rebanho na cidade recém-fundada. O veto aos açoites públicos, porém, foi só a primeira de uma série de desavenças em que os jesuítas se envolveram no Brasil - e a lista só cresceu nos dois primeiros séculos do Brasil colônia.

Sardinha havia sido professor do próprio Inácio de Loyola, por isso conhecia bem a ortodoxia jesuítica. E não gostava dela. No curto tempo em que passou à frente da diocese de Salvador, tratou de podar o poder da turma de Nóbrega. Proibiu, por exemplo, que pregassem aos índios em tupi - um duro golpe na ordem, que se empenhava justamente em aprender a língua dos indígenas e adaptar o culto católico a eles. O bispo implicou até com o corte de cabelo das crianças, que para ele "se pareciam com freiras". Finalmente, vetou aos jesuítas que frequentassem as capelas que haviam construído nas aldeias, proibiu que as confissões contassem com intérpretes e impediu que os índios fossem à missa nas igrejas de Salvador. Em resumo, ele acabou com o trabalho dos jesuítas. "Em tese, o confronto eclodiu porque Sardinha era contrário à catequização dos indígenas", escreveu Eduardo Bueno em seu livro A Cruz, a Coroa e a Espada.

O raciocínio do bispo Sardinha seria um divisor de águas entre os colonizadores e os jesuítas - para sempre. A questão dos índios sempre teve consequências no dia a dia da colônia, onde conflitos entre religiosos e poderosos eram comuns. "As disputas entre jesuítas e governantes, e com as pessoas ligadas ao tráfico de indígenas, eram constantes", afirma o padre jesuíta Cesar Augusto dos Santos, mestre em História Social pela PUC-SP e autor do livro O Colégio de Piratininga. "Os jesuítas lutavam para que o indígena fosse respeitado como ser humano, como filho de Deus, e as disputas eram fortíssimas." A disputa, que começou como uma discussão teológica, teria efeitos terríveis.

O bispo Sardinha, como se sabe, entrou para a história do Brasil ao supostamente ser devorado por indígenas quando o navio que o levava de volta à Europa naufragou na costa da atual Paraíba, em 1556. O escritor Oswald de Andrade usou o caso em seu Manifesto Antropófago, de 1928. O bispo morreu, mas os inimigos dos jesuítas se multiplicaram em Pindorama.


São Paulo

Para se livrar da tutela de Sardinha, antes que ele virasse comida de canibais, Nóbrega seguiu Tomé de Souza em visita às capitanias do sul e acabou por se estabelecer em São Vicente. Na vila já vivia o jesuíta Leonardo Nunes, o Abarébebê, ou padre voador, pela velocidade com que andava pela região. Quando soube que, subindo a Serra do Mar, havia um povoamento com brancos e índios liderados pelo português João Ramalho, Nóbrega viu a chance de encontrar um local para catequizar os índios longe da ingerência dos poderosos. Foi o mote para a fundação do colégio que daria origem à cidade de São Paulo, em 1554.

Nóbrega sabia que precisava da ajuda de Ramalho para se estabelecer no planalto, mas em pouco tempo a relação entre os dois degringolou. O português não era casado com a índia Bartira e os brancos e mamelucos não gostavam dos valores dos religiosos. Quase todas as relações econômicas passavam pelo aprisionamento e escravização de índios de outras etnias - devido à pobreza e ao isolamento da vila, em pouco tempo as bandeiras se transformaram na única riqueza para seus habitantes.

Os conflitos entre religiosos e a população local chegavam às vias de fato resultando, em diversas ocasiões, na expulsão dos jesuítas do território paulista. Em 1633, um grupo liderado pelo bandeirante Antonio Raposo Tavares tomou de assalto a aldeia de Barueri e expulsou os padres. "Lançaram fora os móveis da residência jesuítica, levaram os indígenas, depredaram e fecharam a Igreja de Nossa Senhora da Escada, padroeira da aldeia, e expulsaram os jesuítas", escreveu Ney de Souza em Catolicismo em São Paulo. Anos depois foi a vez dos jesuítas de São Paulo de Piratininga. Mesmo as camadas mais baixas dos paulistanos não viam com bons olhos aquele trabalho de evangelização que atrapalhava o "ganha-pão" e movia a economia da vila.

No dia 10 de julho de 1640, os padres do Colégio receberam uma notificação de que teriam dois dias para deixar a vila. No dia 13 de julho, às 2 da madrugada, a Câmara mandou tocar o sino. Da janela da Câmara (centro do poder local) foi lida para a população a sentença de expulsão dos padres. Na manhã seguinte, todos foram à porta do Colégio e invadiram o prédio. Expulsos, os jesuítas foram para Santos e só voltaram a subir ao planalto mais de dez anos depois.


Fora de Portugal

A pá de cal nos jesuítas na colônia veio diretamente de Portugal. Um decreto, elaborado sob inspiração do Marquês de Pombal, expulsou a ordem da metrópole e de todas as suas colônias, em 1759. "Declaro os sobreditos regulares rebeldes, traidores, adversários e agressores que estão contra a minha real pessoa e Estados, contra a paz pública dos meus reinos e domínios, e contra o bem comum dos meus fiéis vassalos", registrou o decreto do rei dom José I. "O mandando que efetivamente sejam expulsos de todos os meus reinos e domínios."

Em 1768, o rei da Espanha, Carlos III, seguiu na mesma toada. Foi o final de uma das experiências utópicas mais importantes do mundo: as reduções, ou missões jesuíticas, nas quais milhares de indígenas aculturados viviam sob os preceitos dos religiosos. Muitas dessas missões marcavam justamente a fronteira entre as possessões portuguesas e espanholas na América do Sul. Acordos políticos na Europa levaram a um massacre dos habitantes das reduções, que até então funcionavam como uma salvaguarda aos indígenas - viver em uma delas era uma forma de escapar dos bandeirantes brasileiros e dos encomenderos castelhanos, ambos interessados em buscar mão de obra escrava nos sertões.

Os jesuítas, os pioneiros a levar a catequização aos indígenas, os criadores das primeiras escolas na América do Sul, fundadores de cidades no Novo Mundo, a ponta de lança da Contrarreforma nas colônias ibéricas, perderam espaço político de tal maneira que, em 1773, o papa Clemente XIV dissolveu a Companhia de Jesus. A restituição e consolidação da ordem no país só ocorreria muito tempo depois, já com o Brasil independente. A força da Companhia de Jesus, porém, continua. É jesuíta o atual papa, o argentino Jorge Bergoglio.


Padres e paixão nacional

Muito ligados à educação desde os tempos coloniais, os jesuítas podem ter dado uma contribuição fundamental para uma paixão brasileira: o futebol. Muitos antes de Charles Miller, o introdutor do futebol no Brasil na última década do século 19, há registros de que a bola já rolava em colégios jesuítas como recreação dos padres e alunos.

O padre César Augusto dos Santos conta que, algum tempo após os jesuítas retornarem ao Brasil, beneficiados pela queda da reforma pombalina, fundaram o Colégio São Luiz, em Itu, no interior de São Paulo, depois transferido para a capital paulista. "Foi nesse colégio, em Itu, onde se realizou pela primeira vez no Brasil uma partida de futebol, feita, evidentemente, entre alunos", afirma o padre César.

A versão é confirmada pelo historiador José Moraes dos Santos no livro Visão do Jogo - Primórdios do Futebol no Brasil. Ele relata que, por volta de 1873, o padre José Mantero, professor do São Luiz, teria apresentado a bola de futebol aos estudantes na hora do recreio.

Em Nova Friburgo (RJ), o esporte também deu seus primeiros passos nas mãos dos religiosos. "Os jesuítas italianos que ali se estabeleceram, em 1886, já conheciam o calcio, que é como os italianos chamam o futebol, que vem de uma forma de jogo por eles praticado desde a Idade Média", diz o historiador Elias Feitosa. "No entanto, não é possível afirmar que foi a partir daí que o futebol se disseminou no Brasil. Assim sendo, a versão mais aceita continua sendo a de que ele chegou com Charles Miller."

Aos jesuítas também é creditado a introdução do teatro no Brasil. "Para evangelizar e catequizar os indígenas, o padre José de Anchieta trouxe o teatro e escreveu as primeiras peças brasileiras", diz o jesuíta César Augusto dos Santos, postulador da causa de canonização de Anchieta, cujo processo está em análise no Vaticano.



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