segunda-feira, 11 de julho de 2016

O golpe chileno na vida de três vítimas de Pinochet

O golpe que derrubou o governo socialista de Salvador Allende completa 40 anos sem trazer respostas para a morte do poeta Pablo Neruda, do músico Víctor Jara e do general Carlos Prats
Texto Maurício Brum | 04/09/2013 16h40
As primeiras notícias de que algo grande acontecia vieram antes de o Sol nascer. Falava-se que a Marinha havia se insurgido em Valparaíso, mas que o Exército seguia leal ao presidente. A verdade é que o dia 11 de setembro de 1973 começou sem que se soubesse como tudo ia acabar - uma dúvida que não existia mais na hora do almoço. O levante era da totalidade das Forças Armadas, encabeçado pelo general Augusto Pinochet. Sua subida ao poder teve momentos violentos, com bombardeio ao palácio do governo e o suicídio do presidente do Chile Salvador Allende.

"Depois daquele dia, quando você saía na rua, encontrava um país diferente. As pessoas estavam silenciosas, sem saber em quem confiar, pois o amigo de ontem podia se revelar um espião", diz o poeta Jorge Montealegre. Ele tinha 18 anos quando Allende foi deposto. Duas semanas após o golpe, Montealegre tornou-se um dos milhares de chilenos enviados à prisão política. A repressão torturou mais de 40 mil pessoas, deixando um rastro de pelo menos 3 065 desaparecidos e mortos já reconhecidos pelas investigações realizadas desde os anos 90.


Da esquerda para a direita: o poeta Pablo Neruda, o músico Víctor Jara e o general Carlos Prats

Muitos pereceram em condições misteriosas. Alguns personagens mortos eram muito famosos: o poeta Pablo Neruda, o músico Víctor Jara e o general Carlos Prats. Cada um deles havia dado sua contribuição para Allende e os três morreram pouco tempo após o golpe. Não se sabe o que matou Neruda. Não se sabe quem matou Jara. Os familiares de Prats até conhecem o culpado, mas convivem com a impunidade dos responsáveis. Seus casos continuam a ser investigados - parte do triste fim de uma das democracias mais sólidas da América do Sul.

Oásis democrático

Desde 1932, o Chile realizava eleições sequenciais - contrastando com os instáveis vizinhos com seus caudilhos - e costumava atrair asilados a Santiago, incluindo brasileiros, como Fernando Henrique Cardoso. Em setembro de 1970, os chilenos testaram os limites de seu sistema eleitoral: em plena Guerra Fria, o médico e senador socialista Salvador Allende venceu o pleito com um programa que buscava uma transição inédita ao socialismo - sem pegar em armas e usando leis já existentes para fazer as reformas. Allende tornou-se o primeiro presidente marxista eleito no mundo, à frente da Unidade Popular (UP), coligação liderada pelos socialistas e comunistas. Temendo uma nova Cuba, os EUA não tardaram a agir. A alternativa mais rápida era dar suporte a um golpe. A UP tinha um cenário interno hostil. Numa briga de três candidatos, a vitória veio sem maioria absoluta, com 36,6% do eleitorado. Sem segundo turno, o resultado precisava ser confirmado pelo Legislativo. Às vésperas da reunião dos congressistas, um grupo radical de direita assassinou o comandante do Exército, general René Schneider, que havia prometido respeitar o resultado das urnas. O atentado não impediu a posse, mas sinalizou o que viria.

Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, perguntou: "Por que temos que ver um país virar marxista pela irresponsabilidade de seu povo?" Chu En-Lai, o primeiro-ministro chinês, alertou: "Cuidado, vocês estão indo muito rápido". As frases ajudam a entender o processo que levou à derrubada de Allende na metade do seu mandato de seis anos: por um lado, os boicotes estrangeiros; por outro, os passos grandes demais nas reformas econômicas.

A gestão da UP começou em novembro de 1970 e, antes de o ano acabar, já havia expropriado sua primeira fábrica. Depois, acelerou-se a reforma agrária. Nos dois casos foi usada a legislação existente, mas com um rigor nunca visto. Até Fidel Castro desembarcou no Chile, em sua primeira visita a outro país do continente após Cuba se declarar socialista. A maior vitória do governo veio em julho de 1971: mesmo dominado pela oposição, o Congresso aprovou por unanimidade a estatização das minas de cobre, até ali em mãos de empresas norte-americanas.

Logo as reformas saíram do controle. Sabendo que o governo não os reprimiria, camponeses sem-terra ocuparam fazendas que não se enquadravam na lei de reforma agrária, e operários fizeram o mesmo em fábricas cuja expropriação não se justificava legalmente. "Essa revolução vinda de baixo com frequência coincidia com, ou complementava, mas cada vez mais divergia da revolução legalista e modulada vinda de cima", escreveu o historiador norte-americano Peter Winn em A Revolução Chilena.

Além disso, não havia reservas suficientes para sustentar tantas estatizações. O problema se agravou quando os norte-americanos fizeram lobby para derrubar o valor do cobre e seus bancos cortaram o crédito ao Chile. O governo imprimiu mais dinheiro. Como se não bastasse, uma greve de caminhoneiros piorou a escassez de alimentos e a inflação. A partir de abril de 1973, os preços subiam, em média, mais de 1% ao dia.

A carestia pressionava mais o bolso da classe média. Nas periferias, o governo conseguia distribuir alimentos a preço tabelado. Sem a classe média, a UP perdeu apoio de um setor volátil e estratégico para se viabilizar politicamente. Até os partidos moderados de oposição fecharam os canais de diá-logo. Querendo insuflar os militares, grupos de ultradireita deram início a atentados terroristas. Estava pavimentado o caminho para o golpe.

No final de 1972, com o país já em crise, um episódio entrou para a história do Chile e reuniu três figuras marcantes. No Estádio Nacional, que na ditadura viraria campo de prisioneiros, Pablo Neruda foi recebido em triunfo em sua primeira aparição pública após ganhar o Nobel de Literatura. A organização do evento esteve a cargo de Víctor Jara. Quem discursou em nome do governo foi o general Carlos Prats. Neruda regressava ao Chile após dois anos como embaixador na França. Apesar de ser mais conhecido pela literatura, era um veterano na diplomacia e na política: em 1939, havia sido responsável direto por trazer a Santiago mais de 2 mil refugiados da Guerra Civil Espanhola. Na década seguinte, virou senador pelo Partido Comunista.

Esse passado mudou o perfil das arquibancadas naquela tarde de dezembro. Embora Neruda estivesse acima dos partidos, o público visto no estádio foi menor que o esperado. Na época, a discórdia aparecia até dentro da UP: Allende e os comunistas pediam calma e buscavam diálogo com a oposição, mas os socialistas defendiam a necessidade de acelerar o processo, mesmo se isso atropelasse as leis. Neruda fez uma leitura acurada do momento. Citando o caso espanhol, discursou sobre o horror de uma guerra civil, que temia para seu país. Enquanto falava, era observado atentamente por Prats, que pouco antes havia feito seu pronunciamento.

O general e o poeta

Allende não estava lá. O evento coincidiu com sua visita à ONU, onde denunciou os boicotes sofridos pelo Chile: "Somos vítimas de ações quase imperceptíveis, disfarçadas com frases e declarações que exaltam o respeito à soberania e à dignidade de nosso país. Mas nós conhecemos na própria carne a enorme distância que há entre essas declarações e a realidade".

Carlos Prats González assumira o comando do Exército após o atentado contra René Schneider. Assim como o antecessor, pregava a defesa do governo democrático: "As Forças Armadas não são uma opção ao poder enquanto existir um regime legal", afirmava. Prats tornou-se tão importante para repelir tendências golpistas que, durante a greve dos caminhoneiros de outubro de 1972, foi nomeado ministro do Interior - cargo, na prática, equivalente ao de vice-presidente.

O general cumpria essa função no final do ano, quando Allende viajou e Neruda voltou ao Chile. A presença de Prats tranquilizava os chilenos, em especial os da UP, mas no Estádio Nacional ainda houve lugar para o medo. Entre as apresentações previstas para a tarde estava a execução da 1812 Overture, composição de Tchaikovsky cuja partitura original inclui tiros de canhão. Nos camarins, os artistas que não conheciam esse detalhe se assustaram com os disparos. Anos depois, o bailarino Patricio Bunster afirmou: "Todos começaram a gritar e chorar. Acreditávamos que vinha o golpe".

O Músico

Os detalhes do evento ficaram a cargo de Víctor Jara. Filho de camponeses, havia se mudado para Santiago ainda menino e, na juventude, entrou na faculdade de teatro. Jara começou a tocar violão e cantar, atividade que ofuscou sua carreira como diretor: nos anos 60 já era um dos cantores mais famosos do Chile - e o mais polêmico. Comunista, esteve na comissão que criou o hino de campanha de Allende.

Em 11 de setembro de 1973, Jara estava na Universidade Técnica do Estado (UTE), onde trabalhava. Allende visitaria o campus naquela manhã e pretendia convocar um plebiscito para decidir se continuava ou não seu mandato. A notícia antecipou o levante militar - o golpe seria menos aceitável pela opinião pública depois do anúncio de Allende. Foi das janelas da UTE que Jara soube que não haveria plebiscito: viu os caças da Força Aérea dispararem mísseis contra o palácio de La Moneda, a sede do governo.

No fim de agosto, apenas 18 dias antes, Prats havia renunciado ao comando do Exército - seu sucessor foi Augusto Pinochet, cuja lealdade nunca havia sido questionada, embora já conspirasse em segredo. No dia 11, a Marinha se insurgiu antes das 6h da amanhã, e o mito de um Exército leal seguiu até perto das 9h, quando as rádios emitiram um comunicado exigindo a renúncia do presidente. Allende recusou-se a renunciar. Em seu último pronunciamento pelo rádio, declarou-se traído e pediu que os chilenos não arriscassem a vida tentando resistir ao golpe. Não querendo cair vivo nas mãos dos militares, suicidou-se após ordenar a rendição aos seus colegas na defesa do palácio. Com a cidade sitiada, a UTE permaneceu sob cerco do Exército, sem que ninguém pudesse sair. Na manhã seguinte, quem se encontrava no campus foi preso e levado a um ginásio próximo. Jara estava entre eles.

A morte de Jara virou lenda. Na versão mais conhecida, ele teria sido fuzilado enquanto cantava o hino da UP, no centro da quadra. O músico na verdade foi levado aos vestiários, longe dos outros prisioneiros, e não voltou vivo. Seu corpo apareceu na manhã de 16 de setembro, com 44 furos de bala. Não seria a única execução sumária da ditadura, mas o fato de acontecer contra um músico assustou a todos. "A quem ocorreria a ideia de matar um cantor? Isso só servia para demonstrar até onde a ditadura estava disposta a ir", diz Eduardo Carrasco, do Quilapayún, banda que tocou com Jara nos anos 60.

Mistérios

Até hoje, as investigações não conseguiram determinar quem deu a ordem de executar Jara. Só em dezembro de 2012, 40 anos depois, a Justiça exigiu a prisão preventiva de oito oficiais envolvidos no crime. Ninguém foi condenado e o inquérito segue aberto. Neruda morreu no dia 23, em um hospital de Santiago. A notícia da morte apareceu no jornal El Mercurio ao lado de uma foto de soldados queimando livros "subversivos". O relato oficial falava em complicações de um câncer na próstata. Há pouco tempo, voltou à tona a hipótese de envenenamento - segundo seu chofer, Manuel Araya, o poeta teria piorado após receber uma injeção. Em abril de 2013, seu corpo foi exumado. As conclusões ainda não foram apresentadas.

Prats morreu em setembro de 1974, num atentado a bomba em Buenos Aires, onde se exilou. A emboscada foi armada pelo ex-agente da CIA Michael Townley, que depois mataria, em Washington, o ex-ministro de Defesa de Allende, Orlando Letelier. Ficou menos de seis anos preso nos EUA. Por contribuir com as investigações, nunca foi extraditado à Argentina para ser julgado pela morte de Prats.

Os acontecimentos de 11 de setembro de 1973

02:30 - Allende encerra reunião com assessores, em que se discutiu seu pronunciamento do dia seguinte. Está marcado para a manhã do dia 11 o anúncio de um plebiscito pela continuidade de seu governo - fato que fez os militares apressarem o golpe, previsto só para o dia 14.

03:00 - Uma rádio universitária, ligada ao governo, é invadida e destruída por militares para não transmitir mensagens contrárias ao golpe na manhã seguinte.

05:30 - Raúl Montero, comandante da Marinha que apoiava o governo, é mantido em prisão domiciliar pelos golpistas. O almirante Toribio Merino se proclama novo chefe da Armada. Começa o levante em Valparaíso.

06:15 - Allende é acordado por um telefonema informando dos fatos. Tenta contato com os três comandantes das Forças Armadas, sem sucesso.

07:35 - O presidente chega ao palácio de La Moneda. Quase na mesma hora, Augusto Pinochet desembarca no quartel de telecomunicações do Exército, de onde coordenará as ações do golpe.

07:55 - Allende faz seu primeiro pronunciamento do dia, pela Rádio Corporación: "Até o momento, não houve nenhum movimento anormal de tropas em Santiago", diz, baseado nas informações que possui. O presidente ainda tem a esperança de que o levante esteja restrito à Marinha.

08:15 - No rádio, Allende manifesta confiança nos "soldados da Pátria". Acreditando na lealdade de Pinochet, comenta fora do ar sobre o general: "Pobre Augusto, deve estar preso".

08:30 - Rádios de oposição transmitem o comunicado da Junta Militar, assinado por Pinochet e outros comandantes, contra a "gravíssima crise econômica, social e moral que está destruindo o país".

08:45 - Allende fala pela terceira vez na Rádio Corporación. Já sabendo que o golpe é insuperável, afirma: "Só me crivando de balas poderão impedir a vontade que é fazer cumprir o programa do povo".

09:05 - Um avião é oferecido para tirar Allende do país. Ele recusa. Em 1985, vaza a gravação das conversas de Pinochet com os comandantes que sinaliza que a promessa podia ser uma armadilha: "Está mantida a oferta... e o avião cai durante o voo".

09:10 - Allende fala pela última vez ao povo do Chile. As torres da Rádio Corporación já haviam sido bombardeadas pela Força Aérea e o áudio vem pela Rádio Magallanes. Sua voz está tranquila, mas também tem tom de despedida. O presidente pede que seus correligionários não arrisquem a vida nas ruas e garante: "Não vou renunciar. Pagarei com a minha vida a lealdade do povo".

09:30 - Em novo telefonema para oferecer um avião a Allende, ouve-se a voz do almirante Patricio Carvajal: "Temos que matá-los como ratos. Que não sobre nenhum rastro deles, em especial de Allende".

10:00 - O palácio de La Moneda é cercado por tanques de guerra. Vem o ultimato: o palácio deve ser evacuado até às 11h ou sofrerá bombardeio.

10:10 - Allende reúne os colaboradores no Salão Toesca e pede que não haja sacrifícios inúteis: ordena a retirada das mulheres e dos homens que não saibam usar armas.

11:20 - Em outro ponto de Santiago, a residência presidencial é bombardeada. Lá estava a primeira-dama Hortensia Bussi, que consegue escapar.

11:30 - A Junta Militar decreta estado de sítio.

11:52 - Com quase uma hora de atraso, começa o bombardeio de La Moneda. São disparadas ao menos 79 bombas e 57 mil tiros de fuzil.

12:15 - O bombardeio é interrompido. Durante o ataque, o jornalista Augusto Olivares, diretor da televisão estatal, comete suicídio. É a primeira morte no palácio.

12:50 - Reunidos dentro do palácio, os defensores discutem o que fazer. Decide-se enviar três homens para negociar os termos da rendição.

13:30 - Allende ordena que os demais defensores do palácio saiam pela porta que dá na Rua Morandé. Diz que será o último da fila. Enquanto os outros deixam La Moneda, porém, o presidente se retira para o Salão da Independência. Ali, usando um AK-47 que havia recebido de presente do presidente cubano Fidel Castro, Allende se suicida.

Cerca de 14h - Os militares anunciam que tomaram o palácio. Dos 56 prisioneiros, 24 sofreriam execuções sumárias ou desapareceriam nos dias seguintes ao golpe militar.



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